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domingo, 13 de janeiro de 2013

COMEMORAÇÃO DOS CEM ANOS DE NASCIMENTO DE VINICIUS DE MORAES

VINICIUS DE MORAES




 Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, ou Vinicius de Moraes, (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913; Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.
Poeta essencialmente lírico, o “poetinha” (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos, forma poética que se tornou quase associada ao seu nome. Conhecido por também ser boêmio inveterado, fumante e apreciador do uísque, Vinicius também era conhecido por ser um grande conquistador. O poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida.
Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical, o poetinha teve como principais parceiros Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Carlos Lyra.
         O início de sua carreira está ligado à corrente espiritualista. No entanto, o eixo de sua obra logo se desloca para um sensualismo erótico, o que vem acentuar uma contradição entre o prazer da carne e a formação religiosa; destaque também para a valorização do momento, para um acentuado imediatismo – as coisas acontecem “de repente, não mais que de repente” -, ao mesmo tempo em que se busca algo mais perene. Desse quadro talvez resulte outra constante em sua poética: a felicidade e a infelicidade. Em várias oportunidades valoriza a alegria:

É melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

(“Samba da bênção”)


Em outras ocasiões, no entanto, o poeta associa a inspiração poética à tristeza:

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão triste!
(“A um passarinho”)


Em outros momentos, busca provar que “tristeza não tem fim; felicidade sim”, e que isso independe da nossa vontade:


A FELICIDADE

Tristeza não tem fim
         Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
         Brilha tranquila
         Depois de leve oscila
         E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
         A gente trabalha o ano inteiro
        Por um momento de sonho
        Pra fazer a fantasia
        De rei ou de pirata ou jardineira
        Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
        Que o vento vai levando pelo ar
        Voa tão leve
        Mas tem a vida breve
        Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
        Nos olhos da minha namorada
        É como esta noite, passando, passando
        Em busca da madrugada
        Falem baixo, por favor
        Pra que ela acorde alegre com o dia
        Oferecendo beijos de amor


Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples


É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...


(MORAES, Vinicius de. In: Obra poética. Rio de Janeiro, Aguiar, 1968. p. 587.)


A temática social também aparece em poemas de Vinicius, os quais lograram obter o mesmo grau de popularidade que suas composições voltadas para o amor, como é o caso de “Operário em construção”. Também é necessário salientar a importante participação de Vinicius na evolução da música popular brasileira a partir da bossa-nova, em fins dos anos 50.
A relação amorosa, com suas e sombras, seus encantamentos e desilusões, transformou-se num dos mais constantes temas do poeta. Sua obra, com a de Cecília Meireles, representa a dimensão mais puramente lírica, no sentido original da palavra, da produção poética de sua geração.
Seus sonetos lírico-amorosos, como o “Soneto de separação”e o “Soneto de fidelidade”, que vamos ler, dialogam com uma das mais importantes tradições da poesia lírica em língua portuguesa: a tradição clássica de Luís Vaz de Camões, poeta português do século XVI, que escreveu sonetos decassílabos de dimensão filosófica, tomando como tema simultaneamente o amor físico e o amor espiritual, a universalidade da experiência amorosa e suas significações para a condição humana.
Ao mesmo tempo, a poesia de Vinicius de Moraes é emotiva, sentimental, delicada, sensorial, “erótica”(atravessada pelo sopro de Eros, o deus da mitologia grega que representa a força da paixão, do desejo, do amor)e, sobretudo, musical.
O poeta foi, sem dúvida, um trovador moderno: resgatou a secular relação entre música e poesia, compondo e cantando suas criações, sempre em parceria com outras grandes vozes da Música Popular Brasileira. Ocupa, assim, lugar de destaque não só na literatura, mas na MPB, onde brilha ao lado de poetas-cantores como Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil etc.
De suas obras, destacamos: O caminho para a distância; Ariana; a mulher; Novos poemas; Poemas, sonetos e baladas; O mergulhador; A arca de Noé (poemas infantis).


Ø  LEITURA

POEMAS




















EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

(Tom Jobim e Vinicius de Moraes)



SONETO DE FIDELIDADE


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angustia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Moraes. Estoril, outubro de 1939)


SONETO DO AMOR TOTAL


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito amiúde
E que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais que pude.

(Moraes, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das letras, 1992, p. 232.)



SONETO DO MAIOR AMOR


Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais de eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel a sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

(Vinicius de Moraes. Oxford, 1938.)



SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
        Silencioso e branco como a bruma
        E das bocas unidas fez-se a espuma
        E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
        Que dos olhos desfez a última chama
        E da paixão fez-se o pressentimento
        E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
        Fez-se de triste o que se fez amante
        E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
        Fez-se da vida uma aventura errante
        De repente, não mais que de repente.

(MORAES, Vinicius de op. Cit., p. 300-1.) 


SONETO DE CONTRIÇÃO

Eu te amo, Maria, te amo tanto
Que o meu peito dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

(Vinicius de Moraes. Rio de janeiro, 1938.)


SONETO DA HORA FINAL


Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: - Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


(Vinicius de Moraes. Montevidéu, julho de 1960.)



A ROSA DE HIROXIMA


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

(MORAES, Vinicius de. Op. Cit., p. 350)



SONETO DE ANIVERSÁRIO


Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.


Faça-se a carne mais envelhecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que louvar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.


E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

(Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro, 1942.)



O VERBO NO INFINITO


Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz a ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofre, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
                    
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

(Vinicius de Moraes. Rio de janeiro, 1960.)





Sarau: é toda aquela reunião festiva entre amigos. Ouve-se música, assiste-se filme, filosofa, lê-se trechos de livros, faz-se poesia! Sarau é onde a gente reúne os amigos ligados à arte e cultura. Onde a gente soma conhecimentos e delícias, onde a gente descobre junto e vivencia!



Ø  Canções




Aquarela

Vinicius de Moraes , Toquinho , Guido Morra , Maurizio Fabrizio


Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo 
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco
navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

Tonga Editora Musical LTDA


A CASA

Era uma casa
Muito engraçada
        Não tinha teto
        Não tinha nada
        Ninguém podia
        Entrar nela não
        Porque na casa
        Não tinha chão
        Ninguém podia
        Dormir na rede
        Porque a casa
        Não tinha parede
        Ninguém podia
        Fazer pipi
        Porque penico
        Não tinha ali
        Mas era feita
        Com muito esmero
        Na Rua dos Bobos
        Número Zero.


Eu não existo sem você

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Editora Musical Arapuã


Eu sei que vou te amar

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha
vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Editora Musical Arapuã


 Garota de Ipanema

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Olha que coisa mais linda 
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar

Moça do
corpo dourado
Do sol de lpanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Tonga Editora Musical LTDA
Jobim Music


Se todos fossem iguais a você

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor
Abre teus braços e canta a última
esperança
A esperança divina de amar em paz

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol, como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer

Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você

Ed. VM Empreendimentos
Jobim Music


Pela luz dos olhos teus

Vinicius de Moraes

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar

Tonga Editora Musical LTDA


Onde anda você

Vinicius de Moraes , Hermano Silva


E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam os seus olhos
Que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou morto
De tanto prazer

E por falar em beleza
Onde anda a canção
Que se ouvia na noite
Dos bares de então
Onde a gente ficava
Onde a gente se amava
Em total solidão

Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares
Onde anda você

Tonga Editora Musical LTDA



VINICIUS DE MORAES





ATIVIDADES:

ESTUDO DO TEXTO



SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


(Vinícius de Morais. Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. p. 269.)


canto: poesia.
louvor: elogio, exaltação.
pranto: choro.
pesar: tristeza, desgosto.
vão: insignificante, banal.
zelo: dedicação, cuidado.

Procure no dicionário outras palavras que você desconheça.


COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

1. A 1ª estrofe pode apresentar algumas dificuldades de compreensão. A fim de compreendê-la melhor, faça o que é pedido.

a) Ponha na ordem direta este trecho: “De tudo ao meu amor serei atento / antes”.
b) Explique o sentido da expressão ser atento (1º verso).
c) Indique a que se refere a expressão maior encanto (3º verso)?
d) Responda: Para o eu lírico, a fidelidade supõe exclusividade ou não?



2. Na 2ª estrofe, o eu lírico afirma que vai dedicar-se à pessoa amada nos mais diferentes momentos da vida.
a) Quais são esses momentos?
b) Segundo o texto, o amor e a fidelidade terão de passar por situações contraditórias, como sugere o verso “Ao seu pesar ou seu contentamento”. Que figura de linguagem se verifica nessa oposição de situações?



3. O poema pode ser visto como organizado em duas partes: a primeira, formada pelas duas quadras (estrofes de quatro versos); a segunda, pelos dois tercetos (estrofes de três versos). Observe as formas verbais presentes nessas partes:

1ª parte: “serei”, “quero viver”, “hei de espalhar”
2ª parte: “procure”, “possa”, “seja”, “dure”

a) Em que modo estão as formas verbais de cada uma das partes?
b) As formas verbais das duas partes expressam fatos que ainda virão a ocorrer. Em qual delas, porém, há a certeza de que esses fatos ocorrerão?
c) Em qual das partes as formas verbais dizem respeito a um plano hipotético, imaginário, possível?
d) Que expressão do texto confirma sua resposta anterior?


4. Na 3ª estrofe, dois versos apresentam paralelismo sintático, isto é, construção sintática semelhante.

Veja:
“Quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama”

Observe, agora, uma esquematização desses versos:
morte = angústia de quem vive
solidão = fim de quem ama

a) Qual é a função sintática das palavras angústia e fim?
b) Interprete esses dois versos: Por que, de acordo com o texto, a morte é a angústia de quem vive, e a solidão é o fim de quem ama?
c) Observe, na vertical, as relações do esquema. Levando-se em conta as ideias gerais do texto, por que se pode dizer que morte está para solidão, assim como angústia está para fim?


ü  Leitura

O “pra sempre”
sempre acaba?

O tema do amor eterno também foi abordado na música popular. A visão pessimista de Renato Russo sobre ele é demonstrada nestes versos:

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o pra sempre sempre acaba.

(Legião Urbana)



5. No plano hipotético, o eu lírico diz que “mais tarde”, quando estiver à beira da morte ou só, poderá dizer algo a si próprio sobre o amor. Observe que, no 1º verso da 4ª estrofe, o autor coloca entre parênteses a oração adjetiva que tive.

ü  Leitura

Antítese _ paradoxo

Qual é a diferença? A antítese aproxima, ao longo do texto, ideias opostas, mas sem criar entre elas uma unidade, como no caso de riso e pranto (2ª estrofe), uma vez que em determinado momento se ri, em outro se chora. Já o paradoxo expressa a convivência dos opostos, que formam uma unidade, como nestes versos de Camões, musicados pelo grupo Legião Urbana:

[Amor] é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer.

a) Se não houvesse essa oração acompanhando a palavra amor, o eu lírico estaria se referindo ao amor em geral (enquanto ideia) ou às suas experiências amorosas particulares?

b) E se essa oração não estivesse entre parênteses, a que tipo de amor o eu lírico estaria se referindo?
c) Dê uma interpretação coerente: A que tipo de amor se refere o eu lírico, considerando-se a forma como está escrito o verso?


6. Você já aprendeu que metáfora é a substituição de um termo por outro com base em uma comparação implícita, como ocorre neste verso de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver”.

No penúltimo verso do poema, o amor é conceituado por meio de uma metáfora.

a) Identifique-a.
b) Explique o sentido dela no contexto do poema.



7. O autor encerra o texto empregando um paradoxo, figura de linguagem que consiste na convivência de dois elementos opostos, que à primeira vista se excluem.

a) Identifique o paradoxo existente na última estrofe.
b) Explique o sentido dele no contexto do poema.



8. O poema se intitula “Soneto de fidelidade”. Qual ou quais dos itens seguintes traduzem melhor o conceito de fidelidade e de amor no texto?

a) Fidelidade é entrega total à pessoa amada e renúncia a outras possibilidades amorosas.
b) Fidelidade é uma exclusividade amorosa que deve durar para sempre.
c) O amor não é eterno, mas, enquanto dura, deve-se ser fiel a ele de forma intensa e qualitativamente infinita.
d) Só há fidelidade no amor quando ele é infinitamente duradouro, embora ele possa um dia acabar.


Ø  
A LINGUAGEM DO TEXTO

1. Na 1ª estrofe, o eu lírico faz uma jura de fidelidade. Para expressar sua dedicação a esse amor, emprega uma figura de linguagem, o polissíndeto, que consiste na repetição de uma conjunção.

a) Identifique o verso em que foi empregado o polissíndeto.
b) Que efeito de sentido o polissíndeto provoca no texto?


2. O “Soneto de fidelidade” é um dos mais populares poemas de nossa literatura. Uma das razões desse sucesso é a riqueza de imagens e de sons que ele apresenta. Além da metáfora, da antítese, do paradoxo e do polissíndeto, o autor emprega outras figuras de linguagem. Por exemplo, nos versos da 1ª estrofe, há uma constante repetição do fonema /t/: tudo, atento, Antes, tanto, encanto, encante, pensamento. Esse recurso é chamado de aliteração.

Indique outras situações do texto em que esse mesmo recurso tenha sido empregado.


3. No verso “E rir meu riso e derramar meu pranto”, a expressão rir meu riso constitui outra figura de linguagem.

a) Qual é ela e que efeito de sentido proporciona ao texto?
b) Que modificação deveria ser feita na expressão derramar meu pranto para que ela também constituísse a mesma figura?


Ø 
LEITURA EXPRESSIVA DO TEXTO

Nas duas opções de leitura indicadas a seguir, o poema deve ser lido lentamente, de modo a valorizar cada palavra e cada imagem. A leitura pode ser feita com um fundo musical, se possível de violão, e ao vivo. Expressões como rir meu riso e derramar meu pranto devem ser lidas de forma enfática, explorando a força das figuras de linguagem.  A expressão infinito enquanto dure (último verso) deve ser lida de forma pausada e enfática, destacando uma das ideias essenciais do texto.

1ª opção: Um aluno lê ou declama o poema.
2ª opção: Dois ou quatro alunos se revezam na declamação, de modo que cada um leia pelo menos uma estrofe.


Ø  Trocando ideias

1. O poema expressa um conceito de fidelidade amorosa.

a) Na sua opinião, é possível existir amor verdadeiro quando há infidelidade?
b) Como você lidaria com a infidelidade?


2. Você acha que o ciúme é natural e necessário no amor? O ciúme pode destruir um relacionamento amoroso?


3. Tanto na opinião de Vinícius de Morais quanto na de Renato Russo, o amor é chama, o “pra sempre sempre acaba”.
a) Você concorda com essa opinião ou defende um amor eterno?
b) O que você acha da ideia de Vinícius de que o amor deve ser infinito em intensidade?


4. Na sua opinião, qual é a fórmula de um relacionamento duradouro?


LEIA:


SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
        Silencioso e branco como a bruma
        E das bocas unidas fez-se a espuma
        E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
        Que dos olhos desfez a última chama
        E da paixão fez-se o pressentimento
        E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
        Fez-se de triste o que se fez amante
        E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
        Fez-se da vida uma aventura errante
        De repente, não mais que de repente.


(MORAES, Vinicius de op. Cit., p. 300-1.)



Compreendendo o sentido do texto “Soneto da separação”

1) Explique com suas palavras, em seu caderno, do que fala o soneto de Vinícius de Moraes.
2) Observando sua forma, responda: quantos versos têm o poema?
3) Quantas estrofes têm o poema? De quantos versos elas são compostas?
4) Há rimas no soneto? Anote as palavras que rimam em seu caderno.
5) Na sua opinião, quais são as imagens marcantes do poema?



Recados




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