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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

CONTO, "PENSÃO", DE RICARDO GUILHERME DICKE

      Ricardo Guilherme Dicke nasceu em Raizana, município de Chapada dos Guimarães, em 1936. É um escritor renomado em nossa literatura regional, possui uma grande produção literária. Além disso, Ricardo Guilherme Dicke é reconhecido, pois, atualmente, é um dos escritores mais premiados do Estado de Mato Grosso.
Guilherme Dicke publicou até o momento:

Deus de Caim, 4° lugar, Prêmio Walmap 1968;
Caieira, Prêmio Remington de Prosa, 1977;
Madona dos Páramos, 1982;
O último horizonte, 1988;
A chave do abismo, 1989;
Cerimônias do esquecimento, Prêmio da Academia Brasileira de Letras, 1995;
Conjuctio Opositorium no Grande Sertão, 1999;
Salário dos Poetas, 1999;
Rio Abaixo dos vaqueiro, 2000.
Uma das características mais singulares da obra de Guilherme Dicke é, sem dúvida, a sua capacidade de entabular, numa linguagem densa e em tramas fortes, temas caríssimos à literatura ligados ao misticismo, à filosofia e à fragilidade humana. (MAGALHÃES, 2001, p. 204)
      A obra de Guilherme Dicke apresenta-se sem grande dificuldade linguística, pois encontramos em sua escrita frases curtas, linguagem informal, o diálogo entre as personagens é realizado de forma simples, ou seja, sem fala rebuscada, pesada.
Vamos à leitura de um conto do citado autor.

"Pensão"

Homem sentado numa cadeira da porta da pensão. Homem de bigodinho, com um menino no colo. Menino desfolha uma papoula. Meio-dia. Homem palitando os dentes. Acabou de almoçar.
E a polícia passa em redor, atrás, na frente da pensão. Pensão Beija-Flor. Haverá assassinos na pensão Beija-Flor?
Virgulino veio dos lugares onde se colhe borracha, dos seringais do deputado Gamão. Matou dois homens para roubar os tabletes de ouro. E fugiu pra cá. A polícia toda está alvoroçada, procurando o assassino. Num jipe da polícia:
__ Será que acharemos o homem, Gumercindo?
__ Não sei, Servílio, essas coisas são sempre difíceis, você sabe.
__ Sim, eu sei!
__ Diz que ele tá armado até os dentes e é ruim que só o demo.
__ O jipe roda, se vai.
Na porta da pensão, numa cadeira de balanço, o home se balança tranquilamente e fuma com o menino no colo.
__ Ainda bem que passei na casa de minha mulher e trouxe meu filho Júnio. Ninguém vai desconfiar de um homem com seu filho. Foi assim: cada um desses homens que matei tinha uma barra de ouro. Eram capatazes do seringal Chofrado. Primeiro, convidei o primeiro deles. Guiomar, para dar uma volta. E longe, bem longe (eu sabia que ele tinha uma barra de ouro no bolso, meti-lhe um punhal na garganta que varou do outro lado. Caído no chão, morto, revistei-lhe os bolsos e tirei a barra de dois quilos de ouro. O outro, João Colvara, não queria vir passear comigo, tive de fazê-lo lá mesmo, quando ele entrou no banheiro, que era todo de troncos de pau no chão, com um buraco no meio, vim por trás e afoguei-o num abraço terrível. Estrangulei-o. Procurei nos seus bolsos, achei a outra barra de dois quilos. Tenho agora quatro quilos. Com esse ouro, que vou vender no Paraguai, viajarei para a Europa com meu filho. Meu filho não sabe de nada, é inocente.
Homem tranquilamente balançando na cadeira de balanço na sombra da frente da pensão Beija-Flor.
___ As duas barras estão enroladas em panos bem escondidas na minha mala. Ninguém achará. Ninguém me prenderá, porque não houve testemunhas, nem haverá nunca. Lá na França comprarei um castelo pra mim. Estou cansado de viver em casinhas pobres e pensões. Mandarei buscar minha mulher Rute e viveremos como reis.
A polícia rondando:
___ Leite, você acha que encontraremos o homem?
___ Ninguém, nem sequer sabemos o nome dele. Ninguém viu.
___ Difícil, Leite.
___ Difícil nada. Quando chegar efetivos da capital, o acharemos.
___ Acharemos nada. Pedro, casos destes não se resolvem fácil assim.
E o carro roda pelos caminhos de Livramento.
Na cadeira de balanço com o filho com a papoula na mão, balança tranquilamente, quase sem pensar em nada, na frente da pensão Beija - flor.
___ Morrerei de velhice, até lá meu filho já terá a minha idade. Rute será uma matrona respeitável. Ninguém descobrirá o que eu fiz no seringal.
E o homem afaga os bigodes, boceja, se balança na cadeira de balanço.
Passam carros de polícia por trás, na frente, nos lados da pensão Beija-Flor. Os homens conversam sobre o assassino de João Coivara e Guiomar.
O homem de bigodinho, com o filho no colo, com a papoula na mão se balança tranquilamente na cadeira de balanço.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

MAGALHÃES, Hilda Dutra. História da literatura de Mato Grosso: século XX. Cuiabá: Unicen Publicações, 2001.


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