Temblante para blog







Pesquisar este blog:

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

domingo, 28 de novembro de 2010

CONTEMPORANEIDADE






CONTEMPORANEIDADE


Houve um tempo
em que era fácil fazer poesia:
bastava eleger a forma
e preenchê-la
com mais ou menos habilidade.
tudo codificado
e empacotado
na acadêmica memória
na audácia vanguardista
nos manifestos-receitas
num mutirão de escola.
....................................
Agora que o texto já foi o perverso nada e o inverno tudo
— como ler a poesia
que se anuncia
como a poesia de agora?
— como ler a poesia
 que se esconde
 na prosa que nos aflora?
Não há profetas na praça.
O que há são multidões
lançando no ar seu pasmo
e alguém que, de repente,
sonha ouvir um verso seu.


(Affonso Romano de Sant’ Anna)

A arte, nas primeiras décadas deste século, afastando-se da tradição, rompeu com certa unidade existente nos padrões da expressão. É verdade que cada nova geração propicia uma mudança na expressão artística, observando-se, de um século para outro, uma profunda mudança no gosto. O que ocorre neste século, porém, é uma revolução de espectro bem mais amplo que aquelas que se sucederam na História.
Herbert Read, em “Arte de agora agora” (São Paulo, Perspectiva, 1972), destaca dois traços marcantes da arte contemporânea: a complexidade gerada pela ausência de unidade e pela ruptura com a tradição acadêmica e a diversidade. Esta última diz respeito à peculiaridade de nosso tempo de condenar, de algum modo, nosso desenvolvimento passado “de maneira que o espírito humano, que no passado expressou a si próprio, ou a algum aspecto predominante de si próprio, diversamente em época diferentes, agora expressa a mesma diversidade, sem qualquer pressão em qualquer aspecto particular, ao mesmo tempo”.
Tal diversidade não propicia o enquadramento da arte contemporânea em uma tendência.          A descontinuidade mão permite o rótulo com que, comodamente, identificamos a arte de outros séculos. Apesar disso, é possível caracterizar a expressão artística hodierna por fatores que a particularizam e, entre eles, sem dúvida, é de grande relevância o que diz respeito à industrialização cultural e à sociedade de massa.
Entende-se por indústria cultural a produção de cultura pelos meios de comunicação de massa. À forma de cultura gerada e/ou difundida por esses meios de comunicação dá-se o nome de cultura de massa. Esta não se confunde com a popular, uma vez que têm origem fundamentalmente distinta: uma de um saber acumulado secularmente pelo povo; a outra engloba os produtos culturais industrializados a partir do desenvolvimento técnico de nosso século.
A cultura de massa penetra a população urbana em geral e parte da população rural através de seus meios: televisão, jornal, rádio, disco, livro, publicidade, impondo padrões de comportamento e de consumo. A arte difundida por essa cultura torna-se uma mercadoria, definindo-se como legítimo produto da sociedade capitalista.
Decorrência longínqua do surgimento da burguesia, essa transformação da arte em mercadoria significa, em si, um avanço, se considerarmos a restrição de acesso ao público existente no período em que a manifestação artística tinha um circuito estritamente aristocrático.
Visando o consumo amplo pelas multidões, a cultura de massa recorre a formas estereotipadas e a temas convencionais. Sem abrir questões, vulgariza, pela simplicidade, conceitos complexos provenientes de outro tipo de comunicação, no caso, a de elite. Ferreira Gullar, em “Vanguarda e subdesenvolvimento” Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978), observa que o esquecimento da arte de massa não é fruto de uma orientação predeterminada por parte de algum obscuro centro de controle. O esquecimento decorre da própria natureza dessa arte, natureza determinada por seus objetivos comerciai. A produção de história para atender o consumo por parte de um público tão diversificado impede o aprofundamento formal e temático. Além disso, o objetivo da arte de massa é distrair, e não concentrar.
A cultura de massa se opõe à cultura chamada superior, de elite ou universitária. E, desse modo, assistimos, em nossa época, à tensão entre dois tipos de arte a culta e a de massa regidos por diferentes normas e agradando a diferentes públicos. O que não significa, frise-se total isolamento entre elas.

Edgard L. Morin, em “O espírito do tempo” (L’esprit Du temps. Paris, Grasset, 1962), demonstra como as revistas de fotonovelas adaptam os romances considerados obras-primas da literatura culta. O prcediomento consiste em reduzi-los ao esquematismo que possibilita o consumo pelas grandes massas. Ao lado das adaptações, surgem também as reduções de obras como “Madame Bovary”, de Flaubert, e “Os irmãos Karamázov”, de Dostoievski. Por outro lado, o escritor culto contemporâneo não ignora as novelas de televisão e de rádio, as fotonovelas, o cinema, e adota recursos técnicos que pertencem a essas expressões.
Podemos dizer, de maneira ampla, que, em nossos dias, existem dois pólos de manifestações artística, intermediados por uma diversidade de expressões de arte: o da cultura de massa e o da vanguarda.
Talvez a melhor maneira de definir o que seja vanguarda seja o conceito de obra aberta de Umberto Eco: (Obra aberta, São Paulo, Perspectiva, 1968): a obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, ou seja, o que a obra expressa não se reduz a um conceito unívoco. O grande exemplo dessa abertura é o poema “Um coup de dês”, de Mallarmé. Como característica geral da vanguarda, o conceito de obra aberta atinge James Joyce quando Kafka, tanto Ezra Pound quanto Paul Éluard. De modo geral, designam-se por vanguarda as obras em que preponderam a pesquisa e a invenção estilística.
No Brasil, por volta dos anos 30, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Jorge de Lima superam as inovações técnicas do Modernismo. A ficção renova-se com o surto regionalista das obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. A obra de cada um deles apresenta dicção própria.
Marcada por uma visão mística e espiritualista, surge uma tendência, que o rigor formal e um espírito de seriedade contraposto à irreverência modernista. Trata-se da chamada “geração 45”, de que faz parte, senão por afinidade estética por coincidência cronológica, João Cabral de Mello Neto.
O grupo Noigandres, de São Paulo, inspirado na poesia de Ezra Pound e no romance de James Joyce, unidos a outros poetas que vinham das conquistas modernistas, deflagram o “movimento concretista” na poesia. Os concretistas valorizam o aspecto formal do poema, destacando especialmente o gráfico, e renegam o conteúdo, a sintaxe discursiva, a subjetividade e a temática nacional.
Na diversidade da manifestação literária contemporânea, particularizam-se discursos como o de Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles, Nélida Pinon, na narrativa; Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’Anna na poesia. Deste último, extraímos o segmento que expressa o espírito da contemporaneidade poética: não há profetas na praça.

ARTE CONTEMPORÂNEA


Características:


complexidade


diversidade

Pólos:


cultura de massa


vanguarda

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS


CADERMATORI, Lígia. Períodos Literários. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987.

































































Nenhum comentário:

Indique este blog a um amigo.