Temblante para blog







Pesquisar este blog:

Carregando...

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"CHATER" E "ENCHER", CRÔNICA DE PAULO MENDES CAMPOS










Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: Você telefona para um escritório qualquer na cidade.

- Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?

- Aqui não tem nenhum Valdemar.

Daí a alguns minutos você liga de novo:

- O Valdemar, por obséquio.

- Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.

- Mas não é do número tal?

- É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.

Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:

- Por favor, o Valdemar já chegou?

- Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo disse Valdemar nunca trabalhou aqui?

- Mas ele mesmo me disse que trabalha aí.

- Não chateia.

Daí a dez minutos, liga de novo.

- Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro desta vez esquece a presença da digitadora e diz coisas impublicáveis.

Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:

- Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?


Paulo Mendes Campos

Para gostar de ler. Volume 2 – Crônicas. Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade- editora Ática. Crônicas – edição didática.




"SEU PÊRA", CRÔNICA DE ROSE MARIE WUNSC

Sempre tive curiosidade para saber por que algumas histórias vividas permanecem para sempre na memória e outras desaparecem como se nunca tivessem existido. Alguns poderia dizer que ficam as lembranças do que constituiu mudança significativa na vida. Pode até ser, pois o fato que narrarei brota da minha memória como desencadeador de uma percepção de mundo.

Eu tinha quatro anos e me lembro como se tivesse acontecido ontem. Vivia em uma cidade do interior e algumas vezes já havia visto aquele home pelas ruas. Ao que parecia, era ali que ele morava e isso me intrigava profundamente. Quem era aquele homem que não tinha ninguém na vida? Nada poderia me parecer mais triste do que ser sozinho. Como se isso não bastasse, vivia maltrapilho, bêbado e todo chamavam-no vagabundo. Lembro-me de algumas vezes ter cruzado meus olhos infantis, cheios de curiosidade, com aqueles olhos tão sofridos. Não eram olhos descorados de quem perdeu a liga com a vida, mas olhos que, ao me olharem, revelavam imensa ternura. Era um carinho que ele me fazia. Eu percebia que ele não era aquela trouxa que rolava pelas calçadas, aquele ser que não homem nem bicho, mas alguma coisa intermediária e que servia de chacota para a meninada, ao contrário, ele era igual a mim. Isso eu confirmava sempre que o encontrava e dividíamos o sorriso da cumplicidade. Como eu ficava feliz quando o via!

Autêntico mendigo, totalmente inofensivo, uma vítima do alcoolismo, que arrasta a pessoa até a mais amarga derrocada. Na época não se dizia alcoólatra, mas bêbado. E as pessoas eram bêbadas, porque não prestavam, não porque fossem portadoras de uma doença como se sabe hoje. Mas, par mim, ele era só um pessoa de quem eu gostava muito.

Não demorou para que ele passasse a sentar na calçada em frente da minha casa. Foi assim que, pela primeira vez, pude oferecer um - d’água. Quando ele chegou, num outro dia, eu havia preparado uma sacola com as mais belas peras encontradas no pomar. Essa cena se repetiu muitas vezes naquele verão – nós dois sentados na calçada comendo pêra. Como ele passasse a andar pela cidade com a sacola de pêra que eu lhe dava, a molecada começou a chamá-lo de Seu Pêra e assim ficou para toda a cidade, já que até então ele era apenas o bêbado.

Embora não possa ter certeza de que tudo tenha acontecido exatamente dessa maneira, o que se cristalizou na minha memória foi isso. Um dia mudamo-nos e não me lembro da despedida. Por certo, ele já morreu há muito tempo, não sei se de tanto beber ou de fome, quem sabe das duas coisas. Mas, tantos anos depois, ainda vejo o Seu Pêra sentado em outras esquinas de tantas cidades: às vezes, adulto; outras , crianças de três, quatro anos...! Abandonado ainda. Adulta, passo com pressa, furto o encontro com esses olhares no ritmo da insensibilidade urbana moderna, tento me convencer da minha inocência com todos os argumentos de que disponho par justificar a omissão, mas, quando fecho os olhos, sinto o brilho daquele olhar amigo, acariciando a minha dor e aí me dá uma tristeza muito grande.

De qualquer modo, a pergunta permanece – o que faz uma pessoa como o Seu Pêra estar vivo tanto tempo depois, ajudando-me a dialogar minha relação com o mundo? Não sei a resposta, mas sei que essa lembrança foi o maior legado que ele poderia ter deixado a alguém e eu, mesmo sem saber por que, fui sua herdeira.

Rose Marie Wünsc






"BRASILEIRO NÃO GOSTA DE LER?", CRÔNICA DE LYA LUFT

A meninada precisa ser seduzida. Ler pode ser divertido e interessante, pode entusiasmar, distrair e dar prazer

Não é a primeira vez que falo nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil. Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro, precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim, alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem assina um documento que conseguiu ler e... entender. A imensa maioria dos ditos meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos – um dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser gente.

Sempre fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em prateleiras. Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.

E a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras. Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos. Falo da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas, mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer da leitura. Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura estudantes ainda imaturos.

Como ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida: percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar, distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como Verissimo e outros tantos. Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes, explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação, seja o que for.

O que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado. Mas para isso é preciso, primeiro, alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a base do que seremos, faremos e aprenderemos depois. Ali nasce a atitude em relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever, deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente severos). Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas, naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi aberta.


Lya Luft






"COISAS & PESSOAS", CRÔNICA DE MÁRIO QUINTANA

Desde pequeno, tive tendência para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!”. Mas eu ouvia o mormaço co M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição.

E já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana- Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do Brasil e Argentina. Era como um alojamento de quartel, com breve espaço entre as camas e todas as portas e janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e duvidosos encantos, um vulto junto à minha cama, senti-me estremunhado e olhei atônito para um tipo de chiru, ali parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos. Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida calma:

- Pois é! Não vê que eu sou o sereno...

E eis que, por milésimo de segundo, ou talvez mais, julguei que se tratasse do sereno noturno em pessoa. Coisas do sono? Além disso, o vulto aquele, penumbroso e todo em linhas descendentes, ajudava a ilusão. Mas por que desculpar-me? Quase imediatamente compreendi que o “sereno” era um vigia noturno, uma espécie de anjo da guarda crioulo e municipal.

Por que desculpar-me, se os poetas criaram os deuses e semideuses para personificar as coisas, visíveis e invisíveis... E o sereno da Fronteira deve andar mesmo de chapéu desabado, bigode, pala e de pé no chão... sim, ele estava mesmo de pés descalços, decerto para não nos perturbar o sono mais ou menos inocente.

Mário Quintana. Caderno H. 5. ed. São Paulo: Globo, 1989, p. 153-154.








"DESCULPE, FOI ENGANO", CRÔNICA DE GIAN DANTON

Acho que meu telefone não gosta de mim. Afinal, ele só toca quando estou dormindo, quando entro no banheiro, ou estou no quintal, molhando as plantas. Os velhos amigos do tempo da faculdade parecem só decidir me ligar quando estão com insônia. Mas nada disso me irrita tanto quanto os enganos. A cada “desculpe, foi engano”, a úlcera dá mais um passo em direção ao controle total sobre meu estômago. Como medida defensiva, passei a aplicar o trote ao contrário.

Se você nunca experimentou, tente. O trote ao contrário é tão relaxante que é até capaz de fazê-lo esquecer que foi acordado ás quatro da manhã, no meio de um sonho com a Giulia Gan. O grande segredo é não dizer que é engano.

Entre na onda, faça de conta que a pessoa mora mesmo ali.

- Alô, gostaria de falar com a Marisa.

- Quem tá falando?

- O João, o namorado dela.

- Ei Marisa, é aquele panaca do João! Você não estava namorando com um tal de Paulo? Ah, sim... pode deixar que eu digo! Alô, João? Eu enganei, a Marisa não está...

Certa vez me ligaram da Guiana Francesa.

- Alô, aqui é o Miguel, da Guiana Francesa. Eu queria falar com o Bode.

- O Bode não está, mas se você quiser falar com a Cabrita, eu chamo.

- Ah, ah, ah! Entendi! Foi engano... desculpe, eu vou deli...

- O que é isso? Você me liga de madrugada e depois quer desligar assim, sem mais nem menos? Vamos pelo menos conversar um pouco... Como é a Guiana Francesa? A ligação para cá é muito cara?

Consegui segurar o otário no telefone mais cinco minutos. Certamente ele pagou caro pelo engano... Às vezes eu me empolgo.

- Alô?

- Alô, quem fala?

- É a Maria. Eu queria falar com...

- PARABÉNS, MARIA! Você acaba de ligar para a rádio Caribé! E já está concorrendo a uma legítima sandália Bahiana. Para ganhar você só precisa responder a uma pergunta: qual é a cor do cavalo branco do Napoleão?

- Deixar ver... acho que é branco ...

- Exato! Você recebe seu prêmio na portaria da rádio, Rua Mato-Grosso, 1627!

Meia hora depois eu recebo outro telefonema.

- Alô, aqui é Maria de novo. É que eu não consegui achar o endereço...

- Não tem problema. Volte para casa e nós entregamos no seu endereço... E não esqueça de ouvir a rádio Caribé, hein?

É, eu costumo ser sádico com quem liga para minha casa sem verificar o número. Mas o meu episódio preferido foi de um cara que não sabia nem para quem estava ligando.

- Alô, eu gostaria de falar com a garota...

- Como assim? Que garota?

- A garota que mora aí. Eu não lembro o nome dela.

Só este início foi o suficiente para que eu percebesse que se tratava de uma vítima em potencial.

- Peraí. Você nem sabe o nome dela? Eu preciso de mais dados para poder te ajudar. Como foi que vocês se conheceram?

- No barzinho da praça, no ano novo.

- Foi mesmo? O que aconteceu entre vocês?

- A gente se deu uns amassos.

- Sei, sei... e aí ela te deu telefone. Qual é mesmo o seu nome?

- Mário.

- Aí ela te deu esse telefone, Mário. E como é essa garota?

- Ah, alta, loira, com uns peitões...

- Olha, Mário, aqui em casa só mora eu e minha mulher. E eu estou rastreando sua ligação...

Tu tu tu tu tu...

Gian Danton






Indique este blog a um amigo.