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quinta-feira, 29 de julho de 2010

"A MULHER DO VIZINHO", CONTO DE FERNANDO SABINO

       Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.
      O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.
      O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:
      — O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.
      Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:
      — Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
      O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.
      — Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?
      Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:
      — Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:
      — Da ativa, Motinha! Sai dessa...


Texto extraído do livro Fernando Sabino - Obra Reunida - Vol.01, Editora Nova Aguiar - Rio de Janeiro, 1996, pág. 872.







segunda-feira, 19 de julho de 2010

"UM PLANO GENIAL", CONTO DE BARÃO DE ITARARÉ

LEIA O TEXTO A SEGUIR PARA CONHECER UM DOS CONTOS DE BARÃO DE ITARARÉ:

BOA LEITURA

UM PLANO GENIAL

      Joaquim Rebolão estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situação ainda mais se agravava pelo fato de ter quer dar assistência a um filho, rapaz inexperiente que também estava no desvio.

      Joaquim Rebolão, porém, defendia-se como um autêntico leão da Núbia, neste deserto de homens e idéias.

      O seu cérebro, torturado pela miséria, era fértil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graças aos quais sempre se saía galhardamente das aperturas diárias com que o destino cruel o torturava.

      Naquele dia, o seu grude já estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimônia, em homenagem a um alto figurão que estava necessitando de claque. Mas o nosso herói não estava satisfeito, porque não conseguira um convite para o filho.

      À hora marcada, porém, Rebolão, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salão, onde se celebraria a cerimônia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto:

— Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu também tomes parte no festim. Já estavam todos os convidado sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao começar o bródio, Rebolão se levanta e exclama:

      — Senhores, em vista da ausência do Sr. Vigário nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Espírito Santo!

      — E o filho? — perguntou-lhe um dos convivas.

      — Está na porta — responde prontamente.

      E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritário e enérgico:

      — Entra de uma vez, menino! Não vê que estes senhores te estão chamando?


SOUZA, Afonso Félix de (Org.). Um plano genial. Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 40.






segunda-feira, 12 de julho de 2010

"A CAUSA SECRETA", CONTO DE MACHADO DE ASSIS


Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.

Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.

Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.

A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.

Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensanguentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.

— Já aí vem um, acudiu alguém.

Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o médico. Em seguida contou o que se passara.

— Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois uma juntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.

— Conhecia-o antes? perguntou Garcia.

— Não, nunca o vi. Quem é?

— É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.

— Não sei quem é.

Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. Os dous saíram, ele e o estudante ficaram no quarto. Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranquilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de

curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.

Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome, rua e número.

— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.

Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa, defronte dele, sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença para sair, e saiu.

— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.

O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratidão.

Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e não achou nenhum.

Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos, perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi.

— Sabe que estou casado?

— Não sabia.

— Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco domingo.

— Domingo?

— Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.

Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor. Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.

— Não, respondeu a moça.

— Vai ouvir uma ação bonita.

— Não vale a pena, interrompeu Fortunato.

— A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.

Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada. Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia os ombros, mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco.

“Singular homem!” pensou Garcia.

Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.

— Valeu? perguntou Fortunato.

— Valeu o quê?

— Vamos fundar uma casa de saúde?

— Não valeu nada; estou brincando.

— Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que começa a clínica, acho que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve. Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas. Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos.

— Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.

A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que

lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso,

entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada.

No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e

cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como

cousa sua, alcançasse do marido a cessação de tais experiências.

— Mas a senhora mesma…

Maria Luísa acudiu, sorrindo:

— Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor, como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz…

Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.

— Deixe ver o pulso.

— Não tenho nada.

Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar o marido em tempo.

Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.

— Que é? perguntou-lhe.

— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.

Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre

a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento

em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.

— Mate-o logo! disse-lhe.

— Já vai.

E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A

chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue. Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se

enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida. “Castiga sem raiva”, pensou o médico, “pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”.

Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula. Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:

— Fracalhona!

E voltando-se para o médico:

— Há de crer que quase desmaiou?

Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.

Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custavalhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal. Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.

De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que repousasse um pouco.

— Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.

Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado. Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, notese; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento. Olhou assombrado, mordendo os beiços. Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

FIM

MACHADO DE ASSIS










"VIDAS SECAS", DE GRACILIANO RAMOS


      “Vidas secas” se insere no ciclo do romance regionalista nordestino, que marcou a literatura brasileira dos anos 30. Muitos autores abordaram. Muitos autores abordaram o fenômeno da seca, como José Américo de Almeida, em “A bagaceira” (1928): Rachel de Queiróz, em “O quinze” (1930), e Jorge Amado, em “Seara Vermelha” (1946). O romance de Graciliano Ramos, entretanto, se distingue daquelas obras pela singularidade da estrutura narrativa, organizada de forma aberta, o que faz com que Le ultrapasse o empenho documental das narrativas mencionadas.
      O romance do Nordeste teve como estímulo imediato a lição do sociólogo Gilberto Freyre e seu “Manifesto Regionalista”, expressa no I Congresso de Escritores do Nordeste, realizado no Recife, em 1926. E é a partir desse evento que uma nova geração de escritores nordestinos retoma a proposta, lançada no séc. XIX por Frânklin Távora: uma literatura voltada para os problemas regionais.
      “Vidas secas foi escrito em 1937, logo após a libertação de Graciliano Ramos, que fora preso por ser aliancista. O escritor foi morar, com a esposa e dois filhos, num quarto de pensão da rua Correia Dutra, no Rio de Janeiro. Toda manhã, bem cedo, tirava do fundo de um armário uma garrafinha de cachaça, tomava um gole em jejum, e se sentava na mesa para escrever.Queria produzir um romance, mas a conta da pensão não podia esperar. Por isso, cada capítulo ficou sendo um conto, que era vendido logo para um jornal do Rio e outro da Argentina, único meio de aplacar a fome de dinheiro semanal de Da. Elvira, a dona da pensão. Assim foi se armando, peça por peça, este romance desmontável.
      Em Julho de 1944, a propósito do romance em foco, o escritor prestou o seguinte depoimento ao colunista João Condé:
“No começo de 1937 utilizei num conto a lembrança de um cachorro sacrificado na Maniçoba, interior de Pernambuco, há muitos anos. Transformei o velho Pedro Ferro, meu avô, no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de sinhá Vitória; meus tios pequenos, machos e fêmeas, reduziram-se a dois meninos.
Publicada a história, não comprei o jornal e fiquei dois dias em casa, esperando que meus amigos esquecessem Baleia. O conto me parecia infame — e surpreendeu-me falarem dele. A princípio julguei que as referências fossem esculhambações, mas acabei aceitando como razoáveis o bicho, o matuto, a mulher e os garotos. Habituei-me tanto que resolvi aproveitá-los de novo. Escrevi Sinha Vitória. Depois, apareceu Cadeia. Aí me veio a ideia de juntar as cinco personagens numa novela miúda- um casal, duas crianças e uma cachorra, todos brutos.
Octávio de Faria me dissera, em artigo enorme, que o sertão, esgotado, já não dava romance. E eu havia pensado:
— Santo Deus! Como se pode estabelecer limitações para essas coisas?
Fiz o livrinho, sem paisagens, sem diálogos. E sem amor. Nisso, pelo menos, ele deve ter alguma originalidade. Ausência de tabaréus bem-falantes, queimadas, cheias, poente vermelhos, namoro de caboclos. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda; as pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não têm tempo de abraçar-se. Até a cachorra é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos.
A narrativa foi composta sem ordem. Comecei pelo nono capítulo. Depois chegaram o quarto, o terceiro, etc. Aqui ficam as datas em que foram arrumadas: Mudança, 16 Julho 1937; Fabiano, 22 Agosto; Cadeia, 21 Junho; Sinha Vitória, 18 Junho; O menino mais novo, 26 Junho; O menino mais velho, 8 Julho; Inverno, 14 Julho; Festa, 22 Julho; Baleia, 4 Maio; Contas, 29 Julho; O soldado amarelo, 6 Setembro; O mundo coberto de penas, 27 Agosto; Fuga, 6 Outubro.”
      Publicado em 1938 “Vdas secas” tornou-se um clássico da literatura modernista, não só pela originalidade das soluções estilísticas e estruturais, como pela denúncia dos dramas do trabalhador rural, que ainda não obtiveram solução satisfatória. O atestado de permanência da obra se confirma com a notícia, veiculada há tempo, de que usineiros servem a comida dos trabalhadores nos canaviais nas mesmas gamela utilizadas para dar alimentos aos porcos.

A VIDA IMITA A ARTE

      A revista “Veja” (n° 51, edição 1213-18/12/91) publicou em suas “Páginas Amarela” uma entrevista do “gabiru” Amaro José da Silva ao repórter Kaike Nanne. Em certos trechos desta premiada matéria ecoam falas e vivências das personagens criadas por Graciliano Ramos:
“— É de tanto trabalhar e passar fome. Desde pequeno é assim. Hoje mesmo, já deu meio-dia e eu estou de pé com um copo de café que tomei às 4 horas da manhã. Tem dia que a gente não sabe se vai comer ou não. Eu e a mulher damos primeiro a comida para as crianças. Depois, o que sobrar fica pra nós. (...) O jeito é dormir um bocado para não ter fome. Acordo às 4 horas da manhã e saio com a mulher para o trabalho. (...) Quando a fome aperta muito, a gente sai para caçar. Dependendo da sorte, até que encontra uns bichos: lagarto, tatu, quandu, paca, tamanduá ( que tem gosto de cupim), porco-do-mato, teju, jurubará, preá e lontra. (...) Num quarto, dormimos eu, a mulher e o filho mais novo. No outro, em duas camas, dormem os onze restantes. (...) Sou explorado por eles. Não somente eu, mas todo mundo que é empregado dos usineiros. Eu trabalho há 23 anos para a Usina Bonfim. E o que eu tenho? Vou morrer como nasci : nu e co fome. (...) Cansa, mas não tem jeito de ser diferente. Cada dia a miséria e o sofrimento aumentam. (...) Ensino a respeitar os mais velhos, não tocar no que é alheio e não tirar a vida de ninguém. Às meninas, eu falo que devem casar e tomar conta dos folhos. Digo, também, que eles precisam aprender a ler, escrever e fazer contas para não ser explorados. (...) Quero que eles cresçam, se casem por aqui mesmo, trabalhem na cana e na roça, comigo. Mas se algum quiser estudar e trabalhar no Recife, eu deixo. (...) Uma vez por ano, no Natal, chegam uns brinquedos em Amaraji. Roda giratória, cavalinhos, carrossel. Aí eu levo os meninos para brincar lá. (...) Na cidade, acho que não tem tanto sofrimento como aqui. O trabalhador ganha mais do que no campo. As pessoas vivem melhor e andam de carro. Não falta comida porque tudo que a gente planta vai pra lá”.
      O valor moral e ético de “Vidas secas” está na transposição, para o plano artístico, de uma estrutura social característica de certa parte da realidade brasileira. Com este romance, Graciliano Ramos oferece um painel da “civilização do couro” (ou do “osso”), assim chamada em função da aridez e da esterilidade de grandes áreas do sertão brasileiro bem como da situação humana dela decorrente.

OS CAPÍTULOS – CONTO

1- Mudança

Fabiano, sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e Baleia viajam pela caatinga, expulsos pela seca, fome e miséria.

      Uma família sertaneja, constituída pelo vaqueiro Fabiano (pai), sinhá Vitória (mãe), dois filhos (referidos como menino mais novo e menino mais velho), acompanhados da cachorra Baleia, varam a caatinga. Na condição de flagelados retirantes, dormem no leito seco dos rios, permanentemente atormentados pela fome, cansaço e desalento. Arrastam-se pelo solo estorricado, com seus minguados pertences. Fabiano irrita-se com o filho menor que se deita no chão, sem forças para continuar. Obstinado, Fabiano coloca-o em suas costas e prossegue a caminhada, ainda mais lentamente. Não sabiam para onde ir: a angústia, a falta de perspectiva e a fome foram atenuadas pelo sacrifício do papagaio e por um preá, caçado por Baleia.

II – Fabiano
A ocupação da fazenda, ali vivem servindo o dono ausente; período de banança, os problemas pessoais.

      Chegam a uma fazenda abandonada e ali se alojam, como invasores. Alegre por ter encvontrado um refúgio para a família, Fabiano sente-se aliviado a ponto de esquecer temporariamente os sofrimentos. Julga-se homem, mas retrocedendo no pensamento, considera-se mais um bicho, o que não deixava de constituir, para ele motivo de orgulho: “sim senhor, um bicho, capaz de vencer as dificuldades”. Tomava conta da fazenda, do pouco gado que restara, da casa, de coisas que não eram dele. Criava raízes em terra alheia. Entendia-se com os animais, usando a mesma linguagem para se comunicar com os parentes. O ideal de felicidade tinha como modelo a figura de seu Tomás da bolandeira, pessoa sábia, inteligente e culta, cujo vocabulário Fabiano não compreendia, mas procurava imitar. Mesmo truncando palavras, achava que, fazendo assim, melhorava sua situação.

III Cadeia
Fabiano, bodega de seu Inácio, o soldado amarelo, a cadeia, amor familiar, injustiça, a falta de respeito humano.

      O dono da fazenda retorna à propriedade e emprega Fabiano como capataz. O trabalho, ainda que temporário, dá à família uma certa estabilidade. Fabiano vai à feira da cidade fazer algumas compras e tentar vender um porco que matara. É escorraçado pelo fiscal do governo, que lhe exige pagamento de imposto para poder vender a carne. Na bodega em que tomava uma cachaça, Fabiano é convidado por um soldado amarelo para jogar cartas. No 31, perde o dinheiro que estava guardado e, acabrunhado, retira-se do jogo sem se despedir dos parceiros. Fica conjecturando as desculpas que iria dar à esposa pela perda do dinheiro. Até ser interrompido pelo soldado amarelo que o censurava por ter abandonado bruscamente o carteado. Dizendo-se desrespeitado, o soldado dá voz de prisão a Fabiano. Levado para cadeia, o vaqueiro é impiedosamente surrado. Passa a noite remoendo sua revolta, em completo estado de confusão mental.

IV- Sinha Vitória
Acuados, sinhá Vitória e Fabiano rodam num ambiente exíguo, sem saída nem variedade, seus problemas e desejo.

      Sinha Vitória vê adiado o sonho de possuir uma cama de lastro der couro, igual a de seu Tomás da bolandeira. A revolta cresce com a rotina dos afazeres domésticos. Indignada, enerva-se com Baleia e com os filhos. A certeza de continuar dormindo numa cama de varas e a lembrança do papagaio sacrificado intensificam sua amargura. Passada a crise, recomeça a sonhar com a cama de couro, pensando nas diversas maneiras de obtê-la. A esperança de que, algum dia, isto pudesse acontecer deixava-a quase feliz.

V- O menino mais novo
Fabiano, o menino mais velho, Baleia, bicho não precisa de nome, imitação do pai, traquinagens.

      O menino mais novo admirava o pai, vendo-o montar a égua alazã. Imaginava, um dia, vir a ser como ele, principalmente para demonstrar sua coragem ao irmão mais velho e à Baleia. Eras preciso uma proeza, algo que os deixasse maravilhados. Para tanto, resolve cavalgar num bode: acaba caindo numa ribanceira, sob os risos e chacotas do irmão mais velho e o olhar de censura de Baleia.

VI- O menino mais velho
A palavra inferno, sinha Vitória, o cascudo na cabeça, o confronto junto a Baleia.

      Sinha Vitória vivia reclamando da vida, considerando-a um inferno. Intrigado com esta palavra, o menino mais velho pergunta-lhe o significado dela. A mãe se revolta com a própria incapacidade de lhe fornecer uma explicação satisfatória e expulsa o filho da cozinha. Humilhado, o menino mais velho procura consolo junto a cachorra. Baleia, entretanto, estava mais interessada no “osso graúdo, cheio de tutano e com alguma carne”, que sinhá Vitória preparava na cozinha.


VII – Inverno
Quadro de uma família em noite de frio e miséria, o abrigo, a fogueira, esperança e pavor.

      Quando chegam as chuvas de inverno, a família reúne-se ao redor do fogão de lenha para se aquecer.
Sonolentos, os meninos ouvem os pais, mais uma vez, desfiarem seus sonhos de felicidade. Com a caantiga verde, gado para aboiar e feijão com rapadura seca. Sente-se tranqüilo e esperançoso. Já sinhá Vitória se apavora com a possibilidade de uma enchente, pois as águas subiam perigosamente...

VIII – Festa
Natal: a família vai à festa na cidade, sincretismo e rudeza, Fabiano, bêbado, procura briga, sumiço de Baleia.

      Vestindo roupas de passeio, a família vai passar o Natal na cidade. Como Fabiano comprara quantidade insuficiente de tecido, as roupas ficaram curtas e apertadas. A sensação de rídiculo aumenta com o desconforto e a falta de hábito de usarem sapatos. O constrangimento quase anula o deslumbramento. Na igreja, só sinhá Vitória identifica-se com a atmosfera de religiosidade e procura participar da missa. Os meninos sentem-se amendrontados com tanta gente. Deslocado, Fabiano compara-se aos tipos da cidade, sentindo-se inferiorizado. Foge da igreja e vai até a bodega, bêbado, torna-se corajoso, reclama da bebida aguada e desafia a todos. Como ninguém aceita suas provocações, Fabiano recolhe-se junto à família e se acalma.

IX – Baleia
Antropormoficação do animal, Fabiano mata a cachorra, pensando que ela estaria hidrófoba, a morte da cachorra causa comoção na família, Baleia morre sonhando com um campo imenso de preás.

      Baleia adoece e Fabiano se vê obrigado a sacrificá-la. Todos se desesperam com seu sofrimento, principalmente Fabiano. A morte da cachorra é narrada em câmara lenta, o que amplifica o halo de humanidade que a cercava.

X – Contas
Achatamento social – ignorância – revolta de Fabiano, por se perceber explorado pelo patrão.

      Fabiano vai até a casa do patrão acertar as contas pelos trabalhos prestados na fazenda. Os caçulos do patrão eram muito diferentes das contas preparadas por sinhá Vitória. Sentindo-se lesado, Fabiano reclama e passivamente se acata a justificativa do patrão, de que a diferença se devia aos juros cobrados pelo empréstimo antecipado. A miragem de permanecer na fazenda vai se desfazendo, o que deixa o vaqueiro revoltado.

XI – O soldado amarelo
Reencontro com o soldado amarelo: possibilidade da revanche, Fabiano reflete e libera-o: nobreza de sentimentos.

      Um ano após sua injusta prisão, Fabiano reencontra o soldado amarelo, perdido na caatinga. A oportunidade da revanche é concreta, mas Fabiano apieda-se do soldado e deixa-o partir.

XII – O mundo coberto de penas
A presença das aves de arribação: sinal de desgraça, revolta e temor.

      As aves de arribação anunciam a proximidade de nova seca. Os animais começam, a tombar, de fome e de sede. Fabiano procura afastá-la a tiros, notando como sua sina era semelhante à de Baleia. Aterrorizado, Fabiano pensa no que significam o soldado amarelo e o dono da fazenda. Infeliz e revoltado com sua impotência, volta para casa, julgando-se um “cabra safado, mole. Se não fosse tão fraco, teria entrado no cangaço e feito misérias.”

XIII – Fuga
Esgotam-se as possibilidades de permanência, nova peregrinação: mesmo acossados pela miséria, vêem renovadas as esperanças de uma vida melhor.

      Com a chegada da seca, Fabiano, a princípio, pensa em resistir e permanecer na fazenda. A morte de um número cada vez maior de reses, no entanto, faz com que ele decida tentar a sobrevivência noutro local. Desconsolados, combinam partir de madrugada, para não se encontrarem com o patrão, que os despedira.Caminham sob um céu implacavelmente azul; asperamenete, Fabiano ordena que marchem em ritmo mais intenso. Lembram-se de Baleia e, para atenuar o sofrimento, começam a conversar, alimentando a esperança de chegar a algum lugar onde pudessem ter vida melhor.


A ESTRUTURA DA NARRATIVA

      “Vidas secas” é uma narrativa longa, construída em treze sequencias justapostas. Estas constituem episódios tão autônomos entre si que o romance foi classificado como “desmontável”: as cenas podem ser reordenadas pelo leitor, em disposição diversa da que foi originalmente apresentada.


      Articulados de forma isolada, os episódios podem ser lidos como se fossem contos. A impressão final é a de que a narrativa parece estar incompleta, unicamente porque não se diz que a última cena deve ser, realmente, a derradeira. Este processo de composição do romance sugere uma analogia com a pintura: numa exposição, é comum o artista explorar a mesma temática em vários quadros. Aliás, é oportuno lembrar que a série “Retirantes”, de Cândido Portinari, foi desenvolvida sob o impacto da leitura de “Vidas secas” e da fraterna amizade de Graciliano Ramos com o pintor que focalizou o drama dos flagelados nordestinos. São vários painéis (fazem parte do acervo permanente do MASP), que podem ser apreciados aleatoriamente, em ordem diversa de seleção.

      A independência dos episódios no livro possibilita outras combinações de sequência, abrindo um leque de diferentes significados. O drama das personagens revela-se, assim, sob outras e diferentes perspectivas. Muitas vezes, os títulos indicam as circunstâncias em que se encontra a família: MUDANÇA, CADEIA, INVERNO, FESTA, CONTAS, etc. Isto reforça a arquitetura fragmentária do romance, pois não existe uma transição entre capítulos. A lógica é interna à narrativa, o que determina também a constituição específica de outros aspectos do romance, como o tempo, o espaço e o estilo do autor.

Foco Narrativo

      “Vidas secas” foi o único romance escrito por Graciliano Ramos em terceira pessoa. Explorando o foco da onisciência multisseletiva, via discurso interno livre, o autor faz com que as cenas sejam focalizadas sob a ótica das personagens. Isso atenua a postura analítico-interpretativa do observados: sua “voz” se confunde com a das personagens. Estabelece-se, assim, estreita sintonia com a estrutura fragmentária do romance. Os ângulos de visão parcial vão se justapondo ao longo do romance através do deslocamento do narrador, que parece assumir, como um camaleão, o ponto de vista das várias personagens, destacadas como protagonistas de cada capítulo. O fato do narrador se dissimular por trás do relato revela sua discrição. Assim, vão se acumulando flagrantes, aparentemente desconexos, que registram o cotidiano dramático dos retirantes, empenhados em sobreviver.

Tempo

      A ação do romance é situada no intervalo de duas secas. Os indicadores temporais referem-se sempre ao passado, desdobrado em vários planos, que remetem a fatos acontecidos ou a imaginados, num futuro hipotético. É dentro do quadro cíclico da seca que a família se estabelece provisoriamente numa fazenda. As referências cronológicas são sutis: é necessário investigar para recolher íncices que permitam demarcá-la. Assim, acaba-se inferindo que marido e mulher aparentam ter a mesma idade e que há pouca diferença etária entre os meninos.

      O tempo que levou a intriga para se desenrolar é impreciso. Sabe-se, por exemplo, que o reencontro de Fabiano com o soldado amarelo, na caatinga, deu-se um ano após sua vexatória prisão. Muitos acontecimentos não estão datados em relação à cronologia de vida das personagens:

“Recordou-se do que sucedera anos atrás, antes da seca, longe.” “Fazia horas que pisavam a margem do rio Entrava dia e saía dia”; “Viveria muitos anos, viveria um século” No final do romance colhe-se o seguinte depoimento: “dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos; o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito.”
      Essa dissolução do tempo cronológico produz um efeito psicológico e estilístico notável, na medida em que amplifica a carga de dramaticidade que envolve as personagens, intensificando sua instabilidade e insegurança: “Fabiano e os seus vêm não se sabe de onde e caminham não se sabe para onde.” Ignora-se quando chegaram, quanto tempo demoraram e durante quanto tempo terão que caminhar: “Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não caminhariam?”

      Desviando-se da cronologia dos acontecimentos, o autor faz com que as personagens se entreguem ao fluxo de seus pensamentos, estabelecendo, assim, o tempo interior. Com isso, ressalta as reações psicológicas desta rústica família frente às pressões naturais e sociais.
Espaço


      A paisagem natural e social é tão hostil às personagens, que se pode falar na existência de um contra-espaço neste romance. A agressividade dos urubus traçando círculos em torno daqueles cadáveres adiados, é extensiva aos homens que detém alguma forma de poder: o “dono da fazenda”, o “soldado amarelo” e o funcionário da prefeitura.

      Graciliano Ramos parece ter extraído de sua vivência nos sertões semi-áridos das Alagoas as sugestões geográficas do romance. Daí, a escassez do verde, as injunções da paisagem e do clima impiedosos e os condicionamentos socioeconômicos implacáveis. A paisagem é monótona: não há florestas nem montanhas para distrair a visão e atenuar a secura. Quase sempre sinistra e desolada, a paisagem permite que se veja longe e fundo, tornando ainda mais ostensivo o drama dos retirantes. Na adaptação desta obra para o cinema, o diretor Nelson Pereira dos Santos explorou habilmente este traço.

Estilo

      Quando prefeito, Graciliano Ramos mandou construir uma estrada com quilômetros e quilômetros de reta, ligando Palmeira dos Índios a uma cidade vizinha. No famoso relatório em que comentou suas atividades na prefeitura, ele disse:

“Procurei sempre os caminhos curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.”

      A determinação do prefeito em relação às estradas pode constituir-se em sugestiva metáfora de seu estilo: não existem curvas em seu texto. Deurado, seco, sucinto, frio, duro, descarnado: todos esses adjetivos se aplicam com propriedade ao texto de Graciliano Ramos. Sua obsessão por uma redação gramaticalmente imaculada, correta e elegante lembra Machado de Assis, sem, no entanto, possuir aquele jogo de ambigüidade e ironia, característicos do autor de “Dom Casmurro”. A referência não é gratuita porque, de todos os narradores nordestinos, Graciliano é o mais “clássico”, o mais “machadiano”.

      “Pontiagudo como um cactus da caatinga”: é o que comenta Léo Gilson Ribeiro sobre o estilo de Graciliano em “Vidas secas”, enfatizando o anti-sentimentalismo do autor, pela preferência que ele dá aos nomes das coisas, usando com parcimônia os adjetivos. A sintaxe tradicional alia-se a um variado léxico regionalista, para produzir um efeito de despojamento nominal, alcança, não raro, a graça da prosa poética, virtude destacada por João Cabral de Melo Neto no poema que homenageou Graciliano Ramos.

      Em “Vidas secas” praticamente não existem diálogos: as personagens se comunicam por exclamações, interjeições guturais, gestos, onomatopéias. Isso oferece uma das chaves de compreensão do livro: a marginalidade lingüística da família dos retirantes. O acanhamento, o fato do sertanejo só falar o estritamente necessário revela também sua dificuldade em organizar o raciocínio, que parece estar emperrado, travado por bloqueios insuperáveis.

      Graciliano esquadrinha geometricamente as palavras: elimina do texto tudo o que se possa chamar de adorno. Diz o máximo com o mínimo: daí, a escolha pelas séries de orações curtas, coordenadas por justaposição, caracterizando o predomínio da parataxe. Tal seleção é intencional, fazendo com que o texto não corra solto; o fluxo de leitura é frequentemente interrompido por conectivos e sinais de pontuação. Este traço da sintaxe espelha, no plano estilístico, a desconexão e a descontinuidade existencial dos infelizes retirantes: suas vidas não fluem, parecem estar permanentemente entrecortadas pela necessidade de resolver o problema da sobrevivência.

Personagens

      As personagens principais deste romance constituem a característica da família sertaneja nordestina: pai, mãe, filhos, cachorro, papagaio... Isto faz com que ela assumam uma dimensão alegórica, representativa da civilização possível na paisagem dura do Nordeste. Para identificar seu valor simbólico, elas podem ser assim caracterizadas:

      — Fabiano: é o vaqueiro típico do sertão nordestino, perfeitamente entrosado com o meio rural. Na cidade, sente-se como um “estrangeiro”, cuja inocência é violentada pelas instituições sociais urbanas, incompreensíveis e abstratas para ele. Genericamente as vê como manifestação do “governo”, distante de sua realidade porque não resolve seus problemas. A retração , desconfiança e temor de Fabiano se ampliam quando confronta com o soldado, o patrão e o funcionário da prefeitura. Sente-se tão diminuído e marginalizado que constantemente se equipara a animais: é “quase uma rês” ou ainda “tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava e obedecia.” Se de um lado, isto sugere embrutecimento, do outro parece representar uma extraordinária capacidade de resistência, cujos limites são superados, com fibra e dignidade. Na medida em que os esquemas de organização social não lhe possibilitam uma realização individual, só resta uma saída: fugir, buscando nova possibilidade de integração. Tudo isso faz de Fabiano um “herói” problemático, marcado pela contradição entre revolta e a passividade.

      — Sinha Vitória: Diferencia-se de Fabiano pelo desejo de posse: o tempo todo sonha com uma “cama com lastro de couro”. Essa vontade tão natural de alcançar conforto e um mínimo bem-estar brota de uma personalidade mais decidida, não tão tosca e primitiva como a do marido. A condição de âncora da família se manifesta no episódio de acerto de “contas” com o patrão: é ela quem faz os caçulos, dando a Fabiano a certeza de que é ludibriado pelo fazendeiro. Mesmo na condição subumana de retirante, ela é a “letrada”, detendo, de certa maneira, a supremacia da família, orientadora de Fabiano. Ao contrário do marido, as comparações que sinhá Vitória faz da família com animais imprimem sempre um caráter negativo:”o costume de encafuar-se ao anoitecer não estava certo, que ninguém é galinha.”


— os meninos: criaturas simples e ingênuas, eles vêem na figura do pai um modelo a ser seguido. Os pais, por sua vez, projetam para as crianças um futuro diferente: “os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. “Desejam que elas se mudem para as cidades ricas do sul, a fim de que possam conseguir sorte na vida.

— Baleia: identificada por nome (o que não acontece com os meninos), a cachorra é humanizada, tratada como membro da família. A magreza insignificante de cadela subdesenvolvida é anulada já pela escolha do nome, numa demonstração de afeto próprio de sertanejo nordestino, que costuma dar a seus animais nomes de peixe. O que, a princípio, aparenta ser uma ironia (ela, em nada, lembra um cetáceo), é muito mais uma compensação, dada a secura da terra. Na passagem em que se relata sua morte, atingida pelo tiro dado por Fabiano, o processo de antropomorfização se completa: “Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo”.

— O soldado amarelo, o dono da fazenda, o funcionário da prefeitura: são as personagens do romance que simbolizam as instituições sociais, genericamente identificadas por Fabiano como “governo”. Representam o poder constituído, caracterizando-se pelo arbítrio e pelo despotismo com que exercem suas funções. Todas pressionam Fabiano, de forma ora prepotente ora econômica, máscaras que não conseguem dissimular a violência. É o imobilismo da organização social, funcionando como superestrutura, que determina o nomadismo forçado a que são submetidos os retirantes. Marginalizados, os flagelados capitulam diante da inclemência da natureza e das implacáveis regras impostas pela organização social.



 








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