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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ANÁLISE DO ROMANCE "A HORA DA ESTRELA", DE CLARICE LISPECTOR



Enfim, enfim quebrara-se realmente meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu , eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for, pois "eu" é apenas um dos espamos instântaneos do mundo.
(Clarice Lispector - 1920-1977)



A hora da estrela, publicado em 1977, é uma obra em que Clarice Lispector flagra uma personagem tanto numerosa quanto desprezada na sociedade brasileira: a imigrante nordestina em estado de miséria.
       
A Macabéa é a menina do sertão que nasceu raquítica, herança do sertão e de maus antecedentes, num ambiente de extrema pobreza, em Alagoas. Ficou órfã dos pais aos dois anos. Ela, então, foi criada à base de cascudos por uma tia beata que a obrigou a estudar datilografia. Com a morte da tia, Macabéa resolveu ir para o Rio de Janeiro, decisão tomada sem que soubesse exatamente por que.
      No Rio dividia um quarto perto do cais com mais quatro moças (Marias) e trabalhava como datilógrafa num pequeno escritório, mantendo-se quase milagrosamente, já que executava seu trabalo de modo sofrível, cometendo erros. O salário era miserável. Mantinha uma dieta de cachorro-quente com coca-cola, nada mais. Á noite, mastigava pedacinhos de papel para enganar o terrível vazio do estômago.
      A miséria, a ausência total de afeto fez de Macabéa uma criatura quase nula: "Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham; [...] ela vive num limbo impessoal, inspirando e expirando [...] O seu viver é ralo".
     Ela é totalmente destituída de qualquer conforto, totalmente alienada do consumismo, de ser mulher. "Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação.
     Macabéa até pensava que se por acaso viesse alguma vez a sentir um gosto bem bom de viver desencantaria de súbito. Dessa forma, defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar.
      Teria ela a sensação de que não vivia pra nada?
     Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar.
      A protagonista era uma moça calada (por não ter o que dizer). Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser.
     Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco, é um encontro.
     Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia. "Que dava hora certa e cultura". No intervalo entre as "gota de minutos", havia anúncios comerciais. Ela adora anúncios. Essa personagem tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas. Era cheia do vazio que enche a alma dos santos. Ela era uma espécie de santa. "Não sabia que meditava, pois ignorava o que quer dizer a palava. Mas sua vida era uma longa meditação sobre o nada; (Meditava enquanto batia a máquina, por isso errava ainda mais).
     Uma vez viu um livro que o patrão deixara sobre a mesa. "Humilhados e Ofendidos". Ficou pensativa. Talvez tivesse se definido pela primeira vez numa classe social. Pensou, pensou e pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecera era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?
     O que a salva da indigência da transparência total, é algo que ela traz em si tremeluzindo como uma pequena chama de uma pequena vela: anseios vagos e fragmentos de vida e de alegria.
     No dia 7 de maio, sob uma forte chuva de final de tarde, conheceu Olímpico, por quem se apaixona, sua goiabada com queijo. Olímpico tinha cometido crime de morte no Nordeste, e havia se mudado para o Rio de Janeiro. É do tipo de homem inseguro que se esconde sob uma camada de ignorância, estupidez, etc. Apresentou-se para Macabéa, como: Olímpico de Jesus Moreira Chaves, metalúrgico. Mas Olímpico era apenas Olímpico de Jesus, porque no sertão era assim que as pessoas chamavam quando tinham pai ignorado.
     Olímpico aparece na vida de Macabéa para trazer mais decepção. Ele nunca foi carinhoso, sempre muito ignorante, impaciente. Até que um dia conhece Glória, colega de Macabéa e resolve deixá-la. Então, Macabéa o perde para sua companheira de trabalho.
     Glória é branca, cabelos oxigenados e de trazeiro alegre. Era a mistura do português com africano, cujo pai era dono de um açougue. Os açougues fascinavam Olímpico, porque ele inconscientemente sublimava sua ânsia de violência ambicionando um emprego de açougueiro. Tudo isso significava um degrau a mais para Olímpico. E, além disso, Glória era carioca, pertencente ao ambicioso clã do sul, tinha família, enquanto Macabéa não possuía nada disso, nem sequer uma família, que é o mínimo que um ser humano deve ter.
      Quanto ao significado dos nomes: Olímpico e Glória , reparamos que Olímpico representa a eterna loucura humana de alcançar os deuses, e Glória, significa: fama: honra: consagração; exaltação. Com isso, Glória era a maneira de Olímpico chegar em seus objetivos. Ele queria ser deputado, tinha ambição e certeza que iria alcançar o seu desejo, pois quando falava para Macabéa de seus sonhos, colocava como certeza, fato acontecido, com total convicção de ato realizado.
     Com o fim do "namoro" Macabéa "procurou continuar como de nada tivesse perdido", já que não se sentia particularmente digna de nada; continuou até mesmo suas relações com a Glória.
      Nem na hora de terminar o "namoro" Olímpico foi gentil com nossa heroína, "Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero". Macabéa não se ofende com essas palavras, apenas pede para ser breve com a despedida, pois quer ir embora.
       Agora, como o fim do "namoro" com Olímpico sua única conexão com o mundo, restringiu-se à Glória, apesar desta tomar seu namorado. Sendo assim, Glória procurou recompensar Macabéa pela perda do namorado, convidando-a para uma refeição num domingo em sua casa, onde Macabéa se fartou de chocolate, biscoito e bolo. No dia seguinte, passou mal.
       Com o corpo frágil, cada vez mais delibitado pela desnutrição, consulta um médico gordo e indiferente que lhe diagnostica tuberculose. Desconhecendo o que se tratava, responde-lhe: "Muito obrigada, sim?". Como adverte o narrador: "Não se tratava de uma idiota, mas tinha a felicidade pura dos idiotas". Esse médico tratou-a muito mal, quando Macabéa demonstrou não saber o que era espaguete e álcool: "Sabe de uma coisa? Vá para os raios que te partam".
       A colega Glória aconselha Macabéa a procurar uma catormante, Madame Carlota, ex-prostituta, ex-cafetina e muito fã de Jesus. "Sou doidinha por Ele". O interessante é que pela primeira vez Macabéa é bem tratada, nem que seja carinhos postiços de diminutivos e de frases feitas, e, depois de "adivinhar-lhe" a iminência do desemprego, a pobreza, o abandono do namorado, prediz que sua vida hora de estrela estava para chegar. Teria muito dinheiro, luxo e um namorado gringo de ollhos "azuis", ou "verdes", ou "castanhos". Bem, a chance de ser um desses é muito grande, Macabéa acredita, pois estava em busca de um destino e constata por meio das palavras de Madame Carlota que sua vida tinha sido horrível até aquele momento. As perspectivas otimistas anunciadas pela cartomante transformaram Macabéa, pela primeira vez ela sente a sua existência, está "grávida  de futuro".
      Então, Macabéa sai de lá em êxtase, "Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho". despedindo-se de Carlota com um beijo estalado. Distraída com os olhos voltados pela primeira vez para o céu, é atropelada por um Mercedes amarelo que foge sem prestar-lhe socorro. Bate a cabeça no meio fio e fica com "a cara mansamente voltada para a calçada". Vomita uma estrela de sangue e repete sem cessar: "Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou"., morre.
      Ao ser atropelada, Macabéa descobre a sua essência: "Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci. Há uma situação paradoxal: ela só nasce, isto é, só chega a ter consciência de si mesma, na hora de sua morte. Por ter definido a sua existência é que Macabéa pronuncia uma frase que nenhum dos transeuntes entende: 
Quanto ao futuro". [...] "Nesta hora exata Macabéa sente um profundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitou algo luminoso. Estrela de mil pontas".
       Assim, ocorre o momento epifânico de sua vida, pois há uma revelação, Macabéa toma consciência de sua existência. Em seu torpor de miserável, a protagonista sofre pequenas epifanias em seu cotidiano triste, marcado pelo narrador com a palavra "Explosão".      Na obra tomamos conhecimento da vida dessa personagem, a qual é marcada por sofrimentos, uma pessoa calada, sem conteúdo, afeto, compreensão de alguém, todos a tratavam mal, outros nem tomavam consciência de sua presença, desde criança vem sofrendo pelo mundo: a morte dos pais, depois a sua vida ao lado da tia, com as amigas no quartinho sem conforto, falta de comida, higiene, não havia diálogo com as colegas que dividia o quarto "as Marias", no serviço o patrão a tratava também com indiferença (Raimundo), pois Macabéa errava muito, a colega Glória, às vezes, "brincava" com a cara de Macabéa [...] ser feia dói?", e também seu "namorado" Olímpico, enfim, todos a tratavam com indiferença, porém a única pessoa que a tratou com carinho postiços é a cartomante e , justo nesse encontro, que Macabéa sentiu-se bem consigo mesma, encontrou a morte.
     Um fato importante é que há uma relação da colega Glória com o encontro com a cartomante. Nota-se também uma relação com o nome da personagem "Glória" com a Glória de alcançar a vida de luz . A hora da morte a pessoa torna-se brilhante, estrela de cinema, é um instante de glória de cada um, a de Macabéa era ser estrela de cinema como Marylin.
      No início da narrativa, o narrador Rodrigo S.M. tem muitas dificuldades de colocar no papel a história de Macabéa, são páginas e mais páginas argumentando que não consegue escrever. Finalmente, quando inicia, ele começa a fazer refleções da vida dessa mulher tão sofredora, sua vivência tão insignificante, sem objetivos existências.
      Nesse processo, Macabéa só passa a existir quando Rodrigo S. M. conta sua história, e a morte conclui sua trajetória de vida interrompida. Há uma mistura entre o narrador e a protagonista, principalmente, no desfecho da obra "Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!". Então, a conclusão implícita do narrador é a de que ele, Macabéa e a própria Clarice, apesar das diferenças sociais, intelectuais e de visão de mundo que os separavam, tinham uma identidade comum.
      O narrador quer mostrar ao leitor ,a todo o momento, a personagem como um ser frágil, irracional, sem ação, autonomia, porém ela é uma mulher forte, pois, trabalha, vive com o que ganha, é datilografa, passa por diversas dificuldades, mas mesmo assim não entrega-se a prostituição como as meninas que a tia falava para ela, e Macabéa quando foi morar no tal quartinho ficou muito próxima dessa realidade da prostituição, no entanto, conservou-se na sua integridade.
       Além, da preocupação existencial, existe também  a questão do social. Clarice Lispector trabalha a desigualdade social, o imigrante, do contraste da cidade grande.
      Outro fato muito importante que Clarice faz nessa obra é construir um personagem (Rodrigo S. M.) para contar a história de outra personagem (Macabéa), mas na verdade os três são a face de uma mesma moeda.
      Quanto ao nome Macabéa, é um substantivo coletivo, "a resistente raça anã teimosa", o Nordeste rural na sua difícil contracena com a engrenagem urbana, a cidade inconquistável. E, Macabéa faz parte de uma multidão de pessoas que resistem a indigência, mas sob a pena de Clarice Lispector ganha uma identidade.
      O livro é uma busca de resposta, do grito do sofrimento humano. E termina com o "sim", ou seja, é a confirmação de sua crença no poder da criação.
     

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. [...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.
      Sim.



  Clarice Lispector  
     
  
REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA



LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela, 87p. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.





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