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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

LEITURA DE FÁBULAS

Leia os textos a seguir e perceba como os personagens se comportam. Para isso selecionamos dezessete fábulas. 


Boa leitura!









O RATINHO, O GATO E O GALO
OS VIAJANTES E O URSO
O LOBO E O BURRO
O LEÃO E O MOSQUITO
A GANSA DOS OVOS DE OURO
O VENTO E O SOL
A RÃ E O TOURO
O RATO DO MATO E O RATO DA CIDADE
AS ÁRVORES E O MACHADO
O CARVALHO E O CARNIÇO
O LOBO E O CÃO
O URSO E AS ABELHAS
OS TRÊS LEÕES
O LOBO E O CORDEIRO
A RAPOSA E O CORVO

A CIGARRA E AS FORMIGAS

 
O RATINHO, O GATO E O GALO

      Certa manhã, um ratinho saiu do buraco pela primeira vez. Queria conhecer o mundo e travar relações com tanta coisa bonita de que falavam seus amigos. Admirou a luz do sol, o verdor das árvores, a correnteza dos ribeirões, a habitação dos homens. E acabou penetrando no quintal duma casa da roça.
      — Sim senhor! É interessante isto!
      Examinou tudo minuciosamente, farejou a tulha de milho e a estrabaria. Em seguida, notou no terreiro um certo animal de belo pêlo, que dormia sossegado ao sol. Aproximou-se dele e farejou-o, sem receio nenhum. Nisto, aparece um galo, que bate as asas e canta. O ratinho, por um triz, não morreu de susto. Arrepiou-se todo e disparou como um raio para a toca.
     Lá contou à mamãe as aventuras do passeio.
      — Observei muita coisa interessante disse ele. Mas nada me impressionou tanto como dois animais que vi no terreiro. Um, de pêlo macio e ar bondoso, seduziu-me logo. Devia ser um desses bons amigos da nossa gente; e lamentei que estivesse a dormir impedindo-me de cumprimentá-lo. O outro... Ai, que ainda me bate o coração! O outro era um bicho feroz, de penas amarelas, bico pontudo, crista vermelha e aspecto ameaçador. Bateu as asas barulhentamente, abriu o bico e soltou um co-ri-có-có tamanho, que quase caí de costas. Fugi com quantas pernas tinha, percebendo que devia ser o famoso gato, que tamanha destruição faz no nosso povo.
      A mamãe rata assustou e disse:
      — Como te enganas, meu filho! O bicho de pêlo macio e ar bondoso é que é o terrível gato. O outro, barulhento e espaventado, de olhar feroz e crista rubra, filhinho, é o galo, uma ave que nunca nos fez mal. As aparências enganam. Aproveita, pois, a lição e fica sabendo que:
Quem vê cara não vê coração.
Monteiro Lobato

OS VIAJANTES E O URSO

Dois homens viajavam juntos, quando, de repente, surgiu um urso de dentro da floresta e parou diante deles, urrando. Um dos homens tratou de subir na árvore mais próxima e agarrar-se aos ramos. O outro, vendo que não tinha tempo para esconder-se, deitou no chão, esticado, fingindo de morto, porque ouvira dizer que os ursos não tocam em homens mortos.
O urso aproximou-se, cheirou o homem deitado e voltou para a floresta.
Quando a fera desapareceu, o homem da árvore desceu apressadamente e disse ao companheiro:
Vi o urso a dizer alguma coisa no teu ouvido. Que foi que ele disse?
Disse que eu nunca viajasse com um medroso.
Na hora do perigo é que se conhecem os amigos.
(Versão de Guilherme Figueiredo)

O LOBO E O BURRO

Um burro estava comendo, quando viu um lobo escondido espiando tudo que ele fazia. Percebendo que estava em perigo, o burro imaginou um plano para salvar a sua pele. Fingiu que era aleijado e saiu mancando com a maior dificuldade. Quando o lobo apareceu, o burro todo choroso contou que tinha pisado num espinho pontudo.
Ai, ai, ai! Por favor, tire o espinho de minha pata! Se você não tirar, ele vai espetar sua garganta, quando você me engolir.
O lobo não queria se engasgar na hora de comer seu almoço, por isso. Quando o burro levantou a pata, ele começou a procurar o espinho com todo cuidado. Nesse momento, o burro deu o maior coice de sua vida e acabou com a alegria do lobo.
Enquanto o lobo se levantava todo dolorido, o burro galopava satisfeito para longe dali.
Cuidado com os favores inesperados.

O LEÃO E O MOSQUITO

Um leão ficou com raiva de um mosquito que não parava de zumbir ao redor de sua cabeça, mas o mosquito não deu a mínima.
Você está achando que vou ficar com medo de você, só porque você pensa que é rei? disse ele altivo e, em seguida, voou para o leão e deu uma picada no seu focinho.
Indignado, o leão deu uma patada no mosquito, mas a única coisa  que conseguiu foi arranhar-se com as próprias garras.
O mosquito continuou picando o leão, que começou a urrar como um louco.
No fim, exausto, enfurecido e coberto de feridas provocadas por seus próprios dentes e garras, o leão se rendeu. O mosquito foi embora zumbindo, para contar a todo mundo que tinha vencido o leão, mas entrou direto numa teia de aranha. Ali, o vencedor do rei dos animais encontrou seu triste fim, comido por uma aranha minúscula.
Muitas vezes, o menor de nossos inimigos é o mais terrível.

A GANSA DOS OVOS DE OURO

Um homem e sua mulher tinham a sorte de possuir uma gansa que todos os dias punha um ovo de ouro. Mesmo com toda essa sorte, eles acharam que estavam enriquecendo muito devagar, que assim não dava...
Imaginando que a gansa devia ser de ouro por dentro, resolveram matá-la e pegar aquela fortuna toda de uma vez. Só que, quando abriram a barriga da gansa, viram que por dentro ela era igualzinha a todas as outras.
Foi assim que os dois não ficaram ricos de uma vez só, como tinham imaginado, nem puderam continuar recebendo o ovo de ouro que todos os dias aumentava um pouquinho a sua fortuna.
Não tente forçar demais a sorte.

O VENTO E O SOL

Sei como decidir nosso caso. Aquele que conseguir fazer o viajante tirar o casaco será o mais forte. Você começa propôs o sol, retirando-se para trás de uma nuvem.
O vento começou a soprar com toda força. Quanto mais soprava, mais o homem ajustava o casaco ao corpo. Desolado, o vento se retirou.
O sol saiu de seu esconderijo e brilhou com todo o seu esplendor sobre o homem, que logo sentiu calor e despiu o paletó.

A RÃ E O TOURO

Um grande touro passeava pela margem de um riacho. A rã ficou com muita inveja de seu tamanho e de sua força. Então, começou a inchar, fazendo enorme esforço, para tentar ficar tão grande quanto o touro.
Perguntou às companheiras do riacho se estava do tamanho do touro. Elas responderam que não.
A rã tornou a inchar e inchar, ainda assim, não alcançou o tamanho do touro.
Pela terceira vez, a rã tentou inchar. Mas fez isso com tanta força que acabou explodindo, por culpa de tanta inveja.

O RATO DO MATO E O RATO DA CIDADE


Um ratinho da cidade foi uma vez convidado para ir à casa de um rato do campo. Vendo que seu companheiro vivia pobremente de raízes e ervas, o rato da cidade convidou-o a ir morar com ele:
Tenho muita pena da pobreza em que você vive disse. Venha morar comigo na cidade e você verá como lá a vida é mais fácil.
Lá se foram os dois para a cidade, onde se acomodaram uma casa rica e bonita.
Foram logo à despensa e estavam muito bem, se empanturrando de comidas fartas e gostosas, quando entrou uma pessoa com dois gatos, que pareceram enormes ao ratinho do campo.
Os dois ratos correram espavoridos para se esconder.
Eu vou para o meu campo disse o rato do campo, quando o perigo passou. Prefiro minhas raízes e ervas na calma, às suas comidas gostosas com todo esse susto.
Mais vale magro no mato que gordo na boca do gato

AS ÁRVORES E O MACHADO


Havia uma vez um machado que não tinha cabo.
As árvores então resolveram que uma delas lhe daria a madeira para fazer um cabo.
Um lenhador, encontrando o machado de cabo novo, começou a derrubar a mata.
Uma árvore disse à outra:
Nós mesmas é que temos culpa do que está acontecendo. Se não tivéssemos dado um cabo ao machado, estaríamos agora livres dele.

O CARVALHO E O CARNIÇO


O carvalho, que é sólido e impotente, nunca se curva com o vento. Vendo que o caniço se inclinava todo, quando o vento passava, o carvalho lhe disse:
Não se curve! Fique firme, como eu faço.
O caniço respondeu:
Você é forte, pode ficar firme. Eu, que sou fraco, não consigo.
Veio então um furacão. O carvalho, que enfrentou a ventania, foi arrancado com raízes e tudo. Já o caniço se dobrou todo, não opôs resistência ao vento e ficou em pé.

O LOBO E O CÃO


Certo dia, um Lobo só pele e osso encontrou um cão gordo, forte e com o pêlo muito lustroso. Via-se bem que não passava fome. O Lobo, admirado, quis saber onde é que ele conseguia obter tanta comida.


- Se me seguires, ficarás tão forte como eu - respondeu o cão. - O homem dar-te-á restos saborosos.


- Mas o que preciso de fazer em troca? - quis saber o Lobo.


- Muito pouco, na verdade - respondeu o Cão. - Uivar aos intrusos, agradar ao dono e adular os seus amigos. Só por isto receberás carne e outras iguarias muito bem cozinhadas. De vez em quando, receberás também festas no dorso.


O Lobo ficou encantado com a ideia e meteram-se ambos ao caminho. A dada altura, o Lobo reparou que o cão tinha o pescoço esfolado.


- O que tens no pescoço? - perguntou.


- Nada de grave. É da argola com que me prendem - explicou o Cão.

- Preso? Então não podes correr quando queres? - exclamou o Lobo. - Esse é um preço demasiado elevado: não troco a minha liberdade por toda a comida do mundo.

Dito isto, desatou a correr o mais depressa que pode para bem longe dali.



Moral da história: Moral da história: A tua liberdade não tem preço.

O URSO E AS ABELHAS


Um urso topou com uma árvore caída que servia de depósito de mel para um enxame de abelhas. Começou a farejar o tronco quando uma das abelhas do enxame voltou do campo de trevos. Adivinhando o que ele queria, deu uma picada daquelas no urso e depois desapareceu no buraco do tronco. O urso ficou louco de raiva e se pôs a arranhar o tronco com as garras na esperança de destruir o ninho. A única coisa que conseguiu foi fazer o enxame inteiro sair atrás dele. O urso fugiu a toda velocidade e só se salvou porque mergulhou de cabeça num lago.

Moral: Mais vale suportar um só ferimento em silêncio que perder o controle e acabar todo machucado.

FÁBULA DE ESOPO.

OS TRÊS LEÕES

Numa determinada floresta havia três leões. Um dia, o macaco, representante eleito dos animais súditos, fez uma reunião com toda a bicharada da floresta e disse:
– Nós, os animais, sabemos que o leão é o rei dos animais, mas há uma dúvida no ar: existem três leões fortes. Ora, a qual deles nós devemos prestar homenagem? Quem, dentre eles, deverá ser o nosso rei?
Os três leões souberam da reunião e comentaram entre si:
– É verdade, a preocupação da bicharada faz sentido. Uma floresta não pode ter três reis, precisamos saber qual de nós será escolhido. Mas como descobrir?
Essa era a grande questão: lutar entre si eles não queriam, pois eram muito amigos. O impasse estava formado. De novo, todos os animais se reuniram para discutir uma solução para o caso. Depois de usarem técnicas de reuniões do tipo “brainstorming”, eles tiveram uma idéia excelente. O macaco se encontrou com os três felinos e contou o que eles decidiram:
– Bem, senhores leões, encontramos uma solução desafiadora para o problema. A solução está na Montanha Difícil.
– Montanha Difícil? Como assim?
– É simples, ponderou o macaco. Decidimos que vocês três deverão escalar a Montanha Difícil. O que atingir o pico primeiro será consagrado o rei dos reis.
A Montanha Difícil era a mais alta entre todas naquela imensa floresta.
O desafio foi aceito. No dia combinado, milhares de animais cercaram a Montanha para assistir a grande escalada.
O primeiro tentou. Não conseguiu. Foi derrotado. O segundo tentou. Não conseguiu. Foi derrotado. O terceiro tentou. Não conseguiu. Foi derrotado.
Os animais estavam curiosos e impacientes, afinal, qual deles seria o rei, uma vez que os três foram derrotados?
Foi nesse momento que uma águia sábia, idosa na idade e grande em sabedoria, pediu a palavra:
– Eu sei quem deve ser o rei!!!
Todos os animais fizeram um silêncio de grande expectativa.
– A senhora sabe, mas como? todos gritaram para a águia.
– É simples – confessou a sábia águia – eu estava voando entre eles, bem de perto e, quando eles voltaram fracassados para o vale, eu escutei o que cada um deles disse para a montanha.
O primeiro leão disse:
– Montanha, você me venceu!
O segundo leão disse:
– Montanha, você me venceu!
O terceiro leão também disse:
– Montanha, você me venceu, por enquanto! Mas você, montanha, já atingiu seu tamanho final, e eu estou crescendo.
– A diferença – completou a águia – é que o terceiro leão teve uma atitude de vencedor diante da derrota e quem pensa assim é maior que seu problema: é rei de si mesmo, está preparado para ser rei dos outros.
Os animais da floresta aplaudiram entusiasticamente ao terceiro leão que foi coroado rei entre os reis.

Moral da história:

Não importa o tamanho dos problemas ou dificuldades que você tenha. Seus problemas, na maioria das vezes, já atingiram o clímax, já estão no nível máximo - mas você não. Você ainda está crescendo. Você é maior que todos os seus problemas juntos. Você ainda não chegou ao limite do seu potencial. (La Fontaine)

O LOBO E O CORDEIRO

Certa vez, um lobo estava bebendo água num riacho. Um cordeirinho chegou e também começou a beber, um pouco mais para baixo.
O lobo arreganhou os dentes e disse ao cordeiro:
- Como é que você tem a ousadia de vir sujar a água que estou bebendo?
- Como sujar? – respondeu o cordeiro – A água corre daí para cá, logo eu não posso estar sujando sua água.
- Não me responda! – tornou furioso. –Pois sei que você estragou o meu pasto – replicou o lobo sem perder o rebolado.
- Como é que posso ter estragado seu pasto, se nem dentes eu tenho? – respondeu o humilde cordeiro.
- Além disso – rosnou o lobo – fiquei sabendo que você andou falando mal de mim há um ano.
- Como poderia falar mal do senhor há um ano, se sequer completei um ano?
O lobo, não tendo mais como culpar o cordeiro, usou sua razão de animal esfomeado e não disse mais nada: pulou sobre o pescoço do pobre animalzinho e o devorou.


Moral da história: Contra a força não há argumentos



A RAPOSA E O CORVO

O corvo conseguiu arranjar um pedaço de queijo em algum lugar. Saiu voando, com o queijo no bico, até pousar numa árvore

Quando viu o queijo, a raposa resolveu se apoderar dele. Chegou ao pé da árvore e começou a bajular o corvo:

— Ó senhor corvo! O senhor é certamente o mais belo dos animais! Se souber cantar tão bem quanto a sua plumagem linda, não haverá ave que possa se comparar ao senhor.

Acreditando nos elogios, o corvo pôs-se imediatamente a cantar para mostrar sua linda voz. Mas, ao abrir o bico, deixou cair o queijo.

Mais que depressa, a raposa abocanhou o queijo e foi embora.


A CIGARRA E AS FORMIGAS


Num belo dia de inverno as formigas estavam tendo o maior trabalho para secar suas reservas de trigo. Depois de uma chuvarada, os grãos tinham ficado completamente molhados. De repente, apareceu uma cigarra:

— Por favor, formiguinhas, me dêem um pouquinho de trigo! Estou com uma fome danada, acho que vou morrer.

As formigas pararam de trabalhar, coisa que era contra os princípios delas, e perguntaram:

— Mas por quê? O que você fez durante o verão? Por acaso não se lembrou de guardar comida para o inverno?

— Para falar a verdade, não tive tempo — respondeu a cigarra. — Passei o verão cantando!

— Bom. Se você passou o verão cantando, que tal passar o inverno dançando? — disseram as formigas, e voltaram para o trabalho dando risada.


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A NARRATIVA CONTEMPÔRANEA


O presente capítulo busca desenvolver uma pesquisa cujo enfoque é a narrativa contemporânea, a qual segundo Carpeaux não pode ser objeto de estudo da historiografia literária, pois, encontra-se em processo de transformação. Os modernismos ainda continuam agindo em nossa literatura, com seus líderes vivos ou mortos, os quais possuem uma grande influência em nossas letras.
Em mesma conformidade, Massaud Moisés, quando afirma a dificuldade de linhagens ou cronologias rígidas, devido ao fato que muitos ficcionistas desse período continuam vivos e escrevendo.
Dessa maneira, um estudo desse período, deve ser entendido como uma forma provisória de análise, pois a modernidade não é um paradigma e sim, um conceito, um estilo de arte, um refletir sobre o próprio estilo literário, além disso, faz parte do nosso presente, e muitas mudanças estão sujeitas a ocorrer. Assim, são adotadas algumas medidas como propõe Carpeaux, levando-se em consideração critérios estilísticos e ideológicos, porém não é o suficiente, pois, não podemos compreendê-la no todo, é um processo que está em construção, muitos de seus ficcionistas continuam em atividade.
O que chamamos, nesse capítulo, de narrativas contemporâneas ou terceira fase do modernismo, para Massaud Moisés (2001, p.287), inicia-se em 1945 e prolonga-se até nossos dias. Mas podemos dividi-lo da seguinte forma, apenas com intuito didático.
Primeiro período - até 1960 quando irrompem as vanguardas; e surgem grupos de novos poetas, os concretistas.
Segundo período – até 1973 com Alvorada, de Osman Lins, escritor brasileiro e romancista crítico. Foi um novo movimento revolucionário, possui uma linguagem estruturada, totalmente diferente, é um marco nas letras.
Terceiro período – daí por diante.
Isso significa que é um momento relativamente próximo de nós, por isso, a dificuldade de uma classificação desse momento, e seus estudos não podem ser tomados como algo acabado, porque está sujeita a correções que somente o futuro determinará, como afirma Massaud Moisés:

 [...] a prosa orienta-se por vetores nem sempre discerníveis com clareza. Várias tendências podem ser apontadas, alguns“ismos” assinalados, denotando a permanência da tradição ou a interrupção do novo, mas nem suas fronteiras se apresentam bem marcadas, nem seus cultores se caracterizam pela ortodoxia. Em mais de um caso, deparamos correntes cruzadas, superpostas, manchas de cor que se misturam, gerando uma ficção avessa a soluções estanques. (MOISÉS, 2001, p. 335).

Falar de prosa contemporânea é um assunto complexo. Primeiro porque está muito próximo de nós, ainda estamos vivendo as transformações alcançadas pelo Modernismo, a Semana de Arte Moderna, é certo, que os modernistas de 22 não conseguiram colocar muitas transformações em prática, mas eles deram um grande passo para as várias conquistas que estamos vivenciando, essa Semana de Arte Moderna faz detonar muitas questões que são debatidas até hoje. Ainda que se possa criticar as contribuições dos artistas ligados à semana, essas contribuições foram fundamentais e até hoje alimenta a cultura brasileira.
Por todos os ideais pregados pelos intelectuais de 22, que lutavam por uma arte livre das convenções passadistas, os artistas de 30 puderam fazer as coisas livremente, pois os heróis de 22 romperam com todas as barreiras. Então, os artistas de 30 podiam escrever como quisessem, pois, os modernistas acabaram com o passadismo. Há ainda uma contribuição dessa geração de 30, que não conseguiu colocar em prática os ideais da semana de 22, mas contribuiu com o romance social regionalista, uma literatura mais política, adulta.
Mas, foi a terceira geração que conseguiu colocar em prática os ideais de ruptura pregados pela semana de arte moderna, ou seja, os ideais de mudança, rompimento, pregados pelos modernistas de 22 deu-se de fato na terceira geração do modernismo (geração de 45), considerada a fase madura, a qual conseguiu colocar em atividade tudo aquilo que os modernistas tentaram colocar em prática e não obtiveram êxito.
         A geração de 45 conseguiu desenvolver uma literatura de traços próprios do autor, de cunho individual, uma crítica social, experiência e observação das realidades vividas, isto é, cada um possui seu próprio estilo de escrita, por exemplo, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, e essa é uma das características dentre muitas outras que observamos na narrativa contemporânea. Por outro lado, os escritores ainda estão escrevendo, essa literatura está sendo construída, formada, seja pelos escritores que estão vivos e escrevendo, seja pelos próprios escritores mortos que continuam a influenciar nossa literatura. Depois, porque nos deparamos com várias correntes se cruzando, vários “ismos” sendo assinalados, o novo mesclando com a tradição, o que demonstra que não existe fronteira nessa escrita, o que ocasiona a dificuldade de nomear essa arte.
É o que trata Salvatore (1990) a respeito dos “ismos”, quando diz:

A produção artística do século XX, nas suas várias formas de manifestações (literatura, teatro, cinema, pintura, escultura, arquitetura, música, dança), acusa profundamente as influências de um conjunto de idéias inovadoras surgidas a partir da segunda metade do século. Intuicionismo, Existencialismo, Fenomenologia, Psicanálise, Marxismo, Voluntarismo, Relativismo constituem correntes de pensamento que, de um certo modo, determinaram o surgimento de novas formas artísticas mais aptas a expressar o universo da mecanização e a nova problemática da sociedade moderna contemporânea. (SALVATORE, p. 412).
                  
Essa fase para Oliveira em Literatura sem segredos (2007, p. 442) consiste em uma fase que “segue as tendências da geração 45, sendo acrescida de biografias, memórias e reconstituições históricas”. Assim, em face do novo temos o contraste com o velho, como se pode perceber continuidade e rupturas se alternam e se misturam.
Dada à pluralidade de estilos, bem como as inúmeras obras, destacamos apenas: prosa intimista, prosa regionalista, a ficção de Fenomenologia Existencialista, o realismo mágico, ficção do cotidiano dramático e da condição humana, prosa urbana, crônicas, contos, biografias, memórias, reconstituições históricas, romance – reportagem.
É nesse campo de tantas diversidades que se encontra nosso estudo, mais precisamente no realismo mágico, e como o nosso objeto de estudo, a obra O Berro do Cordeiro em Nova York, foi escrita no ano 1995, achamos oportuno focarmos nossos estudos somente nas duas últimas décadas do século XX, isso facilitará a compreensão do livro, uma vez que esse século está repleto de acontecimentos importantes.
Nos anos 80 e 90 ocorreram transformações muito importantes não só no mundo, mas também no Brasil. No mundo podemos citar, o fim da guerra fria, a queda do muro de Berlim – 1989, a fragmentação da União Soviética, e do ideal do socialismo utópico, a guerra do Golfo, na disputa do oligopólio do petróleo, etc.
No Brasil, tivemos inúmeros acontecimentos no campo social, político e econômico. Mas, sem dúvida, o acontecimento mais importante encontrava-se no campo político, uma vez que houve uma grande mudança nesse setor. O colégio Eleitoral elegeu para presidência, em 1985, o civil Tancredo de Almeida Neves, dessa maneira encerrava 20 anos de governos militares. Porém Tancredo Neves não veio a assumir, devido a problemas de saúde e posterior complicação que o levaram à morte. Logo, quem assumiu a presidência foi seu vice, José Sarney permanecendo no poder até o ano de 1989.
Oliveira, em Literatura sem segredos, afirma a esse respeito:
[...] o ciclo de abertura estava finalmente completo em 1989, quando se disputou uma eleição direta para a presidência. O Brasil deixava para trás os anos de repressão para vivenciar o governo de Fernando Collor de Mello [...]. (OLIVEIRA, 2007, p. 441).

Isso significa que, nos anos 80 é quando o processo democrático começa, enfim, a ser estabelecido. Entretanto Fernando Collor foi cassado dois anos após sua posse (1990-1992), assumindo em seu lugar o vice Itamar Franco, que em sua administração foi lançado o plano real pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que por essa atitude e pela falta de candidato torna-se popular. Fernando Henrique chega à presidência da República, em 1995, foi reeleito permanecendo no poder até 2003. E, finalmente chega à presidência Luís Inácio Lula da Silva que também foi reeleito, atual Presidente da República.
Também houve grandes conquistas no campo da ciência, “o homem já brinca de Deus” tamanha as transformações que conquistaram nesses últimos tempos.Temos em curso os mais sofisticados produtos da área da informática, o projeto Genoma, a clonagem, entre outros acontecimentos.
Evidentemente, após todos esses episódios, a literatura que já possuía o intuito de retratar a realidade, agora tem o compromisso de ser a mais transparente possível, mostrando a verdade, para que possa se fazer justiça, pois, tem por objetivo preencher as lacunas de informação deixado na sociedade enquanto estava reprimida sob o regime militar, pois a literatura também trabalha com a realidade ficcionando – a, e esse homem contemporâneo necessita ter uma visão alargada para dar conta de todas essas mudanças que a sociedade sofreu e sofre. Além de todos esses fatos mencionados, temos a passagem de século que ocasionou todas aquelas questões esotéricas de fim de século.
A propósito disso, diz Hilda Magalhães:

[...] os anos 1980 e 1990 caracterizam-se basicamente pela espiritualização, uma busca interior que inclui o resgate de valores não muito privilegiados naquele século, como as religiões e todas as demais manifestações místico-esotéricas. Tais manifestações convivem, entretanto, com a era da multimídia, conformando um momento sui generis no final de século, dividido entre a festa e o apocalipse, concretizados, respectivamente, na exacerbação do misticismo e na radicalização da violência. (MAGALHÃES, 2001, p. 235).

A passagem do século XX para o século XXI trouxe em discussão na literatura assuntos até então considerados irrelevantes, como, religião, questões místicos - esotéricas, esse assunto mistura se com toda a tecnologia que possuímos, e também com a violência, são assuntos totalmente opostos, o irracional numa época marcada pelo racional, num momento que a ciência encontra-se extremamente avançada.
Mesmo numa geração marcada pela racionalidade, muita pessoas, baseada nas opiniões religiosas e do senso comum, acreditavam que com essa passagem de século teríamos um apocalipse, que o mundo iria acabar. Essa é uma das explicações do aumento desse tipo de assunto na escrita. Há nesses anos uma crescente procura nesse assunto, e também nos livros de auto – ajuda, uma forma do homem moderno obter respostas para questionamentos existenciais, busca de si mesmo, seu interior, tudo isso gerado por todas estas transformações do mundo moderno, é certo, esse homem é influenciado por todas essas mudanças, social, tecnológica, política, cultural.
A esse respeito afirma Cadermartori, em seu livro Períodos literários: “A arte, nas primeiras décadas deste século, afastando-se da tradição, rompeu com uma certa unidade existente nos padrões da expressão”. (1987, p. 71).
É claro, que a cada passagem de século surgem mudanças na expressão artística, mas o século XX acusa profundas e amplas transformações culturais e estéticas, isso acontece por inúmeros fatores de ordem econômica, social, política, como já mencionamos, mas há ainda a questão do gosto. E o que ocorreu neste século é uma mudança bem mais ampla que dos demais séculos.
Herbert Read, em Arte de agora agora ( São Paulo, Perspectiva, 1972), citado por
  Cademartori, nesse mesmo livro, destaca dois traços marcantes da arte contemporânea: a complexidade e a diversidade.
Assim, aborda o autor sobre esses dois aspectos:

[...] a complexidade – gerada pela ausência de unidade e pela ruptura com a tradição acadêmica – e a diversidade – diz respeito à pluralidade de nosso tempo de condensar, de algum modo, nosso desenvolvimento passado de maneira que o espírito humano, que no passado expressou a si próprio, ou a algum aspecto predominante de si próprio, diversamente em épocas diferentes, agora expressa a mesma diversidade, sem qualquer pressão em qualquer aspecto particular, ao mesmo tempo. (CADEMATORI, 1987, p. 71

Novamente, vemos a dificuldade em classificar essa literatura, isso não é possível como afirma o autor, por dois motivos, a complexidade e a diversidade. Segundo ele, a complexidade foi gerada pela ausência de uma uniformidade, um único modelo de escrita como tínhamos no passado, essa quebra de paradigmas deu-se com o rompimento da tradição acadêmica, herança dos modernistas de 22, mas que tivemos realmente resultado na geração de 45.
E também há a diversidade, gerado pela falta de um modelo a seguir, é claro, que surgem várias vertentes, muitas tendências, além disso, cultivamos inúmeras características das gerações anteriores, o que gera uma mistura da tradição com o novo. E esse respeito que temos de cultivar o passado com seus aspectos próprios, de seus autores que estavam presos a regras de escrita, de tema de sua época, fazem com que convivam hoje passado e presente, mas com uma liberdade a qualquer tipo de padrão de escrita.
De fato, essa diversidade não permite que enquadremos a arte contemporânea em uma única tendência, ou seja, não podemos designar esta literatura como foi feita nos séculos anteriores, no entanto, nada impede que possamos caracterizar essa expressão artística hordiana, com particularidades próprias, como enunciou Carpeaux ao mencionar os aspectos estilísticos e ideológicos, dos quais já comentamos. E uma dessas peculiaridades próprias diz respeito à industrialização cultural e à sociedade de massa.
A indústria cultural é realizada pelos meios de comunicação de massa e engloba todas as informações culturais industrializados desenvolvidas no nosso século. Já a sociedade de massa engloba as informações desenvolvidas pelo povo.
A cultura de massa influência tanto a população urbana quanto a rural, esta é alcançada através de seus instrumentos de comunicação como: televisão, rádio, jornal, livros, etc., impondo padrões e comportamento de consumo, colocando para as pessoas uma maneira de pensar, agir, uma ideologia dominante, que é a da classe dominante. Assim, a arte que esses meios mostram torna-se um produto, que deve ser comercializado, colocando a arte a fins de meios capitalistas.
É certo que avançamos muito, se pensarmos que no passado, que quem tinha acesso ao livro era apenas quem possuía dinheiro, tanto é que os romances eram uma forma de entretenimento da burguesia, a população menos favorecida era descartada desse tipo de leitura por ser o livro muito caro. Além disso, não havia acesso a informação como há hoje. No entanto, esse comércio cultural visando apenas o lucro às vezes não se preocupa com o conteúdo que está difundindo, pó exemplo, vulgariza, pela simplificação, conceitos complexos provenientes de outro tipo de comunicação, no caso, a elite, e muitas vezes visando apenas o entretenimento. O intuito dessa arte de massa é apenas a diversão, e não concentrar, enfim, é um sistema que visa apenas o lucro.
E essa cultura de massa opõe a cultura chamada superior, de elite ou universitária. É como diz Cadermartori “[...] assistimos em nossa época, à tensão entre dois tipos de arte – a culta e a de massa – regidos por diferentes normas e agradando a diferentes públicos” (1987, pp. 72-73).
Mas isso não quer dizer que elas convivam isoladamente. Às vezes convivem juntas, como podemos citar a adaptação dos clássicos, e a redução de obras consideradas obras primas, obras consideradas leituras das elites. Tudo isso facilita o acesso do povo, porém uma obra adaptada ou reduzida perde toda sua originalidade, a forma como o escritor escreve, sua maneira de escrever é única, própria do autor, até a ideologia da obra pode sofrer alterações, isso deve ser levado em consideração na hora de ler um livro.
Há também o fato do escritor culto contemporâneo está inserido nesse mundo onde a cultura de massa predomina, pois ele leva esses aspectos da cultura de massa para sua escrita, como os aspectos das novelas de televisão, as fotonovelas, o cinema, etc.
Dessa maneira, existem dois pólos de manifestações artísticas, uma cultura de massa que é efetuada pelos meios de comunicação e o da vanguarda, que são as obras em que dá importância à investigação e a invenção da escrita.
Encontramos ainda traços peculiares dessas narrativas como afirma Massaud Moisés: questionamentos, busca de conhecimentos, indagações, reflexões sobre a própria existência e o mundo, todos esses valores são bem diferentes, do século XIX, que possuía o objetivo apenas de divertimento do leitor, dito de outra forma, os escritores contemporâneos buscavam e buscam uma nova forma de colocar esses novos valores na escrita e torná-los produto de sua época.
Em geral, a sociedade contemporânea é extremamente conturbada por problemas do mundo moderno, seja político-social, seja econômico. O homem de hoje está a todo o instante inventando, transformando o mundo, e agindo sobre ele, mudanças profundas estão ocorrendo, todos os dias temos novas descobertas, no campo da ciência, os povos já estão unidos pela tecnologia avançada tamanho o avanço dos últimos tempos.
Em mesma conformidade, Salvatore:

No começo do século, e mais propriamente com o início do Modernismo, a prosa de ficção adquire aspectos multiformes. No seu intuito de representar a vida, a literatura ficcional tenta colocar em forma de arte mudanças profundas, quer no tocante às formas estéticas, quer no que diz respeito aos conteúdos ideológicos. (SALVATORE, 1990, p. 430).

         Com esse interesse de representar uma época, a realidade em movimento, seus problemas, anseios, conflitos existenciais, o próprio homem moderno em face de múltiplos conflitos, etc., é necessário, portanto, uma reforma no pensamento. Assim, a prosa mudou muito para conseguir refletir todos esses acontecimentos na escrita, porque a literatura está ligada ao contexto sócio-cultural, por detrás de uma literatura há sempre uma ideologia, a literatura é viva, caminha para o futuro. E essa mudança como colocou Salvatore, atinge tanto a forma estética; que é a estrutura, quanto o conteúdo ideológico; a maneira de enxergar o mundo, sua prática reflexiva e crítica.
Novamente é colocada a dificuldade de classificar a narrativa contemporânea, assim diz Salvatore, “Devido à grande variedade de tendências e correntes, é muito difícil definir e classificar o romance do século XX”. (1990, p. 430).
Além dessa preocupação em retratar a realidade de sua época; mostrando os problemas concretos do país, conscientizando o público – leitor de uma forma mais verossímil possível, pois, seu intuito é denunciar a alienação do povo. Os escritores contemporâneos também possuem a inquietação em ser o mais criativo possível, até porque os leitores estão mais exigentes, a literatura da contemporaneidade na maioria das vezes, é vista como uma maneira de adquirir informação, e não apenas como entretenimento.
Então, surge a necessidade de reinventar uma nova forma de interpretar essas transformações; o que ocasiona um dilema ao artista, que deve possuir uma atitude nova em face do mundo, isso coloca o escritor diante da busca constante de uma nova forma de mostrar todas essas transformações, apresentar o novo para seu público, pois o homem contemporâneo necessita acompanhar todas estas mudanças: econômicas, tecnológicas, científicas, entre outras.
Por isso mesmo, a produção literária contemporânea é marcada por uma enorme pluralidade, várias tendências se misturam, mesclam entre si. Nessa perspectiva, observamos os seguintes traços: um enredo bem planejado, as histórias transcorrem em vários ambientes, ficção psicológica de tom intimista retratando os problemas de sobrevivência num cotidiano torturado pela tensão entre o homem e o mundo, presença de traços místicos, seja referente a traços religiosos, ou até mesmo político, temas voltado ao regionalismo, introspectivo, fantasmagórico, fluxos da consciência, aos flashbacks, e a toda sorte de fragmentação estrutural, o irracional.
Devido a essa pluralidade, diversidade, complexidade, todos esses impedimentos, para uma possível nomeação dessa arte literária, Salvatore diz, “Tentaremos delinear apenas algumas vertentes que nos parecem principais, enquadrando nelas os vultos mais expressivos da moderna prosa de ficção”. (1990, p. 430).
Nessas vertentes principais três filões de narrativa ficcional podem ser detectados:
Primeiro: a narrativa traz como tema os problemas sociais do homem e do mundo moderno, e é marcada pela corrente realista. Essa narrativa é classificada por Bosi, como romance “de tensão crítica”. Para Bosi (1994), “romances de tensão crítica - o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da natureza e do meio social, formule ou não em ideologias explícitas, o seu mal-estar permanente”.
Segundo: a narrativa preocupada com o mundo subjetivo do protagonista, aqui, nota, a influência do interior, psicológico da personagem principal, como nomeia Bosi de romance de “tensão interiorizada”, em que “o herói não dispõe a enfrentar a antinomia eu/mundo pela ação: evade-se, subjetivando o conflito”.
Terceiro: as narrativas com inclinação a reformar o gênero literário, experimentando novas fórmulas de estrutura e novos padrões lingüísticos. Para Salvatore, esses romances antes de transpor a realidade social ou psíquica, “tentam construir uma nova realidade, recorrendo a padrões místicos”. (1990, p. 392). Sobre esse tipo de romance, Bosi nomeia-o de romance de “tensão transfigurada, que o herói procura ultrapassar o conflito que o constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade”. (1994, p. 392).
Esses três filões da narrativa ficcional não têm um valor científico, mas apenas para melhor entendimento, uma finalidade didática, com o intuito de encontrar princípios análogos no meio de inúmeros elementos distintos, de vários autores e obras.
De acordo com esse assunto Bosi, quando afirma em História Concisa da Literatura Brasileira:

[...] que a classificação por tema tratado na obra pode ajudar até um certo momento, pois, essa separação do romance social-regional, romance psicológico finda-se por não dar conta das distinções internas que separam os principais prosadores de uma mesma época, além disso, um autor pode ter um e outro aspecto, essa separação é apenas para melhor compreensão. (BOSI, 1990, p. 392).

Como vimos Salvatore destaca três filões na narrativa ficcional. Mas o escritor Bosi, além desses três, ainda destaca outro, o romance de “tensão mínima”. Nesse romance encontramos conflitos, mas apenas em oposição verbal, sentimental quando muito: “as personagens não se destacam visceralmente da estrutura e da paisagem que as condicionam”. (1994, p. 392).
No entanto, toda essa variedade, complexidade que falamos não impede que encontramos traços comuns, que apontam para uma tendência que predomine.
Observemos o aspecto do irracional, pois, é o que prevalecerá na narrativa contemporânea, como afirma Carpeaux:

A tendência dominante da época é o irracionalismo. É irracionalista o fundo de todos os modernismos, de todos os primitivismos e do surrealismo, do realismo“mágico”, do existencialismo, irracionalista até é o neo-realismo que se entrega de todo à realidade, isto é, a um fenômeno que não pode ser completamente analisado com os recursos da “Ratio”. Mas a força do irracionalismo revela-se, sobretudo nas modificações que conseguiu imprimir a movimentos bastante racionalistas. (CARPEAUX, 1980, p. 19).

Nesse sentido, destacam-se os escritores do “realismo fantástico”, que exploraram a fronteira do real para atingir uma supra - realidade, assim esses autores apropriam-se de muita fantasia e reprodução concretas do imaginário, isso contrapõe a narrativa das correntes realista que “[...] partilha o princípio do classicismo de que a vida é racional e cabe ao escritor descobrir, via arte literária, a lógica do comportamento humano e viver social”. (Salvatore, 1990, p. 435).
Na narrativa fantástica encontramos seres como nós, vivenciando o espaço como o nosso, em frente à realidade como a que estamos vivenciando, porém, esse homem é colocado de repente com acontecimentos estranhos, misteriosos que a racionalidade não consegue explicar.
A esse respeito Massaud Moisés, afirma:

Vinculando-se às experiências já conhecidas, repercutindo uma das linhas de forças mais ativas da literatura hispano-americanas das últimas décadas do século XX, a ficção de recorte fantástico, ou mágico, igualmente abre espaço na produção nacional do pós-guerra. Para tanto, o místico, o maravilhoso, o sobrenatural, o fantasioso, tornam-se categorias discerníveis na realidade histórica. (MOISÉS, 2000, p. 368).

Como assinalou Massaud Moisés, a ficção de recorte fantástico ganhou espaço principalmente nessas últimas década s do século XX, isso é resultado de uma busca de valores que muitas vezes não é alcançado por meio da racionalidade.
O Fantástico não leva em conta o racional, ou seja, é um rompimento com a prosa que desde o classicismo aborda questões que a racionalidade pode explicar, ao contrário, o Fantástico nasce do absurdo, inexplicável, não existindo fronteiras entre o real e o imaginário.
E como afirmou Massaud Moisés, essa literatura abre espaço principalmente no pós-guerra, no meio de tantas desilusões, sofrimentos que o ser humano se deparou, por isso a associamos a uma busca que o ser humano faz, que só pela racionalidade não seria possível, então traz o racional junto com irracional, ambos convivem juntas sem nenhum problema.










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