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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"UM DIA, UM GATO", CONTO DE HELOÍSA SEIXAS

Tudo aconteceu muito rápido. Só me lembro de ter ouvido um estrondo, depois um tremor imenso, um grito em algum lugar distante – foi só. E o mundo acabou.

Estava dormindo quando aconteceu. Ou adormeci depois, não sei. Acho que desmaiei. Mas é possível que o mundo tenha mesmo acabado porque a verdade é que agora abro os olhos, arregalando-os com toda força até senti-los secos e, ainda assim, não vejo nada.

Tento mover meus músculos. Estico as costas com cuidado e, no silêncio enorme que me cerca, ouço os pequenos estalos das vértebras. Assim. Estou conseguindo. Devagar. Sinto alguma coisa fria – parece uma parede – colada à lateral do meu corpo, mas acho que se me arrastar para a frente conseguirei sair daqui. O chão está úmido, como se encharcado por uma substância viscosa. Talvez signifique perigo. Mas não devo pensar nisso agora. O importante é que o chão escorregadio facilita meu deslocamento. Vou em frente, esgueirando-me por espaços ínfimos, menores que meu corpo. Sou bom nisso.

Após alguns minutos de esforço, sou recompensado. Percebo ao longe, como se ao fim de um túnel, uma claridade.

Agora, aqui está. Mais este obstáculo e estarei livre. Empurro a pedra com o corpo. É uma lasca de cimento, afiada, que me raspa a orelha. Sinto uma dor aguda. Acho que me feri. Mas não vou desistir.

A luz explode em meus olhos, seu clarão quase me cega. Sinto o ar frio de primavera nas narinas – e sei que este é o cheiro da liberdade. Mas, assim que minhas pupilas se ajustam à luz do dia, tomo um susto: a poucos passos de mim há um homem, segurando uma estranha máquina preta. Será que vai me matar?


* * *

O cinegrafista ajeita sua câmera e começa a rodar. Diante dele, os escombros de uma casa nos arredores de Pristina, capital do Kosovo, na Iugoslávia. Mais uma casa destruída pelos bombardeios – apenas mais uma, entre tantas.

De repente, alguma coisa se move entre os escombros. Ele ajeita o foco, atento. E vê, com surpresa, surgir de trás de uma lasca de concreto um gatinho branco, os olhos azuis piscando muito ante a claridade do dia. Sua orelha sangra, o pêlo do pescoço está escuro, as patas também, como se sujos de graxa, mas ele dá um salto para a frente, com grande agilidade. E depois fica parado, olhando o cinegrafista com sua máquina.

Parece perplexo. Seus donos com certeza estão mortos. Muita gente está morta. Mas ele saiu ileso do bombardeio. Emerge daquele cenário de destruição, com seus olhos azuis cheios de perguntas. É um sobrevivente da fúria dos homens.

Heloísa Seixas

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"IRMÃOS", CONTO DE HELOÍSA SEIXAS

Imaginem um menino. Um menino qualquer, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo, nem bonito nem feio, mas de uma inteligência aguda e de olhos bem grandes, abertos para o mundo, todos os mundos. Ele era assim. Filho único, era capaz de ficar horas a fio trancado no quarto lendo, pois tinha nos livros seus grandes companheiros. Não que fosse um menino solitário, isto não. Tinha amigos, jogava bola, namorava. Mas ler era um prazer especial, que desfrutava com avidez.

Começara com Alice, mas logo enveredara por outros mundos, igualmente fantásticos, para os quais se transportava. Tarzan, a feiticeira Ela, Sherlock Holmes, tantos, tantos. Em seu quarto, armara uma pequena estante, que em pouco tempo já estava superlotada de livros. Romances, poesia, biografias, dicionários, tudo. Tratava os livros com reverência, sem que nunca ninguém lhe ensinasse a agir assim.

Com o passar dos anos, sua vida foi mudando. Cresceu. Mudou de casa, de cidade, de país. Foi e voltou, casou e descasou, ganhou e perdeu, rolou e rolou pela vida como quase todos nós e, com essas transformações, sua biblioteca de menino foi desaparecendo. Mesmo os livros mais antigos, os primeiros, aqueles que mais amava e dos quais se recordava de forma aguda, se perderam.

Novamente, os anos passaram.

Até que um dia, muito tempo depois, estava ele num sebo, examinando aquelas prateleiras coloridas que transpiram vida - como sempre acontece com as prateleiras de um sebo -, quando seus olhos se prenderam a uma lombada. Sentiu uma onda de prazer, o reconhecimento imediato. Alcançou o livro e puxou. Viu-se com um pedaço da própria infância nas mãos. Era um exemplar igual - mesma capa, mesma editora, mesma edição, tudo - ao que tivera em criança. Folheou as primeiras páginas imaginando encontrar seu próprio nome escrito a caneta tinteiro (pois sempre escrevia o nome nos livros), mas o que encontrou foi outro nome. De outro menino, quem sabe igual a ele, apaixonado por livros. Porque os meninos apaixonados por livros tratam bem seus volumes e aquele estava muito bem conservado.

Daquele dia em diante, não parou mais. Passou a andar pelos sebos buscando seus livros de infância. Tinha a secreta esperança de um dia abrir um deles e encontrar o próprio nome, mas isso nunca aconteceu. Não se importou. Encontrava outros nomes e sentia-se irmanado àqueles que um dia foram meninos como ele e que, como ele, amaram os livros desde cedo. E foi assim que esse menino- homem, sendo filho único, ganhou dezenas de irmãos.

Irmãos, de Heloisa Seixas. In: Uma ilha chamada livro: contos mínimos sobre ler, escrever e contar. Rio de Janeiro: Galera Record, 2009. p.9-11

Obrigado




"A MARCA DA SOLIDÃO", CONTO DE HELOÍSA SEIXAS

No côncavo das palmas, o homem segurou com cuidado o gatinho. Observou-o enquanto ele se debatia. Mexia as patinhas dianteiras e traseiras, mas sem muita convicção, apenas mostrando disposição de brincar e não dando qualquer sinal de impaciência ou alarme. Assim, entre suas mãos, tão pequeno que era, com a barriga para cima, lembrava um bebê que, deitado no berço, agitasse mãos e pés tentando alcançar algum móbile suspenso. O homem sorriu.

Em seguida, sentando-se no sofá, acariciou o corpo do gato, pouco maior do que sua mão. O bichinho acalmou-se, de repente. Ficou imóvel, os olhos quase cerrados, parecendo saborear o momento de ternura. Tão pequeno e o animal já parecia dar valor a uma carícia. Era natural, pensou o homem. Afinal, fora abandonado na rua. E agora, por entre suas mãos calosas, aquele ser tão frágil era uma presença inesperada, subversiva, surpreendente. Os gatos precisam ser acariciados quando pequenos, lembrou ele, principalmente se tiverem sido separados da mãe muito cedo. Caso contrário, quando adultos podem tornar-se medrosos, tímidos ou mesmo agressivos.

E de repente o sorriso do homem cessou.

Por associação de ideias, pensou em um livro que acabara de ler, um livro antigo, esquecido havia muito, e que por acaso apanhara outro dia na estante. Era um livro de José Carlos de Oliveira, chamado O pavão desiludido, em que o cronista relatava os horrores de sua infância. Havia uma passagem, logo no início, em que Carlinhos de Oliveira contava como ele, menino miserável, faminto e cheio de vermes, um dia, apanhando água na bica, recebera da irmã um presente: um arco-íris. ''Olhei e vi o arco-íris na água aberta em leque sob o céu azul. O sol devia estar criando uma ilusão, mas o que eu via era o milagre da multiplicação das lágrimas coloridas onde antes só havia lágrimas''. Mais adiante, o cronista falava de como ficara marcado pela infância difícil e sobre a relação terrível que tivera com a mãe: ''Quando se cria um abismo assim entre duas pessoas da mesma família, sendo uma delas criança, mais tarde se verifica que nem todo o amor do mundo daria para encher o buraco''.

E, voltando a olhar o gatinho, que agora dormia, o homem sorriu um sorriso triste. Assim como Carlinhos, ele próprio tivera uma infância infeliz. E assim como aquele filhote que tinha nas mãos, também fora deixado para trás, num certo sentido. Para o pequeno animal, ainda havia salvação. Mas para ele - como fora talvez para o escritor - era tarde.

Suspirou. Sabia bem. Trazia uma nódoa indelével, o estigma daqueles a quem faltou, na hora exata, a carícia necessária. Trazia, no corpo e na alma, a marca da solidão.

HELOISA SEIXAS


Obrigado



"MUITO RISO", CONTO DE HELOÍSA SEIXAS

Desde pequena ela era assim. Ria demais. Ria sem parar. A prima, que sempre passava as férias com ela no sítio em Araras, ficava boba de ver como a menina achava graça em tudo. Até evitava contar piadas, fazer gracejos, pois temia que ela acabasse passando mal de tanto rir. Era um riso descomunal, interminável, que a fazia atirar-se na cama, quase em convulsões. A mãe também se preocupava, ainda mais porque a garota era asmática e aqueles acessos de riso bem podiam transformar-se em crise.

Uma noite, as duas primas, dormindo juntas, enroladas em seus cobertores para enfrentar o frio da serra, conversaram até bem tarde. Riram tanto, tanto, que no dia seguinte a menina amanheceu com os cantos dos lábios rachados, os maxilares doloridos. Ela era assim. Vivia rindo. De tudo. Adolescente, não mudou nada. Ria dos amigos, dos professores, dos namorados, de tudo o que falavam. Quando conversava ao telefone, ria tanto que a mãe se perguntava o que havia de tão engraçado nos namoros dos jovens.

Adulta, ela continuou rindo. Virou professora e às vezes tinha dificuldade em controlar os alunos, justamente porque achava graça em tudo o que faziam. Um dia, uma de suas amigas ficou espantada ao ouvi-la contar, às gargalhadas, que acabara de receber a notícia da morte de uma tia. E o tempo foi passando. Com riso ou sem riso, os anos escoaram. Um dia, a mesma amiga que no passado se espantara com a notícia da morte dada em meio a risadas, comentou com ela que rir demais provocava rugas em volta dos olhos. Nunca tinha parado para pensar nisso. Olhou-se no espelho com atenção, observando os pequenos sulcos em redor dos olhos. Mal fizera 40 anos, mas, de fato, as rugas estavam lá. Aquilo a deixou agastada. Achou injusto que as pessoas alegres envelhecessem mais rápido.

Continuou rindo de tudo, é verdade, mas daquele dia em diante, passou a examinar as rugas do rosto quase diariamente. A cada dia elas pareciam aumentar. Agora, não eram apenas as marcas finas, em forma de leque, no canto dos olhos, mas também os sulcos em torno da boca, que se aprofundavam com uma rapidez espantosa. A própria boca, que rira tanto pela vida afora, parecia agora descaída. As faces murchavam, os olhos ficavam cada dia mais quebrados. Mesmo quando ria, mesmo quando gargalhava, seu rosto guardava uma expressão de tristeza, de derrota, que já não podia evitar.

E ela teve a certeza de que seu maior segredo seria, afinal, descoberto. Aquelas rugas não eram marcas comuns, da idade. Eram sua tristeza – sua imensa tristeza, escondida de todos com tanto afinco, pela vida inteira – que agora começava a aflorar.Sem remédio.

Heloisa Seixas. Contos Mínimos.

Obrigado




"SEGREDOS", CONTO DE HELOÍSA SEIXAS

Sempre me chamou a atenção, aquela senhora. Ela almoça no mesmo restaurante que eu. Todos os dias, à mesma hora, vejo-a entrar, sozinha, elegante em sua roupa escura, quase sempre de gola rulê, os cabelos muito brancos presos num coque. Pisa o chão de lajotas com passos incertos, o corpo muito magro um pouco encurvado, como se carregasse um peso invisível – ou um segredo. Sim, porque os segredos vergam as costas, pesam como fardos. E, ao olhar, para ela, desde a primeira vez, fui tomada pela sensação de que tinha algo a esconder.

Outro dia – um dia de sol, de primavera, com o ar impregnado de luz –, ela chegou à porta do restaurante com um andar diferente. Passos mais rápidos. E, antes mesmo que entrasse, notei que se dera alguma transformação. Fiquei observando-a. Entrou e passou com seu andar mais leve. Sentou-se a poucos metros de mim, mas num ângulo que não me permitia ver seu rosto, apenas o perfil e as mãos. Estavam trêmulas, mais do que de costume. E, enquanto esperava a chegada do garçom, tirou da bolsa alguma coisa que seus dedos nervosos trouxeram para cima da mesa. Inclinei-me para a frente e pude ver: era uma carta.

Nesse instante, ela se virou e, ainda com o envelope nas mãos, olhou o dia lá fora. Vi, então, com toda a clareza, que seu olhar carregava um brilho novo, febril. E aquilo atiçou minha imaginação. Sem dúvida, a carta a transformara. E eu poderia jurar que tinha alguma relação com seu segredo – fosse qual fosse. Os olhos traem, revelam. Nas mulheres muito velhas, são eles que exibem as marcas de antigas paixões. Por trás dos cabelos, das rugas, da pele ressecada, cintila muitas vezes, nos olhos, um brilho traiçoeiro – porque é ali que os desejos cavam sua última trincheira.

Muitas semanas se passaram. Todos os dias, à mesma hora, ela continua chegando para almoçar, os olhos novamente apagados, o passo outra vez mais lento, o tremor das mãos apaziguado. Parece que o efeito da carta passou. Sei que nunca saberei o que estava escrito ali. Sei que a velha senhora nunca falará comigo, nem com ninguém. Mas há pelo menos um segredo de seu passado que já conheço. Por mero acaso. Aconteceu ontem. Ela se sentou na mesa ao lado da minha. Nunca antes isso acontecera. Era a chance para observá-la bem de perto. Vestia, como de costume, uma blusa de mangas compridas, de malha de lã escura. E, sob o facho de luz que incidia sobre a mesa, pegou o cardápio. Ao fazê-lo, a manga da blusa franziu-se um pouco em direção ao cotovelo, deixando à mostra uma parte do antebraço. E foi então que eu vi, no pulso muito branco, a cicatriz.

Um dia, ela quis morrer. E tenho certeza de que foi por amor.


Heloísa Seixas. Conto Mínimo.


Obrigado




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