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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

CRÔNICAS DE HUMOR SOBRE TELEVISÃO

1.     TELEVISÃO PARA DOIS

Ao chegar ele via uma luz que se coava por baixo da porta para o corredor às escuras. Era enfiar a chave na fechadura e a luz se apagava. Na sala, punha a mão na televisão, só para se certificar: quente, como desconfiava. Às vezes ainda pressentia movimento na cozinha:

         - Etelvina, é você?

         A preta aparecia, esfregando os olhos:

         - Ouvi o senhor chegar... Quer um cafezinho?

         Um dia ele abriu o jogo:

         - Se você quiser ver televisão quando eu não estou em casa, pode ver à vontade.

         - Não precisa não, doutor. Não gosto de televisão.

         - E eu muito menos.

         Solteirão, morando sozinho, pouco parava em casa. A pobre da cozinheira metida lá no seu quarto o dia interiro, sozinha também, sem ter muito que fazer...

         Mas a verdade é que ele curtia o seu futebolzinho aos domingos, o noticiário todas as noites e mesmo um ou outro capítulo da novela, “só para fazer sono”, como costumava dizer:

         - Tenho horror de televisão.

         Um dia Etelvina acabou concordando:

         - Já que o senhor não se incomoda...

         Não sabia que ia se arrepender tão cedo: ao chegar da rua, a luz azulada sob a porta já não se apagava quando introduzia a chave na fechadura. A princípio ela ainda se erguia da ponta do sofá onde ousava se sentar muito erecta:

         - Quer que eu desligue, doutor?

         Com o tempo, ela foi deixando de se incomodar quando o patrão entrava, mal percebia a sua chegada. E ele ia se refugiar no quarto, a que se reduzira seu espaço útil dentro de casa. Se precisava vir até a sala para apanhar um livro, mal ousava acender a luz:

         - Com licença...

         Nem ao menos tinha mais liberdade de circular pelo apartamento em trajes menores, que era o que lhe restava de comodidade, na solidão em que vivia: a cozinheira lá na sala a noite toda, olhos pregados na televisão. Pouco a pouco ela se punha cada vez mais à vontade, já derreada no sofá, e se dando mesmo ao direito de só servir o jantar depois da novela das oito. Às vezes ele vinha para casa mais cedo, especialmente para ver determinado programa que lhe haviam recomendado, ficava sem jeito de estar ali olhando ao lado dela, sentados os dois como amiguinhos. Muito menos ousaria perturbá-la, mudando o canal, se o que lhe interessava estivesse sendo mostrado em outra estação.

         A solução do problema lhe surgiu um dia, quando alguém, muito espantado que ele não tivesse televisão em cores, sugeriu-lhe que comprasse uma.

         - Etelvina, pode levar essa televisão lá para o seu quarto, que hoje vai chegar outra para mim.

         - Não precisava, doutor – disse ela, mostrando os dentes, toda feliz.

         Ele passou a ver tranquilamente o que quisesse na sua sala, em cores e, o que era melhor, de cuecas – quando não inteiramente nu, se bem o desejasse.

         Até que uma noite teve a surpresa de ver luz por debaixo da porta, ao chegar. Nem bem entrara e já não havia ninguém na sala, como antes – a televisão ainda quente. Foi à cozinha a pretexto de beber um copo d´água, esticou um olho lá para o quarto na área: a luz azulada, a preta entretida com a televisão certamente recém-ligada.

         - Não pensa que me engana, minha velha – resmungou ele.

         Aquilo se repetiu algumas vezes, antes que ele resolvesse acabar com o abuso: afinal, ela já tinha a dela, que diabo. Entrou uma noite de supetão e flagrou a cozinheira às gargalhadas com um programa humorístico.

         -Qual é, Etelvina? A sua quebrou?

         Ela não teve jeito senão confessar, com um sorriso encabulado:

         - Colorido é tão mais bonito...

         Desde então a dúvida se instalou no seu espírito: não sabe se despede a empregada, se lhe confia o novo aparelho e traz de volta para a sala o antigo, se deixa que ela assista a seu lado aos programas em cores.

         O que significa praticamente casar-se com ela, pois, segundo a mais nova concepção de casamento, a verdadeira felicidade conjugal consiste em ver televisão a dois.

Fernando Sabino. In Para gostar de ler, vol.13. São Paulo, Ática, 1994.

CONSTRUINDO O SENTIDO DO TEXTO

1. Escreva os elementos da narrativa relacionados a:

Personagens:
Espaço:
Tempo:
Narrador:

2. Qual é o maior desejo do dono do apartamento?

3. Qual o conflito da narrativa?

4. Responda:

a) Qual foi a solução encontrada pelo personagem para resolver o problema e ficar à vontade para ver os programas que quisesse na televisão?

b)     O problema foi resolvido ou não? Por quê?

5.      Quando a história atinge seu clímax?
6.      Qual foi a dúvida que a personagem passou a ter?
7.      Leia, divirta-se e aborde seu ponto de vista a respeito desta tirinha.





8. Relacione a charge a seus conhecimentos prévios de atualidades.


9. Preencha o balão com uma frase imperativa e produza um pequeno texto a respeito desta imagem.

2. ESTRAGOU A TELEVISÃO!!!

— Iiiih...
— E agora?
— Vamos ter que conversar.
— Vamos ter que o quê?
— Conversar. É quando um fala com o outro.
— Fala o quê?
— Qualquer coisa. Bobagem.
— Perder tempo com bobagem?
— E a televisão, o que é?
 — Sim, mas aí é a bobagem dos outros. A gente só assiste. Um falar com o outro, assim, ao vivo... Sei não...
— Vamos ter que improvisar nossa própria bobagem.
— Então começa você.
— Gostei do seu cabelo assim.
— Ele está assim há meses, Eduardo. Você é que não tinha...
— Geraldo.
— Hein?
— Geraldo. Meu nome não é Eduardo, é Geraldo.
— Desde quando?
— Desde o batismo.
— Espera um pouquinho. O homem com quem eu casei se chamava Eduardo.
— Eu me chamo Geraldo, Maria Ester.
— Geraldo Maria Ester?!
— Não, só Geraldo. Maria Ester é o seu nome.
— Não é não.
— Como, não é não?
— Meu nome é Valdusa.
— Você enlouqueceu, Maria Ester?
— Pelo amor de Deus, Eduardo...
— Geraldo.
— Pelo amor de Deus, meu nome sempre foi Valdusa. Dusinha, você não se lembra?
— Eu nunca conheci nenhuma Valdusa. Como é que eu posso estar casado com uma mulher que eu nunca... Espera. Valdusa. Não era a mulher do, do... Um de bigode...
— Eduardo.
— Eduardo!
— Exatamente. Eduardo. Você.
— Meu nome é Geraldo, Maria Ester.
— Valdusa. E, pensando bem, que fim levou o seu bigode?
— Eu nunca usei bigode!
— Você é que está querendo me enlouquecer, Eduardo.
— Calma. Vamos com calma.
— Se isso for alguma brincadeira sua...
— Um de nós está maluco. Isso é certo.
— Vamos recapitular. Quando foi que casamos?
— Foi no dia, no dia...
— Arrá! Tá aí. Você sempre esqueceu o dia do nosso casamento... Prova de que você é o Eduardo e a maluca não sou eu.
— E o bigode? Como é que você explica o bigode?
— Fácil. Você raspou.
— Eu nunca tive bigode, Maria Ester!
— Valdusa!
— Tá bom. Calma. Vamos tentar ser racionais. Digamos que o seu nome seja mesmo Valdusa. Você conhece alguma Maria Ester?
— Deixa eu pensar. Maria Ester... Nós não tivemos uma vizinha chamada Maria Ester?
— A única vizinha de que eu me lembro é a tal de Valdusa.
— Maria Ester. Claro. Agora me lembrei. E o nome do marido dela era... Jesus!
— O marido se chamava Jesus?
— Não. O marido se chamava Geraldo.
— Geraldo...
— É.
— Era eu. Ainda sou eu.
— Parece...
— Como foi que isso aconteceu?
— As casas geminadas, lembra?
— A rotina de todos os dias...
— Marido chega em casa cansado, marido e mulher mal se olham...
— Um dia marido cansado erra de porta, mulher nem nota...
— Há quanto tempo vocês se mudaram daqui?
— Nós nunca nos mudamos. Você e o Eduardo é que se mudaram.
— Eu e o Eduardo, não. A Maria Ester e o Eduardo.
— É mesmo...
— Será que eles já se deram conta?
— Só se a televisão deles também quebrou.

(Luís Fernando Veríssimo)

ESTUDO DO TEXTO

1.      Lendo o texto, podemos perceber que os personagens apenas assistem à televisão. Retire do texto um trecho para confirmar essa afirmação.

2.      Que trecho nos mostra que eles não se percebem há muito tempo devido à televisão?

3.      Qual é o grande motivo que faz com que as pessoas já nem se percebem mais direito?

4.      Qual foi o motivo que levou eles a conversar e perceber que haviam trocado de casal?

5.      O que é a televisão para você? Comente sua resposta.

6.      Esse texto está relacionado com o cotidiano das pessoas? Por quê?

7.      Conte como a televisão é utilizada em sua casa, ou seja, que tipo de programas assiste?
8.      A televisão é algo que jamais pode sair de casa ou é algo supérfluo?

3. A BOLA

O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.
O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse "Legal!". Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
- Como é que liga? - perguntou.
- Como, como é que liga? Não se liga.
O garoto procurou dentro do papel de embrulho. - Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
- Não precisa manual de instrução.
- O que é que ela faz?
- Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.
- O quê?
- Controla, chuta...
- Ah, então é uma bola.
- Claro que é uma bola.
- Uma bola, bola. Uma bola mesmo.
- Você pensou que fosse o quê?
- Nada, não.
O garoto agradeceu, disse "Legal" de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Ball, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de hlip ele­trônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Esta­va ganhando da máquina.
O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conse­guiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
- Filho, olha.
O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mental­mente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.
Luis Fernando Veríssimo. Comédias para se ler a escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.p.41-42.

COMPREENDENDO DO TEXTO


1.     Qual o acontecimento relatado nesse texto?

2.     Destaque do texto o trecho que expressa os sentimentos do pai.


3.      Responda.

O que o pai esperava ao dar a bola de presente ao filho?

O que o filho esperava em relação à bola que o pai lhe deu?


4.      Complete este diálogo, que mostra as diferentes expectativas de pai e filho.

Filho: Ah, então é uma bola.

Pai:

Filho:

Pai: Você pensou que fosse o quê?

Filho:

5.      Complete o quadro.

Habilidades do pai
Habilidades do filho

6.      Leia e responda.


“Uma número 5 sem tento oficial de couro.”


Qual é o significado da palavra tento nessa frase?

Atenção, cuidado.           

Ponto marcado no jogo.

Tira de couro.


“Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho.”

O que significa velho nessa frase?
Homem idoso.

Pai.

Gasto, usado.


7.      Reescreva as frases.

Troque as palavras destacadas por sinônimos que se encontram no texto.

Faças adaptações necessárias.


O filho manipulava bem os controles do videogame.

Os dois times brigavam pela posse da bola.

Os parceiros se cumprimentavam um ao outro.


8.    Escreva uma frase para cada um destes significados da palavra embaixada.


a.      Embaixada. Residência ou local de trabalho de um embaixador.


b.      Embaixada. Chute curto que se dá na bola sem que ela e o pé toquem o chão.


9.      Leia.

A linguagem informal é aquela usada no cotidiano, nas conversas entre amigos, nos bate-papos, sem preocupação de seguir as construções formais.


Pinte as duas expressões bastante informais que aparecem no trecho abaixo.

“O garoto, desembrulhou a bola e disse ‘Legal’. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho.”


Conte

10.  Observe a ilustração.


Imagine um acontecimento do dia a dia desses dois amigos e conte a um colega uma história curta a respeito desse acontecimento.


Escreva uma crônica para ser exposta em sala de aula.

Recorde algum acontecimento do seu dia a dia, vivido ou presenciado por você, e escreva uma crônica sobre ele.

Decida se será narrador-personagem ou narrador-observador. (Lembre-se de que um narrador-personagem não sabe tudo o que as personagens pensam ou sentem. Já o narrador-observador, sabe tudo e pode discorrer sobre os sentimentos e pensamentos das personagens).

Você poderá usar tanto a linguagem formal quanto a linguagem informal.

Se colocar diálogos, marque-os com parágrafo e travessão.

Lembre-se de dar um título à sua crônica.

4.   HORA DE DORMIR


— Por que não posso ficar vendo televisão?
— Porque você tem de dormir.
— Por quê?
— Porque está na hora, ora essa.
— Hora essa?
— Além do mais, isso não é programa para menino.
— Por quê?
— Porque é assunto de gente grande, que você não entende.
— Estou entendendo tudo.
— Mas não serve para você. É impróprio.
— Vai ter mulher pelada?
— Que bobagem é essa? Ande, vá dormir que você tem colégio amanhã cedo.
— Todo dia eu tenho.
— Está bem, todo dia você tem. Agora desligue isso e vá dormir.
— Espera um pouquinho.
— Não espero não.
— Você vai ficar aí vendo e eu não vou.
— Fico vendo não, pode desligar. Tenho horror de televisão. Vamos, obedeça a seu pai.
— Os outros meninos todos dormem tarde, só eu que durmo cedo.
— Não tenho nada ver com os outros meninos: tenho que ver com meu filho. Já para a cama.
— Também eu vou para a cama e não durmo, pronto. Fico acordado a noite toda.
— Não comece com coisa não, que eu perco a paciência.
— Pode perder.
— Deixe de ser malcriado.
— Você mesmo que me criou.
— O quê? Isso é maneira de falar com seu pai?
— Falo como quiser, pronto.
— Não fique respondendo não: cale essa boca.
— Não calo. A boca é minha.
— Olha que eu ponho de castigo.
— Pode pôr.
— Venha cá! Se der mais um pio, vai levar umas palmadas.
 ...
— Quem é que anda ensinando esses modos? Você está ficando é muito insolente.
— Ficando o quê?

— Atrevido, malcriado. Eu com sua idade já sabia obedecer. Quando é que eu teria coragem de responder a meu pai como você faz. Ele me descia o braço, não tinha conversa. Eu porque sou muito mole, você fica abusando... Quando ele falava está na hora de dormir, estava na hora de dormir.

— Naquele tempo não tinha televisão.
— Mas tinha outras coisas.
— Que outras coisas?
— Ora, deixe de conversa. Vamos desligar esse negócio. Pronto, acabou-se. Agora é tratar de dormir.
— Chato.
— Tome, para você aprender. E amanhã fica de castigo, está ouvindo? Para aprender a ter respeito a seu pai.
—...
— E não adianta ficar aí chorando feito bobo. Venha cá.
— Amanhã eu não vou ao colégio.
— Vai sim senhor. E não adianta ficar fazendo essa carinha, não pense que me comove. Anda, venha cá.
— Você me bateu...
— Bati porque você mereceu. Já acabou, pare de chorar. Foi de leve, não doeu nem nada. Peça perdão a seu pai e vá dormir.
—...
— Por que você é assim, meu filho? Só para me aborrecer. Sou tão bom para você, você não reconhece. Faço tudo que você me pede, os maiores sacrifícios. Todo dia trago para você uma coisa da rua. Trabalho o dia todo por sua causa mesmo, e quando chego em casa para descansar um pouco, você vem com essas coisas. Então é assim que se faz?
—...
— Então você não tem pena do seu pai? Vamos! Tome a bênção e vá dormir.
— Papai.
— Que é?
— Me desculpe.
— Está desculpado. Deus te abençoe. Agora vai.
— Por que não posso ficar vendo televisão?

(Fernando Sabino)

CONSTRUINDO O SENTIDO DO TEXTO

1.      Responda:
a)     Quem são as personagens do texto?

b)     Há um narrador que apresenta as personagens e informa ao leitor quem

2.    Releia o seguinte trecho da conversa:

“— Por que não posso ficar vendo televisão?
— Porque você tem de dormir.
— Por quê?
— Porque está na hora, ora essa.
— Hora essa?
— Além do mais, isso não é programa para menino.
— Por quê?
— Porque é assunto de gente grande...”

     Responda:

a)      Qual é o motivo da discussão entre as personagens?

b)     O garoto insiste em perguntar por que não pode continuar vendo televisão. Como você explica a insistência dele?

3.      Quais são os argumentos que o pai utiliza para convencer o filho a desligar a tevê?

4.      O menino aceita os argumentos dados pelo pai? Justifique sua resposta.

5.      Abaixo estão transcritas algumas falas do pai. Escreva com suas palavras os argumentos que o menino utiliza para rebater cada uma:

a)      “— Porque é assunto de gente grande, que você não entende.”

b)     “—Ande, vá dormir que você tem colégio amanhã cedo.”

c)      “— Deixe de ser malcriado.”

d)     “— Não fique respondendo não: cale essa boca.”

e)      “— Quando é que eu teria coragem de responder a meu pai como você faz. Ele me descia o braço, não tinha conversa. Eu porque sou muito mole, você fica abusando... Quando ele falava está na hora de dormir, estava na hora de dormir.”

6.    Releia algumas falas do menino:


“—Também vou para a cama e não durmo, pronto.”

“—Pode perder [a paciência].”

“— Falo como quiser, pronto.”

“—Não calo. A boca é minha.”

Essas falas revelam a atitude de resistência do menino em relação ao pai. Copie em seu caderno a alternativa que melhor traduz a atitude do menino:

a)      O menino não aceita os argumentos, mas respeita a autoridade do pai.

b)     O menino não aceita os argumentos e desafia a autoridade do pai.

c)      O menino aceita os argumentos, mas desafia a autoridade do pai.

d)     O menino aceita os argumentos e respeita a autoridade do pai.

7.      Copie a frase que melhor traduz a reação do pai diante da atitude do filho:


a)      Fica calmo e continua a argumentar a favor da necessidade de dormir do filho.

b)     Perde a calma, mas continua a argumentar a favor da necessidade de dormir do filho.

c)      Fica calmo, mas usa as palmadas como recurso para fazer valer os seus argumentos.

d)     Perde a calma e usa as palmadas como recurso para fazer valer os seus argumentos.

8.      A certa altura do texto, o menino diz:

“—Você me bateu...”

Transcreva a frase do diálogo que revela o momento em que o pai bate no filho.

9.      Releia:

“— Papai.
— Que é?
— Me desculpe.
— Está desculpado. Deus te abençoe. Agora vai.”


a)     Se o pai tivesse terminado nesse ponto, quem teria vencido na troca de argumento?

b)     Entretanto, o texto não termina nesse ponto. Releia a frase final do texto e explique a que conclusão se pode chegar:

“— Por que não posso ficar vendo televisão?”


DEBATE:

Agora chegou a vez de vocês elaborarem argumentos para defender a posição do pai ou do filho.

1.      Quem estava com a razão: pai ou filho? Por quê?

2.      Por que um não conseguiu convencer o outro?

3.      O que você faria se estivesse no lugar do filho? Que argumento (s) usaria para convencer o pai?

4.      Como você agiria se fosse o pai? Que argumento (s) usaria para convencer o filho?

Lembre-se: com um bom argumento é possível ganhar uma discussão!


5.   ELA

 Ainda me lembro do dia em que ela chegou lá em casa. Tão pequenininha! Foi uma festa. Botamos ela num quartinho dos fundos. Nosso Filho – Naquele tempo só tinha o mais velho – ficou maravilhado com ela. Era um custo tirá-lo da frente dela para ir dormir.

Combinamos que ele só poderia ir para o quarto dos fundos depois de fazer todas as lições.
- Certo, certo.- Eu não ligava muito para ela. Só para ver um futebol ou política. Naquele tempo, tinha política. Minha mulher também não via muito. Um programa humorístico, de vez em quando. Noites Cariocas… Lembra de Noites Cariocas?

- Lembro vagamente. O senhor vai querer mais alguma coisa? E me serve mais um destes. Depois decidimos que ela podia ficar na copa. Aí ela já estava mais crescidinha. Jantávamos com ela ligada, porque tinha um programa que o garoto não queria perder. Capitão Qualquer Coisa. A empregada também gostava de dar uma espiada. José Roberto Kely. Não tinha um José Roberto Kely?
- Não me lembro bem. O senhor não me leva a mal, mas não posso servir mais nada depois deste. Vamos fechar.
- Minha mulher nem sonhava em botar ela na sala. Arruinaria toda a decoração. Nessa época já tinha nascido o nosso segundo filho e ele só ficava quieto, para comer, com ela ligada. Quer dizer, aos pouco ela foi afetando os hábitos da casa. E então surgiu um personagem novo nas nossas casas que iria mudar tudo. Sabe quem foi?

- Quem?

- O Sheik de Agadir. Eu, se quisesse, poderia processar o Sheik de Agadir. Ele arruinou o meu lar.
- Certo. Vai querer a conta?

- Minha mulher se apaixonou pelo Sheik de Agadir. Por causa dele, decidimos que ela poderia ir para a sala de visitas. Desde que ficasse num canto, escondida, e só aparecesse quando estivesse ligada. Nós tínhamos uma vida social intensa. Sempre iam visitas lá em casa. Também saíamos muito. Cinema, Teatro, jantar fora. Eu continuava só vendo futebol e notícia. Mas minha mulher estava sucumbindo depois do Sheik de Agadir, não queria perder nenhuma novela.

- Certo. Aqui está a sua conta. Infelizmente temos que fechar o bar.

- Eu não quero a conta. Quero outra bebida. Só mais uma.

- Está bem… Só mais uma.

- Nosso filho menor, o que nasceu depois do Sheik de Agadir, não saía de frente dela. Foi praticamente criado por ela. É mais apegado a ela do que a própria mãe. Quando a mãe briga com ele, ele corre pra perto dela pra se proteger. Mas onde é que eu estava? Nas novelas. Minha mulher sucumbiu às novelas. Não queria mais sair de casa. Quando chegava visita, ela fazia cara feia. E as crianças, claro só faltavam bater em visita que chegasse em horário nobre. Ninguém mais conversava dentro de casa. Todo mundo de olho grudado nela. E então aconteceu outra coisa fatal. Se arrependimento matasse…
- Termine a sua bebida, por favor. Temos que fechar.

- Foi a copa do mundo. A de 74. Decidi que para as transmissões da copa do mundo ela deveria ser bem maior. E colorida. Foi a minha ruína. Perdemos a copa, mas ela continua lá, no meio da sala. Gigantesca. É o móvel mais importante da casa. Minha mulher mudou a decoração da casa para combinar com ela. Antigamente ela ficava na copa para acompanhar o jantar. Agora todos jantam na sala para acompanhá-la.
- Aqui está a conta.

- E, então, aconteceu o pior. Foi ontem, hora do Dancin´Days e bateram na porta. Visitas. Ninguém se mexeu. Falei para a empregada abrir a porta, mas ela fez “Shhh!” sem tirar os olhos da novela. Mandei os filhos, um por um, abrirem a porta, mas eles nem me responderam. Comecei a me levantar. E então todos pularam em cima de mim. Sentaram no meu peito. Quando comecei a protestar, abafaram o meu rosto com a almofada cor de tijolo que minha mulher comprou para combinar com a maquiagem da Júlia. Só na hora do comercial, consegui recuperar o ar e aí sentenciei, apontando para ela ali, impávida no meio da sala: “Ou ela, ou eu!”. O silêncio foi terrível.

- Está bem… mas agora vá para casa que precisamos fechar. Já está quase clareando o dia…
- Mais tarde, depois da Sessão Coruja, quando todos estavam dormindo, entrei na sala, pé ante pé. Com a chave de parafuso na mão. Meu plano era atacá-la por trás, abri-la e retirar uma válvula qualquer. Não iria adiantar muita coisa, eu sei. Eles chamariam um técnico às pressas. Mas era um gesto simbólico. Ela precisava saber quem é que mandava dentro de casa. Precisava sabe que alguém não se entregava completamente a ela, que alguém resistia. E então, quando me preparava para soltar o primeiro parafuso, ouvi a sua voz. “Se tocar em mim você morre”. Assim com toda a clareza. “Se tocar em mim você morre”. Uma voz feminina, mas autoritária, dura. Tremi. Ela podia estar blefando, mas podia não estar. Agi depressa. Dei um chute no fio, desligando-a da tomada e pulei para longe antes que ela revidasse. Durante alguns minutos, nada aconteceu. Então ela falou outra vez. ”Se não me ligar outra vez em um minuto, você vai se arrepender”. Eu não tinha alternativa. Conhecia o seu poder. Ela chegara lá em casa pequenininha e aos poucos foi crescendo e tomando conta. Passiva, humilde, obediente. E vencera. Agora chegara a hora da conquista definitiva. Eu era o único empecilho à sua dominação completa. Só esperava um pretexto para me eliminar com um raio catódico. Ainda tentei parlamentar. Pedi que ela poupasse a minha vida. Perguntei o que ela queria, afinal. Nada. Só o que ela disse foi “Você tem 30 segundos”.
- Muito bem. Mas preciso fechar. Vá para casa.

- Não posso.

- Por quê?

- Ela me proibiu de voltar lá.

(Luís Fernando Veríssimo)




















































































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