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segunda-feira, 28 de junho de 2010

A POÉTICA DE ARLINDA MORBECK

            BIOGRAFIA DA AUTORA
          
            Arlinda Pessoa Morbeck nasceu em Salvador – BA, em 1889. Viveu em Mato Grosso, de 1911 a 1940, para onde veio logo após se casar com José Morbeck. Em Mato Grosso, residiu em Cuiabá de 1911 a 1916. Em 1916, Arlinda Pessoa Morbeck transferiu-se para Registro do Araguaia, hoje Araguaiana. Em 1924, ela mudou-se para esse município, onde permaneceu até 1940.
Sua vida foi toda dedicada ao magistério, assim, Arlinda deixou-nos também uma extensa produção literária, sistematizada em dezoito volumes, entre poesia e crônicas. De toda a sua obra, o único livro publicado é uma coletânea denominada “Poesias”, editada artenalmente pelo historiado Valdon Varjão, após a morte da autora.
Em “Poesias” encontramos temas diversificados, como a família, a Pátria, temas alusivos a datas comemorativas, até textos-propaganda de jornais.
Entretanto, o que se sobressai na poética de Arlinda Morbeck é o caráter confessional da sua obra, que, assumindo, em algumas vezes, o estatuto de memória, e, em outras, o de diário, nos relata os dramas de uma alma feminina as voltas com problemas conjugais.

LITERATURA DE ARLINDA MORBECK

A concepção de literatura de Arlinda Morbeck passa antes por um processo de personalização do livro, visto como companheiro, como confidente. E é através de seus poemas-debafo que conhecemos a visão do sentimento amoroso que nos é passado na lírica de Arlinda Morbeck.
O amor é, pois o suporte temático da obra de Arlinda Morbeck, afirmando-se como enigma e obsessão. Zelos materiais ou filiais também transitam em seus textos, todavia com menos intensidade, pois a grande chama que impusiona a pena de Arlinda Morbeck é de fato o amor conjugal. Expondo as intempéries sde um coração aflito envolto em dramas amorosos, a autora denuncia a relatividade da vida e das relações humanas, destilando um sumo amargo que nos possibilita caracterizar muitos de seus poemas como existenciais.
A poesia de Arlinda Morbeck, soerguida nas emoções, retrata um eu lírico submerso na solidão, nas incertezas e na angústia. E é através do mapeamento destas sensações e sentimentos que o amor é exposto, sob enfoques diversos, como:

I – O amor-ilusão;
II – O amor venturoso;
III – O amor platônico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

MAGALHÃES, Hilda Dutra. História da literatura de Mato Grosso: século XX. Cuiabá: Unicen Publicações, 2001.

CONTINUA...












ANÁLISE DA OBRA "POEMA SUJO", DE FERREIRA GULLAR


O AUTOR

Em 1970, Ferreira Gullar é obrigado a deixar o Brasil, vivendo em várias cidades, foi em Buenos Aires, que o poeta escreveu em 1975 entre maio e outubro o “Poema Sujo” que foi muito bem acolhido pelos intelectuais.

Eram realizados encontros e foi na casa de Augusto Boal, em Buenos Aires, entre grupo de amigos, liderados por Vinícius de Moraes que conheceram e se apaixonaram pelo “Poema sujo”, assim Vinícius de Moraes leva o poema para o Rio de Janeiro escondido em fita-cassete, por razões de segurança.

Já no Brasil Vinícius promove sessões de audição privada para intelectuais e jornalistas, e o editor Ênio Silveira resolve publicá-lo no ano seguinte, sem a presença do poeta, ainda exilado. Esse poema abriu as portas para o seu retorno ao país, que foi em março de 1977.


OS CRÍTICOS

A crítica foi benevolente com o poema, segundo:

Vinícius de Moraes, esse “é o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas”;

Otto Maria Carpeaux considera-o um “poema nacional”, uma verdadeira “encarnação do exílio”, trazendo todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças de vida do homem brasileiro.

Clarice Lispector classifica-o de “escandalosamente belíssimo”.


A PROPÓSITO DO TÍTULO

Afirmou:

Luiz Carlos Junqueira Maciel:

Diz que Ferreira Gullar afirma que o título “... é porque eu pego o que tem de escuro, de sujo, as cadeiras velhas, os armários velhos, e coloco uma luz. Vou até embaixo, no fundo, e subo trazendo tudo junto: o que é poesia e o que não é poesia”.

Maria Zaira Turchi:

Ao questionar o título do “Poema sujo”, indaga se esse adjetivo teria a mesma conotação de pornográfico, imoral, contrário às normas tradicionais de boas maneiras. Ma o “Sujo” não se localiza nos palavrões, nas tiradas eróticas;

O sujo está na miséria, na fome, na obscena divisão de classes. O sujo está inserido no tempo da enunciação do texto: anos 70, ditadura militar, milagre econômico a enriquecer uma minoria, tortura e censura obscurecendo o país, o poeta exilado, em sua vida clandestina, prestes a ser preso ou fuzilado a qualquer momento;

O “Poema sujo” é um painel-memorial onde se acham acontecimentos tristvida até aquele momento.

É “Poema sujo”, por não seguir as regras poéticas de métrica, rima, palavras adequadas e vocabulário. Há gírias, palavrões e, até mesmo, obscenidades na linguagem. Ainda pode ser “Poema sujo” por ser de um autor perseguido na época, contrário ao regime do seu tempo de rapaz.


O ESTILO DA ÉPOCA

Gullar afirma que suas obras são fruto de reflexões sobre os acontecimentos, a vida e as pessoas, escrita com coerência. O “Poema sujo”, que é seu livro mais conhecido internacionalmente, já foi publicado na Alemanha, Espanha, Colômbia e EUA, é considerado a obra mais ousada de Ferreira Gullar.

Esta obra como diz o autor, é uma obra que traz uma reflexão vigorosa e penetrante sobre a infância e o resgate.

O poeta escreveu as cinco primeiras laudas em um só fôlego:

“Ao terminá-las, sabia de tudo: que o poema ia ter por volta de cem páginas, que teria vários movimentos como uma sinfonia e que se chamaria “Poema sujo”. Hoje, ao refletir sobre aqueles momentos, estou certo de que o poema me salvou: quando a vida parecia não ter sentido e todas as perspectivas estavam fechadas, invente, através dele, outro destino.”

Escreveu-a numa época de forte repressão política, Gullar sentia-se perseguido pela ânsia de relembrar o passado e a dificuldade de expressar, em linguagem poética, o universo interior, o que transparece logo nos primeiros versos, no nível formal do texto:

turvo turvo

a turva

mão do soprocontra o muro

escuro

menos menos

menos que escuro

menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro

mais que escuro:

claro

Como água? Como pluma? Claro mais que claro claro: coisa alguma

e tudo

(ou quase)

um bicho que o universo fabrica e vem sonhando (desde coisa alguma)

e tudo

(ou quase)

um bicho que o universo fabrica e vem sonhando...


Há, nessa passagem, o uso consciente de vogais e consoantes que sugerem um conflito entre o desejo pela expressão exata e a impossibilidade de transpor para o verso as impressões da vida real. Esse embate repercute na utilização das consoantes oclusivas [t] e [p], que reproduzem sons fortes e pesados, mostrando que o poema começa a se revelar, mas ainda se acha à mercê dos óbices de transformar em linguagem poética a experiência profunda, armazenada como sentimentos, emoções e recordações. Por outro lado, as vogais [o] e [u] também causam a sensação de fechamento e escuridão, sem mencionar que a palavra muro realça esse labor com a linguagem.

Logo em seguida aparecem outros estilísticos que demonstram a superação das primeiras barreiras. O jogo de antíteses (escuro x claro, menos x mais, mole x duro) reforça uma ambigüidade: ora a imagem emerge espontânea, ora se esconde no pensamento.

Claro claro

Mais que claro

Raro

O relâmpago clareia os continentes passados.

Em razão de uma originalidade sempre buscada, no” Poema sujo” ele se esmera (aprimora) na coragem despudorada de revelar explicitamente a sordidez e a impureza do cotidiano humano em passagem insólitas (incomum), embora amaparadas por uma consciência poética que torna esses rompantes expressivos alheios a um simples e pueril desejo de subverter ou chocar. Em alguns momentos, o poeta declara abertamente:

“Tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre [as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta] como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)...

O poema é estruturado em versos livres (em alguns momentos, há versos em redondilha maior – quadra de versos de sete sílabas, na qual rimava o primeiro com o quarto e o segundo com o terceiro, seguindo o esquema abba) explorando com liberdade o espaço gráfico, recorrendo, às vezes, a expedientes concretistas:

“nada

vale

nada

vale

quem

não

tem

nada

v

a

l

e

TCHIBUM!!!” (p.36)

O poema é um corpo constituído de quatro temas principais: infância/ família – corpo/prazer – tempo/tempos – cidade/vida. Nele há uma mistura de tristeza e alegria, esperança e angústia, caráter histórico e mistério existencial, corpo humano e espaço urbano. A forma poética é também híbrida (misturada), recorrendo a versos curtos e longos, versos livres e metrificados, linguagem clássica e linguagem chula, narrativas e fragmentos, léxico popular e erudito, anáforas, sinestesias, aliterações, assonâncias, onomatopeias.

Ao observar o movimento de versos e estrofes, as páginas e seus espaçamentos, pressente-se que existe de fato uma arquitetura nesse corpo poético. A paginação rigorosa obedece a um desenho que pode ser assemelhado às partituras, e o número de páginas do poema corresponde à média de páginas que possui a edição de uma sinfonia.

Há a influência do concretismo/neoconcretismo pode ser identificada em várias passagens da obra, em que o espaço em branco é ocupado graficamente pelo verso.


MONTAGEM DO POEMA

Embora o poema não apresente subtítulos, capítulos ou subdivisões, podemos apontar, através de espaços deixados entre as suas 103 páginas, 09 blocos distribuídos assimetricamente: enquanto o menor tem quatro páginas, o maior tem 26.

 PRIMEIRO BLOCO: da página 11 à 24

Na oposição entre o turvo e o claro, o poema nasce no nível da inconsciência, da pré-fala, buscando atingir a fala consciente.

O primeiro grande impacto do poema vem nos seguintes versos:

“azul

era o gato

azul

era o galo

azul

o cavalo

azul

teu cu”.

Como observa Turchi, a última palavra chula quebra o encantamento azul da infância e da fantasia, “e fecha como que o inconsciente para acordar o consciente na busca da realidade da vida”.


SEGUNDO BLOCO: da página 25 à 36

Neste segundo bloco começa evocando o rio Anil, sujo e miserável, com seus bagres e lama podre. Num tempo em que o menino não conhecia Homero, Dante nem Boccaccio; evoca a locomotiva que se parecia com um paquiderme (de pele espessa com um elefante), o poema abusa das onomatopéias (“tchi tchi/ trã trã trã trã”) e, compõe esses versos singelos e líricos:

“Lá vai o trem com o menino

lá vai a vida a rodar

lá vai ciranda e destino

cidade e noite a girar

lá vai o trem sem destino

pro dia novo encontrar

correndo vai pela terra”.

Até então, dá para perceber que o “Poema sujo” o autor relata a sua vida, a sua trajetória.


TERCEIRO BLOCO: da página 37 à 62

O poeta prossegue escavando a memória, remexendo na terra suja do quintal, evocando os mortos do passado e, simultaneamente, falando de seu presente.

De volta ao passado, o poeta voa sobre a miséria de São Luís, na fábrica de Camboa, onde os operários eram explorados (não deixa de ser uma crítica); referente ao amigo de infância (Esmagado) e às casas de palafitas. Nas lembranças do poeta, acionadas pela noite, há o contraste entre a burguesia e os operários.

Neste bloco “A noite” é uma imagem recorrente:

“(Maria do Carmo

que entregava os peitos enormes

pros soldados chuparem

na Avenida Silva Maria

sob os oitizeiros

e deixava que eles esporrassem

entre suas coxas quentes (sem meter)

mas voltava para casa

com ódio do pai

e mal-satisfeita da vida)”


QUARTO BLOCO: da página 63 à 69

Este bloco será pontuado com a história dos pássaros, reproduzindo as ocupações profissionais, os pássaros serão relacionados com as histórias humanas: o curió que cantava na barbearia puxa o caso da filha do barbeiro que fugiu com o filho do carteiro, provocando um comentário racista das vizinhanças:

“Se tivesse fugido

com um branco

ao menos ia poder casar”


As diferenças sociais são apontadas a partir da referência aos pássaros. Através dos pássaros, o poeta evoca outros dramas, como o de seu Neco, que matou a mulher que punha chifres.

O autor encerra esse bloco com referências míticas aos guerreiros (que conhecem a história dos pássaros) e ao vento que sopra nas árvores de São Luis, que irá soprar a memória do poeta no próximo bloco.


QINTO BLOCO: da página 70 à 77

O protagonista deste bloco é o pai do poeta, Newton Ferreira.


SEXTO BLOCO: da página 78 à87

Os versos giram em torno da cidade de São Luis, verde e úmida, com seus ventos sonoros. A memória do autor busca os capinzais e sinestésicas evocações sexuais:

“vertigem de vozes brancas ecos de leite

De cuspo morno no membro

O corpo que busca o corpo”.


A sujeira acompanha implacável cada lembrança:

“buscando

Em mim mesmo a fonte de uma alegria

Ainda que suja e secreta”.


Ainda neste bloco, o título do poema se aclara (esclarece) nesta confidência do sanluisense:

“Ah, minha cidade suja

de muita dor em voz baixa

de vergonha que a família abafa

em suas gavetas mais fundas
de vestidos desbotados

de camisas mal cerzidas

de tanta gente humilhada

comendo pouco

mas ainda assim abordando de flores

suas toalhas de mesa

suas toalhas de centro

de mesa com jarros”



SÉTIMO BLOCO: da página 88 à 91

A cozinheira Bizuza, no seu “universo de panelas e canseiras” é a personagem citada neste bloco, ao lado da cidade de São Luis. De novo vem à reflexão sobre tempo e espaço, de novo o poeta evoca os mortos, os habitantes que não existem, mas são ressuscitados pela força da memória.

OITAVO BLOCO: da página 92 à 98

Este bloco trata da reflexão a respeito das coisas do cotidiano, a crença no trabalho humano, a valorização das coisas, etc.

NONO BLOCO: da página 99 à 103

Neste bloco o poeta, antecipando o seu último livro publicado, busca relacionar as coisas umas com as outras, deixa o fragmento e atinge a totalidade; o poeta, ao falar da sua infância, da família e dos objetos, cria uma intensa e tensa rede de relações, que se prendem à história. Dando um balanço em sua vida e em sua obra, em seu livro memórias, Ferreira Gullar conclui: “A vida não é o que poderia ter sido e sim o que foi. Cada um de nós é a sua própria história real e imaginária”.

A força poética da obra gullariana reside, portanto, na qualidade das sugestões psicológicas, no emprego inusitado da palavra e na capacidade de, como o próprio autor afirma: “explodir a linguagem” em versos que marcaram, pela singularidade, os rumos da criação poética brasileira. Isso sem mencionar a dignidade e a sinceridade co que assume a dureza da existência humana e a transfigura em poemas que evocam não apenas o universo paradisíaco da infância, mas também inscrevem um novo sentido ético, que seguramente nos torna mais conscientes dos mistérios de existir num mundo que, como diz Gullar, “espanca e comove”.






sábado, 19 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO

José Saramago nasceu em 1922 na aldeia de Azinaga, província do Ribatejo. Seus pais, camponeses, mudaram-se para Lisboa quando ele tinha três anos. Ali, pôde fazer o curso industrial, aprendendo os ofícios de serralheiro, mecânico e desenhista técnico, profissões que exerceu até os 20 anos. Depois, tornou-se funcionário público e jornalista autodidata. Chegou a ser chefe de redação do Diário de Notícias, o mais importante jornal português. Por motivos ideológicos, foi demitido à época da “Revolução dos cravos” (1974). Este fato definiu sua opção exclusiva pela literatura.

Mesmo após o desmoronamento da utopia marxista, o temperamento forte, de convicções socialistas firmemente arraigadas, levou Saramago a afirmar: “Perdemos 72 anos. Agora será preciso começar tudo outra vez...

Inteligência ágil, de linha urbanidade, ironiza sobre sua condição de intelectual autodidata e de homem de esquerda: “Antes diziam de mim: é bom, mas é comunista; hoje dizem: é comunista, mas é bom.

É casado com Pilar Del Rio, uma jornalista espanhola que lera todos os seus livros e que resolveu vir a Lisboa para percorrer o itinerário de Ricardo Reis, descrito em “O ano da morte de Ricardo Reis, romance em que Saramago desfia a trajetória existencial imaginária deste heterônimo de Fernando Pessoa. Moram num pequeno apartamento do bairro de Estrela, próximo do centro de Lisboa.

Com sua prosa fluente, Saramago tornou-se o escritor português contemporâneo mais conhecido no mundo.O escritor, que costuma brindar seus leitores com generosas doses de esperança, confessa-se no fundo um cético:

“Talvez o fato de os homens serem tão imperfeitos não queira dizer que não tenha havido, e ainda existam, alguns exemplos de sublime bondade. Talvez mais que teoricamente justos, esteticamente sensíveis ou politicamente inteligentes, o que precisamos mesmo ser é ativamente bons.”

Em 1998 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2009, publicou seu último romance, "Caim". Saramago faleceu no dia 18 de junho de 2010, aos 87 anos, em sua residência, nas Ilhas Canárias. 

Obras publicadas

Poesias

- Os poemas possíveis, 1966

- Provavelmente alegria, 1970

- O ano de 1993, 1975

Crônicas

- Deste mundo e do outro, 1971

- A bagagem do viajante, 1973

- As opiniões que o DL teve, 1974

- Os apontamentos, 1976

Viagens

- Viagem a Portugal, 1981

Teatro

- A noite, 1979

- Que farei com este livro?, 1980

- A segunda vida de Francisco de Assis, 1987

- In Nomine Dei, 1993

- Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005

Contos

- Objecto quase, 1978

- Poética dos cinco sentidos - O ouvido, 1979

- O conto da ilha desconhecida, 1997

Romance

- Terra do pecado, 1947

- Manual de pintura e caligrafia, 1977

- Levantado do chão, 1980

- Memorial do convento, 1982

- O ano da morte de Ricardo Reis, 1984

- A jangada de pedra, 1986

- História do cerco de Lisboa, 1989

- O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991

- Ensaio sobre a cegueira, 1995

- A bagagem do viajante, 1996

- Cadernos de Lanzarote, 1997

- Todos os nomes, 1997

- A caverna, 2001

- O homem duplicado, 2002

- Ensaio sobre a lucidez, 2004

- As intermitências da morte, 2005

- As pequenas memórias, 2006

- A Viagem do Elefante, 2008

- O Caderno, 2009

- Caim, 2009

* Com agências internacionais

Perdemos um grande Mestre da literatura. Mas, ele estará sempre vivo em nossas mentes!!!






















quarta-feira, 16 de junho de 2010

FERREIRA GULLAR: o pai da poesia social

     Animated avatar. Movement A GERAÇÃO DE 60 NA POESIA – FERREIRA GULLAR


Ferreira Gullar é filho de Newton e Alzira Goulart, nascido em São Luís do Maranhão, em 1930, é um poeta que vivenciou as experiências mais radicais do chamado neomodernismo. Percorreu seus caminhos e contribuiu essencialmente para a nossa literatura brasileira, tanto com sua produção, quanto na polêmica teórica que estimulou a produção poética na época.

      Seu lirismo PE demolidor e crítico, é profundo, construído na vertigem dos dias. Trilha um caminho pessoal e íntimo, mas percorreu algumas fases significativas de nossa poesia dos anos de 1950 e 60, pois, ao conseguir publicar o livro “A lua corporal”, em 1994, após muita resistência por parte da gráfica de “O cruzeiro”, porque estranharam seu projeto visual ousado, desperta o interesse de muita gente, a começar pelos paulistas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que lhe escreveram uma carta dizendo que iriam conhecê-lo. É a partir daí que o Concretismo começa a ser gerado, um importante movimento de vanguarda.

      “A luta Corporal” reúne composições de múltiplas tonalidades, surgia como o primeiro documento de uma experiência pessoal e isolada de sentido “concretizante”, que abriu caminho para a afirmação da poesia Concreta no Brasil. Sem dúvida, é um dos seus livros mais difíceis, o qual Gullar procura dissolver a frase, quebrar o discurso, as próprias palavras, com o propósito de criar, objetivamente, novas relações entre os elementos sintéticos, ou mesmo de “romper” com a própria sintaxe.

     Gullar é a maior unanimidade poética, entre os poetas vivos do Brasil. Apesar de ter sido um dos fundadores do Concretismo, abandonou-o em seguida, para fundador o Neoconcretismo, sendo este uma vertente do Modernismo. Sendo assim, em 1959 publica o “Manifesto Neocroncreto no jornal do Brasil” do Rio de Janeiro, assinado ainda por vários artistas plásticos – entre elesd, Lygia Pape (1927-2004), Franz Weissman (1911-2005), Lygia Clark (1920-1988), Amilcar de Castro (1920-2002) e Reynaldo Jardim (1926), transformando em abertura do catálogo da 1° Exposição de arte Neoconcreta.

    Esse poeta que faz do espanto o fundamento da poesia e que e que escreveu um dos mais intensos poemas da língua (“Poema Sujo”), busca as palavras que a própria vida engendra, aquelas que nascem ao rés-do-chão e do corpo, com as misérias do povo, chulas, e um tipo de escrita que desafia as normas convencionais do que é poético. Ele desfigura, justamente, as classificações preconcebidas do que é e do que não é poético, pois sabe que a poesia está em tudo, desde que consigamos percebê-la, elaborando o material propício a sua manifestação. A essas palavras contaminadas de vida e impregnadas de experiências, o poeta une uma delicadeza observadora toda própria. Sendo assim, substitui o verso por novas estruturas, baseadas na associação formal dos vocábulos e em sua disposição espacial na página, em alinhamentos geométrico, no lugar da sintaxe convencional.

      No início da década de 60, Ferreira Gullar dá uma virada brusca e passa a realizar uma poesia engajada socialmente. Década de 60, anos significativos na história do Brasil, o poeta atende o chamado do momento político e transforma sua poesia em arma de luta e resistência. Essa discordância com o radicalismo do movimento concretista e de seus desdobramentos fez surgir assim, em paralelo a esse movimento, a chamada “poesia social”, cuja temática centra-se na denúncia dos problemas, das desigualdades sociais do país – suscitada em especial pela ditadura militar – bem como os aspectos que abalavam o mundo, como a Guerra do Vietnã.

      Os autores dessa tendência reabilitaram o verso e o lirismo, utilizaram referências e linguagem mais próxima do cotidiano, fazendo da poesia um instrumento de participação social e política. Dentre outros poetas dessa vertente literária, destacam-se além do Ferreira Gullar, Thiago de Mello, e Afonso Romano de Sant’ Anna.

      O poeta Gullar, na sua incessante busca da poesia, vai encontrá-la na denúncia do cotidiano sofrido das pessoas, da ausência de liberdade, na clara participação política com a firme convicção de que sua palavra poética pode auxiliar na mudança da sociedade.

      Nessa perspectiva, aproxima-se do Centro Popular de Cultura (CPC) e da União Nacional dos Estudantes (UNE), pois tem várias ideias sobre os rumos de sua poesia. Está repensando sua linguagem e passa a adequá-la a um discurso claro, límpido, que seja facilmente comunicável ao nível da compreensão popular, direto; que deve travar o combate ideológico para a derrota do discurso das classes dominantes, combate que se trava paralelamente ao outro, o político, propriamente dito.

      Gullar compõe os romances de cordel, formas rudimentares dos cantadores de feira, que haviam fascinado na sua infância nordestina, são verdadeiras cartilhas para a educação e propaganda política: “João Boa Morte, um cabra marcado para morrer; “Quem matou Aparecida”; “Peleja de Zé Molesta com Tio Sam” e “História de um valente”, todos publicados em 1962 pelo CPC, Gullar se destacaria ainda, principalmente por seus artigos a respeito da cultura brasileira e pela intensiva participação no movimento de cultura popular, experiências e debates reunidos em dois livros importantes, “Cultura Posta em Questão” (1965) e “Vanguardas Subdesenvolvimento (1969)

      Após abandonar os movimentos de vanguardas e assumir uma nova atitude literária engajada política e socialmente, Ferreira Gullar juntamente com Oduvaldo Vianna Filho, Dias Gomes, Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura e outros intelectuais que usavam o teatro e a poesia para politizar e conscientizar as pessoas do que estava acontecendo no país, escreve as seguintes peças: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966); “A Saída?”” Onde Fica a Saída?”(1967); “Dr. Getúlio, sua vida e sua glória (1968) e “Um Rubi no Umbigo.

     Gif animator. Rotation Com o Golpe Militar de 1964, Ferreira Gullar é levado ao recolhimento de seu fazer poético, e em 1969 foi preso no Rio de Janeiro, com o jornalista Paulo Francis e os compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil. Livre da prisão, auto-exilou-se em Paris, no Chile, Peru e na Argentina. Foi durante o período do exílio (1971-1976) que o poeta escreveu dois de seus mais conhecidos livros: “Dentro da Noite Veloz” e “Poema Sujo”.

      No extenso poema, “Poema Sujo” escrito na Argentina, em 1975, durante cinco meses, seu livro mais conhecido internacionalmente, revê toda sua vida e as suas experiências através de uma linguagem forte, inovadora e expressiva do difícil momento do país. Nesse poema, Gullar, dedicou-se quase que integralmente: “Fazia minha comida, tomava as providências exigidas pelo dia-a-dia, e voltava a ele, senão para escrevê-lo, às vezes para relê-lo e mergulhar de novo em seu universo em formação. Não havia palavra, coisa, fato que não coubesse nele”.

      O poema nasceu durante o período em que passou no exílio, na época do regime militar, a obra reflete um momento de grande angústia na vida do poeta: “eu estava ameaçado de ser morto, via meus serem mortos. Escrevi aquele livro como se fosse a última coisa da minha vida”. Sobre o título do livro, diz Gullar: “É sujo porque não tem estilo definido, porque o período em que foi escrito representa uma época suja da história e porque fala de sexo que para muitas pessoas é sujo, obsceno”.

      O poema chega ao Brasil sem a presença de Gullar, trazido por Vinícius de Moraes, e começa a ser ouvido em sessões fechadas. No ano seguinte Ênio Silveira consegue publicar “Poema Sujo” pela Civilização Brasileira. Com a ausência do autor, o lançamento no Rio de Janeiro se torna um ato pela volta de Gullar, reunindo artistas e intelectuais. O poeta acaba retornando em 10 de março de 1977, mas é preso, novamente, no dia seguinte, sendo submetido a vários interrogatórios e ouvindo ameaças à sua família. Graças à intervenção de amigos, é libertado e recomeça a trabalhar, publicando inclusive uma “Antologia Poética”.

      Depois de 12 anos publica um livro de poemas, “Muitas Vozes”, que lhe rende o prêmio Jabuti de poesia. Recebe em 200 o prêmio Multicultural Estadão, de “O Estado de São Paulo”, por todo o seu trabalho, e lança o livro infantil de poemas “Um gato chamado gatinho”. Chega a 2001 tido como o maior brasileiro vivo e é tema no MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio da exposição “Ferreira Gullar 70 anos”.

      Aos 80 anos de idade, Ferreira Gullar publicou mais de 25 livros, entre poesias, contos, crônicas, memórias, ensaios e peças de teatro, em comparação com outros poetas, sua produção é pequena. Mas Gullar não se aflige: “prefiro dez poemas num só, que escrevê-lo por ejaculação precoce”. Para televisão, Gullar escreveu vários textos entre os quais “A Noiva de Copacabana” e “Carga pesada”, minisséries produzidas pela TV Globo. A cada livro publicado, aprofundado na sua vida poética, numa crítica constante ao internacionalismo temático, ao universalismo à poesia em relação à realidade humana, social e política do mundo subdesenvolvido, continua na sua trajetória, sendo também uma das inteligências mais lúcidas a refletir sobre os rumos das artes e da literatura no Brasil. Além de poeta, como já dissemos, o autor se destaca como ensaísta, crítico de arte e dramaturgo, tendo inúmeras peças encenadas. Sendo assim, Gullar é, sem dúvida, um dos grandes mestres da poesia brasileira.


"POEMA SUJO"

    O particular e o público “um movimento que vai do corpo à consciência, e da consciência para o corpo”, como afirmou o crítico Luiz Villaça. Explicitando o título do poema, Villaça observa que o sujo é provocado pelas águas revolvidas, pelo estilo ambíguo entre liberdade e o rigor, pelo passo crítico da poesia moderna e pelo fato de o poeta “participar de uma história não oficial, secreta, que soma a consciência abafada e o corpo prisioneiro das vontades caladas”.


  O poema é estruturado em versos livres (em alguns momentos, há versos em redondilha maior), explorando com liberdade o espaço gráfico, recorrendo, às vezes, a expedientes concretistas:

“nada
vale
nada
vale
quem
não
tem
nada
no
v
a
l
e

TCHIBUM!!!” (p. 36)

      Embora o poema não apresente subtítulos, capítulos ou subdivisões, podemos apontar, através de espaços deixados entre as suas 93 páginas, 9 blocos distribuídos assimetricamente: enquanto o menor tem quatro páginas, o maior tem 26. Mais adiante, levantaremos os aspectos marcantes desses blocos. Por ora, numa abordagem geral, salientaremos os seguintes aspectos:

       Ainda que o texto tenha nascido de um jato, não se trata de uma obra largada às expensas do inconsciente, numa linguagem automática tipicamente surrealista: há um rigor na construção.

       O poeta busca evidenciar, ao longo do texto, a situação relacional das coisas no mundo; tudo pertence à história: bichos, coisas, pessoas, frutas, somam-se ao viver denso da voz poética.

       Os temas recorrentes do poema são: o exílio, a casa paterna, a cidade de São Luís, a intensa relação entre tempo-espaço, a velocidade e o apodrecimento, a identidade física singular e coletiva, a miséria, a lama.

      Assim como há mistura de tristeza e alegria, esperança e angústia, caráter histórico e mistério existencial, corpo humano e espaço urbano, a forma poética é também híbrida, recorrendo a versos curtos e longos, versos livres e metrificados, linguagem clássica e linguagem chula, narrativas e fragmentos, léxico popular e erudito, registros ternos e ásperos, enumerações e repetições, versos alheios e versos próprios – de outros livros, anáforas, sinestesias, aliterações, assonâncias, onomatopéias.

       O título do poema apresenta, de certa forma, um caráter paradoxal entre o limpo (a poesia, fruto de depuração lírica) e a sujeira; tal paradoxo será espelhado e espalhado ao longo do texto. Paulo Mendes Campos, em uma crônica no “Jornal do Brasil” (14-08-76), alerta:

Mas que o título desse livro não nos engane: o que há nele, página por página, é o constante contraponto do indesculpavelmente sujo com o irresistivelmente limpo (...) É um poema das coisas, uma lição enigmática das coisas. As cores e os odores da cidade. O dia, o ano, as estações. Os esgotos podres e os ventos soprando verdes nas palmeiras. Os pássaros, o anedotário urbano, o cromo familiar. (...) Mas, apesar da multiplicidade de objetos e de experiências, ele consegue costurar todo o comprido poema, sem faltar à unidade, sem mesmo lançar mão de subtítulo. É um prodígio.

MONTAGEM DO POEMA

      Folheando o livro, o leitor tem a impressão de que as letras, esparramadas pelas páginas, são como formigas enfurecidas e atarantadas. Em entrevista à revista “Veja”, pouco antes de sua volta do exílio, Gullar depõe, ao explicar a origem do poema:

Parti da estrutura de um poema que fiz sobre o formigueiro, no início do movimento concretista. Há uma lenda em minha terra que diz que onde tem formiga tem dinheiro enterrado. Na minha casa tinha muita formiga, era aquele tipo de casa antiga, muito úmida ... e, quando chovia , no pé da parede surgia aquele monte de formigas pretas, verdadeiros exércitos, um negócio que me impressionava muito. Então eu quis fazer um poema que estivesse ligado a essa lembrança da minha infância e fiz esse poema sobre o formigueiro. De outra vez, uma noite aqui em Buenos Aires, me veio a lembrança de São Luís, minha casa, meus irmãos, o quintal e as formigas saindo da parede, e me lembrei do poema das formigas. Aí eu disse: ‘Puxa, eu poderia fazer um poema em que vomitasse tudo que tenho dentro de mim logo na primeira página e a partir dessa matéria bruta fosse desfiando todo o poema’. (...) e comecei a escrever o princípio do poema: ‘turvo,turvo, a turva mão do sopro contra o muro...’ que era a tentativa de ir mais longe que minha memória podia alcançar, ali onde ainda não existe nada, é tudo impreciso, ‘escuro, mais que escuro, claro...’ E aí começa ‘um bicho sonhando...’, eu entro dentro de mim mesmo e disparo o poema.
Pelo depoimento, vê-se que o poema parte:

a) Da memória intelectual;
b) Da memória afetiva;
c) Da analogia do humano com o animal;
d) Da catarse marcada pelo sujo (vômito);
e) Da oposição entre o turvo e o claro, do impreciso;
f) Do mergulho ao interior individual para a revelação do coletivo e
g) Da imperiosa presença da cidade de São Luís, cujo “corpo” confunde-se mesmo com o corpo do poema. A esse propósito, José Guilherme Merquior observa:

Uma das originalidades do Poema sujo consiste precisamente na conjunção dessa fixação carnal com a insistência em cantar o corpo da cidade: da bela, pobre e úmida São Luís, berço de Gullar. O realismo criatural de Gullar, seu apego à dolorosa finitude das pessoas e coisas, emprestam a vários momentos de seu poema um tom único de abrupta humanidade.

“E são coisas vivas as palavras
e vibram da alegria do corpo que as gritou
têm mesmo o seu perfume, o gosto
da carne
que nunca se entrega realmente
nem na cama”


      Ao evocar as festas de aniversários em sua pequena cidade latino-americana, o poeta não se vale dos apelos sentimentais românticos, mas usa a reflexão:

“era como se nenhum afeto valesse
Como se não tivesse sentido rir
numa cidade pequena”

      A parte final do poema, que demorou um certo tempo para ser elaborada, inicia-se com uma estrofe que retoma, de certo modo, o processo poético de “O cão sem plumas”, de João Cabral:

“O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade”
      Entenda-se que o poeta, no exílio, traz a cidade dentro de si, “como a árvore voa/ no pássaro que a deixa”. O caráter racional comanda esses versos finais, que refletem sobre a inserção de uma coisa em outra:

“cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas, praças e ruas”

     
      Assim se encerra o longo poema, que, ao buscar relacionar as coisas umas com as outras, deixa o fragmento e atinge a totalidade; o poeta, ao falar da sua infância, da família, da cidade e dos objetos, cria uma intensa e tensa rede de relações, que se prendem à história. Se uma coisa está, dialeticamente em outra, não se pode simplesmente escrachar o sujo, pois ele está no limpo, como o esquecimento está na memória e o pessoal está no universal. Para falar da lama, do pobre, da carniça, da miséria, da sujeira e da sexualidade ressentida, o poeta vale-se do estilo impuro, o dito sujo, cuja nódoa está imersa na vida. Dando um balanço em sua vida e em sua obra, em seu livro de memórias, Ferreira Gullar conclui: “A vida não é o que poderia ter sido e sim o que foi. Cada um de nós é a sua própria história real e imaginária”.

    O texto de Ferreira Gullar, intitulado “poema sujo”, foi publicado em 1975, e nesse poema, encontramos o autor mais maduro.

      Para Vellaça, o título do poema, “Poema Sujo” é provocado pelas águas revolvidas pelo estilo ambíguo entre liberdade e o rigor, pelo passo crítico da poesia moderna e pelo fato de o poeta “participar de uma história não oficial, secreta, que soma a consciência abafada e o corpo prisioneiro das vontades caladas”.

      O título do poema apresenta, de certa forma, um caráter paradoxal entre o limpo (a poesia fruto da depuração lírica) e a sujeira está ao longo do poema. Dessa forma, o título está em todo o texto.

      O “Poema Sujo” é fundamentado em sua própria vivência. Os temas são: o exílio, a casa paterna, a cidade de São Luís, a intensa relação entre tempo, a velocidade e o apodrecimento, a identidade física singular e coletiva, a miséria, a lama.

      Quanto ao singular e coletivo, isso quer dizer que está ligada a ambiguidade social, que envolve os dois lados - individualidade e enquanto parte da coletividade. Já, a lama, é a lama real, concreta, não é metáfora.

      Assim, como há mistura de tristeza e alegria, esperança e angústia, caráter histórico e mistério existencial, corpo humano e espaço urbano, a forma poética é também hidrida, recorrendo a versos curtos e longos, versos livres e metrificados, linguagem clássica e linguagem chula, narrativas e fragmentos, léxico popular e erudito, registros ternos e ásperos, enumeração e repetições, versos próprios de outros livros, anáforas, sinestesias, aliterações, assonâncias, onomatopeias.

      O escritor possui a consciência literária, fazendo poesia com a consciência de fazer, cada um deles têm a sua poética, tem uma poética própria. Ele explora as dimensões sociais do homem – escritor engajado e partícipe.

      O autor dá ao poema a linguagem necessária para a construção deste. Ele Busca e seleciona as palavras, todo o texto foi organizado antes mesmo de escrever. Essa liberdade e rigor podem estar ligados a questão político-social. A liberdade que ele não tinha em seu próprio país e que foi buscar no exílio.

      Observa-se essa liberdade na linguagem empregada em sua poesia, isto é, palavras de baixo calão, que o Modernismo pregou desde a semana de arte moderna. Mas, ao mesmo tempo, notamos o rigor, este do próprio texto literário; escolheu fazer isso em forma de poema, pois o texto poético tem suas características que limitam.

     O poema vai ondulando, pois, assim mais é suave. A linguagem e a estrutura do poema permitem esse movimento de vai e volta, porque trata-se de lembranças; a memória dele vai e volta da consciência social, crítica, sem considerar os aspectos concretos da vida.

      Ele vai revolver as águas de sua própria vida, experiências. A vida como o curso de um rio, busca na memória, relações familiares, etc. Dessa maneira, ele quer trazer uma situação crítica daquele contexto (americanos), buscando fatos ligados a própria vida.

      Nota-se também a verossimilhança (Eu vi...) é como se fosse um testemunho, ele viveu isso, estando por perto, participando. Ferreira Gullar é o pai da poesia social, o mais engajado, não quer fazer acusação, mas a reflexão social; fica entre essas duas situações.


MOMENTOS NA EVOLUÇÃO POÉTICA DE GULLAR

LIRISMO SOLITÁRIO

 Experiências com a palavra, com o verso, com a própria poesia e a linguagem (experiências da vanguarda concretista.

LIRISMO SOLIDÁRIO

 Poesia de cunho político-social; consciência social, linguagem reveladora, não mais uma linguagem lírica.

A SÍNTESE DA MEMÓRIA

 A reconstrução (poética) de sua vida através de uma reflexão crítica do passado, presente, pois pela memória ele vai refletir as questões sociais, buscando os motivos, reflexão crítica do passado, mas em relação ao presente, como é sabido, Ferreira Gullar escreve esse poema quando estava exilado. Assim, na condição de brasileiro exilado de sua pátria, todos os fatos têm grande importância para ele, até as pequenas coisas, para tornar-se um ser social, político, reflexão crítica do passado, mas considerando o presente que vive. Portanto, não é o saudosismo que a literatura sempre cultivou.

 Folhando o livro, o leitor tem a impressão de que as letras, esparramadas pelas páginas, são como formigas enfurecidas.

 Eu entro dentro de mim e disparo o poema (memória), porém as lembranças não são claras e sim, turvas, o poema é a vida dele, o conteúdo primeiro são as lembranças, recordações, é também o ideológico, conteúdo mais profundo do poema.

Logo, o poema parte:

 da memória intelectual;

 da memória afetiva;

 da analogia do humano com o animal;

 da catarse, marcada pelo sujo (vômito) e da oposição entre o turvo, o claro, do impreciso ao preciso;

 do mergulho ao interior individual para a revelação do coletivo e

 da imperiosa presença da cidade de São Luís, cujo “corpo” confunde-se mesmo com o corpo do poema.

“A cidade não está no homem do mesmo modo que suas quitandas preços e ruas”.

      O “Poema sujo” traz um estilo impuro, o dito sujo, cuja nódoa está imersa na vida. Para falar da lama, do pobre, da carniça, da miséria, etc.











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