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sexta-feira, 29 de março de 2013

CONTO REVELAÇÃO, DE EDSON GABRIEL GARCIA



 Revelação

Tinha tomado a decisão.
Foi assim que ele entrou na sala de aula naquele dia fatal. Durante seis meses — seis tormentosos meses — exercitara seu pensamento e sua emoção tentando imaginar, ou descobrir, qual a melhor maneira de se declarar a ela. Pensara em publicar uma mensagem cifrada no jornal da escola, mas desistira. Afinal, quem entenderia? Depois pensara em gastar um pouco de suas economias anunciando num grande jornal. Até foi a um desses balcões de anúncios, mas desistiu quando viu o tamanico da declaração que seu dinheiro poderia comprar. Indignou-se com a descoberta: não há grandes jornais espaço para os apaixonados pobres. Por telefone? Ela não tinha, estava sem. Também não se entusiasmou, pois achou que esse seria o jeito menos romântico possível. E ele queria um jeito romântico.
— Romântico, como um grande amor merece!
O amor era mesmo grande. E por isso ficara guardado durante meses e meses. Não tivera coragem de abrir o segredo com nenhum dos amigos. Imaginava a gozação, a brincadeira, a farra. Seria insuportável ficar na classe, assistir às aulas, se algum dele soubesse do seu tão bem guardado amor.
— Não é um amorzinho qualquer, não, desses que começam e acabam numa mesma festa, numa única noite.
Era para valer. Para demorar. Para sempre, talvez. Uma paixão que começava demorada e por partes. Primeiro fora pela voz dela. Macia como veludo novo. Gostava de ouvi-la falar e, quanto mais perto dele falava, mais se apaixonava. As palavras, os números e as ideias saíam como vindos do fundo do coração. Depois, os olhos. Não eram verdes nem azuis, como os das atrizes de tevê e manequins de revistas. Eram apenas pretos. Belamente pretos. Pareciam querer ver o mundo inteiro, de todo mundo, por seu par de olhos. Parecia descobrir telepaticamente em que as pessoas da classe pensavam. Uma vez que o desarmara, quando sugeriu, de repente, flagrando-o no mundo da lua: “pensando no seu grande amor?”. Ele se atrapalhara, sem resposta, ela permanecera inteira, dona da brincadeira, deliciando-se com o seu sem – jeito dele. Depois da voz e dos olhos, descobriu os cabelos. E sonhou com eles tantas e quantas vezes seu sono atribulado permitiu. Sonhava com os cabelos dela roçando de leve suas faces. Em seguida, veio o sorriso. Depois as mãos, os dedos finos e as unhas de esmalte escuro. Finalmente apaixonou-se pelo corpo todo, por ela inteira. E aí a coisa ficou brava. Enquanto eram os olhos, os cabelos, o sorriso, as mãos, dava para esconder, guardar num pedacinho de vida qualquer, numa página de caderno ou livro. Mas quando ela inteira tomou conta de seu coração novo, desacostumado a essas emoções mais fortes, ficou difícil de aguentar. E foi um tal de ficar de mal-humorado, de rejeitar conversas longas, de fugir de farras de grupo, de se atrapalhar com as aulas, notas e exercícios.
— É hoje ou nunca mais. No fim da aula ela vai saber do meu amor. Dê no que dê, ela vai saber.
Tinha, é verdade, um grande problema: a diferença de idade entre os dois. Ele era um molecão e ela uma mulher. Bem... as mulheres são assim, se desenvolvem e amadurecem mais depressa que seu grande, bonito e romântico amor fosse correspondido.
 — Isso não importa.
Tinha até procurado, e encontrado, algumas poesias de poetas famosos e não famosos que tratavam do assunto, amores descompassados de idade. E vivia dizendo que o amor não tem idade. Disse isso mesmo numa acalorada redação de Português em que narrou o amor de um jovem por uma mulher madura, texto terminado pelo clichê: “O amor não tem idade”. Estava cheia de erros de ortografia e pontuação. A professora, insensível, classificara o trabalho do apaixonado escritor de “razoável” e inundara-o de riscos, cruzes e sinais indecifráveis.
— Ela não entenderia. Só quem vive um grande amor assim poderia escrever esquecido das regras gramaticais.
E inventou outro clichê: “O amor não conhece regras gramaticais”.
Com essa ideia fixa, de declarar seu grande amor a ela, ensaiou várias formas de fazê-lo. Na frente da classe, a professora de Matemática mantinha o ritmo de sempre das aulas. O cálculo e o raciocínio, frios e seguros, dominavam a lousa, os cadernos, o ambiente. Respiravam números, cálculos, expressões. Pouco ligado nessa exercitação racional, porque decidido a se apresentar para a sua amada, ensaiando, rabiscando, errando e refazendo, consumiu meia dúzia de folhas de seu caderno. Até chegar à versão definitiva.
— Assim está bom!
E falou “assim está bom” de tal forma satisfeito que não conseguiu segurar o volume da voz e a fala saiu fora do tom silencioso em que seus colegas estavam sintonizados à caça de uma solução para a engenhosa expressão algébrica que a professora colocara na lousa.
Por isso, tão - somente por isso, foi antecipada a execução de seu plano.
Eliana, a professora de Matemática da sua turma, aproximou-se com seus belos olhos pretos, seus cabelos sonhados, suas mãos, seu sorriso, seu corpo inteiro, toda mulher, e pediu:
— Posso ver o que é isso, Bernardo?
Era agora ou nunca. Bernardo sentiu o coração ameaçar meter-se boca afora, desrespeitando todos os cálculos biológicos possíveis. Ele pegou o pedaço de papel onde registrara para ela, Eliana, sua paixão enorme, dobrou cuidadosamente e entregou-lhe sua emoção maior.
A professora abriu matematicamente mecânica o pedaço de papel e começou a ler. Um som estridente de campainha anunciou o final das aulas do dia. Os alunos foram levantando-se barulhentamente deixando a sala vazia, a professora e o aluno apaixonado.
A revelação estava feita. Restava agora esperar a reação da professora.
— Não se esqueça de fazer a tarefa de amanhã, Bernardo — ela disse, depois dirigiu-se à mesa, apanhou seu material e saiu. Levou a revelação consigo.
Bernardo teve a impressão de que os olhos dela estavam mais belos do que antes e a voz mais suave. Pareceu-lhe ter ouvido o coração dela batendo mais acelerado.
Guardou a impressão e a ansiedade. Nas muitas aulas seguintes teria tempo e vez de sobra para certificar-se disso.

GARCIA, Edson Gabriel. Contos de amor. 4. Ed. São Paulo: Atual, 1991. p. 63-67.



CONSTRUINDO O SENTIDO DO CONTO

1.  O garoto não tinha coragem de contar quem era o seu amor aos colegas de classe e não revelou esse segredo a eles por quê? Retire do texto uma passagem que comprove sua resposta.

2.  O que levou o garoto a se apaixonar pela professora?

3.   Retire do texto o trecho que confirma a ideia de que o garoto, há tempos, vinha sendo dominado por esse forte sentimento com relação à professora.


4.  Retire do texto uma frase que comprove que esse sentimento era uma experiência nova para o jovem.

5.   De acordo com o texto, a professora de português considerou sua redação razoável. Que atitude teve o garoto para justificar os erros de ortografia e pontuação na sua redação que ele achara que a professora não entendera?

6.  Explique por que o personagem se sentiu tão ofendido com a correção feita pela professora de Português. Como você se sentiria no lugar dele?

7.  Qual o sentido da expressão “O amor não tem idade” nesse texto?

8.  Identifique o foco narrativo e explique o uso dos diversos travessões.

9.  Apesar de o narrador dar uma série de referências a respeito da amada do rapaz, somente no final do texto é que descobrimos tratar-se da sua professora de Matemática. Transcreva o trecho em que essa revelação se dá para o leitor.

10.      Cite três momentos anteriores da narrativa em que teria sido possível perceber quem era a sua amada.

11.      A maneira encontrada pelo apaixonado para revelar o seu amor correspondeu às suas expectativas românticas? Por quê?

12.      “A professora abriu matematicamente mecânica o pedaço de papel e começou a ler.” Por esse trecho, como você compreendeu a atitude da professora? Como você compreendeu a atitude da professora? O que isso revela?

13.      Na sua opinião, por que ela teria feito aquele comentário a respeito da tarefa do dia  seguinte?
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