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sábado, 16 de junho de 2012

A ALIANÇA, DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - INTERPRETAÇÃO E COMPREENSÃO DO GÊNERO TEXTUAL CRÔNICA

A aliança


Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.

— Você não sabe o que me aconteceu!

— O quê?

— Uma coisa incrível.

— O quê?

— Contando ninguém acredita.

— Conta!

— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?

— Não.

— Olhe.

E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.

— O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.

— Que coisa - diria a mulher, calmamente.

— Não é difícil de acreditar?

— Não. É perfeitamente possível.

— Pois é. Eu...

— SEU CRETINO!

— Meu bem...

— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.

— Mas, meu bem...

— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!

E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:

— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:

— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.

Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.

— O mais importante é que você não mentiu pra mim.

E foi tratar do jantar.



Luis Fernando Verissimo

Texto extraído do livro "As mentiras que os homens contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 37.

COMPREENDENDO O TEXTO

QUESTÃO 01

Assinale a alternativa que não estabelece relação com o texto.

a. Discute o cotidiano do casamento.
b. A aliança é tida como símbolo e garantia da fidelidade.
c. Evidencia um imaginário de mulher possessiva e controladora.
d. Discute a relação fidelidade x traição.
e. Questiona a dicotomia verdade x mentira.

QUESTÃO 02

Em “Eu sei o que aconteceu com essa aliança”, o termo “essa” é um pronome demonstrativo e foi usado segundo regras da gramática. Assinale a alternativa em que não se respeita a norma culta.

a. Essa carta, que está em minhas mãos, é um adeus, cansei de mentiras.
b. O marido chegou em casa e contou tudo à mulher; esta ficou furiosa.
c. A questão é esta: como acreditar em maridos?
d. Casamento é um problema, mas sobre isso não há o que fazer.
e. Há dois tipos de maridos: os sinceros e os dissimulados; estes se encontram com mais facilidade e aqueles estão em extinção.

QUESTÃO 03

Leia os enunciados.

I. “Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média”.

II. “... não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infantis. Mas o macaco do seu carro tamanho médio...”.

Com relação ao uso do mas e do mais, assinale a alternativa correta.

a. O marido chegou em casa atrasado, mais a esposa não se chateou.
b. Quando se briga com o marido, mas confusão se arruma.
c. O casamento tem momentos difíceis, mas vale a pena tentar.
d. Quantas vezes eu quis ir embora, mais você não deixou.
e. O excesso de ciúme estraga qualquer relação, mas que isso, está destruindo lares.



QUESTÃO 04

No enunciado “Também não tem nada a ver com a crise brasileira”, o operador também dá uma direção argumentativa de:

a. adição
b. causalidade
c. conclusão
d. mediação
e. oposição

QUESTÃO 05

Leia os enunciados.

A – “... e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão”.

B – Só aceito suas desculpas se você prometer não me trair novamente.

Os operadores argumentativos quando se estabelecem relação de:

a. causalidade e temporalidade.
b. temporalidade e condicionalidade.
c. justificação e condicionalidade.
d. comparação e mediação.
e. causalidade e modo.

QUESTÃO 06

O enunciado “E foi tratar do jantar” apresenta algumas informações subentendidas, exceto.

a. A mulher retornou a sua rotina.
b. Mesmo magoada, preferiu acreditar que o marido estava arrependido.
c. A mulher perdoou o marido.
d. Colocou uma pedra em cima do assunto.
e. Mais tarde retornará à discussão.

QUESTÃO 07

Analise as afirmativas abaixo.

I. “A mulher vivia em casa com as crianças” é um pressuposto de “E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações”.

II. “A mulher acreditou no marido” é um pressuposto de “O mais importante é que você não mentiu pra mim”.

III. “A mulher não estava no quarto” é um pressuposto de “Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta”.

IV. “A mulher não queria se separar do marido” é um pressuposto de “Ele chegou em casa sem dizer nada”.




Beijo: 6



























































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