Temblante para blog







Pesquisar este blog:

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"MUITO RISO", CONTO DE HELOÍSA SEIXAS

Desde pequena ela era assim. Ria demais. Ria sem parar. A prima, que sempre passava as férias com ela no sítio em Araras, ficava boba de ver como a menina achava graça em tudo. Até evitava contar piadas, fazer gracejos, pois temia que ela acabasse passando mal de tanto rir. Era um riso descomunal, interminável, que a fazia atirar-se na cama, quase em convulsões. A mãe também se preocupava, ainda mais porque a garota era asmática e aqueles acessos de riso bem podiam transformar-se em crise.

Uma noite, as duas primas, dormindo juntas, enroladas em seus cobertores para enfrentar o frio da serra, conversaram até bem tarde. Riram tanto, tanto, que no dia seguinte a menina amanheceu com os cantos dos lábios rachados, os maxilares doloridos. Ela era assim. Vivia rindo. De tudo. Adolescente, não mudou nada. Ria dos amigos, dos professores, dos namorados, de tudo o que falavam. Quando conversava ao telefone, ria tanto que a mãe se perguntava o que havia de tão engraçado nos namoros dos jovens.

Adulta, ela continuou rindo. Virou professora e às vezes tinha dificuldade em controlar os alunos, justamente porque achava graça em tudo o que faziam. Um dia, uma de suas amigas ficou espantada ao ouvi-la contar, às gargalhadas, que acabara de receber a notícia da morte de uma tia. E o tempo foi passando. Com riso ou sem riso, os anos escoaram. Um dia, a mesma amiga que no passado se espantara com a notícia da morte dada em meio a risadas, comentou com ela que rir demais provocava rugas em volta dos olhos. Nunca tinha parado para pensar nisso. Olhou-se no espelho com atenção, observando os pequenos sulcos em redor dos olhos. Mal fizera 40 anos, mas, de fato, as rugas estavam lá. Aquilo a deixou agastada. Achou injusto que as pessoas alegres envelhecessem mais rápido.

Continuou rindo de tudo, é verdade, mas daquele dia em diante, passou a examinar as rugas do rosto quase diariamente. A cada dia elas pareciam aumentar. Agora, não eram apenas as marcas finas, em forma de leque, no canto dos olhos, mas também os sulcos em torno da boca, que se aprofundavam com uma rapidez espantosa. A própria boca, que rira tanto pela vida afora, parecia agora descaída. As faces murchavam, os olhos ficavam cada dia mais quebrados. Mesmo quando ria, mesmo quando gargalhava, seu rosto guardava uma expressão de tristeza, de derrota, que já não podia evitar.

E ela teve a certeza de que seu maior segredo seria, afinal, descoberto. Aquelas rugas não eram marcas comuns, da idade. Eram sua tristeza – sua imensa tristeza, escondida de todos com tanto afinco, pela vida inteira – que agora começava a aflorar.Sem remédio.

Heloisa Seixas. Contos Mínimos.

Obrigado












































































Nenhum comentário:

Indique este blog a um amigo.