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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

ANÁLISE DO POEMA "O ANDAIME", DE FERNANDO PESSOA

“Se quiser dizer que existo, direi Sou eu.
Se quiser que existo, mas como alma separada, direi Sou eu.
Mas se quiser dizer que existo como entidade, (...)
que exerce junto de si mesma a função divina de se criar (...)
então, antigramaticalmente supremo, direi Sou – me.”



Fernando Pessoa - Ortônimo



1. INTRODUÇÃO

      A proposta deste Trabalho orienta para o estudo do perfil literário do autor em sua forma ortônimo, e na análise das características semânticas, literárias da obra Andaime, e o estilo da época em que foi produzida.
      A criação surpreendente e inovadora dos heterônimos de Fernando Pessoa teve início em 1914, na fase inicial de sua obra o poeta português utilizava seu próprio nome, ou ortônimo para assinar suas criações.       Essa primeira fase de sua poética é visivelmente influenciada pelo Simbolismo Francês e pelo Saudosismo, sendo esse último, um movimento literário surgido em Portugal sob a influência de Teixeira de Pascoais, que buscando se espelhar em poetas que o precederam, tenta um ressurgimento cultural e artístico das letras e da civilização portuguesa, tendo como referências o passado político e literário alcançado pela pátria lusitana.
      Fernando Pessoa, na primeira fase de sua obra recria esta tendência poética, lançando um novo movimento literário, chamado Paulismo, reconhecido como uma forma intelectualizada de Saudosismo, que trazia uma poética fortemente influenciada pelo clima “decadente” dos ultra-simbolistas. Sucessivamente o poeta português lançou o Interseccionismo e o Sensacionalismo. Os três “ismos” criados por Pessoa são considerados de caráter pouco inovador e de menor relevância teórica frente à criação genial dos heterônimos.
      A produção de Fernando Pessoa como “ele mesmo”, foi publicada em duas coletâneas poéticas, Mensagem e na obra Cancioneiro, nelas o poeta revela todo seu perfil lírico-patriótico-saudosista, seguindo os passos dos mais ilustres escritores da história literária lusitana.
      Na obra Mensagem, construída em três partes, Pessoa traça um retrato simbólico e artístico de enaltecimento à grandiosidade histórica de sua terra. A primeira parte intitulada, Brasão, é voltada para destacar os fundadores da nacionalidade portuguesa. Na segunda parte nomeada, Mar Português, predomina a temática das conquistas ultramarinas realizadas pelos portugueses na segunda metade do século XV; na terceira parte, O encoberto, Pessoa recria poeticamente o mito do Sebastianismo, lenda originada pelo fato do corpo do rei Dom Sebastião não ter sido encontrado, depois que o exército português foi derrotado durante a batalha de Alcácer-Quibir, contra os mouros, em 1573.
      Na crença popular Dom Sebastião estaria vivo e oculto em um determinado lugar, de onde sairia no momento certo para redimir a nação portuguesa, então anexada à coroa espanhola em 1580. O mito do Sebastianismo ganhou entre a nação portuguesa um caráter político e messiânico.
      A primeira fase da obra de Pessoa se mostra contraditória em relação ao conteúdo corrosivo de sua criação, expresso em especial, nos heterônimos Alberto Caiero e Álvares de Campos, mas a grandiosidade de sua poética reside justamente no fato de abrigar facetas tão diversas, que não cabiam em uma única identidade, em um eu poemático estático e comum.


2. ANÁLISE SEMÂNTICA DO POEMA “O ANDAIME”- FERNANDO PESSOA – ORTÔNIMO

      Nosso poema foi retirado da obra Mensagem, escrita no período neoclássico (século XVI), composta por versos líricos e épicos.
      Segundo alguns críticos, “Andaime é um vocábulo de origem árabe, que os dicionários descrevem como uma armação de madeira ou ferro de que se servem os pedreiros para construir um edifício, sendo demolido após a construção; também um meio de fazer erguer para elevar às alturas, as paredes de uma casa.”


O Andaime

Bom tempo que eu hei sonhado
Quanto ano foi de vida!
Ah, quando do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha esperança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não são ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passa-verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixou-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças-
Mortas, porque hão de morrer.


Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim-
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.

Onda passada leve-me
Para o ávido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Tema

      A temática do poema Andaime, voltada em sua maioria para figuras de aliteração, descreve a vontade do poeta em alçar vôos além da imaginação. Como o próprio nome indica, propõe ao leitor um mundo de sonhos, calmaria, de melancolia ao saudosismo do que não foi supostamente realizado.

A calmaria das águas

      Rio, sol, Andaime e mar = usam de símbolos. Na maioria de seus poemas aparece esta simbologia (rio); o uso de metáfora – na 3ª estrofe (esperança, desejo= bola subindo ou rolando); comparação – 7ª estrofe “como”, percebemos também que intercalado uma estrofe faz referencias ao “eu - lírico”, e a outra ao rio, e assim sucessivamente.

Figuras de Estilo

      Há antítese em todo o poema, pois Fernando está sempre retomando o passado o presente, o sonho, a vida, ao mesmo tempo ocorre comparação entre o que foi vivido e o que foi sonhado; gradação: (“Horas, dias, anos, breves”) (, então logo percebemos que dentro da gradação já acontece uma antítese, pois anos, dias, não são breves, são longos.

Características Temáticas

      Poeta lírico, dialético, de gosto levemente barroco, esteta, que escreve seus versos “à beira – mágoa”

Eu/rio

      O poeta recorda o seu passado olhando as ondas do rio. Elas lembram-lhe a vida «vivida em vão». O «correr vazio» do rio é como a própria vida. O poeta está na margem sossegado e não encontra nenhuma razão para explicar o seu sossego. Olha com indiferença as ondas, ouvindo o «som morto das águas». Tudo passa, tudo vai, como a corrente do rio. O corte entre o passado e a tomada de consciência no presente é radical. Todo o seu passado foi um grande erro, um engano colossal.
      Na alternância eutéria, este serve para nos oferecer o negativo do seu pensamento. O “eu” aspirou a tudo e experimenta agora a desagregação do tempo e de tudo. Encontramos uma distância entre o idealizado e o realizado e a conseqüente frustração.

      O mar é símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e a ele regressa. Aí se nasce e aí se morre. O poeta pede às ondas (daí os imperativos) que o levem «Para o olvido do mar». É o desejo do retorno ao seio materno, à indiferenciação. Só o mar é remédio, só as suas águas o podem envolver no esquecimento.

      Na 1ª estrofe Pessoa o remete ao passado como algo que ficou perdido por causa das mentiras. Muitos anos se passaram e ao invés de viver a realidade ficava sonhando e imaginando como seria o futuro.
Na primeira estrofe, podemos entender que existe um “eu-lirico” pensando no tempo, que viveu de sonhos, e quantos anos ele perdeu imaginando um futuro, além disso, percebemos que o “eu-lírico” enxerga que sua vida foi de mentiras.

      Na 2ª estrofe a melancolia e a sensação de que vivera em vão lhe trazia um sossego por vezes sem ração de ser. Aparece no poema o espaço, assim, pode-se dizer que o “eu - lírico”, esta às margens de um rio. As águas passam, mas de uma forma lenta, com um som morto, águas mansas. Dá um aspecto sombrio ao ambiente, solidão, tédio, enfim, um tom de tristeza com a vida. E, também, o “eu - lírico” não sabe o porquê de seu sossego/ sossego sem ter razão/, pois o que está acontecendo em sua vida é motivo para estar agitado, preocupado, entretanto está tranqüilo.

     Na terceira quintilha  o sujeito poético diz de que vale o nosso desejo se temos que esperar por uma oportunidade para realizá-lo. O “eu-lírico” se dá conta que sua esperança é muito pequena para alcançar seu objetivo, porque ele ata faz uma comparação entre sua esperança e desejo de alcançar seus sonhos com uma bola de criança, essa sobe mais que sua esperança e rola mais que seu desejo.

      Na 4ª estrofe o autor expressa o tempo. Que passam dias, horas anos e estações e acabam em nada, porque não viveu nada. Ele continua observando a calma do rio, e pensa na brevidade da vida, chega a pensar que a vida é muito passageira/ as horas/ dia/anos/breves/. Entretanto, além dos pensamentos sobre a brevidade da vida, e dos sonhos difíceis de alcançar, agora surge o sol/ Que o mesmo sol faz morrer.

      A 5ª estrofe expressa a fugacidade da vida, que os anos passaram, da ilusão em que vivera somente no palco da vida podia se sentir importante , mas que nada lhe restou disso tudo. Aqui, o “eu-lírico” diz que está mais velho do que realmente é, no nosso entender é que ele perdeu todas as suas esperanças, sonhos, e um homem só está realmente velho quando deixa de sonhar, procurar atingir seus objetivos. Assim, ele chega à conclusão de que sua vida era de ilusão, e somente essa ilusão que o mantinha, agora ele percebe o que realmente está acontecendo.

      Na 6ª estrofe o poeta retoma novamente suas lembranças, esperanças e sonhos que só lhe trouxeram nostalgia. O “eu-lírico” está olhando para o rio, e retomando o passado, este de lembranças sonolentas e esperanças nevoentas. Aqui ele percebe que a vida é um sonho. O rio está calmo/ som das águas lentas/, o que dá um aspecto de desejo a morte, a um meio de evadir-se dessa realidade de frustração.

      Na 7ª estrofe o poeta indaga como pode se deixar perder assim, deveria ter sido mais confiante em si mesmo. Ele pergunta o que fez dele, e confessa que houve um momento que estava perdido no seu “eu”, porém encontrou-se, mas não aceitou a realidade encontrada, ou seja, esperava algo e não aconteceu, dessa forma essa realidade encontrada não servia, e assim rejeitou-a e compara-se a / um louco que teima no que lhe foi desmentido./

      A 8ª estrofe pede que levem de sua mente não só as lembranças, mas também toda sua esperança que com certeza irão morrer. Novamente descreve o ambiente, com uma diferença, agora cita o ambiente com um tom sombrio e menciona a palavra “morto”. O rio traz semblante de morte, e corre porque tem que ser assim, ele pede para que leve nessas águas suas lembranças, e as esperanças mortas./ Mortas, porque hão de morrer./ Ou seja, não há mais objetivos, sem desejos um homem não vive.

      Na 9ª quintilha a esperança já perdida lhe apresenta um futuro morto. Pensa no que deveria ter sido. Que a vida de leviandade que vivera foi porque ele não conseguiu privar-se dele mesmo.
Não há mais futuro, pois apenas um sonho era motivo para viver, no entanto, esse sonho é atrasado e obscuro/ do que eu devera ser/.
      Podemos perceber que agora, ele menciona elementos novos, no poema como: muro e jardim deserto. O muro pode ser entendido como uma barreira, um obstáculo. Já o jardim, seria uma coisa bonita, entretanto, o jardim é deserto.
      Entendemos o muro como um obstáculo para sua vida sem sentido, de desilusões, tristeza, busca, frustração como um jardim deserto. O que nos da a entender que é uma metáfora, uma relação de muro, jardim deserto, sonhos frutados.

      A 10ª estrofe demonstra a insatisfação pessoal vivida pelo eu poético. Aqui o “eu-lírico” pede que o rio leve-o para o mar. O que sabemos dessa relação, que todos os rios deságuam no mar. O mar é o símbolo de grandeza, dinâmico da vida, movimento, agitação. Tudo sai do mar e a ele regressa. Então, podemos perceber ao final do poema que “eu-lírico”, ainda depois de todas as afirmações de desilusões, frustrações, angústias, ainda vê uma esperança quando estiver junto do mar, como se o mar curasse seu mal.

/ Que arquei com um andaime/
/A casa por fabricar/
Como foi mencionado Andaime é um meio de fazer erguer, para elevar as alturas, as paredes de uma casa.
Assim, o “eu-lírico” queria erguer sua própria vida (“casa”).
Luta da personalidade e do inconsciente humano.

A Dialética em seus poemas

      O Ser e o fazer ou quere e o fazer; querer consiste na imaginação quando se traduz, no sonho do desejo absoluto. O fazer significa a realização quando produz insatisfação, limitação, incompletude.


ANÁLISE ESTRUTURAL DO POEMA “O ANDAIME”- FERNANDO PESSOA

1 2 3 4 5 6 7
O /tem/pó/ que eu/ hei/ son/hado
1 2 3 4
Quan/ tos a/nos /foi /de vida!
Ah, quando do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha esperança,
Rola mais que o meu desejo.

      Como percebemos, Fernando pessoa aborda muito em seus poemas, questões relativas à identidade perdida, à reflexão sobre a existência. Ele trabalha muito os estados (tidos como) “negativos”. Como a solidão, o tédio, a dor de viver, etc.
      O poema é composto por 60 (sessenta) versos distribuídos em 10 estrofes. Cada estrofe contém 5 versos. As estrofes seguem ao seguinte sistema : ABAAB da 2ª à 10ª , exceto a 1ª estrofe observa o sistema rítmico ABABA. As rimas – interpoladas.
      Temos musicalidade nas estrofes em que Fernando relata a natureza, pois como observamos, uma estrofe fala de um “eu” e um “tu”, ou seja, na 1ª estrofe a voz do eu lírico referindo a si, e a 2ª à natureza, isso predomina alternadamente em todo o poema.

“O tempo que eu hei sonhado”
“Este seu correr vazio”
“Sobre mais que a minha esperança”
“Que não sois ondas se quer”.

      Então notamos que o poema traz uma contínua comparação de que Fernando faz de si em relação ao rio, ás águas do rio. Quando Fernando fala de si, notamos um tom nasalizado, que configura o prolongamento de sua dor e sofrimento. (“aliteração em m, n”). Porém quando Fernando fala do rio percebemos a predominância do som de “s”, que nos remete a uma musicalidade que lembra o leve correr das águas do rio. (“ondas do rio, tão leves”).
      A presença do sinal de exclamação (!) traz-nos também essa percepção de dor, sofrimento, emoção em fim. (“Quantos anos foi de vida!”), (“Ah! Quanto do um passado”, “De esperanças nevoentas!”), (“Que sonho o sonhe e a vida!”) , (“para o olvido do mar!”) ...
Toda a adjetivação (adjetivos) não acontece por acaso, pois trazem em si um excesso minucioso dos fatos que o autor propositalmente coloca.
      Notamos uma retomada a traços tradicionais como a própria posição das rimas, termos como, rio, água, em contraposição com temas modernos, como o próprio título do poema O Andaime, que reaparece na última estrofe. (“Que cerque com um andaime”).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALFARRÁBIO.di.uminho.pt/vercial/letras/ensaio15.htm - 30k/ dia 29/03/2007 às 07:39
MOISÉS, MAssaud. A literatura Portuguesa. 21ª edição. São Paulo: Ed. Cultrix, 1985.

PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: ed. Martin Claret, 1998.



Sobre a obra


O livro “Dias melhores pra sempre!”, da editora Ateliê, elaborado pelo Canal do Livro, reúne 31 lições do grande poeta Fernando Pessoa para cada dia do mês.
O principal diferencial da obra é ressaltar trechos importantes do escritor de uma forma simples e com uma linguagem jovem.
As frases selecionadas mostram como lidar com sentimentos como o amor, a perda, a solidão, a amizade e a desilusão ao longo da vida e das experiências vividas no dia-a-dia.

Sobre o autor


Nascido em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888, Fernando Pessoa é considerado o maior poeta português do século XX.
Sua obra foi produzida por meio de heterônimos como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, que são personalidades poéticas completas, com biografias próprias, estilos literários e recursos estilísticos diferenciados, e que produzem obras paralelas às criadas pelo escritor.
O poeta desenvolveu suas obras com influências do Cubismo, do Surrealismo, do Expressionismo e do Simbolismo.


&


LEIA O POEMA NA ÍNTEGRA NO ENDEREÇO:

http://stat.correioweb.com.br/arquivos/educacao/arquivos/FernandoPessoa-Mensagem0.pdf
 









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