Temblante para blog







Pesquisar este blog:

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

domingo, 28 de novembro de 2010

MODERNISMO


Tecnicamente:
Verso livre
Rima livre
Vitória do dicionário.
Esteticamente:
Substituição da Ordem Intelectual pela Ordem Subconsciente.

Mário de Andrade


O que se conhece, hoje, como arte do século XX, teve repercussão posterior à Primeira Grande Guerra, datando, portanto, da década de 20. Nesta, acontece uma censura na arte, mais radical do que qualquer outra mudança de estilo ocorrida ao longo de sua história. Até então, a despeito de todas as alterações nas normas estéticas, a relação de correspondência da arte com a vida e a fidelidade da obra estética à natureza não haviam sido, jamais, questionadas. Depois do Impressionismo, mas como decorrência das experiências que nele se iniciaram, a arte renunciou ao papel de reprodutora da realidade: já não copia o real, interpreta-o.
         Diz-se que o processo se inicia no Impressionismo porque, já na prevalência desse estilo, a atitude descritivista perante a natureza e a realidade começa a ser abalada. As diversas tendências estéticas dessa época Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo, etc. negam qualquer princípio naturalista, defendendo a existência de uma fronteira entre o mundo real objetivo e o mundo subjetivo da obra de arte. Nessa medida, a arte, quando se volta para a natureza, é para infringi-la, não obedecendo às leis naturais. A representação artística, rompendo com os meios de expressão convencionais, passa a obedecer, apenas, a suas próprias leis.
         O Modernismo não é um estilo, no rigor do termo, mas um complexo de estilos de época que apresentam alguns pontos coincidentes. Esses pontos em comum não independem do fato de que, no nosso século, o conhecimento sofreu uma grande ruptura a que concorreu a teoria da relatividade de Einstein; a teoria psicanalítica de Freud; a filosofia de Nietzsche e a teoria econômica de Marx. Comum a todas é o questionamento do lugar do homem como sujeito do conhecimento. O abalo provocado por esse questionamento se reflete, de modo especial, na manifestação artística.
         O Futurismo teve, entre nós, grande influência.  A tendência surgiu com o Manifesto Futurista, assinado por Marinetti, em 1909. Combatendo veementemente o academicismo e toda e qualquer manifestação tradicional, o Futurismo vincula a arte à nova civilização técnica emergente. Nessa época, surgem os primeiro aviões de porte e os primeiros transatlânticos; a radiofonia se torna relativamente potente; fazem-se as primeiras experiências cinematográficas e desenvolve-se o telégrafo.
         Com esse pano de fundo, os futuristas propõem uma poesia baseada na exaltação da agressividade e da audácia; na abominação do passado; na exaltação à guerra e ao militarismo; no culto às fábricas e às máquinas. No plano da linguagem, postulavam: a destruição da sintaxe; a preferência pelo verbo no infinitivo para dar idéia de continuidade; rejeição do adjetivo; abolição de todas as metáforas-clichês; supressão do “eu” individualizante; liberdade na criação de imagens e analogias; ausência de controle sintático e de limites de pontuação.
         Em 1919, ano em que se inicia o movimento fascista, os futuristas aderem a essa proposta política, tornando-se seus porta-vozes. Oswald de Andrade (1890-1954) torna conhecido, entre nós, o Futurismo, par escândalo, inclusive entre seus próprios companheiros modernistas. A rigor, nossos modernistas não eram Futuristas. Forma, contudo, assim denominados pela repulsa que manifestavam à arte passadista. O rótulo passou a distinguir o grupinho intelectual de São Paulo dos nossos literatos beletristas e conservadores. O romance “Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, apresenta passagens que têm sido identificadas como representativas da influência futurista pela semelhança com os textos de Marinetti.
         Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóbada de garoa desabava os quarteirões.
         O Cubismo é um movimento, de incidência facilmente identificável nas artes plásticas, a partir do quadro de Pablo Picasso, “As senhorias de Avignon”, de 1907. O Cubismo decompõe os objetos para recompô-los segundo uma lógica própria, que não obedece às leis naturais. A deformação do objeto se dá por via de geometrização. A transposição desse estilo à literatura, conforme se pode observar na obra de Apollinaire (1880-1918), assim como na de Jean Cocteau (1889-19163), apresenta as seguintes características: supressão da discursividade lógica e do nexo causal; predomínio da realidade pensada sobre a realidade aparente; estética fragmentária que, decompondo o objeto, seleciona e enfatiza os detalhes, recarregando-os de expressividade. Esta composição de Oswald de Andrade é representativa:

Bucólica

Agora vamos correr o pomar antigo

Bicos aéreos de patos selvagens
Tetas verdes entre folhas
E uma passarinhada nos vaia

Num tamarindo
Que decola para o anil
Árvores sentadas
Quitandas vivas de laranjaz maduras
Vespas

O Dadaísmo, por sua vez, constitui a mais radical negação de todos os meios de comunicação. Juntamente com o Surrealismo, afirma a impossibilidade de que algo objetivo, formal e lógico possa expressar a verdade do homem. Paralelamente, Dadaísmo e Surrealismo questionam a própria natureza da arte. Por força de reconhecer a inexpressividade das formas culturais, o dadaísmo propõe a total destruição da arte e o retorno ao caos.
O Dadaísmo teve início em Zurique, em 1916, com o manifesto de Tristan Tzara, primeiro de uma sequência de seis. Contudo, o auge do movimento só ocorreu em 1920, quando congressos e publicações deram maior destaque à proposta. A respeito da palavra “dada”, esplica Tzara:
meu propósito foi criar apenas uma palavra expressiva que através de sua magia fechasse todas as portas à compreensão e não fosse mais um – ISMO.
         A abolição da lógica e do patrimônio cultural acumulado, assim como a proposta de destruição da própria arte, constitui uma atitude demolidora cujos objetivos apenas um grupo de iniciados conhece. O movimento apóia-se numa contradição: quer comunicar um repúdio por via de uma não-comunicação. Este poema de Tzara pode ser elucidativo:

 

PARA FAZER UM POEMA DADAÍSTA



Pegue num jornal.

Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pretende dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Em seguida, recorte cuidadosamente as palavras que compõem o artigo e coloque-as num saco.
Agite suavemente.
Depois, retire os recortes uns a seguir aos outros.
Transcreva-os escrupulosamente pela ordem que eles saíram do saco.
O poema parecer-se-á consigo.
E você será um escritor infinitamente original, de uma encantadora sensibilidade, ainda que incompreendido pelas pessoas vulgares.

O niilismo dadaísta se tornou, depois de um tempo, insustentável, tornando seu lugar, entre as vanguardas européias, o Surrealismo. Sob a égide de André Breton (1896-1970), são expostos, através de manifestos, os fundamentos teóricos dessa tendência. Foram agenciados para construir esses fundamentos a tradição romântica por um lado; Freud, Marx, o esoterismo, a revolta dadaísta e toda e qualquer manifestação de recusa à hegemonia da Razão por outro lado.
À semelhança dos dadaístas, os surrealistas não veem a arte como algo sério, veem, contudo, um possível aproveitamento da arte, se ela for usada como veículo de penetração no inconsciente, possibilidade de mergulho no mundo onírico, cujas leis são distintas daquelas que regem a vida de vigília, uma vez que, no sonho, a lógica racional é abolida. Propõem a escrita automática, sem controle intelectual, solta ao sabor livre associação, posta em voga pela psicanálise, propiciando o fluir das idéias sem o freio da disciplina sintática, assim como de qualquer tolhimento racional, moral ou estético.
Como conseqüência, o verso como unidade desaparece e, com ele, as convenções rítmicas e rímicas. Cabe, então, à poesia colocar em xeque os princípios do pensamento ocidental, assim como seus pressupostos de reprodução. A poesia se assume como pensamento autônomo, regido por suas próprias leis.
A partir de Baudelaire e Rimbaud, na França, e de Holderlin (1770-1843), na Alemanha, a literatura passa a recusar a pretendida universalidade da Razão. A imaginação é convocada a assumir o lugar de frente e demolir as bases do pensamento ocidental. Com ela, recuperariam os surrealistas as forças psíquicas primitivas, próximas ao sonho e à loucura.
No Brasil, não houve Surrealismo nem Dadaísmo como um sistema. Temos, contudo, manifestações esporádicas dessas vanguardas. Um de nossos poetas mais cerebrais, João Cabral de Melo Neto, em “Pedra do Sono”, datado de 1942, compõe poemas com inegáveis traços surrealistas, como se pode observar nesta estrofe de “Dentro da perda da memória”.
E nas bicicletas que eram poemas
Chegavam meus amigos alucinados.
Sentados em desordem aparente,
Ei-los a engolir regularmente seus relógios
Enquanto o hierofante armado cavaleiro
Movia inutilmente seu único braço.

A consideração das vanguardas permite a identificação de algumas características básicas a uni-las, conforme observa José Guilherme Merquior (Os estilos históricos na literatura ocidental. In: Portella, E. ET alii. Teoria literária. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975). São elas:

1.A EMERGÊNCIA DE UMA CONCEPÇÃO LÚDICA DA ARTE

Para o artista romântico e pós-romântico, a arte tinha um compromisso com a salvação espiritual do homem, o que conferia à obra algo de religiosidade que permitia a regeneração da alma. Em autores tão diversos quanto Ibsen, Tolstoi, Melville, Mallarmé percebe-se uma concepção da arte como uma espécie de magia superior e redentora como é, especialmente, o caso de Mallarmé e como procura da verdade e da felicidade.
No período conhecido como modernista, a arte-magia se converte em arte-jogo. E, em lugar da atitude estético-religiosa, encontra-se um ludismo irônico.
 Toda a arte moderna tende a brincar com seus temas mesmo quando os leva terrivelmente a sério. A arte oitocentista visava à empatia; a arte moderna persegue o distanciamento.

A visão tragicizante do destino, cultivada acentuadamente no século XIX, cede lugar à visão grotesca e anti-trágica de Gide (1869-1951), Kafka (1883-1924), Thomas Mann (1975-1955), Joyce (1882-1941) ou Borges (1889).
Além de brincar com seus temas, a arte moderna brinca com a forma, caracterizando-se por ser experimentalista. O jogo das linguagens experimentais só se torna possível com a dessacralização da forma, que deixa de lado o “acabamento” e o “bem-feito”. Mais que esses resultados, passou a interessar o jogo estético. Nesse jogo, o leitor é chamado a participar quase como co-autor.

2. A TENDÊNCIA À FIGURAÇÃO “MÍSTICA”

A literatura moderna abandona a figuração individualizadora para adotar, em seu lugar, “o estilo místico”, ou seja, a representação de cenas e personagens por traços genéricos, abstratos e despersonalizadores. A obra de Kafka exemplifica fartamente essa característica do Modernismo.

3. O PREDOMÍNIO DA FIGURAÇÃO ALEGÓRICA

Por figuração alegórica entende-se, aqui, o modo de figurar que alude ao reprimido pelas censuras internas e externas da sociedade.
Nisso, aliás, os artistas modernos seguiram Freud com ortodoxia impecável: pois Freud singulariza o inconsciente precisamente por sua natureza de psiquismo recalcado, censurado, que o distingue de mero subconsciente. Nesse sentido, toda a arte moderna foi vocacionalmente surrealista, toda ela compreendeu o princípio da realidade como uma coação, uma limitação das possibilidades vitais do homem; toda ela concebeu a autonomia do imaginário em termos de revolta existencial, de revolução cultural.
Se, mais uma vez, pode-se evocar a obra de Kafka, cabe registrar, também, a de James Joyce, Eugene O’Neill (1888-1953), Samuel Beckett (1906) Luigi Pirandello (1867-1936), Garcia Lorca (1889-1936), Fernando Pessoa (1888-1935).
No Brasil, o Modernismo costuma ser dividido em duas gerações. Na primeira, a poesia tem a proeminência, a partir da Semana da Arte Moderna, em 1922, e graças à liderança de Mário de Andrade e Oswald de Andrade e à presença de Manuel Bandeira. Na segunda geração, por volta de 1930, a ficção brasielira é enriquecida com a obra de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Érico Veríssimi, Rachel de Queirós. Na poesia, destaca-se os nomes de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade.
Um estudo sobre períodos literários revela a oscilação dos parâmetros ideológicos e estéticos ao longo do tempo. Essa oscilação, por sua vez, denota, por um lado, a relatividade dos padrões; por outro, o condicionamento da literatura a fatores que extrapolam o meramente estético, situando-se no histórico, no social, no político, no psicológico, etc., de tal forma que o estudo aprofundado do assunto conduziria a uma investigação interdisciplinar, sob pena de, circunscrevendo-se a questão, reduzir-se a complexidade dos problemas.
A designação das épocas como barroca, neoclássica, romântica, simbolista, modernista, etc. obedeceu a um critério tipológico e, como tal, generalizador e posterior aos fenômenos literários. A voz que, no texto literário, fala, se, por um lado, apresenta características catalogáveis em época e estilos, tem, por outro, sua permanência assegurada apenas na medida em que firma uma dicção própria na soma dos discursos que constituem a literatura.


MODERNISMO

Bases teóricas e filosóficas:

Teoria da relatividade de Einstein
Teoria psicanalítica de Freud
Filosofia de Nietzsche
Teoria de Marx

Tendência de vanguarda:

Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo

Características:

Concepção lúdica da arte
Figuração “mística”
Figuração alegórica

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS


CADERMATORI, Lígia. Períodos Literários. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987.




































































Nenhum comentário:

Indique este blog a um amigo.