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domingo, 10 de abril de 2011

CRÔNICAS DE HUMOR, DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

1 - Minhas Férias

Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã (Su) e meu cachorro (Dogman) fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã (Su) e o meu cachorro (Dogman) nascemos em apartamento, e, até cinco anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava “aquele fugiu!” e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu os preços dos hotéis, apesar da minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e minha irmã (Su) insistir em levar o toca-disco e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã (Su) muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro (Dogman) gostamos porque o meu pai disse que nós íamos pescar, e cozinhar nós mesmos o peixe pescado no fogo, e comer o peixe com as mãos, e se há uma coisa que eu gosto é confusão. Foi muito engraçado o dia em que minha mãe abriu a porta do carro bem devagar, espiando embaixo do banco com cuidado e perguntando “será que não tem cobra?”, e o meu pai perdeu a paciência e disse “entra no carro e vamos embora”,, porque nós ainda nem tínhamos saído da garagem do edifício. Na estrada tinha tanto buraco que o carro quase quebrou, e nós atrasamos, e quando chegamos no lugar do camping já era noite, e o meu pai disse “este parece ser um bom lugar, com bastante grama e perto da água”, e decidimos deixar para armar a barraca no dia seguinte e dormir dentro do carro mesmo; só que não conseguimos dormir, porque o meu cachorro (Dogman) passou a noite inteira querendo sair do carro, mas a minha mãe não deixava abrirem a porta, com o medo de cobra; e no dia seguinte tinha a cara feia de um homem nos espiando pela janela, porque nós tínhamos estacionado o carro no quintal da casa dele, e a água que o meu pai viu era a piscina dele e tivemos que sair correndo. No fim conseguimos um bom lugar para armar a barraca, perto de um rio. Levamos dois dias para armar a barraca, porque a minha mãe tinha usado o manual de instruções para limpar umas porcarias que meu cachorro (Dogman) fez dentro do carro, mas ficou bem legal, mesmo que o zíper da porta não funcionasse e para entrar ou sair da barraca a gente tivesse que desmanchar tudo e depois armar de novo. O rio tinha um cheiro ruim, e o primeiro peixe que nós pescamos já saiu da água cozinhando, mas não deu para comer, e o melhor de tudo é que choveu muito, e a água do rio subiu, e nós voltamos pra casa flutuando, o que foi muito melhor que voltar pela estrada esburacada; quer dizer que no fim tudo deu certo.

Veríssimo, Luis FernandoO Santinho. Rio de Janeiro. Objetiva


2 - Inimigos

“O apelido de Maria Tereza, para Norberto, era ‘Quequinha’. Depois do casamento, sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Norberto pegava na sua mão, carinhosamente, e começava:

- Pois a Quequinha...

E a Quequinha, dengosa, protestava:

-Ora, Beto!

Com o passar do tempo o Norberto deixou de chamar a Maria Tereza de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia:

-A mulher aqui...

Ou, ás vezes:

-Esta mulherzinha...

Mas nunca mais Quequinha.

(O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca o silêncio. O tempo usa armas químicas.)

Com o tempo, Norberto passou a tratar a mulher por Ela.

-Ela odeia o Charles Brason.

-Ah, não gosto mesmo.

Deve-se dizer que o Norberto, a esta altura, embora a chama-se de Ela, ainda usava um vago gesto de mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer ‘essa ai’ e a apontava com o queixo.

- Essa ai...

E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém.

(O tempo, o tempo. Tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois cura)

Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, O Norberto nem olha na direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz:

- Aquilo...”

VERÍSSIMO, Luis FernandoNovas comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996.


3 - A bola

O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar sua primeira bola do pai. U número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “legal” Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, á procura de alguma coisa.

- Como é que liga?_ Perguntou.

- Como, como é que liga? Não se liga.

O garoto procurou dentro do papel de embrulho.

- Não tem manual de instrução?

O pai começou a desanimar e pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.

- Não precisa manual de instrução.

- O que é que ela faz?

- Ela não faz nada, você é que faz coisas com ela.

- O quê?

- Controla, chuta...

- Ah, então é uma bola.

Uma bola, bola. Uma bola mesmo. Você pensou que fosse o quê?

- Nada, não.

O garoto agradeceu, disse “legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da TV, com a bola do seu lado, manejando os controles do vídeo game. Algo chamado Monster Ball, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de Blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio. Estava ganhando da máquina.

O pai pegou a bola nova e ensinou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.

- Filho, olha.

O garoto disse “legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e o cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro do couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa idéi8a, pensou. Mas em inglês pra garotada se interessar.

Veríssimo, Luis FernandoA bola. Comédias da vida privada; edição especial para as escolas. Porto Alegre: L&PM, 1996. P. 96-7


4 - Peça Infantil

A professora começa a se arrepender de ter concordado (“Você é a única que tem temperamento para isto”) em dirigir a peça quando uma das fadinhas anuncia que precisa fazer xixi. É como um sinal. Todas as fadinhas decidem que precisam, urgentemente, fazer xixi.

- Está bem, mas só as fadinhas – diz a professora. – E uma de cada vez!

Mas as fadinhas vão em bando para o banheiro.

- Uma de cada vez! Uma de cada vez! E você, onde é que pensa que vai?

- Ao banheiro.

- Não vai não.

Mas tia.

- Em primeiro lugar, o banheiro já está cheio. Em segundo lugar, você não é fadinha, é caçador. Volte para o seu lugar.

- Um pirata chega atrasado e com a notícia de que sua mãe não conseguiu terminar a capa. Serve a toalha?

- Não. Você vai ser o único de capa branca. É melhor tirar o tapa-olho e ficar de anão. Vai ser um pouco engraçado, oito anões, mas tudo bem. Porque você está chorando?

- Eu não quero ser anão.

- Então fica de lavrador.

- Posso ficar com o tapa-olho?

- Pode. Um lavrador de tapa-olho. Tudo bem.

- Tia, onde é que eu fico?

É uma margarida.

- Você fica ali.

A professora se dá conta de que as margaridas estão desorganizadas.

- Atenção, margaridas! Todas ali. Você não. Você é coelhinho.

Mas o meu nome é margarida.

- Não interessa! Desculpe, a tia não quis gritar com você. Atenção, coelhinhos. Todos comigo. Margaridas ali, coelhinhos aqui. Lavradores daquele lado, árvores atrás. Arvore, tira o dedo do nariz. Onde é que estão as fadinhas? Que xixi mais demorado.

- Eu vou chamar.

- Fique onde está, lavrador. Uma das margaridas vai chamá-las.

- Já vou.

- Você não, Margarida! Você é coelhinho. Uma das margaridas. Você. Vá chamar as fadinhas. Piratas, fiquem quietos.

- Tia, o que é que eu sou? Eu esqueci o que eu sou.

- Você é o sol. Fica ali que depois a tia... Piratas, por favor!

As fadinhas começaram a voltar. Com problemas. Muitas se enredaram nos seus véus e não conseguem arrumá-los. Ajudam-se mutuamente, mas no seu nervosismo só pioraram a confusão.

- Borboletas, ajudem aqui – pede a professora.

Mas as borboletas não ouvem. As borboletas estão etéreas. As borboletas fazem poses, fazem esvoaçar seus próprios véus não ligam para o mundo. A professora, com a ajuda de um coelhinho amigo, de uma árvore e de um camponês, desembaraça os véus das fadinhas.

- Piratas, parem. O próximo que der um pontapé vai ser anão.

Desastre: quebrou uma ponta da lua.

- Como é que você conseguiu fazer isso? – perguntou a professora sorrindo, sentindo que o seu sorriso deve parecer demente.

- Foi ela!

A acusada é uma camponesa gorda que gosta de distribuir tapas entre os seus inferiores.

- Não tem remédio. Tira isso da cabeça e fica com os anões.

- E a minha Frase?

A professora tinha esquecido. A Lua tem uma fala.

- Quem diz a frase da Lua é, deixa eu ver... O relógio.

- Quem?

- O relógio. Cadê o relógio?

- Ele não veio.

- O quê?

- Está com caxumba.

- Ai, meu Deus. Sol, você vai ter que falar pela Lua. Sol, está me ouvindo?

- Eu?

- Você, sim senhor. Você sabe a fala da Lua?

- Me deu uma dor de barriga.

- Essa não é frase da Lua.

- Me deu mesmo, tia. Tenho que ir embora.

- Está bem, está bem. Quem diz a frase da Lua é você.

- Mas eu sou caçador.

- Eu sei que você é caçador! Mas diz a frase da Lua! E não quero discussão!

- Mas eu não sei a frase da Lua.

- Piratas, parem!

- Piratas, parem. Certo.

- Eu não estava falando com você. Piratas, de uma vez por todas...

A camponesa gorda resolve tomar a justiça nas mãos e dá um croque num pirata. A classe é unida e avança contra a camponesa, que recua, derrubando uma árvore. As borboletas esvoaçam. Os coelhinhos estão em polvorosa. A professora grita:

- Parem! Parem! A cortina vai abrir. Todos a seus lugares. Vai começar!

- Mas, tia, e a frase da Lua?

- “Boa noite, Sol”.

- Boa noite.

- Eu não estou falando com você!

- Eu não sou mais o Sol?

- É. Mas eu estava dizendo a frase da Lua. “Boa noite, Sol.”

- Boa noite, Sol. Boa noite, Sol. Não vou esquecer. Boa noite, Sol...

- Atenção, todo mundo! Piratas e anões nos bastidores. Quem fizer um barulho antes de entrar em cena, eu esgoelo. Coelhinhos nos seus lugares. Árvores, para trás. Fadinhas, aqui. Borboletas, esperem a deixa. Margaridas, no chão.

Todos se preparam.

Você não, Margarida! Você é coelhinho!

Abre o pano.

Veríssimo, Luís FernandoFesta de criança. Para Gostar de Ler Júnior. São Paulo: Ática,


5 - PAPOS

“- Me disseram...

- Disseram-me

- Hein?

- O correto é ‘disseram-me’. Não ‘me disseram’.

- Eu falo como quero. E ti digo mais... Ou ‘digo-te’?

- O quê?

- Digo-te que você...

- O ‘te’ e o ‘você’ não combinam.

- Lhe digo?

- Também não. O que você ia me dizer?

- Que você ta sendo grosseiro, pedante e chato. E que vou ti partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?

- Partir-te a cara.

- Pois é. Partir-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.

- É para o seu bem.

- Dispenso as suas correções. Vê se esquece- me. Falo como bem entender. Mas uma correção e eu...

- O quê?

- O mato.

- Que mato?

- Mato-o. Mato-lhe. Matar- lhe- ei- te. Ouviu bem?

- Eu só estava querendo...

- Pois esqueça- o e pára- te. Pronome no lugar certo é para elitismo.

- Se você prefere falar errado...

- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem- me?

- No caso... Não sei.

- Ah, não sabes? Não o sabes? Sabes- lo não?

- Esquece.

- Não. Como ‘esquece’ ou ‘esqueça’? Ilumine- me. Mo diga. Ensines- lo- me, Vamos.

- Depende.

- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar- me- lo- ias se o soubesse, mas não sabes-o.

- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.

- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que me dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-eia.

- Por quê?

- Porque, como todo esse papo, esqueci-lo.”

Veríssimo, Luis FernandoNovas comédias da vida pública – a versão dos afogados. Porto Alegre: L&PM, 1997.


6 - O ATOR

O Homem chega em casa, abre a porta e é recebido pela mulher e os filhos, alegremente. Distribui beijos entre todos, pergunta o que há para jantar e dirige-se para o seu quarto. Vai tomar banho, trocar de roupa e preparar-se para algumas horas de sossego na frente da televisão antes de dormir. Quando está abrindo a porta do seu quarto ouve uma voz que grita:

- Corta!

O homem olha em volta, atônito. Descobre que sua casa não é sua casa, é um cenário. Vem alguém e tira o jornal e a pasta das suas mãos. Uma mulher vem ver se a sua maquiagem está bem e põe um pouco de pó em seu nariz. Aproxima-se um homem com um script na mão dizendo que ele errou uma das falas na hora de beijar as crianças.

- O que é isso? – pergunta o homem. – Quem são vocês? O que estão fazendo dentro da minha casa? Que luzes são essas?

O que, enlouqueceu? – pergunta o diretor. – Vamos ter que repetir a cena. Eu sei que você está cansado, mas...

Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama. Saiam da minha casa. Não sei quem são vocês, mas saiam todos! Saiam!

O diretor fica de boca aberta. Toda a equipe fica em silêncio, olhando para o ator. Finalmente o diretor levanta a mão e diz:

- Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e ...

- Estava coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha família! O que vocês fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos!

O homem sai correndo entre os fios e os refletores, à procura da família. O diretor e um assistente tentam segurá-lo. E, então, ouve-se uma voz que grita:

- Corta!

Aproxima-se outro homem com um script na mão. O homem descobre que o cenário, na verdade, é um cenário. O homem com um script na mão diz:

- Está bom, mas acho que você precisa ser mais convincente.

- Que- quem é você?

- Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Você tem que transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e descobre que sua casa não é uma casa, é um cenário. Descobre que está no meio de um filme. Não entende nada.

- Não entendo...

- Fica desconcertado. Não sabe se enlouqueceu ou não.

- Eu devo estar louco. Isto não pode estar acontecendo. Onde está minha mulher? Os meus filhos? A minha casa?

- Assim está melhor. Mas espere até começarmos a rodar. Volte para sua marca. Atenção, lues...

- Mas que marca? Eu não sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ninguém me dirige. Eu estou na minha própria casa, dizendo as minhas próprias falas...

- Boa, boa. Você está fugindo um pouco do script, mas está bom.

- Que script? Não tem script nenhum. Eu digo o que quiser. Isto não é filme. E mais, se é um filme, é uma porcaria de filme. Isto é simbolismo ultrapassado. Essa de que o mundo é um palco, que tudo foi predeterminado, que não somos mais do que atores... Porcaria!

- Boa, boa. Está convincente. Mas espere começar a filmar. Atenção...

O homem agarra o diretor pela frente da camisa.

- Você não vai filmar nada! Está ouvindo? Nada! Saia da minha casa.

O diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo chão. Nisto ouve-se uma voz que grita:

- Corta!

Veríssimo, Luis Fernando. Comédias da vida privada: crônicas escolhidas. 19. Ed. Porto Alegre: L&PM, 1996. P. 194-95.


7 - O nariz

Era um dentista respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes, mas de uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sobrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa de almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.

- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.

- Isto o quê?

- Esse nariz.

- Ah, vi numa vitrina, entrei e comprei.

- Logo você, papai...

Depois do almoço ele foi recostar-se no sofá da sala como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.

- Tire esse negócio.

- Por quê?

- Brincadeira tem hora.

- Mas isto não é brincadeira.

Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou:

- Aonde é que você vai?

- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.

- Mas com esse nariz?

- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova, você não diria nada. Só porque é um nariz...

- Pense nos vizinhos. Pense nos clientes.

Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor...”), fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.

- Ele enlouqueceu?

- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi “ele” assim.

Naquela noite, ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois, vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.

- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.

Vou. Aliás, não vou mais tirar este nariz.

- Mas, por quê?

- Porque não!

Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.

- Papai...

- Sim, minha filha.

- Podemos conversar?

- Claro que podemos.

- É sobre esse seu nariz...

- O meu nariz, outra vez? Mas vocês só pensam nisso?

- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra, um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?

- O nariz é meu e vou continuar a usar.

- Mas por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.

- Não tem porque não quer...

- Como é que ela vai à rua com um homem de nariz postiço?

- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença. Se não faz nenhuma diferença, por que não usar?

- Mas, mas...

- Minha filha.

- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!

A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.

- Você vai concordar – disse o psiquiatra depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho...

- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento do meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar. Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do fluminense, tudo como antes. Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?

- É... – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão...

O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar o nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.

Veríssimo, Luís FernandoO nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.p.73-74. Coleção para gostar de ler.


8 - Brincadeira

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:

- Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

- Como é que você soube?

- Não interessa. Sei de tudo.

- Me faz um favor. Não espalha.

- Vou pensar.

- Por amor de Deus.

- Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

- Sei de tudo.

- Co- como?

- Sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

- Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

- Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:

- Está bem, você sabe. E daí?

- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.

- Se você contar para alguém, eu...

- Depende de você.

- De mim, como?

- Se você andar na linha, eu não conto.

- Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

- Eu sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

- Não sei. O que é que você sabe?

- Não se faz de inocente.

- Mas eu realmente não sei.

- Vem com essa.

- Você não sabe de nada.

- Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?

- Não existe nada.

- Olha que eu vou espalhar...

- Pode espalhar que é mentira.

- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?

- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.

- Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.

- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.

- Aquilo o quê?

- Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

- Você contou para alguém?

- Ainda não.

- Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.

- Por que eu? – quis saber.

- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.

- Por quê?

- Pela sua descrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:

- Sei de tudo.

- Co- como?

- Sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que a voz que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:

- Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.

Sabia demais.

(Luis Fernando VeríssimoComédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1995. P. 189-91.)


9 - O estranho procedimento de dona Dolores

Começou na mesa do almoço. A família estava comendo – pai, mãe, filho e filha – e de repente a mãe olhou para o lado, sorriu e disse:

- Para a minha família, só serve o melhor. Por isso eu sirvo arroz Rizobon. Rende mais e é mais gostoso.

O pai virou-se rapidamente na cadeira para ver com quem a mulher estava falando. Não havia ninguém.

- O que é isso, Dolores?

- Tá doida, mãe?

Mas dona Dolores parecia não ouvir. Continuava sorrindo. Dali a pouco levantou-se da mesa e dirigiu-se para a cozinha. Pai e filhos se entreolharam.

- Acho que a mamãe pirou de vez.

- Brincadeira dela...

A mãe voltou da cozinha carregando uma bandeja com cinco taças de gelatina.

- Adivinhem o que tem de sobremesa?

Ninguém respondeu. Estavam constrangidos por aquele tom jovial de dona Dolores, que nunca fora assim.

- Acertaram! – exclamou dona Dolores, colocando a bandeja sobre a mesa. – Gelatina Quero Mais, uma festa em sua boca. Agora com os novos sabores framboesa e maga.

O pai e os filhos começaram a comer a gelatina, um pouco assustados. Sentada à mesa, dona Dolores olhou de novo para o lado e disse:

- Bote esta alegria na sua mesa todos os dias. Gelatina Quero Mais. Dá gosto comer!

Mais tarde o marido de Dona Dolores entrou na cozinha e a encontrou segurando uma lata de óleo à altura do rosto e falando para uma parede.

- A saúde da minha família em primeiro lugar. Por isto, aqui em casa só uso o puro óleo Paladar.

- Dolores...

Sem olhar par o marido, dona Dolores o indicou com a cabeça.

- Eles vão gostar.

O marido achou melhor não dizer nada. Talvez fosse caso de chamar um médico. Abriu a geladeira, atrás de uma cerveja. Sentiu que dona Dolores se colocava atrás dele. Ela continuava falando para a parede.

- Todos encontram tudo o que querem na nossa Gelatec, agora com pratileiras superdimensionadas, gavetas em Vidro - Glass e muito, mas muito mais espaço. Nova Gelatec Espacial, a cabe - tudo.

- Pare co isso, Dolores.

Mas dona Dolores não ouvia.

Pai e filhos fizeram uma reunião secreta, aproveitando que dona Dolores estava na frente da casa, mostrando para uma platéia invisível as vantagens de uma nova tinta de paredes.

- Ela está nervosa, é isso.

- Claro. É uma fase. Passa logo.

- É melhor nem chamar a atenção dela.

- Isso. É nervos.

Mas dona Dolores não parecia nervosa. Ao contrário, andava muito calma. Não parava de sorrir para seu público imaginário. E não podia passar por membro da família sem virar-se para o lado e fazer um comentário afetuoso:

- Todos andam muito mais alegres desde que eu comecei a usar Limpol nos ralos.

Ou:

- Meu marido também passou a usar desodorante Silvester. E agora todos aqui em casa respiram aliviados.

Apesar do seu ar ausente, dona Dolores não deixava de conversar com o marido e com os filhos.

- Vocês sabiam que o laxante Vida Mansa agora tem dois ingrediente recém-desenvolvidos pela ciência que o tornam duas vezes mais eficiente?

- O quê?

- Sim, os fabricantes de Vida Mansa não descansam para que você possa descansar.

- Dolores...

Mas dona Dolores estava outra vez virada para o lado, e sorrindo:

- Como esposa e mãe, eu sei que minha obrigação é manter a regularidade da família. Vida Mansa, uma mãozinha da ciência à natureza. Experimente!

Naquela noite o filho levou um susto. Estava escovando os dentes quando a mãe entrou de surpresa no banheiro, pegou a sua pasta de dente e começou a falar para o espelho.

- Ele tinha horror de escovar os dentes até que eu segui o conselho do dentista, que disse a palavra mágica: Zaz. Agora escovar os dentes é um prazer, não é, Jorginho?

- Mãe, eu...

- Diga você também a palavra mágica. Zaz! O único com HXO.

O marido de dona Dolores acompanhava, apreensivo, da cama, o comportamento da mulher. Ela estava sentada na frente do toucador e falando para uma câmara que só ele via, enquanto passava creme no rosto.

- Marcel de Paris não é apenas um creme hidratante. Ele devolve à sua pele o fresco que o tempo levou, e que parecia perdido para sempre. Recupere o tempo perdido com Marcel de Paris.

Dona Dolores caminhou, languidamente, para a câmara, deixando cair seu robe de chambre no caminho. Enfiou-se entre os lençóis e beijou o marido na boca. Depois, apoiando-se num cotovelo, dirigiu-se outra vez para a câmara.

- Ele não sabe, mas estes lençóis são da nova linha Passional da Santex. Bons lençóis para maus pensamentos. Passional da Santex. Agora, tudo pode acontecer...

[...]

(Luis Fernando Veríssimo. O nariz e outrcaas crônicas. São Paulo: Ática, 1994.p.48-50.)


10 - Detalhes

O velho porteiro do palácio chega em casa, trêmulo. Como faz sempre que tem um baile no palácio, sua mulher o esperava com café reforçado. Mas desta vez ele nem olha para a xícara fumegante, o bolo, a manteiga, as geléias. Vai direto à aguardente. Atira-se na sua poltrona perto do fogão e toma um gole da bebida, pelo gargalo.

__ Helmuth, o que foi?

__ Espera, Helga. Deixa eu me controlar primeiro.

Toma outro gole de aguardente.

__ Conta, homem! O que houve com você? Aconteceu alguma coisa no baile?

__ Co-começou tudo bem. As pessoas chegando, todo mundo de gala, todos com convite, tudo direitinho. Sempre tem, claro, o filhinho de papai sem convite que quer me levar na conversa, mas que estou acostumado. Comigo não tem conversa. De repente, chega a maior carruagem que eu já vi. E puxado por três parelhas de cavalos brancos. Cavalões! Elefantes! De dentro da carruagem salta uma dona. Sozinha. Uma beleza. Eu me preparo para barrar a entrada dela porque mulher desacompanhada não entra em baile do palácio. Mas essa dona é tão bonita, tão, sei lá. Radiante, que eu não digo nada e deixo ela entrar.

__ Bom, Helmuth, até ai...

__ Espera. O baile continua. Tudo normal. Às vezes rola um bêbado pela escadaria, mas nada demais. E então bata a meia-noite. Há um rebuliço na porta do palácio. Olho para trás e vejo uma mulher maltrapilha que desce pela escadaria, correndo. Ela perde um sapato. E o príncipe atrás dela.

__ O príncipe?

__ Ele mesmo. E gritando para eu segurar a esfarrapada. “Segura! Segura!” Me preparo para segurá-la, quando ouço uma espécie de “vum” acompanhado de um clarão. Me viro e ...

__ E o que, meu Deus?

O porteiro esvazia a garrafa comum último gole.

__ Você não vai acreditar.

__ Conta!

__ Atal carruagem. A de ouro. Tinha se transformado numa abóbora.

__ Num o quê?!

__ Eu disse que você não ia acreditar.

__ Uma abóbora?

__ E os cavalos em ratos.

__ Helmuth...

__ Não tem mais aguardente?

__ Acho que você já bebeu demais por hoje.

__ Juro que não bebi nada!

__ Esse trabalho no palácio está acabando com você, Helmuth. Pede para ser transferido para o almoxerifado.

Luis Fernando Veríssimo


11 - O lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

- Bom dia...

- Bom dia.

- A senhora é do 610.

- E o senhor do 612

- É.

- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...

- Pois é...

- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...

- O meu quê?

- O seu lixo.

- Ah...

- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...

- Na verdade sou só eu.

- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.

- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...

- Entendo.

- A senhora também...

- Me chame de você.

- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...

- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

- A senhora... Você não tem família?

- Tenho, mas não aqui.

- No Espírito Santo.

- Como é que você sabe?

- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.

- É. Mamãe escreve todas as semanas.

- Ela é professora?

- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?

- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

- Pois é...

- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.

- É.

- Más notícias?

- Meu pai. Morreu.

- Sinto muito.

- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.

- Foi por isso que você recomeçou a fumar?

- Como é que você sabe?

- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

- É verdade. Mas consegui parar outra vez.

- Eu, graças a Deus, nunca fumei.

- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...

- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.

- Você brigou com o namorado, certo?

- Isso você também descobriu no lixo?

- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.

- É, chorei bastante, mas já passou.

- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...

- É que eu estou com um pouco de coriza.

- Ah.

- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.

- Namorada?

- Não.

- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.

- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

- Você já está analisando o meu lixo!

- Não posso negar que o seu lixo me interessou.

- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.

- Não! Você viu meus poemas?

- Vi e gostei muito.

- Mas são muito ruins!

- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.

- Se eu soubesse que você ia ler...

- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?

- Acho que não. Lixo é domínio público.

- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?

- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

- Ontem, no seu lixo...

- O quê?

- Me enganei, ou eram cascas de camarão?

- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

- Eu adoro camarão.

- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...

- Jantar juntos?

- É.

- Não quero dar trabalho.

- Trabalho nenhum.

- Vai sujar a sua cozinha?

- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

- No seu lixo ou no meu?

Luis Fernando VeríssimoO Analista de Bagé. L&PM, 1981.


12 - A aliança

Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira [...] Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. [...] Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância. Mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pode, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.

– Você não sabe o que aconteceu!

– O quê? [...]

– Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?

– Não.

– Olhe

E ele mostraria o dedo da aliança, sem aliança.

– O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando no bueiro e desaparecendo. [...]

– Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança.

Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.

– Mas, meu bem...

– Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!

E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações.

Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara?

Nada, nada. E, finalmente:

– Que fim levou a sua aliança?

E ele disse:

– Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.

Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.

– O mais importante é que você não mentiu pra mim.

E foi tratar do jantar.

Luis Fernando VeríssimoAs mentiras que os homens contam.


13 - Uma surpresa para Daphne

Daphne mal podia acreditar nos seus ouvidos. Ou no seu ouvido esquerdo, pois era neste que chegava a voz de Peter Vest-Pocket, através do fone.

- Daphne, você está aí? Sou eu, Peter.

Quando finalmente conseguiu se refazer da surpresa, a pequena e vivaz Daphne - era assim que a legenda da sua foto como debutante no "Tattler" a descrevera, anos atrás - esforçou-se para controlar a voz.

- Você quer dizer o sujo, tratante, traidor, nojento, desprovido de qualquer decência ou caráter, estúpido e desprezível Peter Vest-Pocket?

- Esse mesmo. É bom saber que você ainda me ama.

- Seu, seu...

- Tente porco.

- Porco!- Foi por isso que eu deixei você, Daphne. Você sempre faz o que eu mando. Era como viver com um perdigueiro. Agora acalme-se.

- Porco imundo!

- Está bem. Agora acalme-se. Pergunte por que é que eu estou telefonando pra você depois de dois anos.

- Não me interessa. E foram dois anos, duas semanas e três dias.

- Eu preciso de você, Daphne.

- Peter...

- Preciso mesmo. Eu sei que fui um calhorda, mas não sou orgulhoso. Peço perdão.

- Oh! Peter. Não brinque comigo...

- Daphne, você se lembra daquela semana em Taormina?

- Se me lembro.- Do jasmineiro no pátio do hotel? Das azeitonas com vinho branco à tardinha no café da praça?

- Peter, eu estou começando a chorar.- E daquela vez em que fomos nadar nus, ao luar, e veio um guarda muito sério pedir nossos documentos, e depois os três começamos a rir e o guarda acabou tirando a roupa também?

- Não. Isso eu não me lembro.

- Bom. Deve ter sido em outra ocasião. E a pensão em Rapallo, Daphne.

- A pensão! O velho do acordeão que só tocava "Torna a Sorriento" e "Tea for Two".- E a festa de aniversário em que nós entramos por engano e eu acabei fazendo a minha imitação do Maurice Chevalier com laringite.

- Ah, Peter...

- Lembra o pimentão recheado da "signora" Lumbago, na pensão?- Posso sentir o gosto agora.

- Qual era mesmo o ingrediente secreto que ela usava, e que só nos revelou depois que nós ameaçamos contar para o seu marido do caso dela com o garçom?

- Era... Deixa ver. Era manjericão.

- Você tem certeza?

- Tenho. Ah, Peter, Peter... Não consigo ficar braba com você.

- Ótimo Daphne. Precisamos nos ver. Tchau.

- Tchau?! TCHAU?! Você disse que precisava de mim, Peter!

- Precisava. Eu estou fazendo aquele pimentão recheado para uma amiga e não me lembrava do ingrediente secreto. Você me ajudou muito, Daphne, e...

- Seu animal! Seu jumento insensível! Seu filho...

- Daphne, eu já pedi desculpas. Você quer que eu me humilhe?
muito bom e muito real também...rs

Luis Fernando Veríssimo


14 - O casamento


— Eu quero ter um casamento tradicional, papai.

— Sim, minha filha.

— Exatamente como você!

— Ótimo.

— Que música tocaram no casamento de vocês?

— Não tenho certeza, mas acho que era Mendelssohn. Ou Mendelssohn é o da Marcha Fúnebre? Não, era Mendelssohn mesmo.

— Mendelssohn, Mendelssohn...

Acho que não conheço. Canta alguma coisa dele ai.

— Ah, não posso, minha filha. Era o que o órgão tocava em

todos os casamentos, no meu tempo.

— O nosso não vai ter órgão, é claro.

— Ah, não?

— Não. Um amigo do Varum tem um sintetizador eletrônico e ele vai tocar na cerimônia.

O Padre Tuco já deixou. Só que esse Mendelssohn, não sei,não...

— É, acho que no sintetizador não fica bem...

— Quem sabe alguma coisa do Queen...

— Quem?

— O Queen.

— Não é a Queen?

— Não. O Queen. E o nome de um conjunto, papai.

— Ah, certo. O Queen. No sintetizador.

— Acho que vai ser o maior barato!

— Só o síntetizador ou...

— Não. Claro que precisa ter uma guitarra elétrica, um baixo elétrico...

— Claro. Quer dizer, tudo bem tradicional.

— Isso.

*

— Eu sei que não é da minha conta. Afinal, eu sou só o pai da noiva.

Um nada. Na recepção vão me confundir com um garçom.

Se ainda me derem gorjeta, tudo bem. Mas alguém pode me dizer por que

chamam o nosso futuro genro de Varum?

— Eu sabia...

— O quê?

— Que você já ia começar a implicar com ele.

— Eu não estou implicando. Eu gosto dele. Eu até o beijaria na testa se ele

algum dia tirasse aquele capacete de motoqueiro.

— Eles nem casaram e você já está implicando.

— Mas que implicância? É um ótimo rapaz. Tem uma boa cabeça.

Pelo menos eu imagino que seja cabeça o que ele tem debaixo do capacete.

— É um belo rapaz.

— E eu não sei? Há quase um ano que ele freqüenta a nossa casa diariamente.

E como se fosse um filho. Eu às vezes fico esperando

que ele me peça uma mesada. Um belo rapaz. Mas por que Varum?

— E o apelido e pronto.

— Ah, então é isso. Você explicou tudo. Obrigado.

— Quanto mais se aproxima o dia do casamento, mais intratável você fica.

— Desculpe. Eu sou apenas o pai. Um inseto. Me esmigalha. Eu mereço.



*

— Aí xará!

— Ôi, Varum, como vai? A sua noiva está se arrumando. Ela já desce.

Senta aí um pouquinho. Tira o capacete...

— Essa noivinha...

— Vocês vão ao cinema?

— Ela não lhe disse? Nós vamos acampar.

— Acampar? Só vocês dois?

— É. Qual é o galho?

— Não. E que... Sei lá.

— Já sei o que você tá pensando, cara. Saquei.

— É! Você sabe como é...

— Saquei. Você está pensando que só nós dois, no meio do mato, pode pintar um lance.

— No mínimo isso. Um lance. Até dois.

— Mas qualé, xará. Não tem disso não. Está em falta. Ôi,gatona!

— Oi, Varum. O que é que você e papai estão conversando?

— Não, o velho aí tá preocupado que nós dois, acampados pode

pintar um lance. Eu já disse que não tem disso.

— Ô, papai. Não tem perigo nenhum. Nem cobra. E qualquer coisa

o Varum me defende. Eu Jane, ele Tarzan.

— Só não dou o meu grito para proteger os cristais.

— Vamos?

— Vamlá?

— Mas... Vocês vão acampar de motocicleta?

— De motoca, cara. Vá-rum, vá-rum.

*

— Descobri por que ele se chama Varum.

— O quê? Você quer alguma coisa?

— Disse que descobri por que ele se chama Varum.

— Você me acordou só para dizer isto?

— Você estava dormindo?

— É o que eu costumo fazer às três da manhã, todos os dias. Você não dormiu?

— Ainda não. Sabe como é que ele chama ela? Gatona.

Por um estranho processo de degeneração genética, eu sou pai de uma gatona.

Varum e Gatona, a dupla dinâmica, está neste momento, no meio do mato.

— Então é isso que está preocupando você?

— E não é para preocupar? Você também não devia estar dormindo.

A gatona é sua também.

— Mas não tem perigo nenhum!

— Como, não tem perigo? Um homem e uma mulher,

dentro de uma tenda, no meio do mato?

— O que é que pode acontecer?

— Se você já esqueceu, é melhor ir dormir mesmo.

— Não tem perigo nenhum. O máximo que pode acontecer é entrar um sapo na tenda.

— Ou você está falando em linguagem figurada ou eu é que estou ficando louco.

— Vai dormir.

— Gatona. Minha própria filha...

— Você também tinha um apelido pra mim, durante o nosso noivado.

— Eu prefiro não ouvir.

— Você me chamava de Formosura. Pensando bem, você também tinha um apelido.

— Por favor. Reminiscências não. Comi faz pouco.

— Kid Gordini. Você não se lembra? Você e o seu Gordini envenenado.

— Tão envenenado que morreu, nas minhas mãos. Um dia levei num mecânico

e disse que a bateria estava ruim.

Ele disse que a bateria estava boa, o resto do carro é que tinha que ser trocado.

— Viu só? E você se queixa do Varum. Kid Gordini!

— Mas eu nunca levei você para o mato no meu Gordini.

— Não levou porque meu pai matava você.

— Hmmmm.

— “Hmmmm” o quê?

— Você me deu uma ideia. Assassinato...

— Não seja bobo.

— Um golpe bem aplicado... Na cabeça não porque ela

está sempre bem protegida. Sim. Kid Gordini ataca outra vez...

— O que você tem é ciúme.

Nisso tudo, tem uma coisa que me preocupa acima

de tudo que é o que me tira o sono.

— O quê?

— Será que ele tira o capacete para dormir?

*

— Bom dia.

— Bom dia.

— Eu sou o pai da noiva. Da Maria Helena.

— Maria Helena... Ah, a Gatona!

— Essa.

— Que prazer. Alguma dúvida sobre a cerimônia?

— Não, Padre Osni. E que...

— Pode me chamar de Tuco. E como me chamam.

— Não, Padre Tuco. E que a Ga... A Maria Helena me disse que ela

pretende entrar dançando na igreja. O conjunto toca

um rock e a noiva entra dançando, é isso?

— É. Um rock suave. Não é rock pauleira.

— Ah, não é rock pauleira. Sei. Bom, isto muda tudo.

— Muitos jovens estão fazendo isto. A noiva entra dançando e na saída

os dois saem dançando. O senhor sabe, a Igreja hoje está diferente.

É isto que está atraindo os jovens de volta à Igreja. Temos que evoluir com os tempos.

— Claro. Mas, Padre Osni...

— Tuco.

— Padre Tuco, tem uma coisa. O pai da noiva também tem que dançar?

— Bom, isto depende do senhor. O senhor dança?

— Agora não, obrigado. Quer dizer, dançava. Até ganhei concurso de chá-chá-chá.

Acho que você ainda não era nascido. Mas estou meio fora de forma e...

— Ensaie, ensaie.

— Certo.

— Peça para a Gatona ensaiar com o senhor.

— Claro.

— Não é rock pauleira.

— Certo. Um roquezinho suave.

Quem sabe um chá-chá-chá? Não. Esquece, esquece.

*

— Você está nervoso, papai?

— Um pouco. E se a gente adiasse o casamento? Eu preciso uma

semana a mais de ensaio. Só uma semana.

— Eu estou bonita?

— Linda. Quando estiver pronta vai ficar uma beleza.

— Mas eu estou pronta.

— Você vai se casar assim?

— Você não gosta?

— É... diferente, né? Essa coroa de flores, os pés descalços...

— Não é um barato?

*

— Um brinde, xará!

— Um brinde, Varum.

— Você estava um estouro entrando naquela igreja.

Parecia um bailarino profissional.

— Pois é. Improvisei uns passos. Acho que me sai bem.

— Muito bem!

— Não sei se você sabe que eu fui o rei do chá-chá-chá.

— Do quê?

— Chá-chá-chá. Uma dança que havia. Você ainda não era nascido.

— Bota tempo nisso.

— Eu tinha um Gordini envenenado. Tão envenenado que morreu. Um dia levei no...

— Tinha um quê?

— Gordini. Você sabe. Um carro. Varum, varum.

— Ah.

— Esquece.

— Um brinde ao sogro bailarino.

— Um brinde. Eu sei que vocês vão ser muito felizes.

— O que é que você achou da minha beca, cara?

— Sensacional. Nunca tinha visto um noivo de macacão vermelho, antes.

Gostei. Confesso que quando entrei na igreja e vi você lá no altar, de capacete...

— Vacilou.

— Vacilei. Mas aí vi que o Padre Tuco estava de boné e pensei, tudo bem.

Temos que evoluir com os tempos. E ataquei meu rock suave.


Luis Fernando Verissimo

Texto extraído do livro "O analista de Bagé", L&PM Editores – Porto Alegre, 1981, pág. 13


15 - O Desafio

Um publicitário morreu e, como era da área de atendimento e mau para o pessoal da criação,

foi para o inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com nome e profissão d

e todos os admitidos na data anterior, mandou que o publicitário fosse tirado da grelha e

levado ao seu escritório. Queria fazer-lhe uma proposta.

Se ele aceitasse sua carga de castigos diminuiria e ele teria regalias. Ar-condicionado, etc.

— Qual é a proposta?

— Temos que melhorar a imagem do inferno — disse o Diabo. — Falam as piores coisas do inferno.

Queremos mudar isso.

— Mas o que é que se pode dizer de bom disto aqui? Nada.

— Por isso é que precisamos de publicidade.

O publicitário topou. Era um desafio. E as regalias eram atraentes.

Quis saber algumas coisas que diziam do Inferno e que mais irritavam o Diabo.

— Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros são ingleses, todos os garçons são italianos,

todos os motoristas de táxi são franceses e todos os humoristas alemães.

— E é verdade?

— É.

— Hmmm — disse o publicitário. — Uma das técnicas que podemos usar é

transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.

Sua cabeça já estava funcionando. Continuou:

— Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida

é tão ruim que é o local ideal para emagrecer. Além de tudo, já é uma sauna.

— Bom, bom.

— Garçons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam,

brigam. Isto é, ajudam a distrair a atenção da comida inglesa.

— Ótimo.

— Motoristas franceses. São mal-humorados e grosseiros.

Isso desestimula o uso do táxi e promove as caminhadas. É econômico e saudável.

Também provoca a indignação generalizada, une a população e combate a apatia.

— Muito bom!

— Uma situação que não seria amenizada pelos humoristas.

Os humoristas, como se sabe, não têm qualquer função social. Eles só servem para

desmobilizar as pessoas, criar um clima de lassidão e deboche, quando não

de perigosa alienação. Isto não acontece com os humoristas alemães, cuja falta de graça

só aumenta a revolta geral, mantendo a população ativa e séria.

O alívio é dado pelos garçons italianos.

— Perfeito! — exclamou o Diabo. — Já vi que acertei.

Quando podemos começar a campanha?

— Espere um pouquinho — disse o publicitário. — Temos que combinar algumas coisas, antes.

Por exemplo: a verba.

— Isto já não é comigo — disse o Diabo. — É com o pessoal da área econômica.

Você pode tratar com eles. E aproveitar para acertar também o seu contrato.

Com isto o Diabo apertou um botão intercomunicador vermelho que

havia sobre a sua mesa e disse:

— Dona Henriqueta, diga para o

Silva vir até a minha sala.

— Silva? — estranhou o publicitário.

— Nosso gerente financeiro. Toda a nossa economia

é dirigida por brasileiros.

Aí o publicitário suspirou, levantou e disse:

— Me devolve pra grelha...

Luis Fernando Veríssimo

Texto extraído do livro "A Mãe do Freud", L&PM Editores, Porto Alegre, 1985, pág. 93.


16 - Os Moralistas

— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?

— Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrás.

— Olhe lá, hein, rapaz...

Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos.

Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel.

A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo.

Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a mulher.

— Pense um pouco mais, Paulo. Reflita. Essas decisões súbitas...

— Mas que súbitas? Estamos praticamente separados há um ano!

— Dê outra chance ao seu casamento, Paulo.

— A Margarida é uma ótima mulher.

— Espera um pouquinho. Você mesmo deixou de freqüentar

nossa casa por causa da Margarida. Depois que ela chamou vocês de bêbados e expulsou todo mundo.

— E fez muito bem. Nós estávamos bêbados e tínhamos que ser expulsos.

— Outra coisa, Paulo. O divórcio. Sei lá.

— Eu não entendo mais nada. Você sempre defendeu o divórcio!

— É. Mas quando acontece com um amigo...

— Olha, Paulo. Eu não sou moralista. Mas acho a família uma coisa importantíssima.

Acho que a família merece qualquer sacrifício.

— Pense nas crianças, Paulo. No trauma.

— Mas nós não temos filhos!

— Nos filhos dos outros, então. No mau exemplo.

— Mas isto é um absurdo! Vocês estão falando como se fosse o fim do mundo.

Hoje, o divórcio é uma coisa comum. Não vai mudar nada.

— Como, não muda nada?

— Muda tudo!

— Você não sabe o que está dizendo, Paulo! Muda tudo.

— Muda o quê?

— Bom, pra começar, você não vai poder mais freqüentar as nossas casas.

— As mulheres não vão tolerar.

— Você se transformará num pária social, Paulo.

— O quê?!

— Fora de brincadeira. Um reprobo.

— Puxa. Eu nunca pensei que vocês...

— Pense bem, Paulo. Dê tempo ao tempo.

— Deixe pra decidir depois. Passado o verão.

— Reflita, Paulo. É uma decisão seriíssima. Deixe para mais tarde.

— Está bem. Se vocês insistem...

Na saída, os três amigos conversam:

— Será que ele se convenceu?

— Acho que sim. Pelo menos vai adiar.

— E no solteiros contra casados da praia, este ano, ainda teremos ele no gol.

— Também, a idéia dele. Largar o gol dos casados logo agora. Em cima da hora.

Quando não dava mais para arranjar substituto.

— Os casados nunca terão um goleiro como ele.

— Se insistirmos bastante, ele desiste definitivamente do divórcio.

— Vai agüentar a Margarida pelo resto da vida.

— Pelo time dos casados, qualquer sacrifício serve.

— Me diz uma coisa. Como divorciado,

ele podia jogar no time dos solteiros?

— Podia.

— Impensável.

— É.

— Outra coisa.

— O quê?

— Não é reprobo. É réprobo. Acento no "e".

— Mas funcionou, não funcionou?

Luis Fernando Veríssimo

Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam". Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.


17 - Clic

Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não

sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo,

depois teve uma idéia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.

— Aloa.

— Quem fala?

— Com quem quer falar?

— O dono desse telefone.

— Ele não pode atender.

— Quer chamá-lo, por favor?

— Ele esta no banheiro. Eu posso anotar o recado?

— Bate na porta e chama esse vagabundo agora.

Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.

— Aloa.

— Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes.

Eu preciso falar com ele, viu? É urgente.

— Ele já vai sair do banheiro.

— Você é a...

— Uma amiga.

— Como é seu nome?

— Quem quer saber?

O cidadão inventou um nome.

— Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.

— Primo do Amleto?

Amleto. O safado já tinha um nome.

— É. De Quaraí.

— Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.

— Pois é.

— Carol.

— Hein?

— Meu nome. É Carol.

— Ah. Vocês são...

— Não, não. Nos conhecemos há pouco.

— Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto.

De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço.

— Eu também não sei o endereço dele.

— Mas vocês...

— Nós estamos num motel. Este telefone é celular.

— Ah.

— Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.

— Ele disse que comprou?

— Por que?

O cidadão não se conteve.

— Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim!

— Não acredito.

— Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.

— O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.

E Carol desligou de novo.

O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.

— Aloa.

— Carol, é o Tobias.

— Quem?

— O Taborda. Por favor, chame o Amleto.

— Ele continua no banheiro.

— Em que motel vocês estão?

— Por que?

— Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...

— Recém nos conhecemos.

— Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele

seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade.

O Amleto pode Ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?

— Esta é a primeira vez.

— Vocês nunca tinham se visto antes?

— Já, já. Mas, assim, só conversa.

— E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele.

Não sabia que ele é de Quaraí.

— Pensei que fosse goiano.

— Ai esta, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...

— Não, não. Eu é que pensei.

— Carol, ele ainda está no banheiro?

— Está.

— Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia.

Esse negocio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol!

— Mas...

— Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade.

Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol.

Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.

— Ele esta saindo do banheiro.

— Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu

ligo para saber onde você está.

Clic.

Dez minutos depois, o cidadão liga de novo.

— Aloa.

— Carol, onde você está?

— O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.

— Carol, eu...

— Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você.

Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira.

Jurou que não vai fazer mais isso.

O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:

— Como ele vai devolver o telefone?

— Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.

— Carol, não...

Mas Carol já tinha desligado.

O cidadão precisou de mais cinco minutos

para se recompor. Depois ligou outra vez.

—Aloa.

Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.

— Carol, é o Torquatro.

— Quem?

— Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime.

Esse telefone que você tem na mão, esta me entendendo?

Esse telefone que agora tem suas impressões digitais.

É meu! Esse salafrário roubou meu celular!

— Mas ele disse que vai devolver na...

— Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele.

Nem conheço esse cafajeste. Ele esta mentindo para você, Carol.

— Então você também mentiu!

— Carol...

Clic.

Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão,

onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.

— Amleto?

— Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.

— Olha aqui, seu...

— Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel,

o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo.

Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu.

Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era?

— Só quero meu telefone.

— Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular.

Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa.

E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel.

Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?

— Quero meu celular de volta!

— Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios,

impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...

— Ladrão

— Executivo

— Devolve meu...

Clic.

Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo.

telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente.

— Ahn?

— Quem fala?

— É o Trola.

— Como você conseguiu esse telefone?

— Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.

— Onde você está?

— Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é.

Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.

— Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone.

Me diga onde você está que eu vou buscar.

— Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher.

Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo...

— Onde você está? Eu quero saber onde!

— Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha.

Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...

Luis Fernando Veríssimo

Extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam",

Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 41.


18 - O Homem que Vivia Anedotas

— Sempre deu tudo errado comigo. Desde criança.

— Compreendo.

— Na escola, não conseguia prestar atenção em nada.

Estava sempre pensando em mulher nua.

— Espera aí. Você é…

— Sou. O Juquinha. Todo mundo ficou sabendo das minhas histórias, virei anedota.

— Mas as histórias até que eram engraçadas.

— Engraçadas para quem não foi expulso da escola, como eu.

Meus pais me mandaram a um médico para curar minha obsessão. Um psiquiatra.

— Não foi esse o médico que...

— É. Começou a me mostrar desenhos. Uma cadeira.

Um chapéu. Um telefone. Pediu para eu me concentrar.

— E aí você disse…

— Eu disse: "Me concentrar como, se o senhor não pára de mostrar figurinha erótica?".

O senhor está rindo porque não foi com o senhor. Fiquei anos em tratamento.

— Desculpa. Eu não estava rindo de você. Continue.

— Como não tinha educação, fui ser mecânico. Não deu certo.

— Por quê?

— Sabe aquela história do cara que acendeu um fósforo dentro do tanque

do carro para ver se tinha gasolina, e tinha?

— Foi você?

— Foi. No hospital, tiveram que me reconstituir.

Pegaram as partes e juntaram de novo. Tudo bem, só que…

— Só que para ouvir direito, você precisava levantar o braço! Essa é ótima.

— Ótima porque não foi com o senhor.

— Desculpe. Foi horrível.

— Quando saí do hospital comprei uma motocicleta.

Uma noite na estrada, vi os holofotes de duas motocicletas que

vinham em sentido contrário. Só por farra, resolvi passar com a minha entre as duas.

— E era um automóvel. Essa eu conheço.

— Voltei para o hospital. Tiraram radiografias. Eu estava péssimo.

Quando o médico disse quanto ia custar o tratamento, eu disse que não podia pagar.

— E ele?

— Ele disse que por um preço módico mandava retocar as radiografias.

— Grande! Quer dizer, horrível. E seus pais?

— Está vendo esse relógio? Está na família há gerações.

— É uma beleza.

— No seu leito de morte, poucos minutos antes de expirar, papai me vendeu.

— Boa, boa. Quer dizer, triste, triste.

— Me casei. Não durou muito. Minha mulher estava convencida que era um refrigerador.

— Realmente, não dava para continuar vivendo com uma louca.

— O pior não era isso. O pior é que ela dormia com a boca aberta e a luz não

me deixava dormir. O senhor está rindo outra vez.

— Não posso me conter. É que você teve uma vida engraçada.

— Engraçada? Trágica. Tudo comigo deu errado. As pessoas riem de sádicas.

— Você tem razão.

— Para esquecer tudo, fui fazer uma viagem. Quando o avião estava a dez mil metros de altura,

ouviu-se uma voz que dizia: "Isto é uma gravação. Este avião não tem piloto.

É dirigido por um sistema totalmente automático que substitui com vantagem

o controle humano. Não há com o que se preocupar.

O sistema foi exaustivamente testado é absolutamente

aprova de falhas, de falhas, de falhas…".

— O avião caiu e foi assim que você veio parar aqui?

— Não, São Pedro. O avião caiu no mar, eu sobrevivi e passei uma

temporada numa ilha deserta com uma mulher. Só que a mulher era a Betty Friedman.

— Acho que já vi esse cartum.

— Pois é. Aí fui salvo e ainda passei por várias anedotas até resolver me matar.

Não conseguia fazer anda certo. Só restava o suicídio. Dei um tiro na cabeça.

— E aqui está você.

— Não. Errei o tiro. Depois fiquei tão contente de ainda estar vivo que dei um tiro para o ar.

Aí acertei na cabeça. E aqui estou eu. Livre, finalmente, das anedotas. O senhor ainda está rindo!

— Meu filho você sabe quantas anedotas de São Pedro na porta do céu existem?

— Não, São Pedro. Por favor. Não!

— O que é que eu posso fazer? Esta é uma delas. Houve um maremoto em Copacabana,

morreu todo mundo e nós estamos com o céu lotado.

— Lotado? Mas só a população de Copacabana lota o céu?

— É que tinha os argentinos.

Você só vai encontrar lugar no Purgatório, e na lista de espera.


Luís Fernando Veríssimo. "Sexo na Cabeça", L&PM Editores - Porto Alegre, 1982, pág. 15.


19 - Pneu furado

O carro estava encostado no meio-fio, com um pneu furado. De pé ao lado do carro, olhando desconsoladamente para o pneu, uma moça muito bonitinha.
Tão bonitinha que atrás parou outro carro e dele desceu um homem dizendo
"Pode deixar". Ele trocaria o pneu.


- Você tem macaco? - perguntou o homem.


- Não - respondeu a moça.


- Tudo bem, eu tenho - disse o homem - Você tem estepe?


- Não - disse a moça.


- Vamos usar o meu - disse o homem.


E pôs-se a trabalhar, trocando o pneu, sob o olhar da moça.


Terminou no momento em que chegava o ônibus que a moça estava esperando. Ele ficou ali, suando, de boca aberta, vendo o ônibus se afastar.


Dali a pouco chegou o dono do carro.


- Puxa, você trocou o pneu pra mim. Muito obrigado.


- É. Eu... Eu não posso ver pneu furado. Tenho que trocar.


- Coisa estranha.


- É uma compulsão. Sei lá.

(Luís Fernando Veríssimo. Livro: Pai não entende nada. L&PM, 1991).





20 - Pai não entende nada

_ Um biquíni novo?

_ É, pai.

_ Você comprou um no ano passado!

_ Não serve mais, pai. Eu cresci.

_ Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.

_ Não serve, pai.

_ Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.

_ Maior não, pai. Menor.

Aquele pai, também, não entendia nada.

Luis Fernando Veríssimo.











































































































8 comentários:

Sandra disse...

Amei o seu blog. Já o coloquei nos meus favoritos.

Anônimo disse...

gostei mto do blog. adoro ler e sou fã do luis verissimo. valeu pela historias!

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Muito bom o blog,parabéns!!!
As historias são maravilhosas!
exclusive já trabalhei com o texto
"A BOLA" e este texto fala a realidade de hoje,os jovens só querem video-game e video-game vamos combinar! Muito obrigada,beijoss

Anônimo disse...

Boa Noite,esta maravilhoso o blog,e bombando hein amiga,parabéns bjs

Anônimo disse...

Tenho o blog nos meus favoritos , então vi que algumas pessoas comentaram o blog e eu quero lhe parabenizar sobre esta questão,parabéns!!!

Anônimo disse...

Meeu filho A-D-O-R-O-U o textinho a bola,parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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