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sábado, 27 de fevereiro de 2010

COMEMORAÇÕES DOS 80 ANOS DE FERREIRA GULLAR!!!









Revista BRAVO!
Março/2009



O Maior Poeta do Brasil
Reedição da obra e novos lançamentos preparam as comemorações dos 80 anos de Ferreira Gullar, um autor que atravessou todos os momentos da poesia brasileira e assegurou seu lugar entre os grandes do século 20

Por Almir de Freitas

• Leia também entrevista com o autor feita por Armando Antenore

Sobre Ferreira Gullar, ninguém menos que Vinicius de Moraes escreveu, em 1976, que se tratava do "último grande poeta brasileiro". Na época, o maranhense estava exilado em Buenos Aires, depois de cumprir um longo périplo — Moscou, Santiago, Lima — fugindo da mão pesada da ditadura militar. Ali, um ano antes, espremido entre os golpes no Chile e na Argentina, temendo "desaparecer" em meio à proliferação de ditaduras latino-americanas, Gullar tinha escrito a sua obra-prima, Poema Sujo (1975). Poema-limite, vertiginoso na evocação da São Luís da infância do poeta, das histórias, personagens e sensações prestes a mergulhar no esquecimento da morte, Poema Sujo levaria o nome de Ferreira Gullar, de fato, ao panteão mítico dos grandes nomes da poesia brasileira, ao lado de Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e — à parte a modéstia do próprio — Vinicius de Moraes.

Se ele não era exatamente o "último" naquela época, hoje não são poucos os que o consideram o maior poeta vivo do Brasil — e não apenas pelo impacto de Poema Sujo. Nascido José Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930, o também dramaturgo, ficcionista e crítico se aproxima das comemorações de seus 80 anos de idade não como mero sobrevivente de uma era que passou. Ferreira Gullar é, antes, um intelectual e um escritor a quem não falta o gosto pelo estudo, pelo debate e, sobretudo, pela poesia. Só neste ano, a editora José Olympio prepara a edição de dois volumes: uma reunião dos poemas de cordel escritos pelo autor nos anos 70, ilustrados pelo artista paraibano Ciro Fernandes; e Em Alguma Parte Alguma, seu novo livro de poemas, o primeiro desde Muitas Vozes (1999). Além disso, a Nova Aguilar acaba de lançar Ferreira Gullar — Poesia Completa, Teatro e Prosa, um volume de mais de mil páginas que traz, além da obra poética completa acompanhada de farta bibliografia, a reunião de textos antes esparsos, duas peças de teatro e um ensaio inéditos.

São 60 anos de carreira, período em que ele atravessou, ativamente, todos os episódios decisivos da moderna poesia brasileira. Da mesma maneira que sua obra se localizou em algum ponto entre dois extremos — o lirismo e a sordidez, o local e o universal, a multidão de vozes e a solidão —, sua trajetória revela um poeta que oscilou entre a ousadia aberta e a prevenção contra os formalismos ocos. Parafraseando Caetano Veloso, pode-se dizer que Ferreira Gullar "entrou em todas as estruturas e saiu de todas", num movimento contínuo de experimentação de sintaxes em busca do aperfeiçoamento da própria voz — uma busca pelo novo em que ele nunca perdeu de vista suas origens.

Foi assim desde quando, ainda no Maranhão e incrivelmente atrasado em relação aos modernistas, Ferreira Gullar estreou na literatura, em 1949, com as redondilhas, decassílabos e alexandrinos de Um Pouco Acima do Chão, livro de lustroso sotaque parnasiano. "Talvez eu nasça amanhã", diz o último verso do último poema desse livro que ele, mais tarde, renegaria. Como se cumprisse uma profecia, o poeta, já vivendo no Rio de Janeiro, abandonou a régua e a rima no livro A Luta Corporal (1954). E o fez com autoridade e desassombro: na concepção de uma poesia visual, formada por estilhaços de palavras que exploravam novas possibilidades sonoras, Gullar não apenas superava certo prosaísmo que rondava a poesia do modernismo da época, como também antecipava os procedimentos do concretismo. Poeta visceral, ele, contudo, desembarcou do movimento atirando contra a racionalização "matemática" promovida pelo grupo paulista — Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos à frente. O racha provocou uma das cizânias mais persistentes e ferozes da literatura brasileira, até hoje responsável por uma resistência a Gullar em certos círculos de São Paulo.

O ciclo, porém, estava estabelecido. Inovador mas avesso ao dogma, Gullar deu prosseguimento, na prática, à profunda reflexão sobre o papel da poesia. Em 1959, lançou as bases do movimento neoconcreto, a partir do qual construiu o corpo principal de sua (polêmica) abordagem das artes plásticas. Já nos anos 60, ingressou no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes, iniciando uma fase "popular" e engajada politicamente, cujas ramificações se estenderam ao teatro. Mas, se as frias ortodoxias estéticas não serviam a Gullar, o mesmo se aplicaria às normatizações de uma arte concebida como assessório da revolução social.

Na soma dessas idas e vindas, forjou a poesia que conquistaria Vinicius de Moraes. Naquele ano de 1976, foi Vinicius quem trouxe ao Brasil a fita cassete gravada pelo próprio Ferreira Gullar com Poema Sujo, promovendo "sessões" no Rio de Janeiro para exibir a todos a poesia "orgânica, crua, fecunda, emocionante" daquele intelectual maranhense que, no exílio, procurava traduzir a totalidade de sua própria existência.

O curioso é que a crueza de Poema Sujo — e também de Dentro da Noite Veloz (1975) — teve a capacidade tanto de elevar Ferreira Gullar àquele panteão mítico de poetas quanto de aproximá-lo (por conta das circunstâncias, inclusive) da "poética deliberadamente impura da poesia marginal", na expressão do crítico José Guilherme Merquior. Nesse momento, Ferreira Gullar, que voltaria ao Brasil em 1977, ainda trafegava naquele território entre os extremos. Viveu os movimentos do seu tempo, apontou caminhos, experimentou. Mas sempre, ontem como hoje, desempenhando o papel de tradutor de sua própria história, a de um homem que — como todos — está num ponto difuso entre a infância e a morte.

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/maior-poeta-brasil-424627.shtml

Bate-papo com Ferreira Gullar

LITERATURA

Já perceberam que existem pessoas que são como patrimônios públicos? Não no sentido burocrático, da posse, de coisa velha à exposição cheirando poeira e esquecida em algum “canto da sala”. Não. São patrimônios públicos porque desenvolveram seu trabalho e vida de tal maneira que transferem naturalmente esse conjunto de bens a outras pessoas, mesmo que estas sequer saibam quem são esses “benfeitores”.

Ferreira Gullar é patrimônio público brasileiro, que deve ser apreciado e preservado em nossa herança cultural. Faz parte de nós, naturalmente, assim como Vinicius, Clarice, Drummond, Bandeira… Podemos nunca ter estudado profundamente sua obra, mas, não é incomum flutuar fragmentos de versos de seus poemas em nossas mentes. Na minha, passeia trechos do “Poema Sujo”, escrito em 1975, considerado sua obra-prima.

Próximo de nossas mentes, próximo da tecnologia. Ontem, por exemplo, participou de um bate-papo na internet, no portal UOL, com convidados. Em 2010, o poeta completa 80 anos e uma série de lançamentos e eventos já preparam a comemoração. A editora Nova Agillar, por exemplo, lançou recentemente “Ferreira Gullar — Poesia Completa, Teatro e Prosa”, um volume de mais de mil páginas com a obra poética completa acompanhada de bibliografia, textos esparsos, duas peças de teatro e um ensaio inéditos.

A conversa na tarde de ontem foi algo como “um Gullar para chamar de seu”. Sim, ele respondeu as perguntas dos participantes e de antemão fez uma ressalva: “Vocês estão cismados com esses supostos oitenta anos. Isso é coisa de calendário. A vida recomeça todos os dias, do zero. Se você não quer fazer mais nada, a vida acaba, porque ela, na verdade, é inventada por nós, todos os dias”.

E, para ele, a poesia começou aos treze anos, “com versos ruins, claro”! Hoje, as motivações para a escrita são outras. “Quando comecei a escrever era um garoto e, portanto, não tinha ainda experiência de vida e conhecimento literário para escrever bons poemas. Isso veio com a leitura dos grandes poetas, a entrega à poesia e a exigência de escrever bem. Ainda acho que o melhor caminho é ler os grandes poetas, porque eles ajudam você a descobrir o que é a poesia, coisa que não pode ser definida com palavras. É uma espécie de revelação, de descoberta, de espanto”.

Se a escrita e o poema nascem do espanto, Gullar ressaltou que é importante não descartar outros conhecimentos, como o científico e o filosófico, que ajudam a compreender a realidade material e espiritual. “Isso é necessário porque ninguém poderia viver permanentemente no espanto, diante do inexplicável. Mas, como a realidade excede o conhecimento que temos dela, sempre, de repente, o inexplicável das coisas se mostra a nós e nos espanta. Qualquer coisa pode nos espantar: um cheiro de tangerina, umas bananas podres num prato. O poeta é aquele está sempre aberto para o inexplicável, que se deixa levar pelo inesperado. Quem não se deixa levar, não escreve poemas”. Apesar de reconhecer estes outros conhecimentos, lembra que não tem “espírito acadêmico”, motivo pelo qual nunca aceitou os convites para candidatar-se à Academia Brasileira de Letras (ABL).

Se por um lado a falta de “espírito acadêmico” não o seduz a integrar a ABL, já a recusa para assumir algum órgão público no setor cultural tem outro motivo: decepção. “A última vez que aceitei um cargo público tive uma decepção: tudo o que fizera, com sacrifício e empenho, foi destruído por meu sucessor, assim que ele assumiu. No Brasil, existe essa visão primária de que o que conta não é o interesse público mas a vaidade do sujeito que assume a direção de um órgão qualquer. Depois dessa, prometi a mim que não caio noutra”.

Em sua visão, a poesia brasileira está cheia de bons poetas escrevendo, criando. Poetas que já são maduros, com ampla experiência e obra considerável e poetas jovens, que começam a sua caminhada. “Há bons poetas espalhados pelo Brasil inteiro. Mas há também poetas que, a meu ver, tomaram um rumo mais complicado, que fazem uma poesia demasiado hermética. Isso limita o número de pessoas que poderiam usufruir de sua poesia, de sua criatividade”.

Já o ato de escrever poesia, defende, é algo natural. Poetas nascem poetas. “Como disse Noel Rosa, samba não se aprende no colégio. Os poetas nascem poetas, como os jogadores de futebol nascem jogadores de futebol. O trabalho, o domínio das técnicas, é fundamental para que o talento se realize, mas, se ele não existe, a técnica não vale muito”.

Tendo parte de sua poesia considerada de cunho político, que coincidiu com o período da ditadura especialmente quando foi exilado, o poeta lembra que essa naturalidade ao escrever deve ser a mesma em relação aos temas abordados. “Há momentos em que a poesia se engaja na luta política e há momento em que isso não acontece. Além do mais, isso é sempre uma opção do poeta. Ninguém está obrigado a fazer poesia engajada”, reflete.

Questionado sobre as opiniões recentes a respeito de uma possível não existência da ditadura no País, ele dispara: “se alguém disse isso, só pode ser de gozação ou cinismo. Todo mundo sabe que houve aqui uma ditadura que durou duas décadas, perseguiu seus oponentes políticos, prendeu, torturou e assassinou muita gente. Não me revolto, mas tampouco dou crédito a esse tipo de bobagem”.

Se as obras refletem as fases e faces da vida de poeta, Ferreira Gullar disse que isso é pouco relevante. “O que importa mesmo é o poema, a obra literária, que é capaz de tocar as pessoas, iluminá-las, fazê-las gostar mais da vida. O homem inventou a poesia porque a vida não basta”.

Sem dúvida a poesia de Ferreira Gullar basta. E como basta!



* O crédito da ilustração é de Diogo Dauriol

O escritor, poeta, crítico de arte, colunista e teatrólogo Ferreira Gullar esteve em Macaé para uma noite com palestra, debates e… autógrafos. Ele abordou a sua experiência poética ao longo de toda carreira como também nas suas vivências políticas em fatos importantes do país, na literatura e no jornalismo. Gullar gentilmente concedeu esta entrevista por e-mail, nos presenteando com seus testemunhos e opiniões sobre alguns assuntos e contribuindo para um conteúdo especial em comemoração aos 2 anos do site. Veja abaixo:

1) Em quase 80 anos de história, o que mudou de forma mais radical na vida e no pensamento do senhor? Como pessoa e escritor.

- Minha vida, tanto pessoal quanto literária, tem mudado muito, desde sempre. Nunca planejei minha vida nem minha obra, que se vão fazendo a cada dia, o que não significa abrir mão da reflexão e da busca de coerência.

2) Quais os seus melhores amigos dentro do universo dos escritores? De qual(is) você indicaria livros, dando uma sugestão relacionada às suas obras?

Tenho muitos amigos, felizmente, tanto no campo literário como fora dele. Prefiro não enumerá-los, para não cometer omissões.

3) Pessoalmente, qual sua obra preferida, aquela que mais realizações trouxe à sua vida?

Não tenho uma obra minha que prefira, a não ser o último poema que ainda estou lambendo… Na opinião dos leitores e críticos, o livro preferido é Poema Sujo.

4) Qual sua opinião sobre as novas mídias, a convergência digital que leva a informação para a web. Elas são o futuro das ferramentas de informação e formação de opinião? O senhor é adepto de alguma dessas tecnologias?

As novas mídias constituem uma revolução no modo de comunicação entre as pessoas e na busca de informações. Uso o computador sobretudo para escrever e remeter meu trabalho a jornais e editoras. Não sou um internauta.

5) O que achou da Nova Ortografia do Língua Portuguesa? O senhor é a favor ou contra as mudanças que entraram em vigor este ano?

Acho que a nova reforma ortográfica é um equívoco. Não tem sentido mudar a forma de escrever a cada década. Esta reforma tem quase tantas exceções quanto normas.

6) Você já foi contemplado com várias premiações, dentre elas o Prêmio Machado de Assis e o Jabuti; é um escritor muito respeitado no meio. Porque recusou o convite de candidatar-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

Tenho muitos amigos na ABL e com frequência vou lá participar de algum evento. Se não aceito entrar a Academia é porque não tenho espírito acadêmico. Acho melhor deixar como está.

7) Qual o principal papel da palavra escrita e que importância ela pode ter na formação do cidadão como pessoa?

O papel da palavra escrita é fundamental. Mesmo que o livro eletrônico venha a ocupar o lugar do livro impresso em papel, isso não vai alterar a importância da leitura e da escrita na formação das pessoas. O ser humano é um ser cultural e, se perdermos essa noção, caminharíamos para o desastre… Não acontecerá.

8) O senhor foi um dos muitos artistas e intelectuais presos e exilados na época da ditadura. O que pôde aproveitar de positivo em meio a tudo isso? Quais são as lutas dessa nova geração?

Os anos de exílio me ensinaram muita coisa, tanto no plano da vida quanto no plano político e cultural, mas preferia ter aprendido essas coisas de maneira menos traumatizante.

9) Que mensagem o senhor poderia deixar para os jovens estudantes, que muitas vezes se veem decepcionados com o cenário atual do país, em vários aspectos, inclusive o político.

É natural que os jovens estejam desapontados com o que ocorre na política brasileira. Diria a eles, herdeiros do país, que lhes cabe mudá-lo e melhorá-lo. A vida é inventada e, se não a reinventamos, ela tende a degenerar.












































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































2 comentários:

Anônimo disse...

"A vida recomeça todos os dias, do zero. Se você não quer fazer mais nada, a vida acaba, porque ela , na verdade, é inventada por nós, todos os dias." Ferreira Gullar

Anônimo disse...

Certamente, que é uma data importantíssima, pois Ferreira Gullar é a maior unanimidade poética, entre os poetas vivos do Brasil.
Acho muito interessante o modo como escreve. Ele possui um lirismo demolidor e crítico, por isso é considerado o pai da poesia social, o mais engajado.
Parabéns, Ferreira Gullar, e continue lutando por um país melhor, por meio de sua poesia comprometida com a sociedade.
Abraços!
Sofia

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