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quarta-feira, 16 de junho de 2010

FERREIRA GULLAR: o pai da poesia social

     Animated avatar. Movement A GERAÇÃO DE 60 NA POESIA – FERREIRA GULLAR


Ferreira Gullar é filho de Newton e Alzira Goulart, nascido em São Luís do Maranhão, em 1930, é um poeta que vivenciou as experiências mais radicais do chamado neomodernismo. Percorreu seus caminhos e contribuiu essencialmente para a nossa literatura brasileira, tanto com sua produção, quanto na polêmica teórica que estimulou a produção poética na época.

      Seu lirismo PE demolidor e crítico, é profundo, construído na vertigem dos dias. Trilha um caminho pessoal e íntimo, mas percorreu algumas fases significativas de nossa poesia dos anos de 1950 e 60, pois, ao conseguir publicar o livro “A lua corporal”, em 1994, após muita resistência por parte da gráfica de “O cruzeiro”, porque estranharam seu projeto visual ousado, desperta o interesse de muita gente, a começar pelos paulistas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que lhe escreveram uma carta dizendo que iriam conhecê-lo. É a partir daí que o Concretismo começa a ser gerado, um importante movimento de vanguarda.

      “A luta Corporal” reúne composições de múltiplas tonalidades, surgia como o primeiro documento de uma experiência pessoal e isolada de sentido “concretizante”, que abriu caminho para a afirmação da poesia Concreta no Brasil. Sem dúvida, é um dos seus livros mais difíceis, o qual Gullar procura dissolver a frase, quebrar o discurso, as próprias palavras, com o propósito de criar, objetivamente, novas relações entre os elementos sintéticos, ou mesmo de “romper” com a própria sintaxe.

     Gullar é a maior unanimidade poética, entre os poetas vivos do Brasil. Apesar de ter sido um dos fundadores do Concretismo, abandonou-o em seguida, para fundador o Neoconcretismo, sendo este uma vertente do Modernismo. Sendo assim, em 1959 publica o “Manifesto Neocroncreto no jornal do Brasil” do Rio de Janeiro, assinado ainda por vários artistas plásticos – entre elesd, Lygia Pape (1927-2004), Franz Weissman (1911-2005), Lygia Clark (1920-1988), Amilcar de Castro (1920-2002) e Reynaldo Jardim (1926), transformando em abertura do catálogo da 1° Exposição de arte Neoconcreta.

    Esse poeta que faz do espanto o fundamento da poesia e que e que escreveu um dos mais intensos poemas da língua (“Poema Sujo”), busca as palavras que a própria vida engendra, aquelas que nascem ao rés-do-chão e do corpo, com as misérias do povo, chulas, e um tipo de escrita que desafia as normas convencionais do que é poético. Ele desfigura, justamente, as classificações preconcebidas do que é e do que não é poético, pois sabe que a poesia está em tudo, desde que consigamos percebê-la, elaborando o material propício a sua manifestação. A essas palavras contaminadas de vida e impregnadas de experiências, o poeta une uma delicadeza observadora toda própria. Sendo assim, substitui o verso por novas estruturas, baseadas na associação formal dos vocábulos e em sua disposição espacial na página, em alinhamentos geométrico, no lugar da sintaxe convencional.

      No início da década de 60, Ferreira Gullar dá uma virada brusca e passa a realizar uma poesia engajada socialmente. Década de 60, anos significativos na história do Brasil, o poeta atende o chamado do momento político e transforma sua poesia em arma de luta e resistência. Essa discordância com o radicalismo do movimento concretista e de seus desdobramentos fez surgir assim, em paralelo a esse movimento, a chamada “poesia social”, cuja temática centra-se na denúncia dos problemas, das desigualdades sociais do país – suscitada em especial pela ditadura militar – bem como os aspectos que abalavam o mundo, como a Guerra do Vietnã.

      Os autores dessa tendência reabilitaram o verso e o lirismo, utilizaram referências e linguagem mais próxima do cotidiano, fazendo da poesia um instrumento de participação social e política. Dentre outros poetas dessa vertente literária, destacam-se além do Ferreira Gullar, Thiago de Mello, e Afonso Romano de Sant’ Anna.

      O poeta Gullar, na sua incessante busca da poesia, vai encontrá-la na denúncia do cotidiano sofrido das pessoas, da ausência de liberdade, na clara participação política com a firme convicção de que sua palavra poética pode auxiliar na mudança da sociedade.

      Nessa perspectiva, aproxima-se do Centro Popular de Cultura (CPC) e da União Nacional dos Estudantes (UNE), pois tem várias ideias sobre os rumos de sua poesia. Está repensando sua linguagem e passa a adequá-la a um discurso claro, límpido, que seja facilmente comunicável ao nível da compreensão popular, direto; que deve travar o combate ideológico para a derrota do discurso das classes dominantes, combate que se trava paralelamente ao outro, o político, propriamente dito.

      Gullar compõe os romances de cordel, formas rudimentares dos cantadores de feira, que haviam fascinado na sua infância nordestina, são verdadeiras cartilhas para a educação e propaganda política: “João Boa Morte, um cabra marcado para morrer; “Quem matou Aparecida”; “Peleja de Zé Molesta com Tio Sam” e “História de um valente”, todos publicados em 1962 pelo CPC, Gullar se destacaria ainda, principalmente por seus artigos a respeito da cultura brasileira e pela intensiva participação no movimento de cultura popular, experiências e debates reunidos em dois livros importantes, “Cultura Posta em Questão” (1965) e “Vanguardas Subdesenvolvimento (1969)

      Após abandonar os movimentos de vanguardas e assumir uma nova atitude literária engajada política e socialmente, Ferreira Gullar juntamente com Oduvaldo Vianna Filho, Dias Gomes, Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura e outros intelectuais que usavam o teatro e a poesia para politizar e conscientizar as pessoas do que estava acontecendo no país, escreve as seguintes peças: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966); “A Saída?”” Onde Fica a Saída?”(1967); “Dr. Getúlio, sua vida e sua glória (1968) e “Um Rubi no Umbigo.

     Gif animator. Rotation Com o Golpe Militar de 1964, Ferreira Gullar é levado ao recolhimento de seu fazer poético, e em 1969 foi preso no Rio de Janeiro, com o jornalista Paulo Francis e os compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil. Livre da prisão, auto-exilou-se em Paris, no Chile, Peru e na Argentina. Foi durante o período do exílio (1971-1976) que o poeta escreveu dois de seus mais conhecidos livros: “Dentro da Noite Veloz” e “Poema Sujo”.

      No extenso poema, “Poema Sujo” escrito na Argentina, em 1975, durante cinco meses, seu livro mais conhecido internacionalmente, revê toda sua vida e as suas experiências através de uma linguagem forte, inovadora e expressiva do difícil momento do país. Nesse poema, Gullar, dedicou-se quase que integralmente: “Fazia minha comida, tomava as providências exigidas pelo dia-a-dia, e voltava a ele, senão para escrevê-lo, às vezes para relê-lo e mergulhar de novo em seu universo em formação. Não havia palavra, coisa, fato que não coubesse nele”.

      O poema nasceu durante o período em que passou no exílio, na época do regime militar, a obra reflete um momento de grande angústia na vida do poeta: “eu estava ameaçado de ser morto, via meus serem mortos. Escrevi aquele livro como se fosse a última coisa da minha vida”. Sobre o título do livro, diz Gullar: “É sujo porque não tem estilo definido, porque o período em que foi escrito representa uma época suja da história e porque fala de sexo que para muitas pessoas é sujo, obsceno”.

      O poema chega ao Brasil sem a presença de Gullar, trazido por Vinícius de Moraes, e começa a ser ouvido em sessões fechadas. No ano seguinte Ênio Silveira consegue publicar “Poema Sujo” pela Civilização Brasileira. Com a ausência do autor, o lançamento no Rio de Janeiro se torna um ato pela volta de Gullar, reunindo artistas e intelectuais. O poeta acaba retornando em 10 de março de 1977, mas é preso, novamente, no dia seguinte, sendo submetido a vários interrogatórios e ouvindo ameaças à sua família. Graças à intervenção de amigos, é libertado e recomeça a trabalhar, publicando inclusive uma “Antologia Poética”.

      Depois de 12 anos publica um livro de poemas, “Muitas Vozes”, que lhe rende o prêmio Jabuti de poesia. Recebe em 200 o prêmio Multicultural Estadão, de “O Estado de São Paulo”, por todo o seu trabalho, e lança o livro infantil de poemas “Um gato chamado gatinho”. Chega a 2001 tido como o maior brasileiro vivo e é tema no MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio da exposição “Ferreira Gullar 70 anos”.

      Aos 80 anos de idade, Ferreira Gullar publicou mais de 25 livros, entre poesias, contos, crônicas, memórias, ensaios e peças de teatro, em comparação com outros poetas, sua produção é pequena. Mas Gullar não se aflige: “prefiro dez poemas num só, que escrevê-lo por ejaculação precoce”. Para televisão, Gullar escreveu vários textos entre os quais “A Noiva de Copacabana” e “Carga pesada”, minisséries produzidas pela TV Globo. A cada livro publicado, aprofundado na sua vida poética, numa crítica constante ao internacionalismo temático, ao universalismo à poesia em relação à realidade humana, social e política do mundo subdesenvolvido, continua na sua trajetória, sendo também uma das inteligências mais lúcidas a refletir sobre os rumos das artes e da literatura no Brasil. Além de poeta, como já dissemos, o autor se destaca como ensaísta, crítico de arte e dramaturgo, tendo inúmeras peças encenadas. Sendo assim, Gullar é, sem dúvida, um dos grandes mestres da poesia brasileira.


"POEMA SUJO"

    O particular e o público “um movimento que vai do corpo à consciência, e da consciência para o corpo”, como afirmou o crítico Luiz Villaça. Explicitando o título do poema, Villaça observa que o sujo é provocado pelas águas revolvidas, pelo estilo ambíguo entre liberdade e o rigor, pelo passo crítico da poesia moderna e pelo fato de o poeta “participar de uma história não oficial, secreta, que soma a consciência abafada e o corpo prisioneiro das vontades caladas”.


  O poema é estruturado em versos livres (em alguns momentos, há versos em redondilha maior), explorando com liberdade o espaço gráfico, recorrendo, às vezes, a expedientes concretistas:

“nada
vale
nada
vale
quem
não
tem
nada
no
v
a
l
e

TCHIBUM!!!” (p. 36)

      Embora o poema não apresente subtítulos, capítulos ou subdivisões, podemos apontar, através de espaços deixados entre as suas 93 páginas, 9 blocos distribuídos assimetricamente: enquanto o menor tem quatro páginas, o maior tem 26. Mais adiante, levantaremos os aspectos marcantes desses blocos. Por ora, numa abordagem geral, salientaremos os seguintes aspectos:

       Ainda que o texto tenha nascido de um jato, não se trata de uma obra largada às expensas do inconsciente, numa linguagem automática tipicamente surrealista: há um rigor na construção.

       O poeta busca evidenciar, ao longo do texto, a situação relacional das coisas no mundo; tudo pertence à história: bichos, coisas, pessoas, frutas, somam-se ao viver denso da voz poética.

       Os temas recorrentes do poema são: o exílio, a casa paterna, a cidade de São Luís, a intensa relação entre tempo-espaço, a velocidade e o apodrecimento, a identidade física singular e coletiva, a miséria, a lama.

      Assim como há mistura de tristeza e alegria, esperança e angústia, caráter histórico e mistério existencial, corpo humano e espaço urbano, a forma poética é também híbrida, recorrendo a versos curtos e longos, versos livres e metrificados, linguagem clássica e linguagem chula, narrativas e fragmentos, léxico popular e erudito, registros ternos e ásperos, enumerações e repetições, versos alheios e versos próprios – de outros livros, anáforas, sinestesias, aliterações, assonâncias, onomatopéias.

       O título do poema apresenta, de certa forma, um caráter paradoxal entre o limpo (a poesia, fruto de depuração lírica) e a sujeira; tal paradoxo será espelhado e espalhado ao longo do texto. Paulo Mendes Campos, em uma crônica no “Jornal do Brasil” (14-08-76), alerta:

Mas que o título desse livro não nos engane: o que há nele, página por página, é o constante contraponto do indesculpavelmente sujo com o irresistivelmente limpo (...) É um poema das coisas, uma lição enigmática das coisas. As cores e os odores da cidade. O dia, o ano, as estações. Os esgotos podres e os ventos soprando verdes nas palmeiras. Os pássaros, o anedotário urbano, o cromo familiar. (...) Mas, apesar da multiplicidade de objetos e de experiências, ele consegue costurar todo o comprido poema, sem faltar à unidade, sem mesmo lançar mão de subtítulo. É um prodígio.

MONTAGEM DO POEMA

      Folheando o livro, o leitor tem a impressão de que as letras, esparramadas pelas páginas, são como formigas enfurecidas e atarantadas. Em entrevista à revista “Veja”, pouco antes de sua volta do exílio, Gullar depõe, ao explicar a origem do poema:

Parti da estrutura de um poema que fiz sobre o formigueiro, no início do movimento concretista. Há uma lenda em minha terra que diz que onde tem formiga tem dinheiro enterrado. Na minha casa tinha muita formiga, era aquele tipo de casa antiga, muito úmida ... e, quando chovia , no pé da parede surgia aquele monte de formigas pretas, verdadeiros exércitos, um negócio que me impressionava muito. Então eu quis fazer um poema que estivesse ligado a essa lembrança da minha infância e fiz esse poema sobre o formigueiro. De outra vez, uma noite aqui em Buenos Aires, me veio a lembrança de São Luís, minha casa, meus irmãos, o quintal e as formigas saindo da parede, e me lembrei do poema das formigas. Aí eu disse: ‘Puxa, eu poderia fazer um poema em que vomitasse tudo que tenho dentro de mim logo na primeira página e a partir dessa matéria bruta fosse desfiando todo o poema’. (...) e comecei a escrever o princípio do poema: ‘turvo,turvo, a turva mão do sopro contra o muro...’ que era a tentativa de ir mais longe que minha memória podia alcançar, ali onde ainda não existe nada, é tudo impreciso, ‘escuro, mais que escuro, claro...’ E aí começa ‘um bicho sonhando...’, eu entro dentro de mim mesmo e disparo o poema.
Pelo depoimento, vê-se que o poema parte:

a) Da memória intelectual;
b) Da memória afetiva;
c) Da analogia do humano com o animal;
d) Da catarse marcada pelo sujo (vômito);
e) Da oposição entre o turvo e o claro, do impreciso;
f) Do mergulho ao interior individual para a revelação do coletivo e
g) Da imperiosa presença da cidade de São Luís, cujo “corpo” confunde-se mesmo com o corpo do poema. A esse propósito, José Guilherme Merquior observa:

Uma das originalidades do Poema sujo consiste precisamente na conjunção dessa fixação carnal com a insistência em cantar o corpo da cidade: da bela, pobre e úmida São Luís, berço de Gullar. O realismo criatural de Gullar, seu apego à dolorosa finitude das pessoas e coisas, emprestam a vários momentos de seu poema um tom único de abrupta humanidade.

“E são coisas vivas as palavras
e vibram da alegria do corpo que as gritou
têm mesmo o seu perfume, o gosto
da carne
que nunca se entrega realmente
nem na cama”


      Ao evocar as festas de aniversários em sua pequena cidade latino-americana, o poeta não se vale dos apelos sentimentais românticos, mas usa a reflexão:

“era como se nenhum afeto valesse
Como se não tivesse sentido rir
numa cidade pequena”

      A parte final do poema, que demorou um certo tempo para ser elaborada, inicia-se com uma estrofe que retoma, de certo modo, o processo poético de “O cão sem plumas”, de João Cabral:

“O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade”
      Entenda-se que o poeta, no exílio, traz a cidade dentro de si, “como a árvore voa/ no pássaro que a deixa”. O caráter racional comanda esses versos finais, que refletem sobre a inserção de uma coisa em outra:

“cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas, praças e ruas”

     
      Assim se encerra o longo poema, que, ao buscar relacionar as coisas umas com as outras, deixa o fragmento e atinge a totalidade; o poeta, ao falar da sua infância, da família, da cidade e dos objetos, cria uma intensa e tensa rede de relações, que se prendem à história. Se uma coisa está, dialeticamente em outra, não se pode simplesmente escrachar o sujo, pois ele está no limpo, como o esquecimento está na memória e o pessoal está no universal. Para falar da lama, do pobre, da carniça, da miséria, da sujeira e da sexualidade ressentida, o poeta vale-se do estilo impuro, o dito sujo, cuja nódoa está imersa na vida. Dando um balanço em sua vida e em sua obra, em seu livro de memórias, Ferreira Gullar conclui: “A vida não é o que poderia ter sido e sim o que foi. Cada um de nós é a sua própria história real e imaginária”.

    O texto de Ferreira Gullar, intitulado “poema sujo”, foi publicado em 1975, e nesse poema, encontramos o autor mais maduro.

      Para Vellaça, o título do poema, “Poema Sujo” é provocado pelas águas revolvidas pelo estilo ambíguo entre liberdade e o rigor, pelo passo crítico da poesia moderna e pelo fato de o poeta “participar de uma história não oficial, secreta, que soma a consciência abafada e o corpo prisioneiro das vontades caladas”.

      O título do poema apresenta, de certa forma, um caráter paradoxal entre o limpo (a poesia fruto da depuração lírica) e a sujeira está ao longo do poema. Dessa forma, o título está em todo o texto.

      O “Poema Sujo” é fundamentado em sua própria vivência. Os temas são: o exílio, a casa paterna, a cidade de São Luís, a intensa relação entre tempo, a velocidade e o apodrecimento, a identidade física singular e coletiva, a miséria, a lama.

      Quanto ao singular e coletivo, isso quer dizer que está ligada a ambiguidade social, que envolve os dois lados - individualidade e enquanto parte da coletividade. Já, a lama, é a lama real, concreta, não é metáfora.

      Assim, como há mistura de tristeza e alegria, esperança e angústia, caráter histórico e mistério existencial, corpo humano e espaço urbano, a forma poética é também hidrida, recorrendo a versos curtos e longos, versos livres e metrificados, linguagem clássica e linguagem chula, narrativas e fragmentos, léxico popular e erudito, registros ternos e ásperos, enumeração e repetições, versos próprios de outros livros, anáforas, sinestesias, aliterações, assonâncias, onomatopeias.

      O escritor possui a consciência literária, fazendo poesia com a consciência de fazer, cada um deles têm a sua poética, tem uma poética própria. Ele explora as dimensões sociais do homem – escritor engajado e partícipe.

      O autor dá ao poema a linguagem necessária para a construção deste. Ele Busca e seleciona as palavras, todo o texto foi organizado antes mesmo de escrever. Essa liberdade e rigor podem estar ligados a questão político-social. A liberdade que ele não tinha em seu próprio país e que foi buscar no exílio.

      Observa-se essa liberdade na linguagem empregada em sua poesia, isto é, palavras de baixo calão, que o Modernismo pregou desde a semana de arte moderna. Mas, ao mesmo tempo, notamos o rigor, este do próprio texto literário; escolheu fazer isso em forma de poema, pois o texto poético tem suas características que limitam.

     O poema vai ondulando, pois, assim mais é suave. A linguagem e a estrutura do poema permitem esse movimento de vai e volta, porque trata-se de lembranças; a memória dele vai e volta da consciência social, crítica, sem considerar os aspectos concretos da vida.

      Ele vai revolver as águas de sua própria vida, experiências. A vida como o curso de um rio, busca na memória, relações familiares, etc. Dessa maneira, ele quer trazer uma situação crítica daquele contexto (americanos), buscando fatos ligados a própria vida.

      Nota-se também a verossimilhança (Eu vi...) é como se fosse um testemunho, ele viveu isso, estando por perto, participando. Ferreira Gullar é o pai da poesia social, o mais engajado, não quer fazer acusação, mas a reflexão social; fica entre essas duas situações.


MOMENTOS NA EVOLUÇÃO POÉTICA DE GULLAR

LIRISMO SOLITÁRIO

 Experiências com a palavra, com o verso, com a própria poesia e a linguagem (experiências da vanguarda concretista.

LIRISMO SOLIDÁRIO

 Poesia de cunho político-social; consciência social, linguagem reveladora, não mais uma linguagem lírica.

A SÍNTESE DA MEMÓRIA

 A reconstrução (poética) de sua vida através de uma reflexão crítica do passado, presente, pois pela memória ele vai refletir as questões sociais, buscando os motivos, reflexão crítica do passado, mas em relação ao presente, como é sabido, Ferreira Gullar escreve esse poema quando estava exilado. Assim, na condição de brasileiro exilado de sua pátria, todos os fatos têm grande importância para ele, até as pequenas coisas, para tornar-se um ser social, político, reflexão crítica do passado, mas considerando o presente que vive. Portanto, não é o saudosismo que a literatura sempre cultivou.

 Folhando o livro, o leitor tem a impressão de que as letras, esparramadas pelas páginas, são como formigas enfurecidas.

 Eu entro dentro de mim e disparo o poema (memória), porém as lembranças não são claras e sim, turvas, o poema é a vida dele, o conteúdo primeiro são as lembranças, recordações, é também o ideológico, conteúdo mais profundo do poema.

Logo, o poema parte:

 da memória intelectual;

 da memória afetiva;

 da analogia do humano com o animal;

 da catarse, marcada pelo sujo (vômito) e da oposição entre o turvo, o claro, do impreciso ao preciso;

 do mergulho ao interior individual para a revelação do coletivo e

 da imperiosa presença da cidade de São Luís, cujo “corpo” confunde-se mesmo com o corpo do poema.

“A cidade não está no homem do mesmo modo que suas quitandas preços e ruas”.

      O “Poema sujo” traz um estilo impuro, o dito sujo, cuja nódoa está imersa na vida. Para falar da lama, do pobre, da carniça, da miséria, etc.








































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































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