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quinta-feira, 28 de julho de 2011

NOTÍCIA DE JORNAL, DE FERNANDO SABINO

Notícia de jornal

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.

Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome.

Fernando Sabino. A mulher do vizinho. 17 ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.



COMPREENDENDO O TEXTO

1.  Destaque, no texto, trechos que evidenciem a indiferença social.

2.   Dentre os trechos destacados, transcreva aquele que retrate a imagem que lhe pareceu mais impressionante.

3.  Explique a intenção do autor na insistente repetição da informação “morreu de fome”.

4.  “O comissário de plantão (um home) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância,...”.
Explique a intenção do narrador, inserindo as informações constantes dos parênteses.

5.  Em equipes, pesquisem, em jornais e revistas, reportagens que apresentem como características a indiferença social. Em seguida, elaborem um cartaz relativo a essas notícias com os dados sobre a publicação (fonte e data) e apresentem-no à turma.

6.  O texto “Notícia de jornal” é uma crônica. Ele pode ter sido escrito com base na leitura de alguma notícia. No entanto, a crônica se diferencia da notícia, porque o narrador se envolve e, por meio do uso especial da linguagem, expressa os seus sentimentos. Em verdade, ele quer mostrar a frieza do mundo, diante daquela morte, e o conflito dele, dividido entre a questão humana e a própria omissão.

No entanto, caso tivéssemos a notícia jornalística, que precedeu essa crônica, ele se caracterizaria por uma linguagem objetiva, centrada na informação e não nos sentimentos do narrador.

a)   Em equipes, pesquisem, em alguma notícia selecionada para cartaz, aspectos da linguagem objetiva, respondendo às seguintes questões: quem, quando, onde e o quê.
b)  Escreva a notícia correspondente à crônica “Notícia de jornal”, completando os dados que faltam e atribuindo-lhe um título.

7.  Ninguém morre de fome de um dia para o outro.
Pesquise, em fontes científicas, o processo de perdas gradativas a que a pessoa se expõe até morrer em função da fome. Essa pesquisa pode ser feita em livros ou por meio de entrevistas com pessoas ligadas à área médica. Produza um texto com as informações obtidas e apresente o trabalho por escrito.

Recados















































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