Temblante para blog







Pesquisar este blog:

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O QUE É EDUCAÇÃO E QUAL A DISTINÇÃO ENTRE EDUCADOR E PROFESSOR?

RESUMO

Neste trabalho, será abordado o que é educação, qual o seu papel na constituição do educando e também será salientado que a educação acontece de diferentes formas, isto é, na família, na rua, igreja, escola, etc. E como a sociedade foi ficando cada vez mais complexa, houve a necessidade de sistematizar as informações adquiridas, em consequência surge a escola, esta tem o intuito de educar sistematicamente as informações sociocultural de um povo, a partir do surgimento da escola surge o educador, um profissional comprometido com seu exercício de ensinar, mas ensina com dedicação, responsabilidade e acima de tudo com amor no coração.

Palavras chaves: educação, professor iniciante, educador.

INTRODUÇÃO

      Este estudo tem como finalidade fazer uma reflexão em torno da educação e o início da carreira docente. Na educação, vamos mostrar que não existe apenas uma forma de educação, pois ela existe em tudo que nos envolve, porém a escola é necessária para sistematização do aprendizado. Além do mais, na escola existe o educador, que tem fundamental importância para a formação social do aluno. Em seguida, será apresentada a distinção entre educador e professor.

EDUCAÇÃO

      Conforme Haidt (1999:11), a palavra educação tem sido utilizada, ao longo do tempo, com dois sentidos: social e individual.
      • Do ponto de vista social – é a ação que gerações adultas exercem sobre as gerações jovens, orientando sua conduta, por meio da transmissão do conjunto de conhecimentos.
      • Do ponto de vista individual - é a educação que se refere ao desenvolvimento das qualidades de um indivíduo.
      Para Brandão (2004:47), “A educação do homem existe por toda à parte e, muito mais do que a escola é o resultado da ação de todo o meio sociocultural sobre os seus participantes. É o exercício de viver e conviver o que educa”.

Segundo Durkheim, citado por (Brandão 2004:71),
A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver na criança certo número de estados físicos, intelectuais e morais reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destinada.
      Do ponto de vista social, na opinião desses autores à educação é a transmição de valores, crenças, costumes, normas, usos, regras, mitos, ideias, enfim, toda forma de conhecimento da geração adulta para a nova geração, contribuindo assim, para a continuidade daquele povo.
      O que precisa ficar claro é que existem diversas formas de educação, ela acontece em casa, na rua, na igreja, na escola e, além disso, em diferentes lugares existem diferentes formas de educação e isso deve ser respeitado, exemplo disso, é a carta que os índios escreveram para o povo de Virgínia e Maryland, que Benjamin Flanklin adotou o costume de divulgar, eis o trecho que nos interessa:
     “... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.
     Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.
     ... Muitos dos nossos bravos Guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam todo a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.
      Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceita-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens”.
      No entanto, essa forma de educação é apenas para uma sociedade simples, rudimentar, uma vez que as sociedades foram ficando mais complexas houve a necessidade de sistematizar uma parte do patrimônio cultural, pois são tantas informações e acontecimentos que não teria como continuar com aquela forma de educação através da simples transmissão de informações, então surge à necessidade de uma maneira segura para fornecer dados dessa sociedade, e isso ocasiona o aparecimento da escola, ou seja, uma instituição social, com o objetivo de ensinar de forma sistematizada as informações de uma sociedade.
      Portanto, a escola surgiu como instituição social à medida que a sociedade foi ficando mais complexa, com o intuito de educar e ensinar de maneira organizada e sistematizada, o que acontece no mundo. Para Carlos Rodrigues Brandão, a educação deve ser determinada pelo poder de controle comunitário dos seus participantes.
      A educação é uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam.
      Por isso, os índios sabiam que a educação do colonizador que contem o saber de seu modo de vida não serve para ser a educação do colonizado.
      Brandão (2004:109), “Só o educador deseducado do saber que existe no homem e na vida poderia ver educação no ensino escolar, quando ela existe solta entre os homens e na vida”.
      Em suma, a educação é uma forma de construir pessoas, isto é, que tipo de cidadãos que queremos possuir em nosso mundo, pois sabemos que a educação ajuda a criar pessoas com valores e ideais de um mundo mais justo.

PROFESSOR X EDUCADOR

      A formação profissional do professor é realizada nos cursos de licenciatura. Essa formação compõe-se de um conjunto de disciplina coordenadas e articuladas entre si, cujos objetivos e conteúdos devem confluir para uma unidade teórico-metodológica do curso.
      Assim, a formação do professor é um processo pedagógico, intencional e organizado, de preparação teórico-científica e prática para dirigir competentemente o processo de ensino-aprendizagem.
      E o início da aprendizagem profissional da docência é uma fase tão importante quanto difícil na constituição da carreira do professor, onde podemos observar em:
      Em conformidade com Guarnieri (2000:14: 19), “As professoras iniciantes pareciam desconhecer o contexto escolar... A relação entre formação e prática não possibilita identificar, com clareza, no processo de aprendizagem da profissão, quais são os conhecimentos que pertencem à formação e quais os conhecimentos provenientes da prática”.
      Na leitura deste livro podemos perceber o quanto é difícil o início da carreira docente, o quanto de obstáculos são colocados em seu caminho, exemplos: a falta de espaço para partilhar suas dificuldades, dúvidas, seu trabalho é avaliado de forma negativa, a maneira de lidar com os alunos que possuem mais dificuldades de aprendizagem, enfim, são inúmeros problemas, e eles não tem a quem pedir ajuda e acabam trabalhando de modo isolado.
      É lamentável observamos tal fato na educação, porque todos estão para somar, com apenas uma finalidade, educar seus alunos para serem cidadãos ativos e participantes na família, no trabalho, na vida cultural e política, ou seja, pessoas boas, com capacidade de avaliar o mundo que está ao seu redor e viver em comunidade respeitando o espaço do outro.
      Outra questão que não podemos deixar de mencionar, é a distinção entre educador e professor.
      De acordo com Tosi (2001:26), “Professor é a pessoa habilitada, especializada e contratada para, sistematicamente, passar para o aluno um conjunto de conhecimentos que o tempo e a experiência selecionaram da cultura universal e diz respeito a nossa vivência cultural”.
       O professor é o habilitado, mas não é necessariamente o profissional da educação.
      À medida que para Tosi (2001:26), “Este é o educador, aquele profissional que tendo todas as exigências legais a elas conjuga a dedicação exclusiva e a vocação que se traduz como um amor especial à tarefa de educar”.
      De acordo com Freire (1996:47), “Saber que ensinar não é transmitir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou sua construção”.
      Ao examinar essas ideias desses renomados autores, afirmamos categoricamente que existe uma grande distância entre professor e educador. O educador preocupa-se com a formação do aluno, ele quer ajudar seu educando a encontrar diretrizes para sua vida e como educador sente-se na obrigação de ajudar a reforçar a capacidade crítica do estudante, sua curiosidade e aptidão para intervir no mundo que está inserido, e sabemos que ele pode fazer isso, pois o educador tem uma grande influência sob seus alunos.
      Afirma Gatti (1996), “O como ser em movimento possui valores, estruturas, crenças, atitudes e age de modo pessoal, que é à parte de sua identidade”.
      Para Silva (2000:25), “O educador é um ser social, constituído e constituinte de seu meio”.
      Por isso, o educador é uma pessoa que possui poder de “dominar” seus educandos e, tendo esse poder ele deve aproveitá-lo para colaborar com o exercício da educação e fazer com que seus alunos queiram fazer uma história diferente.
      Porém, ainda encontramos em nossos caminhos professores, descomprometidos com a educação, isto é profissionais que vêm apenas bater ponto na escola, não se preocupando com a realidade de seus alunos.
      Por outro lado, sabemos que na atualidade, não é necessário professores com o único intento de repassar informações, do tipo mecânico, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do exercício da criticidade, que implica a promoção da curiosidade, afinal a presença do ser humano no mundo não é de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere, para transformar, e a educação é uma forma de interação na nossa vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

      O que podemos observar na realização deste trabalho, que a educação é muito importante na construção do ser humano, pois indicará as diretrizes que deve ser seguida.
      Para a educação acontecer de forma sistematizada há necessidade do educador.
      Por outro lado, devemos atentar para o fato, que a construção desse profissional não é uma tarefa fácil, é um caminho muito longo, que inclui teoria e prática, mas felizmente é uma profissão maravilhosa que inclui muito amor e dedicação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 1.ed.São Paulo:Brasiliense, 2004.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia.29.ed.São Paulo:Paz e terra, 1996.

GUARNIERI, Maria Regina. Aprendendo a ensinar. O caminho nada suave da docência. Campinas: Autores Associados, 2000.

TOSI, Maria Raineldes. Didática Geral. Um olhar para o futuro. Campinas: Ed. Alínea, 2001.





"CLARA DOS ANJOS", DE LIMA BARRETO





Sobre a obra


O romance faz uma crítica ao preconceito na sociedade carioca. Publicado em 1922, “Clara dos Anjos” é uma das obras mais conhecidas de Lima Barreto.
Clara é uma jovem ingênua e pobre que se apaixona por Cassi Jones, um malandro conhecido por ter enganado outras mulheres. Ela engravida e ele desaparece.
O livro narra o destino de mulheres como “Clara”, que são humilhadas e presas a sua condição racial e econômica.

Sobre o autor

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881, no Rio de Janeiro. Jornalista e escritor, ele explorou diversos temas sociais em sua obra, principalmente, o preconceito. A linguagem coloquial de seus livros fugia aos padrões da época e posteriormente, tornou-se uma das marcas do modernismo. Sua obra mais famosa é o “Triste fim de Policarpa Quaresma”.















"A ODISSEIA", DE HOMERO

Sobre a obra

Depois de vencer a Guerra de Tróia, os gregos destruíram os templos e mataram quase todos os homens da cidade, despertando a ira dos deuses, que resolveram se vingar. O segundo livro mais antigo da literatura ocidental, escrito pelo poeta Homero (autor também do primeiro, que é Ilíada), foi recontado por Silvana Salerni e ilustrado por Dave Santana e Maurício Paraguassu.








Sobre o autor

Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga, autor de obras que reconstituem, com riqueza de detalhes, a civilização grega. Estima-se que Homero tenha vivido entre os séculos 9 e 8 a.C., e o limite estipulado de sua vida vai até 700 a.C. Sua origem também é incerta, mas os estudiosos do poeta consideram provável que ele tenha nascido em Esmirna ou na Ilha de Quios, na Grécia. Devido à insuficiência de provas, alguns chegam a duvidar da existência de Homero. A obra atribuída a ele foi composta e transmitida oralmente. Algumas de suas obras, além de “A Odisseia”, são “Ilíada”, \"Tebaida\", “Hinos Homéricos\" e \"Batracomiomaquia\".






"A ODISSEIA", DE HOMERO


      A Odisseia, quase com certeza, foi composta no século VIII a.C. Esse clássico da literatura ocidental expressa com força e beleza a grandiosidade da remota civilização grega e ressoa ainda o eco da guerra de Tróia.
      Podemos resumir a história da seguinte forma: Ulisses focou 10 anos na guerra de Tróia, terminada a guerra ansiava por pisar de novo o solo pátrio, mas primeiro conheceu lugares e povos novos para enfim chegar a Ítaca.
      O título do poema provém do nome do protagonista, o grego Ulisses (Odisseu). Filho e sucessor de Laerte, rei de Ítaca esposo de Penélope.

      Homero, nessa obra, narra as viagens e aventuras de Ulisses em duas partes:

      A primeira, compreende os acontecimentos que, em nove episódios sucessivos, afastam o herói de casa, forçado pelas dificuldades criadas pelo deus Posêidon.

      A segunda, consta de mais nove episódios, que descrevem sua volta ao lar sob a proteção da deusa Atena.

      É também desenvolvido um tema secundário, o da vida na casa de Ulisses durante sua ausência, e o esforço da família para trazê-lo de volta a Ítaca.

      O texto inicia com a assembléia dos deuses, em que Zeus decide a volta de Ulisses ao lar.

      O relato é feito, pelo próprio herói aos feaces-povo que habitava a ilha de Esquéria. Hábeis marinheiros, são ele que conduzem Ulisses a Ítaca.


O POEMA ESTRUTURA-SE EM QUATRO PARTES:

     
      Na primeira - (cantos I a IV), intitulado “Assembleia dos deuses”, Antena vai a Ítaca animar Telêmaco, filho de Ulisses, na luta contra os pretendentes à mão de Penélope, sua mãe, que ddecide enviá-lo a Pilos e a Esparta em busca do pai. No entanto, o herói encontra-se na ilha de Ogígia, prisioneiro da deusa Calipso.

      Na segunda parte - nova assembléia dos deuses, Calipso liberta Ulisses, por ordem de Zeus, que atendeu aos pedidos de Atena e enviou Hermes com a missão de comunicar a ordem.

     Livre do julgo de Calipso, que durou sete anos, Ulisses constrói uma jangada e parte, mas uma tempestade desencadeada por Posêidom lança-o na ilha dos feaces (canto V), onde é descoberto por Nausícaa, filha do rei Alcinoo. Bem recebido pelo rei (cantos VI a VIII), Ulisses mostra a sua força e destreza em competições esportivas que se seguem a um banquete.

       Na terceira parte – narração de Ulisses (cantos IX a XII), o herói passa a contar a Alcinoo as aventuras que viveu, desde a saída de Tróia: sua estada no país dos Cícones, dos Lotófagos e dos Ciclopes; a luta com o ciclope Polifermo; o episódio na ilha de Eólia, na qual morava Éolo, o rei dos ventos, lá seus companheiros provocaram uma violenta tempestade, ao abrirem o saco misterioso, que estavam todos os ventos, desapontados voltaram a remar, pois já não eram ajudados por nenhum vento amigo; o encontro com a feiticeira Circe, onde ficou um ano, esta transforma os seus companheiros em porcos; sua passagem pelo país dos mortos, onde reencontra a mãe e personagens da guerra de Tróia.

       Na quarta parte – viagem de retorno, o protagonista volta à Ítaca, reconduzido pelos feaces (canto XIII). Apesar do disfarce de mendigo, dado por Atena, é reconhecido por sua fiel ama Euricléia, que, ao lavar-lhe os pés, o identifica por uma cicatriz.

Assediada por inúmeros pretendentes, Penélope promete desposar aquele que conseguir retesar o arco de Ulisses, de maneira que a flecha atrevesse 12 machados. Só Ulisses consegue.

      Segue-se a vingança de Ulisses (cantos XIV a XXIV). Ulisses mata primeiro Antínoo, o mais forte e o mais atrevido. Eurímaco ainda ousou suplicar, porém Ulisses deteve-o com uma flecha. Segue-se o encontro com a amada Penélope e ela o coloca em uma prova: para que ele retire a cama do quarto, entretanto, não tinha como fazer isso, pois Ulisses havia talhado –a, aproveitando do tronco de uma oliveira, tornou-se um dos pés da cama.

      A história termina quando Atena impõe uma plena reconciliação durante o combate entre Ulisses e os familiares dos mortos.


CARACTERÍSTICAS DAS PERSONAGENS


Personagem Característica física, Característica psicológica, Índices espaciais e temporais

Ulisses -  Não tem mau aspecto, coxas e pernas fortes, bom par de braços, pescoço forte, corpulento. e não muito velho (p.118). Paciência e sagacidade (p. 63) – jovialidade e inteligência (p. 167) - prudência em espírito (p. 89) - divino (p. 236) - solerte (p. 267). Ítaca;

Tróia – 10 anos;

Cícones – sem duração;

Viagem pelo mar – 10 dias;

Lotófagos – pouco trmpo;

Ciclopes – vários dias;

Ilha Eólia – quase 1 mês;

Ilha de Eéia (Circe) – 1 ano;

Hades – 1 dia;

Ilha de Eéia (Circe) – mais ou menos 1 mês;

Hélio deus do sol – 1 mê e 6 dias;

Ilha de Ogígia (Calypso) – 7 a 8 anos;

Ilha de Esquéria – alguns dias;

Viagem pelo mar – alguns meses.


Penélope - Linda criatura (p. 21). Fiel, sensata (p. 58). Em Ítaca (espera por Ulisses) - 20 anos

Telêmaco - Admirável no entalhe e no semblante. Bravo, nobre (p. 47) – ajuizado (p. 217) – inocente (p. 75) – respeitável (p. 32). Em Ítaca – jovem;

Pilos e Esparte – alguns meses.

Euricléia -  (ama) Velha Cautelosa e respeitável (p. 233). Ítaca – durante a narrativa.

Calypso

Bela

Feiticeira ardilosa, ser terrível.

Ilha de Ogígia – durante o período de permanência de Ulisses.

Atenéia -  Olhos cintilantes, verdes mar (p. 237). Sabedoria e astuta. Acompanhou Ulisses e Telêmaco durante alguns momentos da narrativa.

Laertes - Velho Sábio Ítaca

Eurímaco - O belo Ardiloso Ítaca

Antinoos -  Forte Destemido Ítaca




ROTEIRO DE TRABALHO PARA SEMINÁRIOS EM GRUPOS

MÉTODO DE AVALIAÇÃO


VALORES: FICHAMENTOS DE TEXTOS (INDIVIDUAIS): 1.0

APRESENTAÇÃO COLETIVA: 2.0

APRESENTAÇÃO INDIVIDUAL: 2.0

CONTEÚDO DO SEMINÁRIO: 5.0


1. PREPARAÇÃO PARA OS SEMINÁRIOS

1.1 Fazer a leitura do texto literário “A Odisseia”, de Homero e assistir ao filme homônimo.

1.2 Fazer resumos e anotar em fichas (chamados “fichamentos”) os seguintes textos teóricos (cada aluno deverá entregar as suas fichas para o professor como quesito de nota):

”A literatura grega. Período arcaico. (apostila) – (máximo de 2 fichas)

 A ”A construção dos valores”. Marilena Chauí – (máximo de 2 fichas)

” Cenografia” (ver no item “Teoria do drama” – apostila)-( máximo 1 ficha)


MODELO DA FICHA

D’ ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto 2. Teoria da lírica e do drama.                               1
São Paulo: Ática, 1995.


(bibliografia do livro estudado)                                                                           Cenografia           
                                                                                                                                (título da ficha)

(resumo do conteúdo estudado)



1.3 Fazer um estudo livro “A Odisseia” pesquisando os seguintes itens:

 Estrutura da narrativa: características da narrativa épica, personagens (características físicas e psicológicas), índices temporais, narrador, enredo.

 Valores morais, familiares, econômicos, religiosos, políticos, etc. (cada grupo deverá escolher um dos valores e retirar fragmentos do texto que falem sobre ele. Fazer comentários com base nos textos lidos).


1.4 Assistir ao filme “A Odisseia”.

Verificar quais partes do enredo são aproveitadas pelo filme, o que foi mantido e o que ficou diferente, a caracterização dos personagens, dos lugares onde se passa a história, os valores, etc.


2. APRESENTAÇÃO DOS SEMINÁRIOS

(40 minutos cada grupo – ensaiar a apresentação para cumprir esse tempo)

 Pode ser feita em retroprojetor, cartazes, data-show, TV/vídeo mostrando fragmentos do filme e comentando, etc. Fazer uma bela e emocionante apresentação, para encantar a platéia.

 Os grupos que forem usar equipamentos deverão informar a professora com antecedência para fazer a reserva dos equipamentos na secretária.


------ Espaço do Professor ------


A obra é uma boa oportunidade para debater temas como a Grécia Antiga, a Guerra de Tróia e a Mitologia Grega.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

HOMERO – A Odisseia. São Paulo. Editora Cultrix, 1999.




"O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA", CONTO DE CLARICE LISPECTOR

      Quando o homem atingiu a colina mais alto, os sinos tocavam na cidade embaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava a única árvore da chapada. O homem estava de pé com um saco pesado na mão.




      Olhou para baixo com olhos míopes. Os católicos entravam devagar e miúdos na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto. Via também o rio que de cima parecia imóvel, e pensou: é domingo. Viu ao longe a montanha mais alta com as escarpas secas. Não fazia frio mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no chão. Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. Sem os óculos, seus olhos piscaram claros, quase jovens, infamiliares. Pôs de novo os óculos, tornou-se um senhor de meia-idade e pegou de novo no saco: pesava como se fosse de pedra, pensou. Forçou a vista para perceber a correnteza do rio, inclinou a cabeça para ouvir algum ruído: o rio estava
parado e apenas o som mais duro de uma voz atingiu por um instante a altura – sim, ele estava bem só. O ar fresco era inóspito, ele que morara numa cidade mais quente. A única árvore da chapada balançava os ramos. Ele olhou-a. Ganhava tempo. Até que achou que não havia por que esperar mais.


      E no entanto aguardava. Certamente os óculos o incomodavam porque de novo os tirou, respirou fundo e guardou-os no bolso. Abriu então o saco, espiou um pouco. Depois meteu dentro a mão magra e foi puxando o cachorro morto. Todo ele se concentrava apenas na mão importante e ele mantinha os olhos profundamente fechados enquanto puxava. Quando os abriu, o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.


      O cachorro desconhecido estava à luz.


      Então ele se pôs metodicamente a trabalhar. Pegou no cachorro duro e negro, depositou-o numa baixa do terreno. Mas, como se já tivesse feito muito, pôs os óculos, sentou-se ao lado do cão e começou a observar a paisagem.


      Viu muito claramente, e com certa inutilidade, a chapada deserta. Mas observou com precisão que estando sentado já não enxergava a cidadezinha embaixo. Respirou de novo. Remexeu no saco e tirou a pá. E pensou no lugar que escolheria. Talvez embaixo da árvore. Surpreendeu-se refletindo que embaixo da árvore enterraria este cão. Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da chapada, a encarar de olhos vazios o sol. Então, já que o cão desconhecido substituía o “outro”, quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia. Não havia nenhuma confusão na cabeça do homem. Ele se entendia a si próprio com frieza, sem nenhum fio solto.


      Em breve, por excesso de escrúpulo, estava ocupado demais em procurar determinar rigorosamente o meio da chapada. Não era fácil porque a única árvore se erguia num lado e, tendo-se como falso centro, dividia assimetricamente o planalto. Diante da dificuldade o homem concedeu: “não era necessário enterrar no centro, eu também enterraria o outro, digamos, bem onde eu estivesse neste mesmo instante em pé”. Porque se tratava de dar ao acontecimento a fatalidade do acaso, a marca de uma ocorrência exterior e evidente – no mesmo plano das crianças na praça e dos católicos entrando na igreja – tratava-se de tornar o fato ao máximo visível à superfície do mundo sob o céu. Tratava-se de expor-se e de expor um fato, e de não lhe permitir a forma íntima e impune de um pensamento.


      À ideia de enterrar o cão onde estivesse nesse mesmo momento em pé – o homem recuou com uma agilidade que seu corpo pequeno e singularmente pesado não permitia. Porque lhe pareceu que sob os pés se desenhara o esboço da cova do cão.


      Então ele começou a cavar ali mesmo com pá rítmica. Às vezes se interrompia para tirar e de novo botar os óculos. Suava penosamente. Não cavou muito mas não porque quisesse poupar seu cansaço. Não cavou muito porque pensou lúcido: “se fosse para o verdadeiro cão, eu cavaria pouco, enterrá-lo ia bem à tona”. Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade.


      Afinal largou a pá, pegou com delicadeza o cachorro desconhecido e pousou-o na cova.


      Que cara estranha o cão tinha. Quando com um choque descobrira o cão morto numa esquina, a ideia de enterrá-lo tornara seu coração tão pesado e surpreendido, que ele nem sequer tivera olhos para aquele focinho duro e de baba seca. Era um cão estranho e objetivo.


      O cão era um pouco mais alto que o buraco cavado e depois de coberto com terra seria uma excrescência apenas sensível do planalto. Era assim precisamente que ele queria. Cobriu o cão com terra e aplainou-a com as mãos, sentindo com atenção e prazer sua forma nas palmas como se o alisasse várias vezes. O cão era agora apenas uma aparência do terreno.


      Então o homem se levantou, sacudiu a terra das mãos, e não olhou nenhuma vez mais a cova. Pensou com certo gosto: acho que fiz tudo. Deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente de libertação. Sim, fizera tudo. Seu crime fora punido e ele estava livre.


      E agora ele podia pensar livremente no verdadeiro cão. Pôs-se então imediatamente a pensar no verdadeiro cão, o que ele evitara até agora. O verdadeiro cão que agora mesmo devia vagar perplexo pelas ruas do outro município, farejando aquela cidade onde ele não tinha mais dono.


      Pôs-se então a pensar com dificuldade no verdadeiro cão como se tentasse pensar com dificuldade na sua verdadeira vida. O fato do cachorro estar distante na outra cidade dificultava a tarefa, embora a saudade o aproximasse da lembrança.


      “Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua”, pensou então com auxílio da saudade. “Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu – como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei”, refletiu curioso.


      “Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente”, pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.


      “Lembro-me de ti quando eras pequeno”, pensou divertido, “tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Mas, desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro que se podia abandonar. Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão”, lembrou-se o homem satisfeito, “tu terminavas me mordendo e rosnando, eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe o que já significava aquele meu riso sem vontade. Eras todos os dias um cão que se podia abandonar.”


      “E como cheiravas as ruas!”, pensou o homem rindo um pouco, “na verdade não deixaste pedra por cheirar... Este era o teu lado infantil. Ou era o teu verdadeiro cumprimento de ser cão? e o resto apenas brincadeira de ser meu? Porque eras irredutível. E, abanando tranquilo o rabo, parecias rejeitar em silêncio o nome que eu te dera. Ah, sim, eras irredutível: eu não queria que comesses carne para que não ficasses feroz, mas pulaste um dia sobre a mesa e, entre os gritos felizes das crianças, agarraste a carne e, com uma ferocidade que não vem do que se come, me olhaste mudo e irredutível com a carne na boca. Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. Era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos: Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. E eu, eu disfarçava como podia. Às vezes, sentado sobre as patas diante de mim, como me espiavas! Eu então olhava o teto, tossia, dissimulava, olhava as unhas. Mas nada te comovia: tu me espiavas. A quem irias contar? Finge – dizia-me eu –, finge depressa que és outro, dá a falsa entrevista, faz-lhe um afago, joga-lhe um osso – mas nada te distraía: tu me espiavas. Tolo que eu era. Eu fremia de horror, quando eras tu o inocente: que eu me virasse e de repente te mostrasse meu rosto verdadeiro, e eriçado, atingido, erguer-te-ias até a porta ferido para sempre. Oh, eras todos os dias um cão que se podia abandonar. Podia-se escolher. Mas tu, confiante, abanavas o rabo.”


      “Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa.”


      “Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. Com alívio abandonou-te. Com alívio sim, pois exigias – com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heroico – que eu fosse um homem. Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? ‘Que não cabe em parte alguma’, disse Marta prática. ‘Que incomodará os passageiros’, explicou minha sogra sem saber que previamente me justificava, e as crianças choraram, e eu não olhava nem para elas nem para ti, José. Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante do crime que eu nunca tinha cometido. A possibilidade de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer”, pensou o homem cada vez mais lúcido.


      “Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão”, pensou o homem. “Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.”


      Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.


      Um homem ainda conseguia ser mais esperto que o Juízo Final. Este crime ninguém o condenava. Nem a Igreja. “Todos são meus cúmplices, José. Eu teria que bater de porta em porta e mendigar que me acusassem e me punissem: todos me bateriam a porta com uma cara de repente endurecida. Este crime ninguém me condena. Nem tu, José, me condenarias. Pois bastaria, esta pessoa poderosa que sou, escolher de te chamar – e, do teu abandono nas ruas, num pulo me lamberias a face com alegria e perdão. Eu te daria a outra face a beijar.”


       O homem tirou os óculos, respirou, botou-os de novo.


      Olhou a cova coberta. Onde ele enterrara um cão desconhecido em tributo ao cão abandonado, procurando enfim pagar a dívida que inquietantemente ninguém lhe cobrava. Procurando punir-se com um ato de bondade e ficar livre de seu crime. Como alguém dá uma esmola para enfim poder comer o bolo por causa do qual o outro não comeu o pão.


      Mas como se José, o cão abandonado, exigisse dele muito mais que a mentira; como se exigisse que ele, num último arranco, fosse um homem – e como homem assumisse o seu crime – ele olhava a cova onde enterrara a sua fraqueza e a sua condição.


      E agora, mais matemático ainda, procurava um meio de não se ter punido. Ele não devia ser consolado. Procurava friamente um modo de destruir o falso enterro do cão desconhecido. Abaixou-se então, e, solene, calmo, com movimentos simples – desenterrou o cão. O cão escuro apareceu afinal inteiro, infamiliar com a terra nos cílios, os olhos abertos e cristalizados. E assim o professor de matemática renovara o seu crime para sempre. O homem então olhou para os lados e para o céu pedindo testemunha para o que fizera. E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio de sua família.


Fim

CLARICE LISPECTOR





"VENHA VER O PÔR DO SOL", CONTO DE LYGIA FAGUNDES TELLES








CLICK EM "FULL" PARA LER O CONTO POR INTEIRO

"POMBA ENAMORADA OU UMA HISTÓRIA DE AMOR", CONTO DE LYGIA FAGUNDES TELLES

"SEMINÁRIO DO RATOS", LYGIA FAGUNDES TELLES




Encontrou-o pela primeira vez quando foi coroada princesa no Baile da Primavera e assim que o coração deu aquele tranco e o olho ficou cheio d'água pensou: acho que vou amar ele pra sempre. Ao ser tirada teve uma tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingin¬do que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os bra¬ços e o sorriso. Sorriso meio de lado, para esconder a falha do cani¬no esquerdo que prometeu a si mesma arrumar no dentista do Rôni, o Doutor Élcio, isso se subisse de ajudante para cabeleireira. Ele disse apenas meia dúzia de palavras, tais como, Você é que devia ser a rainha porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra. Ao que ela respondeu que o namorado da rainha tinha comprado todos os votos, infelizmente não tinha namorado e mesmo que tivesse não ia adiantar nada porque só conseguia coisas a custo de muito sacrifício, era do signo de Capricórnio e os desse signo têm que lutar o dobro pra vencer. Não acredito nessas baba¬quices, ele disse, e pediu licença pra fumar lá fora, já estavam dançando o bis da Valsa dos miosótis e estava quente pra danar. Ela deu a licença. Antes não desse, diria depois à rainha enquanto voltavam pra casa. Isso porque depois dessa licença não conseguiu mais botar os olhos nele, embora o procurasse por todo o salão e com tal empenho que o diretor do clube veio lhe perguntar o que tinha perdido. Meu namorado, ela disse rindo, quando ficava nervosa, ria sem motivo. Mas o Antenor é seu namorado? estranhou o diretor apertando-a com força enquanto dançavam Nosotros. É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única, informou com ar distraído. Um cara legal mas que não esquentava o rabo em nenhum emprego, no começo do ano era motorista de ônibus, mês passado era borracheiro numa oficina da Praça Marechal Deodoro mas agora estava numa loja de acessórios na Guaianazes, quase esquina da General Osório, não sabia o número mas era fácil de achar. Não foi fácil assim ela pensou quando o encontrou no fundo da oficina, polindo uma peça. Não a reconheceu, em que podia servi-Ia? Ela começou a rir, Mas eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Ele lembrou enquanto sacudia a cabeça impressionado. Mas ninguém tem este endereço, porra, como é que você conseguiu? E levou-a até a porta: tinha um monte assim de serviço, andava sem tempo pra se coçar mas agradecia a visita, deixasse o telefone, tinha aí um lápis? Não fazia mal, guardava qualquer número, numa hora dessas dava uma ligada, tá? Não deu. Ela foi à Igreja dos Enforcados, acendeu sete velas para as almas mais aflitas e começou a Novena Milagrosa em lou¬vor de Santo Antônio, isso depois de telefonar várias vezes só pra ouvir a voz dele. No primeiro sábado em que o horóscopo anun¬ciou um dia maravilhoso para os nativos de Capricórnio, aprovei-tando a ausência da dona do salão de beleza que saíra para pentear uma noiva, telefonou de novo e dessa vez falou, mas tão baixinho que ele precisou gritar, Fala mais alto, merda, não estou escutando nada. Ela então se assustou com o grito e colocou o fone no gan¬cho, delicadamente. Só se animou com a dose de vermute que o Rôni foi buscar na esquina, e então tentou novamente justo na ho¬ra em que houve uma batida na rua e todo mundo foi espiar na janela. Disse que era a princesa do baile, riu quando negou ter ligado outras vezes e convidou-o pra ver um filme nacional muito interessante que estava passando ali mesmo, perto da oficina dele, na São João. O silêncio do outro lado foi tão profundo que o Rôni deu-lhe depressa uma segunda dose, Beba, meu bem, que você está quase desmaiando. Acho que caiu a linha, ela sussurrou, apoiando-se na mesa, meio tonta. Senta, meu bem, deixa eu ligar pra você, ele se ofereceu bebendo o resto do vermute e falando com a boca quase colada ao fone: Aqui é o Rôni, coleguinha da princesa, você sabe, ela não está nada brilhante e por isso eu vim falar no lugar dela, nada de grave, graças a Deus, mas a pobre está tão ansiosa por uma resposta, lógico. Em voz baixa, amarrada (assim do tipo de voz dos mafiosos do cinema, a gente sente uma coisa, diria o Rôni mais tarde, revirando os olhos) ele pediu calmamente que não tele¬fonassem mais pra oficina porque o patrão estava puto da vida e além disso (a voz foi engrossando) não podia namorar com ninguém, estava comprometido, se um dia me der na telha, EU MESMO TELEFONO, certo? Ela que espere, porra. Esperou. Nesses dias de expectativa, escreveu-lhe catorze cartas, nove sob inspiração romântica e as demais calcadas no livro Correspondência erótica, de Glenda Edwin, que o Rôni lhe emprestou com recomenda¬ções. Porque agora, querida, a barra é o sexo, se ele (que voz mara-vilhosa!) é Touro, você tem que dar logo, os de Touro falam muito na lua, nos barquinhos, mas gostam mesmo é de trepar. Assinou Pomba Enamorada, mas na hora de mandar as cartas, rasgou as eró¬ticas, foram só as outras. Ainda durante esse período começou pra ele um suéter de tricô verde, linha dupla (o calor do cão, mas nesta cidade, nunca se sabe) e duas vezes pediu ao Rôni que lhe telefo¬nasse disfarçando a voz, como se fosse o locutor do programa Intimidade no Ar, para avisar que em tal e tal horário nobre a Pomba Enamorada tinha lhe dedicado um bolero especial. É muito, muito macho, comentou o Rôni com um sorriso pensati¬vo depois que desligou. E só devido a muita insistência acabou contando que ele bufou de ódio e respondeu que não queria ouvir nenhum bolero do caralho, Diga a ela que viajei, que morri! Na noite em que terminou a novela com o Doutor Amândio felicíssi¬mo ao lado de Laurinha, quando depois de tantas dificuldades venceu o amor verdadeiro, ela enxugou as lágrimas, acabou de fazer a barra do vestido novo e no dia seguinte, alegando cólicas fortíssi¬mas, saiu mais cedo pra cercá-lo na saída do serviço. Chovia tanto que quando chegou já estava esbagaçada e com o cilio postiço só no olho esquerdo, o do direito já tinha se perdido no aguaceiro. Ele a puxou pra debaixo do guarda-chuva, disse que estava putíssi¬mo porque o Corinthians tinha perdido e entredentes lhe pergun¬tou onde era seu ponto de ônibus. Mas a gente podia entrar num cinema, ela convidou, segurando tremente no seu braço, as lágri¬mas se confundindo com a chuva. Na Conselheiro Crispiniano, se não estava enganada, tinha em cartaz um filme muito interessante, ele não gostaria de esperar a chuva passar num cinema? Nesse momento ele enfiou o pé até o tornozelo numa poça funda, duas vezes repetiu, essa filha-da-puta de chuva e empurrou-a para o ônibus estourando de gente e fumaça. Antes, falou bem dentro do seu ouvido que não o perseguisse mais porque já não estava agüen¬tando, agradecia a camisa, o chaveirinho, os ovos de Páscoa e a caixa de lenços mas não queria namorar com ela porque estava namorando com outra, Me tire da cabeça, pelo amor de Deus, PELO AMOR DE DEUS! Na próxima esquina, ela desceu do ônibus, tomou condução no outro lado da rua, foi até a Igreja dos Enforcados, acendeu mais treze velas e quando chegou em casa pegou o Santo Antônio de gesso, tirou o filhinho dele, escondeu-o na gaveta da cômoda e avisou que enquanto Antenor não a procuras¬se não o soltava nem lhe devolvia o menino. Dormiu banhada em lágrimas, a meia de lã enrolada no pescoço por causa da dor de gar¬ganta, o retratinho de Antenor, três por quatro (que roubou da sua ficha de sócio do São Paulo Chique), com um galhinho de arruda, debaixo do travesseiro. No dia do Baile das Hortênsias, comprou um ingresso para cavalheiro, gratificou o bilheteiro que fazia ponto na Guaianazes pra que levasse o ingresso na oficina e pediu à dona do salão que lhe fizesse o penteado da Catherine Deneuve que foi capa do último número de Vidas Secretas. Passou a noite olhando para a porta de entrada do baile. Na tarde seguinte comprou o disco Ave-Maria dos namorados na liquidação, escreveu no postal a frase que Lucinha diz ao Mário na cena da estação, 'Te amo hoje mais do que ontem e menos do que amanhã, assinou P. E. e depois de emprestar dinheiro do Rôni foi deixar na encruzilhada perto da casa de Alzira o que o Pai Fuzô tinha lhe pedido há duas semanas pra se alegrar e cumprir os destinos: uma garrafa de champanhe e um pacote de cigarro Minister. Se ela quisesse um trabalho mais forte, podia pedir, Alzira ofereceu. Um exemplo? Se cosesse a boca de um sapo, o cara começaria a secar, secar e só parava o definha¬mento no dia em que a procurasse, era tiro e queda. Só de pensar em fazer uma ruindade dessas ela caiu em depressão, imagine, como é que podia desejar uma coisa assim horrível pro homem que amava tanto? A preta respeitou sua vontade mas lhe recomen¬dou usar alho virgem na bolsa, na porta do quarto e reservar um dente pra enfiar lá dentro. Lá dentro?, ela se espantou, e ficou ouvindo outras simpatias só por ouvir, porque essas eram impossí¬veis para uma moça virgem: como ia pegar um pêlo das injúrias dele pra enlear com o seu e enterrar os dois assim enleados em terra de cemitério? No último dia do ano, numa folga que mal deu pra mastigar um sanduíche, Rôni chamou-a de lado, fez um agra¬do em seus cabelos (Mas que macios, meu bem, foi o banho de óleo, foi?) e depois de lhe tirar da mão a xícara de café contou que Antenor estava de casamento marcado para os primeiros dias de janeiro. Desmaiou ali mesmo, em cima da freguesa que estava no secador. Quando chegou em casa, a vizinha portuguesa lhe fez uma gemada (A menina está que é só osso!) e lhe ensinou um fei¬tiço infalível, por acaso não tinha um retrato do animal? Pois colas¬se o retrato dele num coração de feltro vermelho e quando desse meio-dia tinha que cravar três vezes a ponta de uma tesoura de aço no peito do ingrato e dizer fulano, fulano, como se chamava ele, Antenor? Pois, na hora dos pontaços, devia dizer com toda fé, Antenor, Antenor, Antenor, não vais comer nem dormir nem des¬cansar enquanto não vieres me falar! Levou ainda um pratinho de doces pra São Cosme e São Damião, deixou o pratinho no mais florido dos jardins que encontrou pelo caminho (tarefa dificílima porque os jardins públicos não tinham flores e os particulares eram fechados com a guarda de cachorros) e foi vê-lo de longe na saída da oficina. Não pôde vê-lo porque (soube através de Gilvan, um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor) nessa tarde ele se casava com uma despedida íntima depois do religioso, no São Paulo Chique. Dessa vez não chorou: foi ao crediário Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote um P. E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica. Saiu do hospital cinco quilos mais magra, amparada por Gilvan de um lado e por Rôni do outro, o táxi de Gilvan cheio de lembrancinhas que o pessoal do salão lhe mandou. Passou, ela disse a Gilvan num fio de voz. Nem penso mais nele, acrescentou, mas prestou bem atenção em Rôni quando ele contou que agora aquele vira-folha era manobrista de um estacionamento da Vila Pompéia, parece que ficava na rua Tito. Escreveu-lhe um bilhete contando que quase tinha morrido mas se arrependia do gesto tresloucado que lhe causara uma queimadura no queixo e outra na perna, que ia se casar com Gilvan que tinha sido muito bom no tempo em que esteve internada e que a perdoasse por tudo o que aconteceu. Seria melhor que ela tivesse morrido porque assim parava de encher o saco, Antenor teria dito quando recebeu o bilhete que picou em mil pedaços, isso diante de um conhecido do Rôni que espalhou a notícia na festa de São João do São Paulo Chique. Gilvan, Gilvan, você foi a minha salvação, ela soluçou na noite de núpcias enquanto fechava os olhos para se lembrar melhor daquela noite em que apertou o braço de Antenor debaixo do guarda-chuva. Quando engravidou, mandou-lhe um postal com uma vista do Cristo Redentor (ele morava agora em Piracicaba com a mulher e as gêmeas) comunicando-lhe o quanto estava feliz numa casa modesta mas limpa, com sua televisão a cores, seu caná¬rio e seu cachorrinho chamado Perereca. Assinou por puro hábito porque logo em seguida riscou a assinatura, mas levemente, dei¬xando sob a tênue rede de risquinhos a Pomba Enamorada e um coração flechado. No dia em que Gilvanzinho fez três anos, de lenço na boca (estava enjoando por demais nessa segunda gravidez) escreveu-lhe uma carta desejando-lhe todas as venturas do mundo como chofer de uma empresa de ônibus da linha Piracicaba -São Pedro. Na carta, colou um amor-perfeito seco. No noivado da sua caçula Maria Aparecida, só por brincadeira, pediu que uma cigana muito famosa no bairro deitasse as cartas e lesse seu futuro. A mulher embaralhou as cartas encardidas, espalhou tudo na mesa e avisou que se ela fosse no próximo domingo à estação rodoviária veria chegar um homem que iria mudar por completo sua vida, Olha ali, o Rei de Paus com a Dama de Copas do lado esquerdo. Ele devia chegar num ônibus amarelo e vermelho, podia ver até como era, os cabelos grisalhos, costeleta. O nome começava por A, olha aqui o Ás de Espadas com a primeira letra do seu nome. Ela riu seu risinho torto (a falha do dente já preenchida, mas ficou o jeito) e disse que tudo isso era passado, que já estava ficando velha demais pra pensar nessas bobagens mas no domingo marcado dei¬xou a neta com a comadre, vestiu o vestido azul-turquesa das bodas de prata, deu uma espiada no horóscopo do dia (não podia ser melhor) e foi.








Indique este blog a um amigo.