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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

MINHAS FÉRIAS, PULA UMA LINHA, PARÁGRAFO. DE CHRISTIANE GRIBEL





Um

O primeiro dia de aula é o dia que eu mais gosto em segundo lugar. O que eu mais gosto em primeiro é o último, porque no dia seguinte chegam as férias.
Os dois são os melhores dias na escola porque a gente nem tem aula. No primeiro dia não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça ainda está de férias. E no último, também não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça já está nas férias.
Era o primeiro dia e era para ser a aula de português mas não era porque todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor. O que explica o fato de ninguém ter escutado a professora gritando para a gente parar de gritar. Todo mundo estava bem surdo mesmo. Mas quando ela bateu com os livros em cima da mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela.
Ela estava em pé, na frente do quadro-negro e ficou em silêncio, com uma cara bem brava, olhando para a gente.
Quando um professor está em silêncio com uma cara bem brava olhando para você, é melhor também ficar em silêncio com uma cara de sem graça olhando para um ponto qualquer que não seja a cara brava do professor.
A professora puxou a cadeira dela e se sentou.
Atrás dela, no quadro-negro, eu vi decretado o fim das nossas férias e o fim do nosso primeiro dia de aula sem aula. Estava escrito:

Redação: escrever trinta linhas sobre as férias.

Eu sabia que as férias de ninguém iam ser mais as mesmas na hora que virassem redação. É simples: férias é legal, redação é chato. Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça.
Todo mundo tirou o caderno de dentro da mochila. Menos eu.
Eu fiquei olhando para aquela frase no quadro enquanto os zíperes e velcros das mochilas eram os únicos barulhos na sala. De repente as nossas férias ficaram silenciosas. Onde já se viu férias sem barulho?
E além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. Aqueles dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar trinta linhas de preocupações com acentos, vírgulas, parágrafos e ainda por cima com a letra ilegível depois de tanto tempo sem treino.


Dois



A turma inteira já estava escrevendo quando eu percebi que a professora estava só olhando para mim.
Quando um professor fica parado só olhando para você é porque você tinha estar fazendo outra coisa que não era o que você estava fazendo.
A outra coisa que eu tinha que estar fazendo era minha redação. Então eu puxei a minha mochila e peguei o caderno. É claro que minha mochila tem o fecho de velcro e que todo mundo olhou para mim quando eu abri. Só a professora que não olhou de novo porque ela já estava olhando antes mesmo.
Peguei a caneta. Eu nem sabia mais segurar direito a caneta. Escrevi:

Min    has Férias

Mas a letra ficou péssima e eu resolvi arrancar a folha para começar bem o meu caderno. E todo mundo olhou de novo para mim, até a professora que já tinha parado de me olhar.
Troquei a caneta por um lápis, porque se a letra ficasse horrível era só apagar em vez de ter que arrancar outra folha.
Coloquei as minhas férias lá no alto e bem no meio da página. Pulei uma linha. Parágrafo.

Min  has  Férias

Outro problema de transformar as nossas férias em redação é fazer os dois meses caberem nas tais trinta linhas. Porque se a gente fosse contar mesmo tudo o que aconteceu, as trinta linhas iam servir só para um dia de férias e olhe lá.
E aí você olha para o seu relógio e descobre que as trinta linhas, que pareciam poucas para contar todas as suas férias, viram muitas porque você só tem mais 15 minutos de aula para fazer a redação.
Começar as férias é a coisa mais fácil do mundo. Em compensação, começar redação sobre as férias é tão difícil quanto começar as aulas.
Fiquei me lembrando como é que eu tinha começado as minhas férias de verdade. Assim eu podia começar a redação do mesmo jeito. Mas eu comecei as minhas férias de verdade arrumando a mala para ir para a casa do meu avô. E agora só faltavam 12 minutos para terminar a aula. Em 12 minutos eu não ia conseguir arrumar a mala. Pelo menos não do jeito que a minha mãe gosta que eu arrume. Então decidi começar as férias de minha redação direto da casa do meu avô.

Minhas férias

Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô. Principalmente porque não tem aula.

Não. Talvez seja um começo de redação muito pesado para o começo das aulas.

Minhas férias

Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô.
Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande.
Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar.
Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom.

Achei que desse jeito a minha observação a respeito das aulas ficava mais sutil. Continuei.

Teve um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade.
O gol veio de um pase de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo entre os meus melhores amigos da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tatica.
O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Aí eu me enfiei pela esquerad e recebi a bola. Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho.
Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com abola em baixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemorassão. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou para ele que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque a culpa nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado.

O sinal tocou bem nessa hora. Eu nem contei quantas linhas eu tinha escrito porque não ia dar tempo de mudar nada mesmo.
Arranquei a folha e dei as minhas férias para a professora.


Três

Depois da aula de português vinha aula dupla de educação física. A maior sorte que se pode ter num primeiro dia de aula é ter aula dupla de educação física. Dá até para ficar contente de ter voltado para a escola. E dá até para acreditar quando a nossa mãe fala que essa é a melhor época de nossa vida, quando ela faz aquele discurso que toda mãe faz.

Discurso:

Aproveita, meu filho. Essa é a melhor época da sua vida. Ir para a escola é uma delícia. Quando você crescer vai se lembrar da escola e sentir uma saudade danada.

Minha mãe diz que é para aproveitar a escola porque depois que a gente cresce a gente fica cheio de problemas para resolver. Aí é que está. Eu ainda nem cresci e já estou cheio de problemas. Só no ano passado eu tive que resolver 187. E não foi nem para mim. Foi para o professor de matemática.

Quatro

A semana passou bem rápido e quando a gente viu já era sexta-feira. Ter chegado a sexta-feira era ótimo. Agora só faltavam mais dezenove semanas para as próximas férias. A única coisa ruim é que na sexta eu tinha aula dupla de português e a professora ia trazer as nossas redações de volta.
Quando a professora entrou na sala eu tinha acabado de puxar o elástico do sutiã da Mariana Guedes. Agora a moda das meninas era usar sutiã por baixo da camiseta. E a nossa moda era puxar o elástico para o sutiã estalar bem nas costas delas. Eu corri e a Mariana Guedes me jogou uma borracha bem na cara. Mas a professora foi olhar para a gente só na hora que eu joguei a borracha de volta. E aquela Mariana Guedes ainda abaixou e a borracha passou bem perto dos óculos da professora.
A professora ficou me olhando de novo, igual no dia da redação, e então eu me sentei esperando uma daquelas broncas humilhantes no meio da classe. Mas a professora não falou nada.
Quando você apronta uma dessas e o professor não fala nada, não é porque o professor é um cara bem legal. É que o que vem pela frente é pior do que o pior que você imaginava.
O pior foi colocado bem em cima da minha mesa. As minhas férias, que tinham sido perfeitas para mim, não chegaram nem perto de terem sido boas para a professora. Elas voltaram cheias de defeitos. Faltou um esse no passe de craque do Paulinho, um acento na minha tática e a minha comemoração eu escrevi com tanta empolgação que acabou saindo com dois esses em vez de cê-cedilha.
E o pior do que eu imaginava foi o que ela fez com o meu golaço que estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho. Ela disse que “em mil pedaços” é um adjunto adverbial e que tinha que ficar entre vírgulas.
Eu olhei na Gramática e lá estava explicado que um adjunto adverbial é um termo acessório e a gente pode eliminar aquela parte da frase que ela continua a fazer sentido. Eu queria ver a professora dizendo para o meu vizinho que aqueles mil pedacinhos da janela dele eram só um adjunto adverbial.
E tem mais uma coisa: eu estava de férias. Era muito mais importante marcar o gol do que as vírgulas, concorda?

E as minhas férias ficaram assim:

Minhas férias

Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô.
Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande.
Por que não substituir um bem por muito?
Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar.
não se consegue mais ver a bola
Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom.
as férias são boas.
Teve um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade.
O gol veio de um passe de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo (entre os meus melhores amigos) da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tatica.
O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Aí eu me enfiei pela esquerda e recebi a bola.
Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho.
Adjunto adverbial
Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com abola em baixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemorassção. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou (para ele) que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque a culpa não foi nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço, mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado.
Quanto e!

A professora não fez nenhum outro comentário sobre o que eu tinha escrito. Para ela tanto fazia se o meu gol tinha sido um golaço ou um frango do goleiro. Eu fiquei bem chateado. Ela tinha acabado com as minhas férias. Isso significava que era a terceira vez que as minhas férias acabavam numa semana só. Não podia existir nada pior do que isso na vida de um garoto de 11 anos.
Mas existia.

Cinco

No final da aula a professora me chamou na mesa dela. Eu tinha que fazer de lição para segunda-feira a análise sintática da frase: “Eu fiz um golaço tão grande que até furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho”.
Era o fim. As minhas férias já tinham virado redação e agora acabavam de virar lição de casa. E uma lição dificílima. Fazer análise sintática! Eu nem lembrava mais o que era isso.
Do jeito que as coisas vão, quando chegarem as minhas próximas férias eu não vou saber se é para ficar feliz ou triste. Eu vou falar “ah, não, férias me lembram redação e lição de casa” e ninguém vai entender nada.
Então eu pensei que ainda bem que amanhã era sábado. Eu já comecei a me lembrar que a turma do prédio tinha marcado pólo aquático na piscina. Peguei a minha mochila e saí correndo para não perder o ônibus para casa. Não me lembro se a professora continuou em sala ou não. Eu só me lembro que eu fui o último a sair.


SEIS

O fim de semana me fez esquecer da escola e da primeira semana de aula, o que foi bom. O único detalhe é foi que eu também acabei esquecendo da lição de português. E na segunda de manhã eu tive que fazer tudo correndo quando cheguei na escola, antes de tocar o sinal.
Análise sintática já é uma coisa bem complicada quando você tem que fazer o exercício logo depois que a professora acabou de explicar como se faz. Imagina fazer depois das férias de verão quando você mudou da quinta para a sexta série mas nem se lembra como é que passou de ano.
Eu peguei o meu caderno e escrevi a minha frase.
Eu fiz um golaço tão grande que até furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho.

Depois eu fui escrevendo o que eu me lembrava que tinha que ter numa análise sintática.

Sujeito:
Predicado:
Objeto direto:
Objeto indireto:
Partícula apassivadora:

Isso era tudo o que eu me lembrava. Então eu comecei a escrever do lado de cada coisa dessas uma análise sintática. Pus lá:

Sujeito: O meu vizinho. Que é realmente um sujeito de meter medo apesar de eu achar que ele deve ser legal porque está casado há um tempão com a mulher dele que é bem legal.

Predicado: O meu vizinho de novo. Isso, se a gente colocar no meio dessa palavra a sílaba JU e então a palavra vira prejudicado porque ele foi mesmo o grande prejudicado dessa história.

Objeto direto: A bola. Nem precisa explicar por quê.

Objeto indireto: Eu. Porque a janela quebrou em mil pedaços por causa do meu chute mas na verdade foi culpa da rede que furou.

Partícula apassivadora: Essa era a mulher do meu vizinho que apassivou a briga e se você reparar como ela é pequena eu acho que partícula é o que ela é.

Pronto. Acabei a lição e o sinal nem tinha tocado ainda. Fechei o meu caderno. Depois eu abri de novo. Lembrei de mais uma coisa que tinha na análise sintática e escrevi:

Adjunto adverbial: em mil pedaços.

No final da aula de português eu deixei a minha lição na mesa da professora e fui para a minha aula dupla de educação física.

Sete

Na minha aula dupla de português da sexta-feira, a professora me entregou a análise sintática. Eu tirei zero e tive que escrever toda essa história contando tudo isso que aconteceu para você. Ela me disse que você é que ia decidir o que fazer comigo, porque você é o Diretor dessa escola e ela não sabia que atitude tomar. Foi isso.

Assinado
Guilherme Pontes Pereira
6a. série B – Manhã

No dia seguinte o Diretor me chamou na sala dele. Ele já tinha lido toda a história que eu escrevi e eu já estava pensando no que eu ia dizer para os meus pais quando ele me expulsasse da escola. Eu ia dizer:
- Mãe, pai, fui expulso da escola.

Eu entrei na sala do Diretor e me sentei na cadeira bem na frente dele. Quer dizer, na frente mais ou menos, porque era uma daquelas cadeironas que a gente afunda dentro, então o porta-lápis, que ficava na mesa do diretor, tapava a cara dele até o nariz. Mas ele chegou o porta-lápis para o lado e eu consegui olhar para ele bem de frente. E ele disse:

- Guilherme, eu fiquei muito impressionado com a história que você escreveu. Você precisa fazer mais redações.

Então ele me mandou de volta para a sala de aula.

Eu fiquei pensando muito nisso tudo porque no começo eu não estava entendendo nada. Mas depois eu descobri por que escolheram aquele  cara para ser o Diretor. Ele é bem inteligente. Fazer mais redações era mesmo um castigo muito pior do que se expulso da escola.


Sobre o trecho do livro “Minhas férias, pula uma linha, parágrafo.”, da autora Christiane Gribel, responda às questões a seguir:

1.      Quem narra a história?
2.      Em que ambiente se passa a história?
3.      De acordo com o trecho da obra “Minhas férias, pula uma linha, parágrafo.”, que semelhança há entre o primeiro e o último dia de aula?
4.      O primeiro dia de aula foi como o narrador esperava? Justifique sua resposta.
5.      Em que momento foi decretado, realmente, o fim das férias?
6.      Leia a frase e explique o que você entendeu dela:

“DE REPENTE AS NOSSAS FÉRIAS FICARAM SILENCIOSAS.”

7.      Releia o 8º parágrafo e escreva se você concorda ou não com o narrador. Justifique a sua resposta.
8.      Na opinião do narrador, qual foi a intenção da professora ao pedir uma redação sobre as férias?


Recados



domingo, 13 de janeiro de 2013

COMEMORAÇÃO DOS CEM ANOS DE NASCIMENTO DE VINICIUS DE MORAES

VINICIUS DE MORAES




 Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, ou Vinicius de Moraes, (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913; Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.
Poeta essencialmente lírico, o “poetinha” (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos, forma poética que se tornou quase associada ao seu nome. Conhecido por também ser boêmio inveterado, fumante e apreciador do uísque, Vinicius também era conhecido por ser um grande conquistador. O poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida.
Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical, o poetinha teve como principais parceiros Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Carlos Lyra.
         O início de sua carreira está ligado à corrente espiritualista. No entanto, o eixo de sua obra logo se desloca para um sensualismo erótico, o que vem acentuar uma contradição entre o prazer da carne e a formação religiosa; destaque também para a valorização do momento, para um acentuado imediatismo – as coisas acontecem “de repente, não mais que de repente” -, ao mesmo tempo em que se busca algo mais perene. Desse quadro talvez resulte outra constante em sua poética: a felicidade e a infelicidade. Em várias oportunidades valoriza a alegria:

É melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

(“Samba da bênção”)


Em outras ocasiões, no entanto, o poeta associa a inspiração poética à tristeza:

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão triste!
(“A um passarinho”)


Em outros momentos, busca provar que “tristeza não tem fim; felicidade sim”, e que isso independe da nossa vontade:


A FELICIDADE

Tristeza não tem fim
         Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
         Brilha tranquila
         Depois de leve oscila
         E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
         A gente trabalha o ano inteiro
        Por um momento de sonho
        Pra fazer a fantasia
        De rei ou de pirata ou jardineira
        Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
        Que o vento vai levando pelo ar
        Voa tão leve
        Mas tem a vida breve
        Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
        Nos olhos da minha namorada
        É como esta noite, passando, passando
        Em busca da madrugada
        Falem baixo, por favor
        Pra que ela acorde alegre com o dia
        Oferecendo beijos de amor


Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples


É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...


(MORAES, Vinicius de. In: Obra poética. Rio de Janeiro, Aguiar, 1968. p. 587.)


A temática social também aparece em poemas de Vinicius, os quais lograram obter o mesmo grau de popularidade que suas composições voltadas para o amor, como é o caso de “Operário em construção”. Também é necessário salientar a importante participação de Vinicius na evolução da música popular brasileira a partir da bossa-nova, em fins dos anos 50.
A relação amorosa, com suas e sombras, seus encantamentos e desilusões, transformou-se num dos mais constantes temas do poeta. Sua obra, com a de Cecília Meireles, representa a dimensão mais puramente lírica, no sentido original da palavra, da produção poética de sua geração.
Seus sonetos lírico-amorosos, como o “Soneto de separação”e o “Soneto de fidelidade”, que vamos ler, dialogam com uma das mais importantes tradições da poesia lírica em língua portuguesa: a tradição clássica de Luís Vaz de Camões, poeta português do século XVI, que escreveu sonetos decassílabos de dimensão filosófica, tomando como tema simultaneamente o amor físico e o amor espiritual, a universalidade da experiência amorosa e suas significações para a condição humana.
Ao mesmo tempo, a poesia de Vinicius de Moraes é emotiva, sentimental, delicada, sensorial, “erótica”(atravessada pelo sopro de Eros, o deus da mitologia grega que representa a força da paixão, do desejo, do amor)e, sobretudo, musical.
O poeta foi, sem dúvida, um trovador moderno: resgatou a secular relação entre música e poesia, compondo e cantando suas criações, sempre em parceria com outras grandes vozes da Música Popular Brasileira. Ocupa, assim, lugar de destaque não só na literatura, mas na MPB, onde brilha ao lado de poetas-cantores como Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil etc.
De suas obras, destacamos: O caminho para a distância; Ariana; a mulher; Novos poemas; Poemas, sonetos e baladas; O mergulhador; A arca de Noé (poemas infantis).


Ø  LEITURA

POEMAS




















EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

(Tom Jobim e Vinicius de Moraes)



SONETO DE FIDELIDADE


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angustia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Moraes. Estoril, outubro de 1939)


SONETO DO AMOR TOTAL


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito amiúde
E que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais que pude.

(Moraes, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das letras, 1992, p. 232.)



SONETO DO MAIOR AMOR


Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais de eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel a sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

(Vinicius de Moraes. Oxford, 1938.)



SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
        Silencioso e branco como a bruma
        E das bocas unidas fez-se a espuma
        E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
        Que dos olhos desfez a última chama
        E da paixão fez-se o pressentimento
        E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
        Fez-se de triste o que se fez amante
        E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
        Fez-se da vida uma aventura errante
        De repente, não mais que de repente.

(MORAES, Vinicius de op. Cit., p. 300-1.) 


SONETO DE CONTRIÇÃO

Eu te amo, Maria, te amo tanto
Que o meu peito dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

(Vinicius de Moraes. Rio de janeiro, 1938.)


SONETO DA HORA FINAL


Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: - Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


(Vinicius de Moraes. Montevidéu, julho de 1960.)



A ROSA DE HIROXIMA


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

(MORAES, Vinicius de. Op. Cit., p. 350)



SONETO DE ANIVERSÁRIO


Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.


Faça-se a carne mais envelhecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que louvar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.


E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

(Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro, 1942.)



O VERBO NO INFINITO


Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz a ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofre, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
                    
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

(Vinicius de Moraes. Rio de janeiro, 1960.)





Sarau: é toda aquela reunião festiva entre amigos. Ouve-se música, assiste-se filme, filosofa, lê-se trechos de livros, faz-se poesia! Sarau é onde a gente reúne os amigos ligados à arte e cultura. Onde a gente soma conhecimentos e delícias, onde a gente descobre junto e vivencia!



Ø  Canções




Aquarela

Vinicius de Moraes , Toquinho , Guido Morra , Maurizio Fabrizio


Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo 
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco
navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

Tonga Editora Musical LTDA


A CASA

Era uma casa
Muito engraçada
        Não tinha teto
        Não tinha nada
        Ninguém podia
        Entrar nela não
        Porque na casa
        Não tinha chão
        Ninguém podia
        Dormir na rede
        Porque a casa
        Não tinha parede
        Ninguém podia
        Fazer pipi
        Porque penico
        Não tinha ali
        Mas era feita
        Com muito esmero
        Na Rua dos Bobos
        Número Zero.


Eu não existo sem você

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Editora Musical Arapuã


Eu sei que vou te amar

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha
vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Editora Musical Arapuã


 Garota de Ipanema

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Olha que coisa mais linda 
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar

Moça do
corpo dourado
Do sol de lpanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Tonga Editora Musical LTDA
Jobim Music


Se todos fossem iguais a você

Vinicius de Moraes , Antonio Carlos Jobim


Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor
Abre teus braços e canta a última
esperança
A esperança divina de amar em paz

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol, como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer

Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você

Ed. VM Empreendimentos
Jobim Music


Pela luz dos olhos teus

Vinicius de Moraes

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar

Tonga Editora Musical LTDA


Onde anda você

Vinicius de Moraes , Hermano Silva


E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam os seus olhos
Que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou morto
De tanto prazer

E por falar em beleza
Onde anda a canção
Que se ouvia na noite
Dos bares de então
Onde a gente ficava
Onde a gente se amava
Em total solidão

Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares
Onde anda você

Tonga Editora Musical LTDA



VINICIUS DE MORAES





ATIVIDADES:

ESTUDO DO TEXTO



SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


(Vinícius de Morais. Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. p. 269.)


canto: poesia.
louvor: elogio, exaltação.
pranto: choro.
pesar: tristeza, desgosto.
vão: insignificante, banal.
zelo: dedicação, cuidado.

Procure no dicionário outras palavras que você desconheça.


COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

1. A 1ª estrofe pode apresentar algumas dificuldades de compreensão. A fim de compreendê-la melhor, faça o que é pedido.

a) Ponha na ordem direta este trecho: “De tudo ao meu amor serei atento / antes”.
b) Explique o sentido da expressão ser atento (1º verso).
c) Indique a que se refere a expressão maior encanto (3º verso)?
d) Responda: Para o eu lírico, a fidelidade supõe exclusividade ou não?



2. Na 2ª estrofe, o eu lírico afirma que vai dedicar-se à pessoa amada nos mais diferentes momentos da vida.
a) Quais são esses momentos?
b) Segundo o texto, o amor e a fidelidade terão de passar por situações contraditórias, como sugere o verso “Ao seu pesar ou seu contentamento”. Que figura de linguagem se verifica nessa oposição de situações?



3. O poema pode ser visto como organizado em duas partes: a primeira, formada pelas duas quadras (estrofes de quatro versos); a segunda, pelos dois tercetos (estrofes de três versos). Observe as formas verbais presentes nessas partes:

1ª parte: “serei”, “quero viver”, “hei de espalhar”
2ª parte: “procure”, “possa”, “seja”, “dure”

a) Em que modo estão as formas verbais de cada uma das partes?
b) As formas verbais das duas partes expressam fatos que ainda virão a ocorrer. Em qual delas, porém, há a certeza de que esses fatos ocorrerão?
c) Em qual das partes as formas verbais dizem respeito a um plano hipotético, imaginário, possível?
d) Que expressão do texto confirma sua resposta anterior?


4. Na 3ª estrofe, dois versos apresentam paralelismo sintático, isto é, construção sintática semelhante.

Veja:
“Quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama”

Observe, agora, uma esquematização desses versos:
morte = angústia de quem vive
solidão = fim de quem ama

a) Qual é a função sintática das palavras angústia e fim?
b) Interprete esses dois versos: Por que, de acordo com o texto, a morte é a angústia de quem vive, e a solidão é o fim de quem ama?
c) Observe, na vertical, as relações do esquema. Levando-se em conta as ideias gerais do texto, por que se pode dizer que morte está para solidão, assim como angústia está para fim?


ü  Leitura

O “pra sempre”
sempre acaba?

O tema do amor eterno também foi abordado na música popular. A visão pessimista de Renato Russo sobre ele é demonstrada nestes versos:

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o pra sempre sempre acaba.

(Legião Urbana)



5. No plano hipotético, o eu lírico diz que “mais tarde”, quando estiver à beira da morte ou só, poderá dizer algo a si próprio sobre o amor. Observe que, no 1º verso da 4ª estrofe, o autor coloca entre parênteses a oração adjetiva que tive.

ü  Leitura

Antítese _ paradoxo

Qual é a diferença? A antítese aproxima, ao longo do texto, ideias opostas, mas sem criar entre elas uma unidade, como no caso de riso e pranto (2ª estrofe), uma vez que em determinado momento se ri, em outro se chora. Já o paradoxo expressa a convivência dos opostos, que formam uma unidade, como nestes versos de Camões, musicados pelo grupo Legião Urbana:

[Amor] é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer.

a) Se não houvesse essa oração acompanhando a palavra amor, o eu lírico estaria se referindo ao amor em geral (enquanto ideia) ou às suas experiências amorosas particulares?

b) E se essa oração não estivesse entre parênteses, a que tipo de amor o eu lírico estaria se referindo?
c) Dê uma interpretação coerente: A que tipo de amor se refere o eu lírico, considerando-se a forma como está escrito o verso?


6. Você já aprendeu que metáfora é a substituição de um termo por outro com base em uma comparação implícita, como ocorre neste verso de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver”.

No penúltimo verso do poema, o amor é conceituado por meio de uma metáfora.

a) Identifique-a.
b) Explique o sentido dela no contexto do poema.



7. O autor encerra o texto empregando um paradoxo, figura de linguagem que consiste na convivência de dois elementos opostos, que à primeira vista se excluem.

a) Identifique o paradoxo existente na última estrofe.
b) Explique o sentido dele no contexto do poema.



8. O poema se intitula “Soneto de fidelidade”. Qual ou quais dos itens seguintes traduzem melhor o conceito de fidelidade e de amor no texto?

a) Fidelidade é entrega total à pessoa amada e renúncia a outras possibilidades amorosas.
b) Fidelidade é uma exclusividade amorosa que deve durar para sempre.
c) O amor não é eterno, mas, enquanto dura, deve-se ser fiel a ele de forma intensa e qualitativamente infinita.
d) Só há fidelidade no amor quando ele é infinitamente duradouro, embora ele possa um dia acabar.


Ø  
A LINGUAGEM DO TEXTO

1. Na 1ª estrofe, o eu lírico faz uma jura de fidelidade. Para expressar sua dedicação a esse amor, emprega uma figura de linguagem, o polissíndeto, que consiste na repetição de uma conjunção.

a) Identifique o verso em que foi empregado o polissíndeto.
b) Que efeito de sentido o polissíndeto provoca no texto?


2. O “Soneto de fidelidade” é um dos mais populares poemas de nossa literatura. Uma das razões desse sucesso é a riqueza de imagens e de sons que ele apresenta. Além da metáfora, da antítese, do paradoxo e do polissíndeto, o autor emprega outras figuras de linguagem. Por exemplo, nos versos da 1ª estrofe, há uma constante repetição do fonema /t/: tudo, atento, Antes, tanto, encanto, encante, pensamento. Esse recurso é chamado de aliteração.

Indique outras situações do texto em que esse mesmo recurso tenha sido empregado.


3. No verso “E rir meu riso e derramar meu pranto”, a expressão rir meu riso constitui outra figura de linguagem.

a) Qual é ela e que efeito de sentido proporciona ao texto?
b) Que modificação deveria ser feita na expressão derramar meu pranto para que ela também constituísse a mesma figura?


Ø 
LEITURA EXPRESSIVA DO TEXTO

Nas duas opções de leitura indicadas a seguir, o poema deve ser lido lentamente, de modo a valorizar cada palavra e cada imagem. A leitura pode ser feita com um fundo musical, se possível de violão, e ao vivo. Expressões como rir meu riso e derramar meu pranto devem ser lidas de forma enfática, explorando a força das figuras de linguagem.  A expressão infinito enquanto dure (último verso) deve ser lida de forma pausada e enfática, destacando uma das ideias essenciais do texto.

1ª opção: Um aluno lê ou declama o poema.
2ª opção: Dois ou quatro alunos se revezam na declamação, de modo que cada um leia pelo menos uma estrofe.


Ø  Trocando ideias

1. O poema expressa um conceito de fidelidade amorosa.

a) Na sua opinião, é possível existir amor verdadeiro quando há infidelidade?
b) Como você lidaria com a infidelidade?


2. Você acha que o ciúme é natural e necessário no amor? O ciúme pode destruir um relacionamento amoroso?


3. Tanto na opinião de Vinícius de Morais quanto na de Renato Russo, o amor é chama, o “pra sempre sempre acaba”.
a) Você concorda com essa opinião ou defende um amor eterno?
b) O que você acha da ideia de Vinícius de que o amor deve ser infinito em intensidade?


4. Na sua opinião, qual é a fórmula de um relacionamento duradouro?


LEIA:


SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
        Silencioso e branco como a bruma
        E das bocas unidas fez-se a espuma
        E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
        Que dos olhos desfez a última chama
        E da paixão fez-se o pressentimento
        E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
        Fez-se de triste o que se fez amante
        E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
        Fez-se da vida uma aventura errante
        De repente, não mais que de repente.


(MORAES, Vinicius de op. Cit., p. 300-1.)



Compreendendo o sentido do texto “Soneto da separação”

1) Explique com suas palavras, em seu caderno, do que fala o soneto de Vinícius de Moraes.
2) Observando sua forma, responda: quantos versos têm o poema?
3) Quantas estrofes têm o poema? De quantos versos elas são compostas?
4) Há rimas no soneto? Anote as palavras que rimam em seu caderno.
5) Na sua opinião, quais são as imagens marcantes do poema?



Recados




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