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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

PARNASIANISMO

      A palavra Parnasianismo esta relacionada com o Parnaso grego, que segundo a mitologia grega, é o nome dado a um monte da Grécia Central, morada de Apolo e de suas musas.
      O Parnasianismo é a manifestação poética correspondente ao Realismo, embora ideologicamente não mantenha todos os pontos de contato com os romancistas realistas e naturalistas. É uma estética preocupada com a “arte pela arte”, ou com a “arte sobre a arte”, com seus poetas um tanto alheios às transformações do final do século XIX e início do século XX.
      Os três estilos__ Parnasianismo, Realismo, e Naturalismo __ assemelham-se, portanto, enquanto busca de superação do velho modelo romântico, que tende a privilegiar a fantasia criadora, a emoção e a subjetividade, no processo de criação artística. Tais elementos, no entanto, já não condiziam com a evolução cientificista e tecnicista que caracterizou a segunda metade do século XIX, por isso as Escolas Realista pregaram a racionalidade, a objetividade e a precisão arquitetônica como critérios fundamentais para o fazer artístico. Este fazer adquiriu, assim, um sentido mais rigoroso de trabalho intelectual, que transcende a prática romântica, essencialmente fundamentada na “inspiração”, para acrescentar-lhe a “transpiração”: o cuidado com a linguagem, a preocupação com a forma, a lapidação e o refinamento do texto.
      De uma influência basicamente, francesa, a poética parnasiana baseava-se no binômio objetividade/ culto da forma, numa evidente postura anti-romântica.
      A objetividade temática surge como negação do sentimentalismo romântico, numa tentativa de atingir a impassibilidade e a impessoalidade. Opunha ao subjetivismo decadente o universalismo; a natureza não é mais interpretada como uma extensão do poeta, e sim como algo a ser descrito de forma precisa, objetiva e impessoal.
      Retorna-se a antiguidade clássica, com seu racionalismo e formas perfeitas; desenvolve-se uma poesia de meditação, filosófica, mas artificial, isso porque essa ênfase formalista do estilo Parnasiano levou-o a desprezar o assunto em função da supervalorização da técnica e, portanto, a separar o sujeito criador de seu objeto criado, o texto, num objetivismo sem precedentes em toda a história da literatura. Em decorrência disso, a prática literária parnasiana, totalmente concentrada na produção poética, tendeu a alienar-se da vida, a refugiar-se no mundo clássico, cujos critérios artísticos adotou, tornando-se academicista, elitista, fechada em seus domínios exclusivamente estéticos.
      Nesse sentido, o Parnasianismo, excessivamente comprometido com a busca de perfeição técnica da obra de arte, é o estilo que melhor exemplifica a idéia de literatura como trabalho de linguagem, que será explorada pelos modernistas ao longo do século XX.
      Assim, enquanto o Realismo e o Naturalismo, são estilos voltados para a crítica social, a contestação dos valores burgueses, a estética parnasiana concentrou-se no ideal da arte pela arte, ou seja, valorizou, sobretudo o seu próprio mundo, em detrimento da realidade exterior.
CARACTERÍSTICA DO PARNASIANISMO

      A busca de perfeição formal, de acordo com as regras clássicas de criação poética, fez com que os poemas parnasianos primassem pelo rigor técnico.

      Suas características principais são:

• A preferência pelas formas poéticas fixas e regulares, como, por exemplo, o soneto, com esquema métricos, rítmicos sofisticados e tradicionalistas;
• O purismo e o preciosismo vocabular e linguístico, com o predomínio de termos eruditos, raros e visando à máxima precisão; e também de construção sintáticas e poéticas refinadas;
• A tendência descritivista, buscando o máximo de objetividade na elaboração do poema e assim separando o sujeito criador do objeto criado;
• O destaque ao erotismo e à sensualidade feminina;
• As referências à mitologia greco-latina;
• O esteticismo, a depuração formal, o ideal da “arte pela arte”;
• A visão da obra como resultado do trabalho, do esforço do artista, que se coloca como um técnico do verso perfeito.
      Então, o traço mais característico da poética parnasiana é o culto da forma: o soneto, a métrica Alexandrina (12 sílabas poéticas), e decassílabos perfeitos, a rima rica, rara e perfeita. O poema “Vanitas”, de Olavo Bilac, é um exemplo da poesia dessa época. Tudo isso contrapondo-se aos versos livres e brancos. Em suma é o endeusamento da Forma, como afirma Olavo Bilac no poema “Profissão de fé”, também de Olavo Bilac.



      Profissão de fé é uma declaração pública de uma crença, um juramento apoético de que o autor morrerá “em prol do Estilo”, define a palavra como algo que não se identifica com a substância das coisas, mas “veste-a” magnificamente, com isso constitui um manifesto de poesia parnasiana: é um poema metalinguístico sobre o processo de criação artística desse estilo.Observe que o poeta crê que a poesia existe em função da forma, grafada neste poema com inicial maiúscula.

Profissão de fé

Olavo Bilac

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto-relevFaz de uma flor.


Imito-. E, pois nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.


Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corte o cinzal.


Corre: desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.


Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.


Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:

E que o lavor do verso, acaso,
Por tão sutil,
Possa o lavor lembrar de um verso
De Becerril.


E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.


Porque o escrever – tanta perícia,
Tanta requer,
Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer.


Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!


Celebrai o teu o ofício
No altar: porém,
Se ainda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!


Caia eu também, sem esperança,
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do estilo!

      Profissão de fé: declaração pública de uma crença; no caso, de um conceito sobre poesia.
      Ourives: aquele que trabalha em ouro, burilando a forma; por extensão,joalheiro. No poema, compara-se a atividade poética com o trabalho do ourives, ou seja, a busca da perfeição formal.
      Carrara: cidade italiana famosa pela qualidade de seu mármore.
      Ônix: pedra preciosa. O poeta diz preferir as pedras raras ao mármore; no caso, as pedras preciosas significam as palavras nobres usadas pelos parnasianos.
      Cinzel: instrumento de aço, cortante, usado por escultores e joalheiros. No poema, compara-se o cinzel, que trabalha a forma da jóia, à pena do poeta, que trabalha a forma poética.
      Verso de ouro: o último verso de cada estrofe; para os parnasianos, a expressão mais comum era “chave de ouro”: o poeta se esmerava em obter uma imagem de efeito.
      Rubim: variante, por nasalação, de rubi. Observe a rima enfim/rubim, utilizando a forma menos usual da palavra rubi.
      Oficina: aqui, o local de trabalho do poeta/ourives.
      Deusa Forma: a divinização da forma como objetivo da postura do poeta parnasiano, da sua fé. Nas duas últimas estrofes, o trabalho do poeta é visto como um sacrifício religioso.

O PARNASIANISMO NO BRASIL

      O Parnasianismo, com sua tendência academicista, surgiu no Brasil ligado ao processo de consolidação da vida literária no país. Ao longo dessa década, uma geração de intelectuais, influenciados por filosofias materialistas, fortaleceu a oficialização do papel do escritor, em centros irradiadores das idéias modernas. Um deles era a Faculdade de Direito do Recife, liderada pelo pensador e ensaísta Tobias Barreto, que trabalhava com a cultura alemã, o direito moderno e o então chamado modernismo filosófico-científico.
      Na medida em que se caracteriza pelo academicismo e pela formalidade, o estilo parnasiano logo ocupou o espaço da “literatura oficial”, da manifestação literária representativa da “ordem vigente” brasileira, contra a qual se insurgiam os modernistas, nas primeiras décadas do século XX.
      Entretanto, nem sempre os nossos poetas parnasianos seguiram com total fidelidade os cânones do estilo. Olavo Bilac, por exemplo, o mais popular de todos, produziu muitos poemas de sensibilidade romântica.
     Ao parnasianismo sucedeu-se o Simbolismo, estilo poético em alguns aspectos fundador da modernidade, que como vimos uns de seus precursores do Simbolismo foi Charles Pierre Baudelaire, este também lançou bases para a poesia da modernidade.
      O livro Fanfarras, de Teófilo Dias, publicado em 1882, constitui nossa primeira manifestação poética parnasiana, embora autor e texto possuam menor ressonância literária que outros, mais significativos, os quais passaremos a conhecer.

ESTUDOS DOS PRINCIPAIS AUTORES E OBRAS

      A famosa tríade parnasiana brasileira compõe-se dos poetas Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correa. Além desses nomes, devemos destacar o de Vicente de Carvalho, que ficou conhecido como o “poeta do mar”, e o de Francisca Júlia, por alguns críticos considerada a voz poética parnasiana mais próxima da impassibilidade pretendida pelos defensores do estilo, conforme sugere o poema “Musa impassível”.

• Olavo Bilac (1865-1918)

      Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (alexandrino a partir do nome) nasceu no Rio de Janeiro, a 16 de dezembro de 1865. O menino Olavo só conheceu o pai em 1870, aos cinco anos de idade, quando este voltava da guerra do Paraguai; sua infância foi povoada de histórias e de hinos militares. Estudou Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum dos dois cursos. Trabalhou como jornalista, funcionário público e inspetor escolar, dedicando-se amplamente ao ensino: traduziu e escreveu versos infantis, foi autor de livros didáticos, organizou antologias escolares, Em 1915 fez campanhas pela instrução primária, pela cultura física, pelo serviço militar obrigatório e outras, de caráter nacionalista. No ano seguinte funda a Liga de Defesa Nacional. Autor da letra do “Hino à Bandeira”; mais tarde, por fazer oposição ao governo de Floriano, é exilado em Ouro Preto, Minas Gerais. A vida toda escreveu, em prosa e verso, para a imprensa, tendo sido um dos cronistas mais expressivos e polêmicos de seu tempo.
      A sua militância política em favor da causa republicana e o “exílio”’ em Minas Gerais não chegam a contaminar a sua poesia parnasiana; Bilac não foge à regra do Parnasianismo, colocando-se à margem dos grandes acontecimentos políticos e sociais de seu tempo (por exemplo, inaugurou a campanha abolicionista e é acusado de se tornar republicano somente após a Proclamação da República; mais tarde inaugurou a Primeira Guerra). No entanto, fora da poesia parnasiana podemos perceber manifestações de uma outra faceta de Bilac: as poesias em que ironiza o então ditador Floriano Peixoto são excelentes (Floriano é satirizado como “Hamleto, o príncipe das Alagoas”); as crônicas publicadas em jornais cariocas revelam o lado galhofeiro e insolente de Bilac (segundo o professor Antônio Dimas, as crônicas são “ideologicamente irregulares e ora apontam para soluções reacionárias, identificadas com o sistema vigente, ora para sua contestação”).

Suas obras parnasianas podem ser assim caracterizadas:

• Em Panóplias, o poeta se encontra voltado para a Antiguidade Clássica, basicamente para Roma. Pertencem a essa fase, entre outros, os sonetos “A sesta de Nero”, “O incêndio de Roma” e “Lendo a Ilíada”.
• Em Via Láctea , temos 35 sonetos marcados por forte lirismo. O lirismo e a temática desses sonetos são responsáveis pela popularidade imediata alcançada pelo poeta. Dentre eles, merece destaque o soneto XIII: “Ora (direis) ouvir estrelas...”.
• Em Sarças de fogo, permanece o lirismo, a que se acrescenta agora o sensualismo. É famoso o soneto “Nel mezzo del camin...”, com seus pleonasmos e inversões.
• Em Alma inquieta e Viagens, o poeta volta-se para os temas ditos filosóficos, tão ao gosto dos parnasianos.
• Em Viagens, encontramos o poema épico “O caçador de esmeraldas”, que o próprio Bilac definiu como “episódio da epopéia sertanista no século XVIII”, narração da chegada dos bandeirantes a terras mineiras, com os paulistas individualizados na figura de Fernão Dias Pais.
• Tarde mostra o poeta mais descritivo e profundamente nacionalista. É exemplo significativo do descritivismo do poeta o soneto “Crepúsculo na mata”, e bem atestam a volta ao passado nacional os sonetos “Anchieta” e “Vila Rica”. No entanto, o que mais chama a atenção do leitor em Tarde é a consciência do fim, a proximidade da morte: o crepúsculodo poeta.

      Estreou como poeta em 1888, com a obra Poesias, que foi muito bem recebida pelo público.
     De temperamento plástico e retórico, atingiu em suas criações alguns dos principais objetivos parnasianos: a perfeição formal, a habilidade na versificação, a linguagem pura e preciosa e o descritivismo, muitas vezes fortemente sensual. Sua poesia, no entanto, “é superficial como visão do homem, possivelmente por ater-se à“camada sensorial das cores, dos sons, das combinações plásticas, fazendo as próprias idéias e sentimentos se transformarem em meras palavras bem ordenadas”. (Antonio Candido e J. Aderaldo Castelho. Presença da literatura brasileira. Do Romantismo ao Simbolismo. São Paulo, Difel, 1966.)
      Além desse aspecto parnasiano, sua obra apresenta tonalidades românticas, percebidas, por exemplo, no lirismo amoroso e sensual de alguns poemas de “Via Láctea” e de “Sarças de fogo”. Em Tarde, o último livro, publicado um ano após a sua morte, um tom melancólico e de meditação sobre o sentido da vida e da morte revela a dimensão espiritualista, filosofante, deste que foi eleito, em 1907, num concurso realizado pela revista Fon-fon, “o príncipe dos poetas brasileiros”. Morre a 18 de dezembro de 1918, no Rio de janeiro.
      Olavo Bilac é o único dos grandes parnasianos que já iniciou comungando com a estética do movimento: desde o princípio buscou a perfeição formal. Tinha a preocupação de escrever versos alexandrinos e concluir com “chave de ouro”, mesmo que para isso assumisse uma postura forçada. Segundo Bilac, o poeta deve trabalhar a poesia pacientemente-“como um beneditino”-do mesmo modo que um ourives trabalha uma jóia, buscando o relevo, a perfeição formal, servindo à Deusa Forma.

A um poeta

Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

      Ao lado disso, vale-se de uma linguagem elaborada, com constantes inversões da estrutura gramatical, buscando um efeito melhor; o amor pela língua seria coroado com o famoso soneto “língua portuguesa”:

Última flor do lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura.
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

      Apesar de os poetas parnasianos serem considerados “impassíveis”, objetivos, declaradamente anti-românticos, observam-se na poética de Olavo Bilac certos traços do Romantismo. O próprio poeta afirmou: “Aos chamados poetas parnasianos também se deu se deu outro nome: ‘impassíveis’. Quem pode conceber um poeta que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível: nem sei se as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela, tem sangue e nervos”.
      Comprove essas afirmações a partir de elementos presentes no soneto “Ora (direis) ouvir estrelas...”.



Via Láctea

Soneto XIII

“ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” Eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao cair do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entende-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Comentário

      Nesse soneto, percebem-se alguns traços românticos de Olavo Bilac. Utilizando o recurso da interlocução, o sujeito poético faz o elogio do sentimento amoroso, afirmando despertar no meio da noite e abrir a janela “pálido de espanto” para ouvir e conversar com as estrelas, inda as procurando, “saudoso e em pranto”, pelo céu deserto, quando vem o sol. Aqui tanto o sujeito poético quanto a natureza revestem-se de um sentimentalismo explícito, que contrasta com outros textos do autor, mais ligados aos preceitos parnasianos.

Remorso

Olavo Bilac

Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! Com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Escansão do poema Remorso

Sin-too- quees-per-di-cei- na- ju-vem-tu-(de)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Cho-ro- nes-te- co-me-ço- de- vê-lhi-(ce)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Mar-tir- dahi-po-cri-si-aou –da- vir-tu-(de)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Os- bei-jos- que –não- ti-ve- por- to-li-(ce)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Por- ti-mi-dez- o- que- so-frer- não- pu-(de)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
E- por- pu-dor- os- ver-sos- que- não- dis-(se)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

      Nesse poema podemos perceber categoricamente a preocupação de Olavo Bilac, com a forma perfeita. Observe a que a última sílaba poética é sempre acentuada: ela marca o fim do verso, do segmento rítmico. Além da alternância entre sílabas fortes e fracas, o ritmo provém de outros efeitos sonoros, como a repetição de letras ou palavras.
      Um deles, a rima: repetição de sons semelhantes no final de versos diferentes. Verifique as rimas do trecho anterior:

Juventude / virtude / pude
Velhice / tolice/ disse

      No conjunto, fica a impressão de simétrica regularidade. No penúltimo verso, há uma alteração no esquema rítmico, preparando o verso final, aspecto mais relevante do “remorso” do poeta: “os versos que não disse”. Percebe-se o metro apoiando a famosa “chave de ouro” parnasiana.
      Por ter sido o mais popular de nossos poetas parnasianos, Bilac tornou-se um dos principais alvos da crítica dos jovens artistas que implantaram o Modernismo no Brasil, nas duas primeiras décadas do século XX.

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

      Este poema de Manuel Bandeira, escrito em 1918, foi lido numa das noites da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922.

      A semana foi um marco do Modernismo brasileiro e o poema de Bandeira afinava-se com o espírito demolidor e renovador dos modernistas.
      O poema “Os sapos”, em que Manuel Bandeira faz uma paródia do Parnasianismo e assim produz um “antimanifesto”, uma declaração do que não pretendiam os modernistas. Esse poema ilustra bem o clima reinante no tempo da semana de Arte Moderna, sintetizando na declaração: “Não sabemos o que queremos, sabemos o que não queremos”.
      O poema “Os sapos” é uma crítica de Bandeira ao Poeta Olavo Bilac, o sapo Tanoeiro é uma crítica ao poema Profissão de fé. Observe os fragmentos a seguir de ambos.

Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

      O movimento modernista retomou vários textos parnasianos, retirando-lhes a rigidez da forma e dando-lhes feitos mais espontâneos.
      Em “Via Láctea” (1888), Olavo Bilac publicou o soneto “Ora (direis) ouvir estrelas!...”.

“ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!.Eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

      Mesmo escrito posteriormente, o poema de Manuel Bandeira funciona como introdução ao soneto de Bilac.

A estrela

Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do meu dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

      Hoje parece consenso da melhor crítica reconhecer em Bilac não um grande poeta, mas um poeta eloqüente, capaz de dizer com fluência as coisas mais díspares, que o tocam de leve, mas o bastante para se fazerem, em suas mãos, literatura.

●Alberto de Oliveira (1859-1937)

      Antônio Mariano Alberto de Oliveira nasceu em Palmital de Saquarema, Rio de Janeiro, a 28 de abril de 1857. Forma-se em Farmácia; abandona o curso de Medicina no terceiro ano. Data de 1883 sua amizade com Olavo Bilac e Raimundo Correa; é um dos sócios fundadores da academia Brasileira de Letras. Em 1924, já em pleno Modernismo e sob o impacto da Semana, é eleito Príncipe dos Poetas, no lugar deixado vago por Olavo Bilac (os “príncipes” sempre foram parnasianos). Morre a 19 de janeiro de 1937, em Niterói.
      Foi considerado o poeta parnasiano mais disciplinado, mais apegado às regras e às características específicas do estilo, estreou com Canções românticas, livro romântico que antecipa sua adesão ao arnasianismo.
      Embora tenha vivido 80 anos de profundas transformações políticas, econômicas sociais, além de literárias, Alberto de Oliveira sempre permaneceu fiel ao Parnasianismo e à margem dos acontecimentos históricos. A partir de seu segundo livro, Meridionais (1884), já segue as características parnasianas, a nota intimista da estréia repontaria esparsamente até os últimos poemas, provando que não fora possível, nem ao primeiro dos mestres parnasianos, a impassibilidade que a escola preconizava. Sendo mesmo considerado mestre dessa estética, pois foi realmente o mais perfeito dos parnasianos. Sua temática restringiu-se aos rígidos ensinamentos da Escola: uma poesia descritiva que abrangia desde a natureza até meros objetos, exaltando-lhes a forma (como por exemplo os sonetos “Vaso grego”, “Vaso chinês”, “A estátua”), uma impassibilidade por vezes traída por tons intimistas de alguns sonetos, o culto da arte pela arte e a exaltação da Antiguidade Clássica. A linguagem extremamente trabalhada chegava, às vezes, ao rebuscamento.
      Na verdade, a teoria do “poeta impassível” era uma chochice que só a mediocridade da reflexão estética de todo esse período seria capaz de engendrar. Na origem, a poesia que se seguiu à dos românticos tendeu a diferenciar o momento emotivo pelo registro mais atento das sensações e das impressões, deslocando assim a tônica dos sentimentos vagos para a visão do real. Baudelaire falava em “moral das coisas”, o que não significava impassibilidade, mas objetividade. Desta última, mal-entendida, passou-se em pouco tempo ao fetichismo do objeto, à reificação, do que fala a crítica dialética ao analisar o espírito da sociedade burguesa nos seus aspectos autofruidores.
      O parnasiano típico acabará deleitando-se na nomeação de alfaias, vasos e leques chineses, flautas gregas, taça de coral, ídolos de gesso em túmulos de mármore...e exaurindo-se na sensação de um detalhe ou na memória de um fragmento narrativo.
      De tal poética nasce a composição do quadro, da cena, do retrato:

Vaso chinês

Alberto de Oliveira

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tina ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pinta-la! A gente acaso vendo-a
Sentia um não-sei-quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Comentário

      Soneto que busca desvendar o universo evocado por um objeto de arte, um vaso chinês. Repare que ao longo do poema o sujeito poético caracteriza a figura passional e triste do autor do vaso – “Fino artista chinês, enamorado”, que “nele pusera o coração doentio”- imaginando-a por meio das “rubras flores” e também da “singular figura” de um velho mandarim, nele pintadas...
      A arte pela arte,aspirando a desfazer-se de qualquer compromisso com os níveis da existência que não os do puro fazer mimético, na sua concepção parnasiana acaba especializando-se em uma arte sobre a arte que se concentra na reprodução de objetos decorativos: lá o vaso chinês, aqui a copa e a estátua grega:

Vaso grego

Alberto de Oliveira

Esta, de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois... M o lavor da taça admira,
Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual de da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa a voz de Anacreonte fosse.

      Olimpo: segundo a mitologia grega, morada dos deuses.
      Poeta de Teos: referência a Anacreonte, poeta grego natural de Teos ( século VI a.C.), famoso por suas canções de amor irônicas e melancólicas.
      Esvazada: esvaziada.
      Colmada: coberta, cheia.
      Depois... representa uma ruptura no desenvolvimento do poema; há, aliás, a sugestão de um viagem no tempo – os dois quartetos referem-se à Grécia antiga; os dois tecertos convidam o leitor, contemporâneo, a admirar a beleza da taça, sua sonoridade.
      Ignota: ignorada, desconhecida.
      “Vaso grego”, de Alberto de Oliveira, é considerado um dos sonetos mais representativos do Parnasianismo.
      Destaque para a perfeição formal, métrica rígida e linguagem extremamente trabalhada, chegando por vezes ao exagero, como exemplifica o fragmento que segue.

Estátua

Às mãos o escopro, olhando o mármor: “Quero
– O estatuário disse – uma por uma
As perfeições que têm as formas de Hero
Talhar em pedra que o ideal resuma”.

      Mas, quando consegue livrar-se do bizantinismo desses motivos, o poeta produz versos expressivos, belamente sóbrios:

É um velho paredão, todo gretado,
Roto e negro, a que o tempo uma oferenda
Deixou num cacto em flor ensangüentado
E num pouco de musgo em cada fenda.
(“O Muro”)

      Quando voltado para a natureza, Alberto de Oliveira é, em geral, mais vibrante. Falando da palmeira livre na montanha, um dos seus tópicos, ou de fonte na mata, o parnasiano não se subtraía ao fascínio da tradição romântica que, sem dúvida, fora a grande redescobridora do mundo selvagem e da possibilidade de os homens nele se evadirem guiados pela poesia.
      O ato de objetivar-se retoma a senda da identificação animista:

Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leque abrindo, ora os leques fechando;

E isto que aqui não digo então dizer: ― que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendas a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas.

E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh’alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
(“Aspiração”)

      Texto quase todo fraco, mas significativo como tema. A regressão romântica ainda mais se acentua quando se casam o hino à natureza e os sons das memórias juvenis, nos cantos de “Alma em Flor”.
      O que, entretanto, sela a constância do parnasianismo em Alberto de Oliveira é a fidelidade a certas leis métricas que a leitura de Castilho (Tratado de Versificação) e dos franceses mais rígidos como Banville e Heredia pusera em voga e os conselhos acadêmicos de Machado de Assis tinham vivamente estimulado. Forrados de tais princípios, os nossos parnasianos entraram a deplorar, com ralo senso histórico, a “frouxidão” e a “incorreção” dos românticos, sem perceberem que estes tinham no ouvido outros ritmos, mais próximos dos modelos medievais e populares, e estavam mais inclinados ao fluido sugestivo da melodia que à mecânica do metro.
      No código novo condena-se o hiato, responsável pelo afrouxamento dos elos entre as palavras; em conseqüência, rejeita-se a diérese, que dilui a pronúncia dos ditongos. Acatando essas proibições, Alberto de Oliveira cai no extremo oposto, a contração sistemática das vogais que resulta no verso duro e martelado.
      Releia-se este verso de “Aspiração”:
      E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas.
      A contagem parnasiana do alexandrino une com violência as três primeiras vogais (eoé) e elimina o hiato de “oceano”, escandindo o-cea-no.
      A rigidez no nível prosódico ajustava-se àquelas pretensões de impassibilidade de Alberto de Oliveira que, como homem, foi saudosista e sempre se alheou dos problemas nacionais, chegando mesmo a declarar em um dos seus últimos livros: “Eu hoje dou a tudo de ombros, pouco me importam paz ou guerra e não leio jornais”.
      Aliás, não só na métrica procurou ser duro o mestre fluminense; também a sua sintaxe mais de uma vez se contrai e inversões neoclássicas quando não em verdadeiras sínquises barrocas, como se vê atentando para a primeira quadra de “Vaso Grego” acima transcrito.
      Com todos os seus limites, porém, Alberto de Oliveira representava algo que ia além dos modismos do Parnaso: aquela mudança de eixo que se operou na poesia ocidental a partir de Gautier e de Baudelaire ― da expressão romântica do ego para a invenção formalizante do objeto poético.
      Segundo, Antonio Candido e J. Alderaldo Caastelho ― Presença da literatura brasileira. Do Romantismo ao Simbolismo. (1979)
      “... Vista de hoje, a sua obra parece conter dois defeitos contraditórios: prosaísmo e preciosismo. (...) Se quase não suportamos o realismo comezinho de alguns poemas, ou o tom professoral de outros, continuam a atuar sobre a nossa sensibilidade a riqueza ornamental de alguns deles, a beleza de certas experiências da natureza, o sentimento angustioso de pesadelo, que reponta do começo ao fim na sua obra como indício de inquietação maior, por entre a rotunda solenidade ou a banalidade rasteira.
(...)
      Considerando por muitos o mais perfeito ou o mais característico do parnasianos brasileiros, Alberto de Oliveira mereceu as seguintes palavras de Olavo Bilac: “Foste e és o chefe da nossa escola poética. E não sei que nome deva dizer a esta doutrina, que me ensinaste, e ensinaste a tantos outros. Será ela essa famosa escola parnasiana, tão apregoada, tão defendida e tão combatida, sempre tão pouco compreendida? (...) Os poetas franceses (...) quiseram apenas lembrar que, em matéria de arte, não se compreende um artista sem arte; que, sem palavras precisas, não há idéias vivas; que, sem locução perfeita, não há perfeita comunicação de sentimentos; e que não pode haver simplicidade artística sem trabalho, e maestria sem estudo. Estas mesmas idéias preconizaste, no Brasil, pela palavra e pela ação, meu nobre mestre. Foi esta a instrução, de que foste o maior e melhor professor”.

● Raimundo Correa (1859-1937)

      Raimundo da Mota de Azevedo Correia nasceu a 13 de maio de 1859, a bordo do navio São Luís, ancorado em águas do Maranhão. Advogado pela Faculdade do Largo de São Francisco, São Paulo.
      Autor de uma poesia filosofante, pessimista, que tem por tema fundamental a passagem do tempo, a transitoriedade da vida. “No entanto, esse aspecto é nele muito desigual, com um peso negativo de falsa profundidade, na linha sentenciosa habitual aos parnasianos. O melhor de sua obra está nalgumas peças em que traduziu o mais profundo desencanto, seja do ângulo subjetivo, seja do ângulo exterior, ou em certos poemas nutridos de uma concepção fina e encantadora da natureza, aliada à mais efetiva magia versificatória...” (Antonio Candido e J. Alderado Castello. Presença da literatura brasileira. Do Romantismo ao Simbolismo, 1996).
      Publica em 1883 o livro Sinfonias, com o qual se firmou como poeta parnasiano, pois o livro era perfeitamente parnasiano, realizando a poesia descritiva típica desse estilo, também presente em Versos e versões e Aleluias. O livro Sinfonias tinha o prefácio de Machado de Assis. Em 1897, torna-se sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. Falece a 13 de setembro de 1911, em Paris.
      Raimundo Correa estreou como romântico: o livro Primeiros sonhos, uma coleção de versos em que Machado de Assis sentiu “o cheiro romântico da decadência”, versos de adolescente que o autor não incluiria na edição definitiva das Poesias. Mas note-se que em meio a cadências casimirianas, há um soneto à idéia Nova, que já então anunciava o republicano e o progressista.
      Esse livro revela influência de quase todos os poetas românticos brasileiros, de Gonçalves Dias a Castro Alves. Só assume o Parnasianismo a partir do livro Sinfonias, formando desde então a Trindade Parnasiana, ao lado de Olavo Bilac e de Alberto de Oliveira. Sua temática é a da moda da época, cantando a natureza, a perfeição formal; dos objetos, a cultura clássica; merece destaque apenas sua poesia filosófica, de meditação, marcada pela desilusão e por um forte pessimismo.
      Com sinfonias já temos o sonetista admirável de “As Pombas”, “Mal Secreto”, “Anoitecer”, “A Cavalgada”, “Vinho de Hebe”, “Americana”. Falando do sortilégio verbal do poeta, Manuel Bandeira nos ensinou a ver nele o autor de “alguns dos versos mais misteriosamente belos de nossa língua”, versos que, repetidos em tantas antologias escolares, nem por isso perderiam o encanto de suas combinações semânticas e musicais:

As pombas

Raimundo Correa

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, célebres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Ou ainda:

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

(“Anoitecer”)
(Bandeira comenta: “Quem não vê nesse decassílabo todas as celagens e orvalhos da aurora?”)
Neste, sublima o efeito do hiato:
A toalha friíssima dos lagos (“Árida Noturna”).
Aqui, a repetição do dáctilo:
a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitecer (“Cavalgada”).
Outros exemplos de magia plástica e sonora podem-se acrescentar aos citados pelo crítico-poeta:
As cabeleiras líquidas ondulam (“Missa Universal”),
Por céus de ouro e de púrpura raiados (“Anoitecer”),
O sangrento perfil traço por traço (“Luz e treva”),
Ilha isolada como um dorso de baleia (“A ilha e o Mar”),
De um sanguineo abutre a rubra garra viva
(“O Povo”),
Dos cabelos a surda catadupa
(“Americana”),
A pomba da volúpia, a treva densa
(“Na Penumbra”),
Na extrema raia do horizonte infindo
(“Despedida”).

      Mesmo fora do contexto, esses versos resistem por seu poder de transmitir sensações raras, complexas, às vezes agrupadas em sinestesias.
      Era constante em Raimundo a capacidade de assimilar estilos alheios, dom que lhe custou por vezes a pecha injusta de plagiário. Fino tradutor, fez seguir às Sinfonias, os burilados Versos e Versos.
      Um aspecto controvertido de sua obra foi levantada por Luís Murat, desencadeando violenta polêmica: foi Raimundo Correa um plagiador? Ou um “recriador”? A diferença é sutil. O que não pode negar nem o mais ferrenho defensor do poeta é a patente influência, às vezes exageradas, de autores europeus em sua obra. É o caso do soneto “As pombas”, uma repetição literal das idéias apresentadas por Gautier em “Mademoiselle de Maupin”, ou do soneto “Mal secreto”, “recriação” de um poema Metafísico. Entretanto há de se destacar a força lírica de Raimundo Correa, principalmente ao cantar a natureza, quando atinge belos versos impressionais, como em :
      Menos fecundo e mais sensível, Raimundo Correa esbateu os tons demasiado claros do Parnasianismo e deu exemplo de uma poesia de sombras e luares que inflectia amiúde em meditação desenganadas.


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"OS SERTÕES", DE EUCLIDES DA CUNHA

Canudos não se rendeu. Resistiu até o esgotamento completo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.   Os Sertões
                                            
RESUMO

Este estudo tem por objetivo explicar alguns conceitos em relação à guerra de Canudos, acontecida em 1897, com o intuito de acabar com o arraial do Belo Monte, no sertão da Bahia, onde inexistiam diferenças sociais. Canudos foi o maior movimento nordestino de resistência à opressão dos latifundiários, movimento este que refletia a extrema miséria em que viviam as populações marginalizadas do sertão nordestino, que não sabiam a diferença entre monarquia e república. Essas pessoas iam para essa região em busca de uma vida melhor, com menos desigualdade entre as pessoas, entretanto, pagaram com a vida por um sonho de paz.

Palavras chave: 1- Os Sertões, 2- Guerra de Canudos, 3- Região de Canudos.

INTRODUÇÃO

      Este estudo abordará alguns pontos da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Os Sertões foi publicado em 1902, é dividido em três partes: A Terra, O Homem e A Luta. Com uma linguagem de difícil entendimento, uma vez que possui muitos termos científicos. Tem por tema os personagens e cenários da insurreição de Canudos, em 1897, no norte da Bahia.

      É considerado por muitos como a maior obra da literatura brasileira. Esse livro foi quase todo escrito, em São José do Rio Pardo, foi, no dizer de Euclides da Cunha, “escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante”, quando foi enviado para região de Canudos, cuja função era observar e cobrir as operações militares nessa região.

      O livro é resultado dessa viagem e observação, daquela inexplicável e sanguinolenta guerra civil, no fundo dos sertões ignotos da Bahia. O subtítulo já o denunciava: Campanha de Canudos (entre parênteses). Campanha militar narrada com tamanha exaltação na defesa dos diretos das vítimas e na condenação dos responsáveis por aquela tragédia nacional.

TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS NO BRASIL

      O Brasil do final do século XIX foi marcado por inúmeras agitações sociais, desde movimentos separatistas como a Confederação do Equador, agitações abolicionistas, a própria abolição e até a República. O maior centro populacional do país, o Rio de Janeiro, também era considerado um grande centro comercial por intermediar os recursos da economia cafeeira, a capital inicia o século XX em uma situação realmente excepcional. A cidade era um espaço de confluência cultural e econômica que se comunicava com todo o país e acumulava recursos no comércio, nas finanças e já também nas aplicações industriais.

      Ao mesmo tempo, com o processo de abolição e com a vinda de imigrantes, a cidade passava por uma superlotação, que demandava capital móvel para fazer o pagamento dos trabalhadores, agora livres. O então ministro da Fazenda, Rui Barbosa, dá início a um processo de incentivo às atividades na bolsa de valores, foi o chamado Encilhamento. Este processo causou uma confusão maior ainda na cidade, pois fortunas mudavam de mãos, dizia-se que “o rico de hoje era o tintureiro de ontem”, não se sabia mais quem possuía poder político ou econômico. Adiciona-se a essa confusão, a enorme e sempre crescente população da cidade que passou a se instalar em casarões formando cortiços e verdadeiros “antros de promiscuidade”.

      Sob a influência das ideologias européias, o Estado brasileiro inicia o processo de Regeneração do Rio de Janeiro, que tem como objetivo “higienizar” a cidade, mandando a população pobre para a periferia (dando origem às favelas), e procurando construir uma imagem moderna para a capital do país. A Regeneração foi financiada por investidores estrangeiros que se aproveitavam da indirec rule, característica dominante no país. Além disso, a modernização da cidade facilitaria o espaço de fluxo de matéria-prima aos portos brasileiros, e assim, facilitaria a ação do imperialismo.

      Na República, “confrontavam-se” Liberais, que se representavam basicamente pela elite paulista influenciada pelo cosmopolitismo progressista internacional e os Conservadores representados pela vanguarda republicana, positivista e militar, influenciada por estigmas de intolerância e isolamento. Na prática, os ideais destes dois grupos são indiferenciáveis: “nada mais conservador do que um liberal no poder”, a República dos Conselheiros se dava então, com o revezamento da gestão das duas classes.

      Fortalecendo o movimento republicano, mesmo porque D. Pedro II havia boa parte de seu apoio político; somando-se a isso, a questão militar e a questão religiosa, foram fatos determinantes para a proclamada a República, assim em 15 de novembro de 1889 é proclamada a República, ou melhor, dizendo termina o regime monárquico.

      A República não alterou a vida brasileira, pois, mais uma vez, caracterizou-se como um movimento das elites sem qualquer tipo de participação popular. Nas altas esferas políticas, o comando, contrariamente ao que ocorreu nas camadas populares, sofreu consideráveis alterações, pois o poder a partir de então ficaria distante das vestantes moderadoras de 1824.

      Apartir de 1891 é proclamada uma nova constituição as notícias da nova República causou muitas revoltas entre os portugueses do Brasil que não queriam cortar os laços entre os dois países.

      O primeiro presidente da República foi Marechal Deodoro da Fonseca. Esse período em que o poder foi assumido por militares, ficou conhecido como República da Espada.

      Posteriormente aos militares os cíveis teriam total hegemonia sobre o poder (a exceção de Hermerda Fonseca em 1910 estabeleceu uma República baseada no poder das oligarquias). Governo de peneios que desviou até 1930, esse período ficou conhecido como República Velha.

      Como a República era mais um sistema para as elites, a camada pobre estava vivendo em completa miséria. Então, as pessoas começaram a fugir para uma região chamada Canudos em busca de apoio, comida, enfim, procuram um modo para viver.

EUCLIDES DA CUNHA

      Ensaísta e narrador extraordinário de Os Sertões, Euclides da Cunha é o primeiro escritor a encarar o gigantismo da terra brasileira, fazendo de sua obra um dos principais alicerces da consciência nacional.

      Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo, Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1866. Viveu a infância e a adolescência em fazendas e cidades fluminenses, junto aos tios que o criaram a partir dos três anos, quando perdeu a mãe. Em 1885 entrou para a Escola Militar. Por atos de indisciplina, entre os quais ante a revista do ministro da Guerra atirar ao chão o sobre que deveria apresentar-lhe, em 1888 foi desligado do Exército. Passou a assinar colaboração para A Província de São Paulo, combatendo o governo e pregando a República. Reingressou na Escola Politécnica e, proclamada a República, foi readmitido no Exército e promovido.

      Na Escola superior de guerra, fez os cursos de artilharia, engenharia militar, estado-maior e bacharelou-se em matemática, ciências físicas e naturais. Designado professor coadjuvante da Escola Militar, passou a escrever artigos sobre problemas políticos e sociais.

      Em 1895 deixou o Exército e dedicou-se à engenharia civil. Em 1897, depois de publicar em O Estado de S. Paulo dois textos sobre a campanha de Canudos, foi convidado pelo jornal a ir à Bahia, onde presenciou os últimos momentos do conflito, matéria-prima de Os Sertões (1902).

      Eleito em 1903 para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no ano seguinte partiu para a Amazônia como chefe da comissão de reconhecimento do Alto Purus: a experiência durou até 1905, inspirando-lhe o projeto de nova obra: Um paraíso perdido, que jamais escreveria.

      Apreciação. Síntese de temperamento romântico e informação científica. Euclides da Cunha, principalmente em sua obra principal, Os Sertões, é um ensaísta e narrador de impetuosa originalidade. Encerra, em seu talento, a primeira transposição autêntica de um Brasil maior ainda não descoberto, geográfica e socialmente marginalizado pela civilização litorânea. Embora sua obra seja das mais elogiadas da literatura brasileira, continua, sob muitos aspectos, um desafio. Se de um lado se comunica pela paixão desabrigada, que tem raízes cravadas no fundo do romantismo, de outro, na consciência e nos meios, se orienta por um realismo didático e de caráter cientificista.

      O resultado de uma linguagem singular, de vigorosa força dramática e ritmo febril, em que se confundem a fúria primitiva e o apuro civilizado. O leitor é arrebatado por uma irresistível vocação para o épico e depara com um heroísmo telúrico em que desponta pela primeira vez, sem concessão ao exótico ou ao pitoresco, e na própria substância da linguagem, a verdadeira paisagem e o verdadeiro homem brasileiro.

      Com a formação marcada pelo positivismo, pela transição do Império para a República, pelos valores da classe média emergente e de olhos postos na Europa culta, Euclides da Cunha frequentemente assimilou como científico o que era ideológico. Mas nem o determinismo geográfico, nem o etnocentrismo de base colonialista o impediram de uma idealização em sentido contrário, que faz do sertanejo um herói “homérico”, um “titã”, um forte.

      Torturado, filtrando em retórica explosiva a imagem crua da terra tropical, triunfa por sua energia criadora e apesar dos instrumentos conceituais ou metodológicos de seu tempo. De tal modo que, em determinada cenas e comparações, no que projeta de seu temperamento sobre o texto, como deformação expressiva, tem algo de expressionista avant la lettre.

      Desbravador, consciência rebelde em conflito e busca de exatidão, entre ciência e arte, entre pesquisa e denúncia, Euclides da Cunha trouxe para o primeiro plano, para o centro de sua obra, o homem do interior do Brasil, “ensinando-nos – na expressão de Guimarães Rosa – o vaqueiro, sua estampa intensa, sua humanidade, sua história rude”. Por isso, se consagra como alicerce da consciência nacional, porta-voz de um otimismo crítico e sem veleidades ufanistas.

OBRAS

      Os Sertões tem por tema os personagens e cenários da insurreição de Canudos em 1897, no nordeste da Bahia. Divide-se em três partes – A Terra, O Homem, A Luta –, ao longo das quais o autor analisa as características geológicas e hidrográficas da região, sua flora, sua fauna e a gente sofrida que faz a história daqueles dias: gente convulsionada pela esperança messiânica e pelo desespero social, capaz de resistir até os últimos frangalhos humanos.

      Entre outras obras, Contrastes e Confrontos (1907), foi publicada em Portugal, abordando problemas político-sociais de âmbito nacional e internacional. A capacidade de síntese, a sinceridade e o vigor do estilo garantem-lhe a permanência, como a de Peru Versus Bolívia, do mesmo ano, em torno de um litígio entre os dois países. À margem da história (1909) tem um interesse adicional; os primeiros capítulos, quase metade do livro, constituiriam matéria esparsa da obra sobre a Amazônia. O ideário estético de Euclides aparece com clareza na conferência Castro Alves e seu tempo (1907), em seus prefácios (para Inferno Verde de Alberto Rangel e Poemas e canções de Vicente de Carvalho) e relatórios.

      Ao voltar para o Rio de Janeiro, Euclides da Cunha trabalhou no Itamarati ao lado do barão do Rio Branco e em 1909 prestou concurso para a cadeira de lógica do Colégio Pedro II. Menos de um mês depois da nomeação, foi vítima de uma competição funesta e para qual nada lhe adiantava o gênio criador: surpreendido pelo adultério da mulher, procurou o amante (que era oficial do Exército, e atirador) e tentou sem êxito alveja-lo, sendo morto com um tiro que lhe foi disparado pelas costas, atravessando-lhe um pulmão, no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1909 (seu filho, anos mais tarde, ao tentar a vingança, teve a mesma sorte).

CANUDOS : SOLO, FLORA, FAUNA E CLIMA

      Todas traçam, afinal, elítica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde erigia o arraial de Canudos.

      Galgava o topo da Favela. Ali estavam os mesmos acidentes e o mesmo chão, embaixo, fundamentalmente revolto, sob o indumento áspero dos pedregais e caatingas estonadas... Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros – arregoados divagantes de algares, sulcos de despenhadeiros, socovas de bocainas, criava-lhe perspectiva inteiramente nova. E quase compreendia que os matutos crendeiros, de imaginativa ingênua, acreditassem que “ali era o céu...”

      O arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo pertubado. Mas vistos daquele ponto, de perneio a distância suavizando-lhes as encostas e aplainando-os todos os serrotes breves e inúmeros, projetando-se em plano inferior e estendendo-se, uniformes, pelos quadrantes-, davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande.

      Em roda uma elipse majestosa de montanhas...

      Presa em uma dessas voltas via-se uma depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de confusos tetos incontáveis, um acervo enorme de casebres...

      Os climas que divergem segundo as menores disposições topográficas, criando aspectos díspares entre lugares limítrofes.

      Vai-se para o norte, salteiam-no transições fortíssimas: a temperatura; carrega o azul dos céus; embaciam-se os ares; e as ventanias rolam desorientadamente de todos os quadrantes.

      Ao mesmo tempo espalha-se o regime excessivo: o termômetro oscila em graus disparatados passando, já em outubro, dos dias com 35 graus à sombra para as madrugadas.

      Fere-a o sol e ela absorve os raios, e multiplica-os e reflete-os, e refrata-os, num reverberar ofuscante.

      O dia, incomparável no fulgor, fulmina a natureza silenciosa em cujo seio se abate, imóvel, na quietude de um longo espasmo, a galhada sem folhas da flora sucumbida.

      Desce a noite, e todo este calor se perde no espaço numa irradiação intensíssima, caindo à temperatura de súbito, numa queda única, assombrosa...

      São dias esbraseados e noites frigidíssimas.

      Copiando o mesmo singular desequilíbrio das forças que trabalham a terra, os ventos ali chegam, em geral, turbilhonando revoltos, em rebojos lagos. E, nos meses em que acentua, o nordeste grava em tudo sinais que lhe recordam o rumo.

      Estas agitações dos ares desaparecem, entretanto, por longos meses, reinando calmarias pesadas – ares imóveis sob a placidez luminosa dos dias causticante. Imperceptíveis exercem-se, então, as correntes ascensionais dos vapores aquecidos sugando à terra a umidade exígua; e quando se prolongam, esboçando o prelúdio entristecedor da seca, a secura da atmosfera atinge a graus anormalíssimos.

      Se ao assalto subtâneo se sucedem as chuvas regulares, transmudam-se os sertões revivescendo. Passam, porém, não raro, num giro célere, de ciclone. A drenagem rápida do terreno e a evaporação, que se estabelece logo mais viva, tornam-nos, outra vez, desolados e áridos. E penetrando-lhe a atmosfera ardente, os ventos duplicam a capacidade higrométrica e vão, dia a dia, absorvendo a umidade exígua da terra – reabrindo o ciclo inflexível das secas...

      Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de um estepe nua.

      Ao passo que a caatinga o afoga, repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bocejar imenso, de torturas, da flora agonizante...

      As suas árvores, vistas em conjunto, semelham uma só família de poucos gêneros, quase reduzida a uma espécie invariável, divergindo apenas no tamanho.

      As leguminosas, altaneiras noutros lugares, ali se tornam anãs. Atrofiam as raízes mestras batendo contra o subsolo. São os cajueiros anões, macambira, os caroás, os gravatás.

      As nopaleas e cactos, nativas em toda a parte, entram na categoria das fontes vegetativas. Tipos clássicos da flora desértica.

      As favelas têm nas folhas de célula alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação e defesa.

      São deste número todas as plantas leguminosas e as catingueiras.

      Os juazeiros, que raro perdem as folhas de um verde intenso.

      Caracterizam a flora caprichosa na plenitude do estio.

      Os mandacarus atingindo notável altura, raro aparecendo em grupos, assomando isolados acima da vegetação caótica, os xiquexiques, fracionam-se em ramos fervilhantes de espinhos, recursos e rasteiros, recamados de flores alvíssimas, os cabeças-de-frade, deselegantes e monstruosos melocactos de forma elipsoidal, e os quipás que se arrastam pelo solo, a Catanduva, mato doente, da etimologia indígena, dolorosamente caída sobre o seu terrível leito de espinhos.

      Mas, em março reboam ruidosamente as trovoadas fortes, e sobre o solo, ressurge triunfalmente a flora tropical: os mulungus, as caraíbas e baraúnas, os marezeiros, os icozeiros, as moitas floridas do alecrim – dos tabuleiros, de caules finos e flexíveis.

      O umbuzeiro é a árvore sagrada do sertão. Representa o mais frizante exemplo de adaptação da flora sertaneja.

      Essa planta alimenta, mitiga a sede. E ao chegarem os tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da umbuzada tradicional, seu fruto é o juá.

      E o sertão é um paraíso...

      Ressurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas: disparam pelas baixadas úmidas os caititus esquivos; passam em varas, pelas tigueiras, queixadas, sericóias o tapir.

      As pombas bravas que remigram, e rolam as turbas turbulentas das maritacas estridentes... Segue o sertanejo tangendo a boiada farta e entoando a caatinga predileta.

      Passam-se um, dois, seis meses venturoso, derivados da exuberância da terra, até que surdamente, pouco e pouco, caiam, as folha e as flores, e a seca se desenha outra vez nas ramagens mortas das árvores decíduas... e assim volta a seca novamente.

SERTANEJO

      O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

      A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

      É desgracioso, desengonçado, torto, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos.

      O gaúcho filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta tem certa feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida. Não tem, no meio das horas de felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre um ameaça, tomando aquela instável e fugitiva.

      As suas vestes são um traje de festa ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais. O poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das arvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda, encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis, e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aparado está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.

      Já o vaqueiro, porém, criou-se em condições opostas - tendo sobre a cabeça, como ameaça o sol.

      Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança.

      O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiros antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muitas justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em joeiras de sola; e resguarda os pés de pele de veado - é como forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo.

      A sela da montaria é feita por ele mesmo. São acessórios: uma manta de pele de bode, um couro resistente, cobrindo as ancas do animal, peitorais que lhe resguardam o peito, e as joelheiras apresilhadas às juntas. Um colete vistoso de pele de gato do mato ou sucurana, com pêlo mosqueado virado para fora, ou uma bromília rubra e álacre fincada no chapéu de couro. – e cai na postura habitual, tosco, deselegante e anguloso, em um estranho manifestar de desnervamento e cansaço extraordinários.

      Quanto à religião está na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido, repleto de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano.

      É o homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas supertições mais absurdas.

      A sua religião é como ele – mestiça.

      É um índice da vida de três povos. E as suas crenças singulares traduzem essa aproximação violenta de tendências distintas.

      Muitas coisas são absurdas na devoção desse povo, mas há um que chamou atenção, quando fala das mães erguendo os filhos pequeninos e lutavam, procurando – lhes a primazia no sacrifício... O sangue espaçava sobre a rocha jorrando, acumulando-se em torno; afirmavam os jornais do tempo, isso era o fanatismo. Já para com a fé os sertanejos fizeram um templo prodigioso, monumento erguido pela natureza e pela fé, mais alto que as catedrais da terra.

      Enfim, todas as profecias esdrúxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; e as missões; e as penitências... Todas as manifestações complexas de religiosidades indefinidas são explicáveis.

DUAS SOCIEDADES DISTINTAS NORTE – SUL

      Os sertões do norte refletem novos regimes, novas exigências biológicas. A raça inferior, o selvagem bronco, dominava-o; aliado ao meio vence-o, esmaga-o, anula-o na concorrência formidável.

      Isto não aconteceu em grande parte do Brasil central e em todos os lugares do sul. E volvendo ao sul, no território que do norte de Minas Gerais para o sudeste progride até o Rio Grande, deparam0-se condições incomparavelmente superiores:

      Uma temperatura anual média de 17 a 20 graus, num jogo mais harmonioso de estações; um regime mais fixa das chuvas que, preponderantes no verão, se distribuem no outono e na primavera de modo favorável às culturas. Atingindo o inverno, a impressão de um clima europeu é precisa.

      São duas histórias distintas, em que se haveriam movimentos e tendências opostas. Duas sociedades em formação, alheadas por destinos rivais.

      Ao passo que no sul se debuxavam novas tendências, uma subdivisão, maior na atividade, maior vigor no povo, mais heterogênio, vivaz, prático, aventureiro, largo movimento progressista; tudo isto contrastava com as agitações, às vezes mais brilhantes, mas menos fecunda, do norte.

      Assim é fácil mostrar como esta distinção de ordem física esclarece as anomalias e contrastes entre os sucessos nos dois pontos do país; sobretudo no período agudo da crise colonial, no século XIII.

      Enquanto o domínio holandês, centralizando-se em Pernambuco, na plenitude do século XVII o contraste se acentua.

      Os homens do sul irradiam pelo país inteiro. Até aos últimos quartéis do século XVIII, o povoamento segue as trilhas embaralhadas das Bandeiras.

      A formação brasileira do norte é muito diversa da do sul. As circunstâncias históricas, em grande parte oriunda das circunstâncias físicas, originaram diferenças inicias no elance das raças, prolongando-as até nosso tempo.

      Quando as correrias do bárbaro à Bahia , Pernambuco, ou Paraíba, e os quilombos se escalavam pelas matas, nos últimos refúgios do africano revolto – o sulista, dê-lo a grosseria odisséia de Palmares, surgia como debelador clássico desses perigos, o empreiteiro predileto das grandes hecatombes.

      O sul foi povoado pelos Bandeirantes; a região média, pelos vaqueiros, e no norte seco, pelas missões jesuíticas.

A MESTIÇAGEM NO BRASIL

“NÃO TEMOS UNIDADE DE RAÇA”

      O Brasil era a terra do exílio; vasto presídio que se amedrontavam os heréticos e os relapsos da sombria justiça daqueles tempos. Deste modo nos primeiros tempos o número reduzido de povoadores contrasta com a vastidão da terra e a grandeza da população indígena.

      Historicamente, os cruzamentos entre portugueses e negros se realizavam no litoral, porque o negro vinha para o trabalho escravo nos canaviais da costa brasileira. Entre portugueses e índios, realizaram - se no sertão, pois os gentios se refugiavam no agreste do interior, avessos ao trabalho por razões culturais.

      O homem do sertão parece feito por um molde único, revelando quase os mesmos caracteres físicos, a mesma tez, variando brevemente do mameluco bronzeado ao cafuz trigueiro; cabelo corredio e duro ou levemente ondeado; a mesma envergadura atlética, os mesmos vícios, e as mesmas virtudes.

      A uniformidade do norte é, inegavelmente, o tipo de uma subcategoria étnica já constituída.

      A mistura de raças muito diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior. De sorte que o mestiço – traço de união entre as raças – é, quase sempre, um desequilibrado. Não há terapêutica para este embater de tendências antagônicas, de raças repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado.

      Para Euclides da Cunha, a mistura de raças diferentes é prejudicial, pois os sertanejos formavam uma raça forte.

      O isolamento do povo fortalece a espécie, mas é fator determinante da estagnação, provocando o atraso, o conservadorismo, a igualdade de pensar... O isolamento torna-se retrógrado, mas não degenerado.

      Euclides da cunha se baseava na teoria racial do final do século XIX, que afirmava ser a raça branca sinônimo de progresso, condenando a miscigenação.



ANTÔNIO CONSELHEIRO

      Antônio Vicente Mendes Maciel, o conselheiro, nasceu em Quixeramobim, no Ceará. Trabalhou com o pai comerciante, que morreu ao se desentender com os Araújos, seus inimigos. Depois dos casamentos das irmãs, ele se casou logo, e desiludiu com a traição da companheira. Envergonhado, mudou-se, sem fixar; Sobral, Campo Grande, trabalhando como caixeiro e escrivão de juiz. Em Ipu , fugiu-lhe a mulher, acompanhando um soldado. Em Paus Brancos, alucinado, feriu um seu parente que o hospedara...

      Reapareceu dez anos depois, nos sertões de Pernambuco e em Itabaiana, em 1874, impressionando os sertanejos: alto e magro, barba e cabelos desgrenhados e longos, túnica de brim americano azul, com uma corda na cintura, sandálias, alforje e chapéu de couro, ele pregava nos povoados uma doutrina confusa, que se misturava às rezas de dois catecismos que carregava “Missão Abreviada” e Horas Marianas”. Pregava o fim do mundo, a preparação para a morte, a penitência... A multidão o seguia, sem que ele a convocasse. Fazia prédicas e profecias, casamentos e batizados, reconstruía igrejas, muros de cemitérios... O clero o tolerava e procurava, deixando-o pregar, até mesmo contra a República, que interveio em ares regidas pela tradição e reservados à religião. Como aumentasse seu ataque, a igreja tentou interrompe-lo.

      Em Bom Conselho, reuniu o povo num dia de feira e queimou as tábuas dos impostos, discordando das leis republicanas do governo de Satanás. O acontecimento repercutiu e a polícia reagiu. Perseguido, o conselheiro tomou a estrada de Monte Santo, defrontando-se com a tropa em Macete. Os 30 praças armados atacaram. Os jagunços os desbarataram.

      O conselheiro – conhecedor do sertão – e seus seguidores tomaram o rumo do norte. Chegaram a Canudos, em 1893, uma fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris. “Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito”.

      Antônio Conselheiro pregava contra a República, contra o governo do Anti-cristo e da lei do cão. “Mas não traduzia o mais pálido intento político”. Os jagunços, “rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa”, não conseguiram diferenciar a República da Monarquia.

A GUERRA DE CANUDOS

      Canudos era uma região no sertão baiano, que era uma área fustigada pelas secas e dominada pelo latifúndio, o que gerava em grau de miséria.

      Aconteceu durante o governo de Prudente de Moraes (1892-1898), nessa época o Brasil tornou-se cenário de manifestações coletivas de um catolicismo ristico, não somente no nordeste, mas em especial no sertão nordestino.

      Começaram a surgir os Beatos, entre eles destacou-se Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Maciel), o mais conhecido Beato começou a trazer para seu redor inúmeros sertanejos movidos por sua fé. Estabeleceram a comunidade de Belo Monte, na qual o igualitarismo vinha em primeiro plano.

      Os fazendeiros locais vinham como uma ameaça aos seus interesses, pois a pregação dos Beatos tinha um forte sentimento anti-republicano, o que colocava em questão o poder governamental, além disso, Canudos causava a fuga dos trabalhadores do comércio e das fazendas para o povoado.

      Cada vez mais, o conselheiro era ouvido pelos sertanejos porque consolidava seu papel de líder e formava a cada dia, um séquito de “conselheirista”, dando-lhes a esperanças e ajuda na luta contra a guerra de uma organização social profundamente injusta.

      “O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as colinas”, sem ordem, sem ruas: um verdadeiro labirinto, com casa de pau-a-pique, habitadas por uma população multiforme, de sertanejos simples, beatas, ricos proprietários que abandonavam tudo em busca de salvação e por bandidos ali protegidos, que respeitavam as regras: rezar e fazer sacrifícios para alcançar a vida eterna. A igreja, uma fortaleza, a mais importante obra do conselheiro, estava diante da praça.Canudos era um labirinto de casas, ruas, e becos, onde cada sombra escondia um inimigo.

      Sucessivas expedições militares tentaram sufocar os habitantes de Canudos, porém, a resistência dos sertanejos se fez de forma brilhante, quebrando ainda mais a moral do governo, pressionado pela opinião pública, que teria eminente revolta contra o regime.

      O estopim da guerra de Canudos foi um episódio sem importância que faria explodir uma verdadeira tragédia.

      Com a proximidade do término da construção da nova igreja de Belo Monte, Antônio Conselheiro solicitou, como de hábito ao coronel João Evangelista Pereira e Melo, a compra de madeira em Juazeiro, para a cobertura do templo.

      Era julho de 1896, a madeira não foi entregue, o conselheiro enviou um grupo dos seus seguidores para apanhar a referida madeira, com isso o juiz de direito Arlindo Leoni, antigo desafeto do peregrino, mandou telegramas ao governador da Bahia Luiz Viana, avisando de uma possível invasão dos adeptos do conselheiro, e pedindo providências. Foi assim que surgiu a primeira expedição contra Canudos.

      Canudos estava com mais de cinco mil casas, nas quais moravam cerca de 30000 pessoas. Após sucessivas batalhas, os sertanejos de Canudos foram subjugados por tropas governamentais em 05 de outubro de 1897, pondo fim a um dos movimentos de massa mais marcante da historiografia brasileira.

UM OLHAR SOBRE CANUDOS

      No primeiro momento, antes que um olhar pudesse acomodar-se àquele montão de casebres, presos em rede inextricável de becos estreitíssimos e dizendo em que parte a grande praça onde se fronteavam as igrejas, o observador tinha a impressão exata de topar, inesperadamente, uma cidade vasta. Feito grande fosso escavado, à esquerda, no sopé das colinas mais altas, o Vaza-Barris abarcava-a e inflectia depois, endireitando em cheio para leste, rolando lentamente as primeiras águas da enchente. A casaria compacta em roda da praça a pouco e pouco se ampliava, distendendo-se, avassalando os cerros para leste e para o norte até às últimas vivendas isoladas, distantes, como guaritas dispersas – sem que uma parede branca ou telhado encaliçado quebrasse a monotonia daquele conjunto assombroso de cinco mil casebres impactos numa ruga de terra. As duas igrejas destacavam-se, nítidas.

      A nova, à esquerda do observador – ainda incompleta, tendo aprumadas as espessas e altas paredes mestras, envolta de andaimes e bailéus, mascarada ainda de madeiramento confuso de traves, vigas e baldrames, de onde se alteavam ar pernas rígidas das cábreas com os moitões oscilantes – erguida dominadoramente sobre as demais construções, assorbebando a planície extensa; e ampla, retangular , firmemente assente sobre o solo, patenteando nos largos muros grandes blocos dispostos numa amarração perfeita – tinha,com efeito, a feição completa de um baluarte formidável. Mais humilde, construída pelo molde comum das capelas sertanejas, enfrentava-a a igreja velha. E mais para a direita, dentro de uma cerca tosca, salpintado de cruzes pequenas e malfeitas – sem um canteiro, sem arbusto, sem uma flor – parecia um cemitério de sepulturas rasas, uma tibicuera triste. Defrontando-as, do outro lado do rio, breve área complanada contrastava com o ondear das colinas estéreis: algumas árvores esparsas, pequenos renques de palmatórias rutilantes e as ramagens virentes de seis pés de quixabeiras davam –lhe o aspecto de um jardim agreste. Aí caía a encosta de um esporão do morro da Favela, avantajando-se até ao rio, onde acabava em corte abrupto. Estes últimos rebentos da serrania tinham a denominação apropriada de Pelados, pelo desnudo das faldas. Acompanhando o espigão na ladeira, que para eles descamba em boléus, via-se, a meio caminho, uma casa em ruínas, a Fazenda Velha. Sobranceava-a um socalco forte, o Alto do Mário.

“CANUDOS ERA A NOSSA VENDEIA”

      O significado dessa expressão, que as medidas planeadas pelo general Sólon

      Denotavam, portanto, exata previsão de sucessos semelhantes, na luta excepcionalíssima para a qual nenhum autor suíço de um tratado de tática militar delineara regras, porque invertia até os preceitos vulgares da arte militar.

      Malgrado os defeitos do confronto, Canudos era a nossa Vendeia (França) e os terrenos alagados emparelhavam-se bem como o jagunço e as caatingas. O mesmo misticismo, gênese da mesma aspiração política; as mesmas ousadias servidas pelas mesmas astúcias, e a mesma natureza adversa, permitiam que se lembrasse aquele lendário recanto da Bretanha, onde uma revolta, depois de fazer recuar exércitos destinados a um passeio militar por toda a Europa, só cedeu ante as divisões volantes de um general sem fama, as colunas infernais do general Turreau – pouco numerosas , mas céleres, imitando a própria fugacidade dos vendeanos, até encurralá-los num circuito de 16 campos entrincheirados.

      Não se olhou, porém, para o ensinamento histórico.

      É que se preestabelecera a vitória inevitável sobre a rebeldia sertaneja insignificante.

      Isso quer dizer que essa luta travada em Canudos, a sua preparação por parte dos generais, era baseada em um conflito que houve na França, e por ter dado certo o general Sólon esperava aqui no Brasil resultado semelhante, ou seja, vitória semelhante.

A CAMPANHA CONTRA CANUDOS “UM CRIME”

      Um crime, pois as pessoas que lá se refugiavam queriam apenas uma vida melhor, salvação, ajuda espiritual, isso eles não possuíam fora de lá.

      O Brasil estava passando por um momento econômico muito difícil, como já foi salientado.

      De um lado estava a camada que possuíam dinheiro, e do outro a camada marginalizada, e com isso surgiu no Brasil diversos conflitos, o qual está Canudos.

      Foi uma covardia contra Canudos o que aconteceu, até o pretexto para invadir Canudos foi absurdo, porque o juiz de juazeiro armou uma situação quando recusou-se em entregar a madeira encomendada para a construção da igreja de Canudos . O conselheiro queria apenas a madeira, e o juiz aproveitou-se dessa situação e mandou uma carta para o governado, dizendo de uma invasão dos habitantes de Canudos. Esse foi o estopim da guerra de Canudos.


      Fato lamentável, pessoas inocentes pagaram com a vida, pessoas que já sofriam com a fome, seca, enfim com tanta desigualdade social. Um acontecimento bárbaro, um crime contra a nacionalidade.

ASA BRANCA

Quando oiei a terra ardendo
quá fogueira de São João
eu perguntei a Deus do Céu
purquê tamanha judiação


Qui braseiro, qui fornaia
nem um pé de prantação
pru farta dágua perdi meu gado
morreu de sede meu alazão


Inté mesmo o asa branca
bateu asas do sertão
entonce eu disse, adeus Rosinha
guarda contigo meu coração


Hoje longe muitas léguas
numa triste solidão
espero a chuva cair de novo
pra mim volta pro meu sertão


Quando verde dos teus óio
se espaiá na prantação
eu te asseguro, num chore não, viu?
que eu voltarei, viu, meu coração.

ANÁLISE DA LETRA DA MÚSICA ASA BRANCA

      A música Asa Branca mostra categoricamente a situação do povo do sertão. Fala da falta de chuvas, consequentemente, não tem como plantar, criar gado, e até mesmo o pássaro típico do sertão foi-se embora. Mostra a situação do homem que tem que deixar a família em busca de trabalho, uma vez que não tem como plantar, criar animais no sertão, então ele parte em busca de uma situação melhor.

      Além disso, a música mostra o homem bem distante do sertão, triste, com saudades de sua terra natal, da mulher que deixou para trás. Mas apesar de todo o sofrimento de estar distante, ele espera a chuva cair de novo, o sertão ficar verde para voltar. E esse homem assegura que quando isso acontecer, a mulher não necessita chorar mais, porque ele voltará com certeza.
      Essa música é muito interessante, aborda bem a realidade do povo do sertão, que sofre com a seca, muitos tem que partir em busca de sobrevivência, e quando as coisas melhoram, eles voltam novamente, pois acima de tudo amam sua terra.
      Uma palavra importante na música é a pergunta que se faz a Deus: o porquê de tanto sofrimento com aquele povo?
      A linguagem da música é de acordo com aquela região, ou seja, é uma variante regional. Um fala caipira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

      Em primeiro lugar quero dizer que esse trabalho trouxe-me muito conhecimento, é uma obra de difícil leitura, por trazer muitos termos científicos, mas é um livro escrito com muita originalidade, muito rico.
      Foi muito importante fazer este trabalho, pois aprendi muito sobre a guerra de Canudos, fatos que desconhecia e é muito importante conhecer a história do nosso Brasil.
      Na minha visão de leitora da obra Os Sertões, pude observar que a guerra foi um acontecimento trágico; e o estopim um acontecimento banal.
      A obra Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902), vem relatar esse fato, com o intuito de denunciar um crime contra nossa nacionalidade.
      Canudos era habitado por todos os tipos de pessoas, mas a grande maioria era mulato ou caboclo, Antônio conselheiro era o chefe supremo.
      Essas pessoas viviam de forma comunitária. Este modelo sócio econômico era uma atração constante para milhares de sertanejos esfomeados que viam no arraial a possibilidade de viverem livres de extrema opressão da corte e viam no líder espiritual de Antônio Conselheiro a salvação da alma.
      Para os sertanejos o arraial era a “terra prometida”. Para os poderes latifundiários era um reduto de fanáticos assassinos que precisavam ser destruídos para o bem das pessoas consideradas de bem.
      A igreja oficial perdia os seus adeptos e os coronéis sua mão-de-obra praticamente gratuita. Isso eles não podiam perdoar. E o governo para atender os interesses desses grupos resolveu exterminar Canudos, e esta tragédia aconteceu entre 1896 a 1897.
      Euclides da Cunha vem retratar esse acontecimento, na obra Os Sertões.











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