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sábado, 16 de junho de 2012

A ALIANÇA, DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - INTERPRETAÇÃO E COMPREENSÃO DO GÊNERO TEXTUAL CRÔNICA

A aliança


Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.

— Você não sabe o que me aconteceu!

— O quê?

— Uma coisa incrível.

— O quê?

— Contando ninguém acredita.

— Conta!

— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?

— Não.

— Olhe.

E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.

— O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.

— Que coisa - diria a mulher, calmamente.

— Não é difícil de acreditar?

— Não. É perfeitamente possível.

— Pois é. Eu...

— SEU CRETINO!

— Meu bem...

— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.

— Mas, meu bem...

— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!

E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:

— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:

— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.

Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.

— O mais importante é que você não mentiu pra mim.

E foi tratar do jantar.



Luis Fernando Verissimo

Texto extraído do livro "As mentiras que os homens contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 37.

COMPREENDENDO O TEXTO

QUESTÃO 01

Assinale a alternativa que não estabelece relação com o texto.

a. Discute o cotidiano do casamento.
b. A aliança é tida como símbolo e garantia da fidelidade.
c. Evidencia um imaginário de mulher possessiva e controladora.
d. Discute a relação fidelidade x traição.
e. Questiona a dicotomia verdade x mentira.

QUESTÃO 02

Em “Eu sei o que aconteceu com essa aliança”, o termo “essa” é um pronome demonstrativo e foi usado segundo regras da gramática. Assinale a alternativa em que não se respeita a norma culta.

a. Essa carta, que está em minhas mãos, é um adeus, cansei de mentiras.
b. O marido chegou em casa e contou tudo à mulher; esta ficou furiosa.
c. A questão é esta: como acreditar em maridos?
d. Casamento é um problema, mas sobre isso não há o que fazer.
e. Há dois tipos de maridos: os sinceros e os dissimulados; estes se encontram com mais facilidade e aqueles estão em extinção.

QUESTÃO 03

Leia os enunciados.

I. “Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média”.

II. “... não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infantis. Mas o macaco do seu carro tamanho médio...”.

Com relação ao uso do mas e do mais, assinale a alternativa correta.

a. O marido chegou em casa atrasado, mais a esposa não se chateou.
b. Quando se briga com o marido, mas confusão se arruma.
c. O casamento tem momentos difíceis, mas vale a pena tentar.
d. Quantas vezes eu quis ir embora, mais você não deixou.
e. O excesso de ciúme estraga qualquer relação, mas que isso, está destruindo lares.



QUESTÃO 04

No enunciado “Também não tem nada a ver com a crise brasileira”, o operador também dá uma direção argumentativa de:

a. adição
b. causalidade
c. conclusão
d. mediação
e. oposição

QUESTÃO 05

Leia os enunciados.

A – “... e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão”.

B – Só aceito suas desculpas se você prometer não me trair novamente.

Os operadores argumentativos quando se estabelecem relação de:

a. causalidade e temporalidade.
b. temporalidade e condicionalidade.
c. justificação e condicionalidade.
d. comparação e mediação.
e. causalidade e modo.

QUESTÃO 06

O enunciado “E foi tratar do jantar” apresenta algumas informações subentendidas, exceto.

a. A mulher retornou a sua rotina.
b. Mesmo magoada, preferiu acreditar que o marido estava arrependido.
c. A mulher perdoou o marido.
d. Colocou uma pedra em cima do assunto.
e. Mais tarde retornará à discussão.

QUESTÃO 07

Analise as afirmativas abaixo.

I. “A mulher vivia em casa com as crianças” é um pressuposto de “E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações”.

II. “A mulher acreditou no marido” é um pressuposto de “O mais importante é que você não mentiu pra mim”.

III. “A mulher não estava no quarto” é um pressuposto de “Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta”.

IV. “A mulher não queria se separar do marido” é um pressuposto de “Ele chegou em casa sem dizer nada”.




Beijo: 6












GAROTO LINHA-DURA, DE STANISLAW PONTE PRETA - INTERPRETAÇÃO E COMPREENSÃO DO GÊNERO TEXTUAL CRÔNICA

GAROTO LINHA-DURA


Deu-se que Pedrinho estava jogando bola no jardim e, ao emendar a bola de bico por cima do travessão, a dita foi de contra uma vidraça e despedaçou tudo. Pedrinho botou a bola debaixo do braço e sumiu até a hora do jantar, com medo de ser espinafrado pelo pai.
Quando o pai chegou, perguntou à mulher quem quebrara o vidro e a mulher disse que foi Pedrinho, mas que o menino estava com medo de ser castigado, razão pela qual ela temia que a criança não confessasse o seu crime.
O pai chamou Pedrinho e perguntou:
— Quem quebrou o vidro, meu filho?
Pedrinho balançou a cabeça e respondeu que não tinha a mínima idéia. O pai achou que o menino estava ainda sob o impacto do nervosismo e resolveu deixar para depois.
Na hora em que o jantar ia para a mesa, o pai tentou de novo:
— Pedrinho, quem foi que quebrou a vidraça, meu filho? — E, ante a negativa reiterada do filho, apelou: — Meu filhinho, pode dizer quem foi que eu prometo não castigar você.
Diante disso, Pedrinho, com a maior cara-de-pau, pigarreou e lascou:
— Quem quebrou foi o garoto do vizinho.
— Você tem certeza?
— Juro.
Aí o pai se queimou e disse que, acabado o jantar, os dois iriam ao vizinho esclarecer tudo. Pedrinho concordou que era a melhor solução e jantou sem dar a menor mostra de remorso. Apenas — quando o pai fez ameaça — Pedrinho pensou um pouquinho e depois concordou.
Terminado o jantar o pai pegou o filho pela mão e — já chateadíssimo — rumou para a casa do vizinho. Foi aí que Pedrinho provou que tinha idéias revolucionárias. Virou-se para o pai e aconselhou:
— Papai, esse menino do vizinho é um subversivo desgraçado. Não pergunte nada a ele não. Quando ele vier atender a porta, o senhor vai logo tacando a mão nele.

(Stanislaw Ponte Preta. A palavra é… humor. Contos selecionados por Ricardo Ramos. São Paulo: Scipione, 1989. p. 84-6.)

COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

1. Depois que quebrou a vidraça jogando bola, Pedrinho sumiu até a hora do jantar “com medo de ser espinafrado pelo pai”. Na sua opinião, o menino realmente estava com medo? Justifique sua resposta.

Talvez não, pois ele vai jogar bola em outro lugar e na hora do jantar já está em casa.

2. O texto mostra uma situação familiar em que os pais desejam repreender uma falta do filho. A mãe sabia que Pedrinho tinha quebrado a vidraça, mas preferiu esperar o pai chegar. Por que você acha que ela própria não repreendeu o filho?

3. A forma como os pais educam os filhos varia muito, mas é possível dizer que existem dois modelos básicos de educação: um tradicional e outro moderno.
No modelo tradicional, os pais são mais duros com os filhos e dialogam pouco; o pai é a figura principal. Como você imagina que seja o modelo de educação moderno?

4. O pai de Pedrinho, ao saber da aprontação do menino, conversou com ele e disse:
“— Pedrinho, quem foi que quebrou a vidraça, meu filho? […] Meu filhinho, pode dizer quem foi que eu prometo não castigar você.”

a) Por esse trecho, pode-se dizer que o pai estava procurando seguir um modelo tradicional ou um modelo moderno de educação?

b) Por essa fala do pai de Pedrinho, pode-se concluir que ele já sabia quem era o culpado?
Por quê?

c) O pai de Pedrinho inicialmente chamou o filho de “meu filho” e depois de “meu filhinho”. O que o pai pretendia com isso?


5. Com a insistência de Pedrinho, “o pai se queimou e disse que, acabado o jantar, os dois iriam ao vizinho esclarecer tudo”. Depois, “chateadíssimo”, pegou o filho pela mão e “rumou para a casa do vizinho”.

a) Qual o sentido de se queimou nesse contexto? O pai ficou furioso, muito bravo, nervoso.

b) Por que, na sua opinião, o pai, mesmo antes de ir, já estava chateadíssimo?

6. Pedrinho, prevendo que o filho do vizinho o desmentiria, deu um conselho ao pai.
Por que, na sua opinião, podemos dizer que, em vez do vizinho, Pedrinho é que era um subversivo?

7. Quanto ao modelo de educação adotado pelos pais de Pedrinho, podemos tirar algumas conclusões.

a) Ele é tradicional (linha-dura), moderno (baseado no diálogo) ou uma mistura dos dois? Por quê?

b) Na sua opinião, que método o pai iria experimentar depois de sair da casa do vizinho? Por quê?




Beijo: 1















O PRIMEIRO DIA DE AULA, DE MARCELO COELHO - INTERPRETAÇÃO E COMPREENSÃO DO GÊNERO TEXTUAL CRÔNICA

O primeiro dia de aula

No texto que você vai ler, o narrador conta uma experiência difícil que teve no primeiro dia de aula na escola.
Vamos ver o que aconteceu com ele?

Elefantes

Meu primeiro dia na escola foi bem ruim. Hoje em dia as crianças não sabem direito como é o primeiro dia em que a gente entra na escola. Elas começam muito pequenas, com três anos estão no maternal. Comigo foi diferente. Eu já era meio grande. Tinha seis anos.

Imagine. Seis anos. Quer dizer que, desde que eu nasci, até ter seis anos, eu ficava em casa. Sem fazer nada. Brincava um pouco. Mas meus irmãos eram muitos mais velhos, e criei o costume de brincar sozinho. Era meio chato.

Até que chegou o dia de entrar na escola. Minha mãe foi logo avisando.

– Olha, Marcelo. Lá na escola, não pode ficar falando palavra feia. Bunda, cocô, xixi. Não usa essas palavras.

Tocaram a buzina. Era o ônibus da escola.

Eu estava de uniforme. Calça curta azul, camisa branca.

Eu tinha uma camisa branca que me dava sorte. Era uma com uma pintinha no colarinho. Gostava daquela pintinha preta. Mas no primeiro dia de aula justo essa camisa tinha ido lavar. Fui com outra. Que não dava sorte.

Bom, daí a aula começou, teve recreio, eu não conhecia ninguém, tirei um sanduíche da lancheira, o lanche sempre ficava com um gosto de plástico por causa da lancheira, mas eu não sabia disso ainda, porque era a primeira vez que eu usava lancheira, então tocou o sinal e fui de novo para a classe.

Até que deu certo no começo. A professora explicou alguma coisa sobre elefantes. Falou que eles tinham dentes grandes, e que esses dentes eram muito valiosos.

Então ela perguntou:

– Alguém sabe qual o nome dos dentes do elefante?

Vai ver que ela queria perguntar: “Qual o material precioso que é tirado das presas do elefante?”.

O fato é que eu sabia a resposta, e gritei:

– O marfim!
A professora me olhou muito contente. Os meus colegas também me olharam, mas não pareciam tão contentes.

Ela brincou:

– Puxa, você está afiado, hein?

Eu não respondi, mas fiquei inchado de alegria, como se fosse um elefantezinho. Dentes afiados.

Tinha sido um bom começo.

Mas aí vieram os problemas.

Fui ficando com a maior vontade de fazer xixi.

Segurei.

A professora continuava a falar sobre os elefantes.

Assunto mais louco para um primeiro dia de aula.
E a vontade de fazer xixi ia aumentando.

Cruzar as pernas não adianta nessa hora.

Olhei para um coleguinha no banco da frente. Tive inveja dele. Ele estava ali, tranquilo. Sem nenhum aperto. Como é que seria estar no lugar dele? Pedir para ser ele, pedir emprestado o corpo dele por algum tempo? Como alguém pode ficar sem vontade de fazer xixi? Sem nem pensar no problema?

Eu estava ficando meio desesperado. Eu era meio tímido também. Levantei a mão. A professora perguntou o que eu queria.

– Posso ir no banheiro?

– Espere um pouco, tá?

Ela devia estar achando muito importante aquela história toda sobre elefantes. Começou a explicar como os elefantes bebiam água. Eles enchiam a tromba, seguravam bem, e daí chuáá...

Levantei a mão de novo.

– Preciso ir no banheiro, professora...

Ela nem respondeu. Fez só um gesto com a mão. Para eu esperar mais.

Na certa, ela estava pensando que, no primeiro dia de aula, é importante não facilitar. Não dar moleza. Devia imaginar que todo mundo inventa que quer ir ao banheiro só para passear um pouco e não ficar ali assistindo aula.

Professora mais idiota.

Levantei a mão pela terceira vez.

Eu realmente não agüentava mais.

Só que a professora nem precisou responder.
Tinha tocado o sinal. Fim da aula.

Era só correr até o banheiro.

Levantei da carteira. A gente era obrigado a sair em fila.

Faltava pouco.

Claro que não deu.

Fiz xixi. Dentro da classe.

Logo eu, que nunca fui de fazer grandes xixis. Mas aquele foi fenomenal. Parecia um elefante. Coisa de fazer barulho no chão. Chuáá...

A professora chegou perto de mim.

– Você estava apertado? Por que não me avisou?

Eu não soube o que responder. Mas entendi algumas coisas.
A coisa mais óbvia é que, quando você tem vontade de fazer xixi, vai e faz. Dane-se a professora. Coisa mais idiota é ficar pedindo para alguém deixar a gente ir ao banheiro. Banheiro é assunto meu.

Outra coisa é que as pessoas, em geral, não ligam para o que a gente está sentindo. Para mim, a vontade de fazer xixi era a coisa mais importante do mundo. Para a professora, a coisa mais importante do mundo era ficar falando de elefantes.
É como se cada pessoa tivesse um filme dentro da cabeça. E só prestasse atenção nesse filme. Filme dos elefantes, filme do xixi.

Mais uma coisa. Quando a gente precisa muito, a gente tem de gritar para valer. Eu devia ter gritado:

– Professora, tenho de fazer xixi.

Ou, se quisesse evitar a palavra feia:

– Professora, tenho absoluta urgência de urinar.

Não seria bonito, mas até que seria certo dizer:

– Vou dar uma mijada, pô.

Mas o pior é ficar levantando a mão e dizendo baixinho:

– Professora, posso ir no banheiro?

Vai ver que eu estava falando tão baixo que ela nem escutou.

As pessoas nunca escutam muito bem o que a gente diz.

Uma última coisa.

Aquele xixi não teve importância nenhuma. Eu fiquei envergonhado. Ainda mais no primeiro dia de aula. Só que, alguns dias depois, o vexame tinha passado. Tudo ficou normal. Tive amigos e inimigos na classe, fiz lição, respondi chamada, e nem a professora, nem meus amigos, nem meus inimigos, ninguém se lembrou do meu xixi.

Sabe por quê? É por que já estava passando outro filme na cabeça deles. Cada pessoa tem outras coisas em que pensar: a briga que os pais estão tendo, o irmão mais velho que é chato, o presente que vai ganhar de aniversário...

Só eu liguei de verdade para o caso do xixi. As outras pessoas estão sempre tratando de assuntos mais sérios.  Elefantes, por exemplo.

Coelho, Marcelo. A professora de desenho. São Paulo: Companhia das Letrinhas,1995.

Toque biográfico

Marcelo Coelho nasceu em 1959, em São Paulo, e formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Foi professor universitário antes de dedicar-se à atividade jornalística no jornal Folha de S. Paulo. A partir de 1990 começou a assinar uma coluna semanal no caderno “Ilustrada”, onde publica suas crônicas. São de sua autoria os romances Noturno (1992) e Jantando com Melvin (1998). Ele também escreveu livros infantis.

Atividade 1

Essa história é narrada na primeira pessoa.

a) Qual é a primeira palavra que indica isso?

b) Que experiência o personagem nos conta, logo no primeiro parágrafo?


Atividade 2

No decorrer do texto, o narrador vai contando seus sentimentos em relação ao primeiro dia de aula. Liste alguns desses sentimentos.

Atividade 3

Por que, segundo o narrador, a professora não o deixou ir ao banheiro? Releia o texto e liste as suposições do autor.

Atividade 4

No texto, o narrador afirma que, quando um aluno precisa muito ir ao banheiro, devegritar para valer. E imagina três maneiras de dizer isso em aula.

a) Quais são elas?
b) Compare as três maneiras de falar, pensando na linguagem usada, na situação de interação e no falante.
c) Dê sua opinião: alguma dessas maneiras de falar é certa ou errada? Justifique sua resposta.




Beijo: 7


























O DIAMANTE - CRÔNICA DE FERNANDO SABINO E ESTUDO DO SUBSTANTIVO

O diamante

Em 1933 Jovelino, garimpeiro no interior da Bahia, concluiu que ali não havia mais nada a garimpar. Os filhos viviam da mão pra boca, Jovelino já não via jeito de conseguir com que prover o sustento da família. E resolveu se mandar para Goiás, onde Anápolis, a nova terra da promissão, atraia a cobiça dos garimpeiros de tudo quanto era parte, com seus diamantes reluzindo à flor da terra. Jovelino reuniu a filharada, e com a mulher, o genro, dois cunhados, meteu o pé na estrada.
Longa era a estrada que levava ao Eldorado de Jovelino: quase um ano consumiu ele em andança com a sua tribo, pernoitando em paióis de fazendas, em ranchos de beira de caminho, em chiqueiros e currais, onde quer que lhe dessem pasto e pousada.
Vai daí Jovelino chegou aos arredores de Anápolis depois de muitas luas e ali se estabeleceu, firme no cabo da enxada, cavando a terra e encontrando pedras que não eram diamantes. Daqui para ali, dali para lá, ano vai, ano vem, Jovelino existia de nômade com seu povinho cada vez mais minguando de fome. Comia como podia — e não podia. Vivia ao deus-dará — e Deus não dava. Quem me conta é o filho do fazendeiro de quem Jovelino de tornou empregado:
— Ao fim de dez anos ele concluiu que não encontraria diamante nenhum, e resolveu voltar com sua família para a Bahia onde a vida, segundo diziam, agora era melhorzinha. Não dava diamante não, mas o governo prometia emprego seguro a quem quisesse trabalhar.
Jovelino reuniu a família e botou pé na estrada, de volta à terra de nascença, onde haveria de morrer. Mais um ano palmilhado palmo a palmo em terra batida, vivendo de favor, Jovelino e sua obrigação, de vez em quando perdendo um, que isso de filho é criação que morre muito. Foi nos idos de 43.
— Chegou lá e se instalou no mesmo lugar de onde havia saído. Governo deu emprego não. Plantou sua rocinha e foi se aguentando, Até que um dia...
Até que um dia de noite Jovelino teve um sonho. Sonhou que amanhava a terra e de repente, numa certeira, a terra escorreu... A terra escorreu e aos seus olhos brilhou, reluziu, faiscou, resplandeceu um diamante soberbo, deslumbrante como uma imensa estrela no céu — como uma estrela no céu? Como o próprio olho de Deus! Jovelino olhou ao redor de seu sonho e viu que estava em Anápolis, no mesmo sítio em que tinha desenterrado a sua desilusão.
E para lá partiu, dia seguinte mesmo, arrastando sua cambada. Levou nisso um entreano, repetindo pernoites revividos, tome estrada! Deu por si em terra de novo goiana. Quem me conta é o filho do fazendeiro:
— Você precisava de ver o furor com que Jovelino procurou o diamante de seu sonho. A terra de Goiás ficou para sempre revolvida, graças à enxada dele. De vez em quando desmoronava, Jovelino ia ver, não era um diamante, era um calhau. Até que um dia...
— Encontrou? — perguntei, já aflito.
— Encontrou nada! Empregou-se na fazenda de meu pai, o tempo passou, os filhos crescidos lhe deram netos, a mulher já morta e enterrada, livre dos cunhados, os genros bem arranjados na vida. Um deles é coletor em Goiânia.
O próprio Jovelino, entrado em anos, era agora um velho sacudido e bem disposto, que tinha mais o que fazer do que cuidar de garimpagens. Mas um dia não resistiu: passou a mão na sua enxada, e sem avisar ninguém, o olhar reluzente de esperança, partiu à procura do impossível, do irreal, do inexistente diamante de seu sonho.

Fernando Sabino. Deixa o Alfredo Falar! Rio de Janeiro, Record, 1979.

LENDO E CONVERSANDO

1.  Observe esse texto. Identifique o que está escrito no título. Veja o nome do autor apresentado no final do texto. Você já leu outras histórias que ele escreveu? Veja o nome do livro de onde ele foi tirado. De que assunto trata Escreva sobre isso. Anote as informações abaixo:

Nome do livro:
Título do texto:
Gênero textual:
Nome do autor:
Editora:                      Local:                                     
Edição:                        Data:

2. O que o texto conta?

3. Quem é a personagem principal da história?
a.        Quais suas características?

4. Onde se passa a história?
a.  Descreva o ambiente onde vive a personagem.

5. Observe o último parágrafo da crônica:

“O próprio Jovelino, entrado em anos, era agora um velho sacudido e bem disposto, que tinha mais o que fazer do que cuidar de garimpagens. Mas um dia não resistiu: passou a mão na sua enxada, e sem avisar ninguém, o olhar reluzente de esperança, partiu à procura do impossível, do irreal, do inexistente diamante de seu sonho.”
O que aconteceu no final da história?


COMPREENDENDO O TEXTO

6.       No início do texto, o autor afirma, em outras palavras, que:
A (    ) Jovelino reuniu a família e foi-se embora para Goiás.
B (    ) Jovelino não conseguia sustentar a família.
C (    ) Jovelino morava em Goiás.
D (    )Jovelino era um retirante.

7.       Jovelino pôs o pé na estrada porque:
A (    ) Anápolis atraía a cobiça dos garimpeiros;
B (    ) queria tornar-se um retirante;
C (    ) precisava trabalhar para sustentar a família;
D (    ) a Bahia era uma terra muito hostil.

8.       “... depois de muitas luas” significa:
A (    ) muita claridade
B (    ) muito tempo
C (    ) distraído
D (    ) muitos meses

9. Em “Daqui para ali, dali para lá, ano vai, ano vem (...)”,
subentende-se:
A (    ) que Jovelino e a família gostavam de conhecer terras;
B (    ) que Jovelino e a família eram nômades;
C (    ) que Jovelino e a família eram viajantes;
D (    ) que Jovelino e a família não conseguiam estabelecer-se num
só lugar.

10.   Jovelino e a família, ao saírem do interior da Bahia:
A (    ) estabeleceram-se em Goiás;
B (    ) cavando a terra, encontraram diamantes;
C (    ) continuaram a passar fome;
D (    ) meteram o pé na estrada, minguados de fome.

11.   “Anápolis atraía a cobiça dos garimpeiros”, pois:
A (    ) eles chegavam de tudo que era parte;
B (    ) era a nova terra da promissão;
C (    ) lá havia muitos diamantes;
D (    ) a família de Jovelino precisava trabalhar.

12.   No texto, há alguns exemplos de:
A (    ) substantivos sobrecomuns.
B (    ) substantivos abstratos.
C (    ) substantivos compostos.
D (    ) substantivos próprios.

13. “Daqui para ali, dali para lá, ano vai, ano vem”, nos dá ideia
de:
A (    ) mudança de lugar e mudança de tempo.
B (    ) mudança de rumo e mudança de lugar.
C (    ) mudança de lugar e passagem de tempo.
D (    ) passagem de tempo e de lugar.

14. Jovelino partiu para Goiás:
A (    ) sozinho.
B (    ) com a família toda.
B (    ) com a mulher.
D (    )com os filhos.

15. “Em 1933, Jovelino, garimpeiro no interior da Bahia”. A
expressão grifada funciona como:
A (    ) um vocativo
B (    ) um aposto
C (    ) um complemento nominal
D (    ) um adjunto adnominal

16. Em “Vai daí, Jovelino chegou aos arredores de Anápolis
depois de muitas luas e ali se estabeleceu”, a palavra grifada é:
A (    ) aposto
B (    ) vocativo
C (    ) sujeito
D (    ) predicativo

ESTUDOS GRAMATICAIS

Atente para algumas palavras desse texto:

Jovelino → nome de pessoa
Goiás⁄Anápolis → nomes de lugares
sustento ⁄promissão→  nomes de ações
enxada → nome de objeto
ano → nome de um período de tempo
fome → nome de uma sensação física
cobiça → nome de um sentimento


17. Todas essas palavras são: _________________________________.

18. Observe o modelo e classifique os substantivos destacados com estes critérios: comum ou próprio, concreto ou abstrato, primitivo ou derivado, simples ou composto. Marque as colunas com suas classificações.

Loteria dos substantivos


Simples
Composto
Comum
Próprio
Primitivo
Derivado
Abstrato
Concreto
Coletivo
Garimpagens
X

X


X
X


Jovelino









Enxada









Olhar









Esperança









Diamante









Turma









Pedreiro









Passatempo












Beijo: 8





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