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segunda-feira, 27 de maio de 2013

CRÔNICAS PARA O 7º ANO

1. A última crônica 

Fernando Sabino


          A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. 
         Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. 
        Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim. 
         São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. 
        Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso." 


2. A Bola 
Luiz Fernando Veríssimo 


O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. 
Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. 
O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse "Legal!". Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa. 
- Como é que liga? - perguntou. 
- Como, como é que liga? Não se liga. 
O garoto procurou dentro do papel de embrulho. 
- Não tem manual de instrução? 
O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros. 
- Não precisa manual de instrução. 
- O que é que ela faz? 
- Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela. 
- O quê? 
- Controla, chuta... 
- Ah, então é uma bola. 
- Claro que é uma bola. 
- Uma bola, bola. Uma bola mesmo. 
- Você pensou que fosse o quê? 
- Nada, não. 
O garoto agradeceu, disse "Legal" de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. 
O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto. 
- Filho, olha. 
O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar. 


3. Estragou a televisão!!! 
Luiz Fernando Veríssimo 

-- Iiiih... 
-- E agora? 
-- Vamos ter que conversar. 
-- Vamos ter que o quê? 
-- Conversar. É quando um fala com o outro. 
-- Fala o quê? 
-- Qualquer coisa. Bobagem. 
-- Perder tempo com bobagem? 
-- E a televisão, o que é? 
-- Sim, mas aí é a bobagem dos outros. A gente só assiste. Um falar com o outro, assim, ao vivo... Sei não... 
-- Vamos ter que improvisar nossa própria bobagem. 
-- Então começa você. 
-- Gostei do seu cabelo assim. 
-- Ele está assim há meses, Eduardo. Você é que não tinha... 
-- Geraldo. 
-- Hein? 
-- Geraldo. Meu nome não é Eduardo, é Geraldo. 
-- Desde quando? 
-- Desde o batismo. 
-- Espera um pouquinho. O homem com quem eu casei se chamava Eduardo. 
-- Eu me chamo Geraldo, Maria Ester. 
-- Geraldo Maria Ester?! 
-- Não, só Geraldo. Maria Ester é o seu nome. 
-- Não é não. 
-- Como, não é não? 
-- Meu nome é Valdusa. 
-- Você enlouqueceu, Maria Ester? 
-- Pelo amor de Deus, Eduardo... 
-- Geraldo. 
-- Pelo amor de Deus, meu nome sempre foi Valdusa. Dusinha, você não se lembra? 
-- Eu nunca conheci nenhuma Valdusa. Como é que eu posso estar casado com uma mulher que eu nunca... Espera. Valdusa. Não era a mulher do, do... Um de bigode...
-- Eduardo. 
-- Eduardo! 
-- Exatamente. Eduardo. Você. 
-- Meu nome é Geraldo, Maria Ester. 
-- Valdusa. E, pensando bem, que fim levou o seu bigode? 
-- Eu nunca usei bigode! 
-- Você é que está querendo me enlouquecer, Eduardo. 
-- Calma. Vamos com calma. 
-- Se isso for alguma brincadeira sua... 
-- Um de nós está maluco. Isso é certo. 
-- Vamos recapitular. Quando foi que casamos? 
-- Foi no dia, no dia... 
-- Arrá! Tá aí. Você sempre esqueceu o dia do nosso casamento... Prova de que você é o Eduardo e a maluca não sou eu. 
-- E o bigode? Como é que você explica o bigode? 
-- Fácil. Você raspou. 
-- Eu nunca tive bigode, Maria Ester! 
-- Valdusa! 
-- Tá bom. Calma. Vamos tentar ser racionais. Digamos que o seu nome seja mesmo Valdusa. Você conhece alguma Maria Ester?
-- Deixa eu pensar. Maria Ester... Nós não tivemos uma vizinha chamada Maria Ester? 
-- A única vizinha de que eu me lembro é a tal de Valdusa. 
-- Maria Ester. Claro. Agora me lembrei. E o nome do marido dela era... Jesus! 
-- O marido se chamava Jesus? 
-- Não. O marido se chamava Geraldo. 
-- Geraldo... 
-- É. 
-- Era eu. Ainda sou eu. 
-- Parece... 
-- Como foi que isso aconteceu? 
-- As casas geminadas, lembra? 
-- A rotina de todos os dias... 
-- Marido chega em casa cansado, marido e mulher mal se olham... 
-- Um dia marido cansado erra de porta, mulher nem nota... 
-- Há quanto tempo vocês se mudaram daqui? 
-- Nós nunca nos mudamos. Você e o Eduardo é que se mudaram. 
-- Eu e o Eduardo, não. A Maria Ester e o Eduardo. 
-- É mesmo... 
-- Será que eles já se deram conta? 
-- Só se a televisão deles também quebrou. 


4. TELEVISÃO PARA DOIS
Fernando Sabino


        Ao chegar ele via uma luz que se coava por baixo da porta para o corredor às escuras. Era enfiar a chave na fechadura e a luz se apagava. Na sala, punha a mão na televisão, só para se certificar: quente, como desconfiava. Às vezes ainda pressentia movimento na cozinha:
 - Etelvina, é você?
 A preta aparecia, esfregando os olhos:
 - Ouvi o senhor chegar... Quer um cafezinho?
 Um dia ele abriu o jogo:
 - Se você quiser ver televisão quando eu não estou em casa, pode ver à vontade.
 - Não precisa não, doutor. Não gosto de televisão.
 - E eu muito menos.
 Solteirão, morando sozinho, pouco parava em casa. A pobre da cozinheira metida lá no seu quarto o dia interiro, sozinha também, sem ter muito que fazer...
 Mas a verdade é que ele curtia o seu futebolzinho aos domingos, o noticiário todas as noites e mesmo um ou outro capítulo da novela, “só para fazer sono”, como costumava dizer:
 - Tenho horror de televisão.
 Um dia Etelvina acabou concordando:
 - Já que o senhor não se incomoda...
 Não sabia que ia se arrepender tão cedo: ao chegar da rua, a luz azulada sob a porta já não se apagava quando introduzia a chave na fechadura. A princípio ela ainda se erguia da ponta do sofá onde ousava se sentar muito erecta:
 -Quer que eu desligue, doutor?
 Com o tempo, ela foi deixando de se incomodar quando o patrão entrava, mal percebia a sua chegada. E ele ia se refugiar no quarto, a que se reduzira seu espaço útil dentro de casa. Se precisava vir até a sala para apanhar um livro, mal ousava acender a luz:
 -Com licença... 
 Nem ao menos tinha mais liberdade de circular pelo apartamento em trajes menores, que era o que lhe restava de comodidade, na solidão em que vivia: a cozinheira lá na sala a noite toda, olhos pregados na televisão. Pouco a pouco ela se punha cada vez mais à vontade, já derreada no sofá, e se dando mesmo ao direito de só servir o jantar depois da novela das oito. Às vezes ele vinha para casa mais cedo, especialmente para ver determinado programa que lhe haviam recomendado, ficava sem jeito de estar ali olhando ao lado dela, sentados os dois como amiguinhos. Muito menos ousaria perturbá-la, mudando o canal, se o que lhe interessava estivesse sendo mostrado em outra estação.
 A solução do problema lhe surgiu um dia, quando alguém, muito espantado que ele não tivesse televisão em cores, sugeriu-lhe que comprasse uma.
 - Etelvina, pode levar essa televisão lá para o seu quarto, que hoje vai chegar outra para mim.
 - Não precisava, doutor – disse ela, mostrando os dentes, toda feliz.
 Ele passou a ver tranquilamente o que quisesse na sua sala, em cores e, o que era melhor, de cuecas – quando não inteiramente nu, se bem o desejasse.
 Até que uma noite teve a surpresa de ver luz por debaixo da porta, ao chegar. Nem bem entrara e já não havia ninguém na sala, como antes – a televisão ainda quente. Foi à cozinha a pretexto de beber um copo d´água, esticou um olho lá para o quarto na área: a luz azulada, a preta entretida com a televisão certamente recém-ligada.
 - Não pensa que me engana, minha velha – resmungou ele.
 Aquilo se repetiu algumas vezes, antes que ele resolvesse acabar com o abuso: afinal, ela já tinha a dela, que diabo. Entrou uma noite de supetão e flagrou a cozinheira às gargalhadas com um programa humorístico.
 -Qual é, Etelvina? A sua quebrou?
 Ela não teve jeito senão confessar, com um sorriso encabulado:
 -Colorido é tão mais bonito...
 Desde então a dúvida se instalou no seu espírito: não sabe se despede a empregada, se lhe confia o novo aparelho e traz de volta para a sala o antigo, se deixa que ela assista a seu lado aos programas em cores. 
 O que significa praticamente casar-se com ela, pois, segundo a mais nova concepção de casamento, a verdadeira felicidade conjugal consiste em ver televisão a dois.

 



















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