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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"SEU PÊRA", CRÔNICA DE ROSE MARIE WUNSC

Sempre tive curiosidade para saber por que algumas histórias vividas permanecem para sempre na memória e outras desaparecem como se nunca tivessem existido. Alguns poderia dizer que ficam as lembranças do que constituiu mudança significativa na vida. Pode até ser, pois o fato que narrarei brota da minha memória como desencadeador de uma percepção de mundo.

Eu tinha quatro anos e me lembro como se tivesse acontecido ontem. Vivia em uma cidade do interior e algumas vezes já havia visto aquele home pelas ruas. Ao que parecia, era ali que ele morava e isso me intrigava profundamente. Quem era aquele homem que não tinha ninguém na vida? Nada poderia me parecer mais triste do que ser sozinho. Como se isso não bastasse, vivia maltrapilho, bêbado e todo chamavam-no vagabundo. Lembro-me de algumas vezes ter cruzado meus olhos infantis, cheios de curiosidade, com aqueles olhos tão sofridos. Não eram olhos descorados de quem perdeu a liga com a vida, mas olhos que, ao me olharem, revelavam imensa ternura. Era um carinho que ele me fazia. Eu percebia que ele não era aquela trouxa que rolava pelas calçadas, aquele ser que não homem nem bicho, mas alguma coisa intermediária e que servia de chacota para a meninada, ao contrário, ele era igual a mim. Isso eu confirmava sempre que o encontrava e dividíamos o sorriso da cumplicidade. Como eu ficava feliz quando o via!

Autêntico mendigo, totalmente inofensivo, uma vítima do alcoolismo, que arrasta a pessoa até a mais amarga derrocada. Na época não se dizia alcoólatra, mas bêbado. E as pessoas eram bêbadas, porque não prestavam, não porque fossem portadoras de uma doença como se sabe hoje. Mas, par mim, ele era só um pessoa de quem eu gostava muito.

Não demorou para que ele passasse a sentar na calçada em frente da minha casa. Foi assim que, pela primeira vez, pude oferecer um - d’água. Quando ele chegou, num outro dia, eu havia preparado uma sacola com as mais belas peras encontradas no pomar. Essa cena se repetiu muitas vezes naquele verão – nós dois sentados na calçada comendo pêra. Como ele passasse a andar pela cidade com a sacola de pêra que eu lhe dava, a molecada começou a chamá-lo de Seu Pêra e assim ficou para toda a cidade, já que até então ele era apenas o bêbado.

Embora não possa ter certeza de que tudo tenha acontecido exatamente dessa maneira, o que se cristalizou na minha memória foi isso. Um dia mudamo-nos e não me lembro da despedida. Por certo, ele já morreu há muito tempo, não sei se de tanto beber ou de fome, quem sabe das duas coisas. Mas, tantos anos depois, ainda vejo o Seu Pêra sentado em outras esquinas de tantas cidades: às vezes, adulto; outras , crianças de três, quatro anos...! Abandonado ainda. Adulta, passo com pressa, furto o encontro com esses olhares no ritmo da insensibilidade urbana moderna, tento me convencer da minha inocência com todos os argumentos de que disponho par justificar a omissão, mas, quando fecho os olhos, sinto o brilho daquele olhar amigo, acariciando a minha dor e aí me dá uma tristeza muito grande.

De qualquer modo, a pergunta permanece – o que faz uma pessoa como o Seu Pêra estar vivo tanto tempo depois, ajudando-me a dialogar minha relação com o mundo? Não sei a resposta, mas sei que essa lembrança foi o maior legado que ele poderia ter deixado a alguém e eu, mesmo sem saber por que, fui sua herdeira.

Rose Marie Wünsc

































































































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