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sábado, 13 de abril de 2013

FRAGMENTOS DO LIVRO "A BOLSA AMARELA", DE LYGIA BOJUNGA NUNES


AS VONTADES  

CAPÍTULO 1


            Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo o mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras - as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida - ah - essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.
Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.
            Já fiz tudo pra me livrar delas. Adiantou? Hmm! é só me distrair um pouco e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, falta tanto ano pra eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo pra  ninguém ver.
Faz tempo que eu tenho vontade de ser grande e de ser homem. Mas foi só no mês passado que a vontade de escrever deu pra crescer também. A coisa começou assim:
             Um dia fiquei pensando o que é que eu ia ser mais tarde. Resolvi que ia ser escritora. Então já fui fingindo que era. Só pra treinar. Comecei escrevendo umas cartas:

            Prezado André
 
Ando querendo bater papo. Mas ninguém tá a fim.
Eles dizem que não têm tempo. Mas ficam vendo televisão. Queria te contar minha vida. Dá pé?
Um abraço da Raquel.

             No outro dia quando eu fui botar o sapato, achei lá dentro a resposta:

  Dá.
  André.

  Parecia até telegrama, que a gente escreve bem curtinho pra não custar muito caro. Mas não liguei. Escrevi de novo:

Querido André
 
Quando eu nasci minhas duas irmãs e meu irmão já tinham mais de dez anos. Fico achando que é  por isso que ninguém aqui em casa tem paciência comigo: todo o mundo já é bem grande há muito tempo, menos eu. Não sei quantas vezes eu ouvi minhas irmãs dizendo: "A Raquel nasceu de araque. A Raquel nasceu fora de hora. A Raquel nasceu quando a mamãe já não tinha mais condições de ter filho."
            Tô sobrando, André. Já nasci sobrando. É ou não é?
            Um dia perguntei pra elas: "Por que é que a mamãe não tinha mais condições de ter filho?" Elas falaram que a minha mãe trabalhava demais, já tava cansada, e que também a gente não tinha dinheiro pra educar direito três filhos, quanto mais quatro.
            Fiquei pensando: mas se ela não queria mais filho por que é que eu nasci? Pensei nisso demais, sabe?
             E acabei achando que a gente só devia nascer quando a mãe da gente quer ver a gente nascendo. Você não acha, não?
 
Raquel.

            Dois dias depois chegou a resposta. Estava escrita bem no cantinho do papel que embrulhava o pão:

  Acho
  André.

ROTEIRO PARA DEBATE

1.      No texto, a menina Raquel fala de sua vida, de suas vontades, isto é, de seus desejos profundos. Ela demonstra ser alegre, ou triste? Por quê?

2.      Existem “vontades” grandes e “vontades” pequenas. Cite os três exemplos de pequenas vontades que o texto apresenta.

3.      E quais são as três vontades que vão engordando sua vida?

4.      Como se explica na criança a vontade apressada de ser grande?

5.      Por que, na sua opinião, Raquel desejava ter nascido garoto em vez de garota?

6.      Na sua escola, as meninas sofrem discriminações em relação aos meninos? Se ocorrer, o que fazer para evitá-las?

7.      As irmãs de Raquel alimentavam um forte ciúme não é mesmo? Com que frases elas expressavam esse sentimento?

8.      Por que Raquel tinha a sensação de estar sobrando naquela família?

9.      A resposta telegráfica de André — acho —se referia a quê?

10.  E você, que acha? Explique suas razões.




A CASA DOS CONCERTOS

Lygia Bojunga Nunes

  Mas eu fiquei parada, querendo entender melhor a gente daquela casa. Apontei o homem:

  - Ele é teu pai?
  É. - E aí ela apresentou os três: - Meu pai, minha mãe e meu avô.
  Eles me deram um sorriso legal, e eu cochichei pra menina:
  - Por que é que ele tá cozinhando?
  Ela me olhou espantada:
  - O quê?
  Perguntei ainda mais baixo:
  - Por que é que ele tá cozinhando bastante e tua mãe soldando panela?
  - Porque ela hoje já cozinhou bastante e ele já consertou uma porção de coisas; e eu também já estudei um bocado e meu avô soldou muita panela: tava na hora de trocar tudo.
  - Por quê?
  Pra ninguém achar que tá fazendo uma coisa demais. E pra ninguém achar também que está fazendo uma coisa menos legal do que o outro.
  - Teu avô tá estudando?
  - Tá
  - Velho daquele jeito? (Era meio chato conversar com ela: só eu cochichava; ela falava normal, todo o mundo ouvia.)
  - Ele só é velho por fora. O pensamento dele tá sempre novo.
  - Por quê?
  - Porque ele tá sempre estudando. Que nem meu pai e minha mãe.
  - Eles também estudam?
  - Aqui em casa a gente não vai parar de estudar.
  - Toda a vida?
  - Tem sempre coisa nova pra aprender.
  - E quem é que resolve o que cada um estuda?
  - Como é?
  - Quem é que resolve as coisas? quem é o chefe?
  - Chefe?
  - É o chefe da casa. Quem é? Teu pai ou teu avô?
  - Mas pra que que precisa chefe?
  - Pra resolver os troços, ué; pra resolver o que é que cada um vai estudar.
  - Cada um estuda o que gosta mais. Tem livro aí; a gente escolhe o que quer. O vovô agora tá estudando teatro de bonecos: ele vai fazer um lá na praça.
  - Mas... e o resto?
  - Que resto?
  - Não tem sempre uma porção de coisas pra resolver? Quem é que resolve?
  - Nós quatro. Pra isso todo dia tem hora de resolver coisa. Que nem ainda há pouco teve hora de brincar. A gente senta aí na mesa e resolve tudo que precisa. Resolve como é que vai
enfrentar um caso que a vizinha criou; resolve se vai brincar mais do que trabalhar; ou estudar mais do que brincar; resolve o que é que vai comer; quanto é que vai gastar em roupa, em comida, em livro; resolve essas transas todas. Cada um dá uma ideia. E fica resolvido o que a maioria acha melhor.
  - Você também pode achar?
  - Claro! eu também moro aqui, eu também estudo, eu também cozinho, eu também conserto. Aqui todo o mundo acha igual.
  - Mas pode?
  - Por que é que não pode?
  Aío relógio bateu outra vez. O pai ficou ainda mais animado e gritou:
  - Almoço! A comida tá pronta.
 - Abriu o forno, tirou o bolo, perguntou se eu queria comer com eles, eu aceitei correndo. E perguntei pra menina:
  - Como é que você se chama, hem?
  - Lorelai.
  Fiquei na Casa dos Consertos nem sei quanto tempo. Pra contar a verdade, não vi o tempo passar.

Lygia Bojunga Nunes. A casa dos consertos. A bolsa amarela. Rio de Janeiro, Agir, 1976.


Roteiro para debate

11.      Quais são os membros da família de Lorena?
12.      Como é o modo de pensar de Raquel em relação aos trabalhos que são feitos naquela família?
13.      Por que Raquel cochichava e Lorelai falava normalmente?
14.      Como eram resolvidos os problemas naquela família?
15.      Comente esta frase de Lorelai: “Aqui todo mudo acha igual.”
16.      Aponte qualidades daquela família.
17.      O relacionamento existente na família de Lorelai pode existir também em famílias de outra situação econômica
18.      Por que Raquel não viu o tempo passar naquela visita?
19.      Você gostou da história A casa dos consertos? Pois, então, leia o livro “A bolsa amarela”, de Lygia Bojunga Nunes.

recadosparablogseorkut.com





Um comentário:

Anônimo disse...

Amei A CASA DOS CONCERTOS! Achei super engracado.

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