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quinta-feira, 29 de julho de 2010

"A MULHER DO VIZINHO", CONTO DE FERNANDO SABINO

       Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.
      O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.
      O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:
      — O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.
      Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:
      — Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
      O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.
      — Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?
      Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:
      — Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:
      — Da ativa, Motinha! Sai dessa...


Texto extraído do livro Fernando Sabino - Obra Reunida - Vol.01, Editora Nova Aguiar - Rio de Janeiro, 1996, pág. 872.










RECURSOS PARA IDENTIFICAR O CONTEXTO


01. Algumas expressões presentes no conto não fazem parte do vocabulário cotidiano de grande parte das pessoas; no entanto, analisando o contexto, é possível identificar a ideia que cada uma sugere. Então, escreva o que significam, nesse contexto, as seguintes expressões:

a) Passar uma chamada:

b) Casa da sogra:

c) Ir em cana:

d) Morou?


02. Os filhos do sueco “passavam o dia jogando futebol com bola de meia”. Esse hábito continua até hoje? O que essa informação sugere a respeito da época em que se passa a história?

03. Embora também tenha seu enredo composto por fatos plausíveis, ou seja, que poderiam ter acontecido, o narrador usa alguns recursos que o eximem da veracidade dos fatos narrados. Observe o trecho inicial do conto:

“Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia.”

a) Que pessoa do discurso indica o pronome me em destaque?

b) Por que da expressão “contaram-me”, o leitor é capaz de identificar com precisão a origem da história? Explique?

c) O conto “A mulher do vizinho” é narrada em 1° ou 3° pessoa?

d) Qual seria a diferença de sentido, se o trecho inicial do conto tivesse sido iniciado desta forma?


Na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general do nosso exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia.


e) Por que podemos afirmar que o uso da 1° pessoa pelo narrador, no início do conto, é um recurso para se descomprometer da veracidade dos fatos?


04. Que fato marca a quebra da situação inicial nesse conto?

05. Em que momento da narrativa se dá o clímax da história?

06. Que tipo de discurso foi usado nesse conto: direto ou indireto?

07. No conto, há falas extensas: uma do delegado e outra da mulher do sueco.Que recurso foi usado nessas falas para indicar a alteração da voz dos personagens?

08. Nas orações a seguir, foram usadas expressões informais para tecer algumas caracterizações. Substitua essas expressões por outras que sejam comuns a uma linguagem mais formal. Manter o sentido das orações o mais próximo possível do original.

a) Joaquim Rebolão era “macaco velho”.

b) O festim estava “de arrebentar!”

c) O filho permaneceu “feito um dois-de-paus” na porta.

d) Eu estava, mas o homem não me ouvia. Ele estava “com a cabeça nas nuvens”.

e) Claro que eu jamais aceitaria! Aquela proposta era “sem pé nem cabeça”.

f) Não posso confiar naquele moço. Ele é “um amigo da onça”.

g) Juca se divertiu naquela festa. Ele estava “com a corda toda”.

h) O rapaz não gostou daquela conversa. Na verdade, ele ficou “com a pulga atrás da orelha” depois de ouvir a história.


09. A respeito das expressões em destaque na atividade anterior:

a) Existe alguma que você já conhecia? Qual?

b) Quais são típicas de épocas passadas?

c) Escolha uma das expressões e pesquise sua origem em livros, enciclopédias ou na internet. Descubra se há alguma expressão moderna equivalente e registre sua conclusão no caderno.











2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei a postagem do conto , assim também como os exercícios. Poderia me enviar as respostas?

Anônimo disse...

gostei do conto. mas não entendi muito. o final. alguémmim ajude??

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