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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ANÁLISE DO CONTO - "O GRILO NA PALMA DA MÃO", DE MARILZA RIBEIRO








“Nesse espaço mudo
Onde as vozes
Tão mortas... tão caladas...
Jas um gemido que
Explode em chamas
Nesta hora aflita
Meu Poema... Meu Grito...”  (Corpo desnudo, 1981, p. 14)


RESUMO

O presente artigo objetiva apresentar uma análise do conto “O grilo na palma da mão”, de Marilza Ribeiro, o qual é integrante da obra, Na margem esquerda do rio: contos de fim de século. Para tanto, utilizaremos a metodologia de estudo bibliográfico, iremos fazer um exame do aspecto social da autora citada, dos elementos qualitativos do mito complexo, como: espaço, reconhecimento, peripécia e catástrofe. E, além disso, também discutiremos sobre o narrador, enredo, características das personagens, tempo, uma breve biografia da autora e o contexto histórico ao qual ela pertence. Dentro desse acervo de ideias, enfatizaremos a questão relacionada à exploração social. Nessa nossa reflexão veremos que o conceito de Marilza Ribeiro é a luta pela liberdade em todos os sentidos e acepções da palavra.

Palavras-chave: Escrita de Marilza Ribeiro, crítico-social, denúncia social.

INTRODUÇÃO

        Neste estudo procuramos abordar o aspecto social da escritora mato-grossense Marilza Ribeiro, no conto “O grilo na palma da mão”, o qual faz parte da coletânea de contos, “Na margem esquerda do rio: contos de fim de século”.
        Inicialmente, trata-se da questão da contemporaneidade em Mato Grosso, sendo abordado um pouco da história do nosso Estado, no aspecto político, econômico e social, exemplo, processo de povoação, a divisão do Estado, enfocando as décadas de 70 a 90.
        Posteriormente, fala-se sobre o início da prosa em Mato Grosso, e, concentramos na literatura de Marilza Ribeiro. Aqui, comentaremos como surgiu a escrita dessa autora e quais os temas predominantes em suas obras. Falaremos sobre os seus dois primeiros livros, Meu grito – poemas para um tempo de angústia, 1973, e Corpo Desnudo, 1981, somente para sentir como acontece o processo de escrita da autora citada. E sua biografia que é muito importante para compreendermos seu modo de escrever.
        Em seguida, trataremos da análise do conto, O grilo na palma da mão. Analisaremos a temática social da autora, e também a questão do mito complexo, como: peripécia, reconhecimento, espaço e catástrofe, que para isso temos o embasamento teórico de Aristóteles, na obra Poética. Segundo Aristóteles, “Dos mitos, uns são simples, outros complexos, isso acontece pela natureza das ações que imitam [...] ação complexa, denomino aquela em que a mudança se faz pelo reconhecimento ou pela peripécia, ou por ambos conjuntamente”. (ARISTÓTELES, p. 210).
        Além da temática social de Marilza Ribeiro e da questão do mito complexo de Aristóteles, também iremos ver os elementos básico do romance, como: o enredo, personagens, tempo, espaço, o ponto de vista. Referente ao ponto de vista, isto é, a relação do narrador com a obra narrada existe duas posições: a de Vítor Manuel de Aguiar e Silva que trabalha com: heterodiegético ou homodiegético, interna ou externa, onisciente ou restritiva, interventiva ou neutral, e Jean Pouillon que estuda três posições: “por trás (narrador onisciente), “com” (narrador personagem) e “de fora” (narrador observador). Para isso utilizaremos o livro de Angélica Soares, Gêneros Literários.


I - CONTEMPORANEIDADE EM MATO GROSSO

        Para uma melhor compreensão do assunto que será abordado neste artigo, é importante fazermos uma abordagem da história de Mato Grosso, nos anos 70 a 90. É sabido, que a literatura está em consonância com a realidade, assim é importante conhecermos os fatos daquela época, para entendermos sua literatura.
Segundo Hilda Magalhães, é a partir de 1970 que o Governo Federal estimulou políticas de incentivo à agropecuária e a migração no Estado de Mato Grosso. Além disso, aconteceu um grande investimento em latifúndios, por meio de programas rurais, como, SUDAM, BASA e SUDECO, nesses programas o Governo oferecia financiamentos e vantagens para os grandes proprietários de terras.
        Segundo Piaia, em Geografia de Mato Grosso, nos anos 70 e início dos 80, Mato Grosso passou por uma fase de crescimento jamais vista, como:

A ampliação e a melhoria da malha rodoviária pelo governo Federal; a expansão das telecomunicações; a abertura de novas fronteiras agrícolas em imensas glebas de colonização estatal e particular, ensejando a fundação de inúmeros núcleos urbanos pioneiros; e em especial a ocorrência de um intenso fluxo migratório, principalmente originários dos Estados do Sul do país. (PIAIA ,2003, p. 30)
        É importante salientar que esse incentivo do Governo Federal aos latifundiários teve como consequência o enfraquecimento dos pequenos proprietários, os quais não recebiam apoio algum do Governo e eram lhes dadas terras de qualidades inferiores, ou seja, mais baratas.
        Logo, depois de adquirir essas terras por meio da compra, esses pequenos agricultores, sem condições de obter financiamentos e nem de trabalho mais modernos, terminavam por abandonar suas terras, vendendo-as a baixos preços. Ao fazer isso, muitos migraram para outras regiões, outros tornaram-se trabalhadores assalariados dos grandes proprietários de terra. Nota-se, que vários desses trabalhadores assalariados acabaram vivendo em um regime de escravidão, sem voz e sem vez.
        É o que aborda Hilda Magalhães:
[...] a má qualidade das terras, à pequena extensão territorial, bem como à grande distância dos centros urbanos levam os pequenos produtores a se desfazer de suas propriedades e buscar o trabalho assalariado ou migrar para regiões mais distantes, em que o Capital ainda não havia chegado intensificando os conflitos agrários no Estado, agravados nas décadas seguintes. (MAGALHÃES, 2001, p. 225)
        Dessa maneira, muitos dos pequenos proprietários tiveram como única saída a venda de suas propriedades, buscando trabalho junto aos grandes proprietários de terras, e na maioria das vezes, trabalhavam como escravos.
        Já, na esfera política, há um fato muito importante, a divisão do Estado, em 11 de outubro de 1977, por meio da Lei Complementar de número 31. O novo Estado foi instalado a 1 de janeiro de 1979. Dessa forma, criava-se o Estado de Mato Grosso do Sul e conserva-se à parte norte do antigo território, com a denominação histórica de Mato Grosso. Essa separação territorial representou a concretização de lutas históricas pela divisão, impetradas por lideranças políticas residentes no Sul de Mato Grosso, hoje Estado do Mato Grosso do Sul.
        Nota-se nesse período uma ebulição cultural do teatro; devido à criação da FEMATA - Federação Mato-Grossense de teatro amador, o aparecimento de uma literatura infanto-juvenil; com destaque para Antônio de Pádua e Ivens Cuiabano Scaff, e, também uma escrita engajada com as questões político-sociais de seu contexto. É o que diz Hilda Magalhães em seu livro História da literatura de Mato Grosso (2001, p. 212), “[...] uma poética preocupada com as questões universais, fundiárias, como erotismo, a metalinguagem e os emblemas da pós-modernidade”. Então, é nesse contexto, que encontramos a literatura de Marilza Ribeiro.

II - A LITERATURA DE MARILZA RIBEIRO

        Marilza Ribeiro Cardoso nasceu em Cuiabá, em 27 de março de 1934, filha de descendentes de europeus não compreendia as injustiças sociais que estava acontecendo ao seu redor. Desde cedo dedicou-se à literatura, com a publicação de contos. Aos 17 anos já era locutora de rádio, em Cuiabá, aliás uma das primeiras da cidade, também foi produtora dos programas: “viajando pela Pan air”e “Caludoscópio feminino”, e na emissora de rádio “A voz do Oeste”, juntamente com o jornalista, José Rabello.
        Nos anos de 1951 – 1953, ela participou de um grupo de escritores mato-grossenses, entre eles Silva Freire, que tinha o objetivo de divulgar a poesia, então esses escritores faziam apresentações em saraus, apresentações públicas, festas em escolas, tudo isso para realizar uma aproximação entre o público e a arte poética.
        No início da década de 70 vai para São Paulo, onde obteve contato com escritores nacionais, os quais influenciaram de modo significativo em sua visão literária. A esse respeito declara Célia Maria Domingues da Rocha Reis:
Nesse período, em São Paulo, momento de efervescência cultural, dos grandes festivais, fase em que estava vigorando o teatro de protesto, as grandes criações da dramaticidade brasileira, que coabitaram com as perseguições políticas, fez boas amizades com artistas, freqüentou rodas culturais; nutriu-se das diversidades de pensamento. (REIS, 2006, p. 196)
        Formou-se em psicologia na Faculdade de São Marcos e essa formação manifestou-se em seu modo de escrever, como diz Yasmin Jamil Nadaf,
Conhecedora da alma humana - traço de sua vivência profissional e pessoal – a autora questiona em sua obra a existência humana, e expressa a sua indignação com a atual condição do ser no mundo, cujas relações sociais se brutalizam em decorrência de um mercado dominado por uma visão mecanicista, calculista. A aparência suplanta a essência e o mercado que explora o ser pouco ou nada de bom tem-lhe oferecido em troca. (NADAF, 2004, p. 117)

        A escrita de Marilza Ribeiro teve a ruptura com a convenção literária, motivada pelo contato com escritores românticos, a partir daí, Marilza percebeu que podia colocar na poesia seus sentimentos, sem a preocupação com a forma, Nadaf (2004, p. 117) considera que, “Os versos de Marilza Ribeiro apresentam-se metricamente alternados, ora longos, ora enxutos, e ora ainda como poemas em prosa”.     
        Diante disso, vamos encontrar uma escrita que utiliza o uso racional do espaço oferecido pela página, a disposição geométrica dos versos, sem deixar de lado a questão social.
       Atualmente, Marilza Ribeiro mora em Cuiabá e está se dedicando as atividades culturais, especialmente, ligada à literatura, prepara-se para os próximos anos a publicação de textos em prosa, contos e peças de teatro. Até o momento ela publicou:

Meu grito (poemas para um tempo de angústia), 1973;
Corpo Desnudo, 1981;
Cantos da terra do sol, 1998;
A dança dos girassóis, 2004;
Palavras de mim, 2005.
Textura solar;
Gosto de bocaiúva com picumã;
Cuiabá Dona Menina;
Signos de fogo;
Cuiabá por um fio

        A prosa, em Mato Grosso teve início no século XX, é na primeira metade desse século que vemos surgir os contos e crônicas. Já o romance surgiu apenas na segunda metade do século XX.
        A escrita de Marilza Ribeiro surgiu na segunda metade do século XX. Um período em que a escrita feminina ganhava um espaço individualizado, em que a autora procura desenvolver seu próprio estilo de escrita e tema. Antes não era dessa forma, as escritoras reuniam-se em grupos, como, o Grêmio Literário Júlia Lopes, e publicavam seus trabalhos literários na revista A Violeta, todos os trabalhos literários das escritoras envolvidas eram de apenas uma temática, ou seja, era uma literatura homogênea. Mas, como dissemos na segunda metade do século XX, essa questão da homogeneidade, por exemplo, o amor, toma outros rumos, e a questão social ganha espaço.
        Portanto, é em meio a essas questões social-político-econômicas mencionadas que vamos encontrar a escrita de Marilza Ribeiro, que foi militante nas décadas de 60, 70, 80, dos intensos movimentos reivindicatórios da participação feminina na política, na administração pública, em sua emancipação financeira. Marilza também preocupou-se com o capitalismo crescente, com a destruição da natureza, o sofrimento dos oprimidos, luta em favor da liberdade, enfim, uma voz em favor dos menos favorecidos. A respeito de seu modo de escrever, declara Hilda Magalhães: [...] sua escrita é o instrumento de denúncia do processo de dominação que reina nos latifúndios mato-grossenses e que é responsável por uma história de sangue e medo. Tomando essa realidade como tema, Marilza Ribeiro faz de sua literatura a voz dos que não têm vez ou voz [...]. (MAGALHÃES, 2001, p. 230)
       
        Seu primeiro livro foi publicado em São Paulo, no ano 1973, "Meu Grito – poemas para um tempo de Angústia", vê-se uma preocupação com o social, um compromisso com os menos favorecidos, ou seja, uma poesia comprometida com o aqui e o agora, a qual opta por personagens como, meninos de rua , mulher, trabalhadores braçais, garimpeiros, entre outros. Mas também encontramos traços existencialistas, que irá se acentuar em Corpo Desnudo.

        "Corpo Desnudo", foi publicado em 1981, nessa obra o encontro com o erótico e o social, acontece sem nenhum problema. É o diz Clóvis Moura,
Nesta poetisa harmonizam-se o sensual e o critíco-social sem nenhuma fratura [...] Disse que a poesia de Marilza Ribeiro era dionísica. Isto porém, não impede que, através dessa linguagem, abandone os grandes momentos de tensão social, as grandes angústias coletivas [...]”. (Corpo desnudo, 1981, p.11)

        Foi necessário fazermos essa breve apresentação, porque é justamente essa temática, envolvendo o compromisso com o social, menos privilegiados, a opressão, medo, perda, injustiças, angústias coletivas, enfim, uma escrita marcada pelo protesto social, que também encontraremos em sua prosa, e, também em nosso objeto de estudo.

III - ANÁLISE DO CONTO, “O GRILO NA PALMA DA MÃO”, DE MARILZA RIBEIRO

        O enredo do conto, O grilo na palma da mão, de Marilza Ribeiro, faz parte da coletânea de contos, Na margem esquerda do rio: contos de fim de século, 2001, pp. 21-24, pode ser assim resumido: Chiquinho é um menino pobre, órfã de mãe, que vive com a avó, pai e cinco irmãos. Eles moram em uma favela e passam por inúmeras dificuldades, inclusive, fome.
        A história passa-se em uma noite, na qual a personagem Chiquinho tem na sua mão direita um pequeno inseto, um grilo. Esse é o único momento de alegria da criança, pois esse encontro representa a fuga desse mundo miserável, de angústia, sofrimento. No entanto, esse instante de alegria é quebrado, quando a avó, Xinha, bate na mão de Chiquinho fazendo com que o grilo voasse . A partida do grilo traz desespero ao menino, que volta para sua realidade e começa a sofrer novamente todas aquelas angústias de antes, não aguenta e morre.
        A história é narrada por um narrador heterodiegético, interno, onisciente ou “por trás”, interventivo que, em terceira pessoa, é o conhecedor da trama, sem participar ativamente dela, mas conhecendo os sentimentos mais internos dos personagens. Dessa maneira, esse narrador no decorrer da história nos vai apresentando as características tanto do herói como das personagens secundárias, aliás, são poucas as denominações dadas a essas personagens de segundo plano.
        O protagonista, Chiquinho, é apresentado no conto da seguinte forma: “vive seminu, sapato rasgado, peito magro, pequena mão, corpinho frágil, rosto magro, mirrado peito, pequeno corpo. Que vive em um ambiente pobre, como: “[...] favelas miseráveis mostrando um tumor social aberto, crônico e profundo. [...] onde os seres humanos viviam como lagartos cinzentos, movendo-se por entre objetos sujos, quebrados, amontoados. [...] barraco”. (Na margem esquerda do rio: contos de fim de século, 2002 p. 21). “[...] um inferno atroz carregado de gemido, fome, insultos e gritarias. [...] trapos sujos onde deveria dormir. [...] ali no chão duro, tendo por cama uns panos sujos, velhos. (2002, p. 22) [...] fresta da janela descascada [...]”. (2002, p. 23). São com esses detalhes dados pelo narrador que tomamos conhecimento da personagem Chiquinho e do ambiente onde ele vive.
        Assim, obtemos o perfil de Chiquinho e sua posição na sociedade, ele é um menino miserável, que vive em uma favela, com mais cinco irmãos, a avó e o pai, severo. Chiquinho passa fome, não tem cama, dorme no chão duro em cima de trapos. Então, o narrador diz mais: “ele, que só engolia amargura e pão seco, mais os gritos da avó, os tapas do pai, os sopapos dos irmãos”. (2002, p. 23). No conto, a passagem de Chiquinho é de um menino infeliz, que apenas teve um momento de alegria, quando aconteceu o encontro com um grilo.
        Quanto às demais personagens, a avó, o pai e os cinco irmãos, pouco se mencionam. A avó Xinha é apresentada como uma senhora que possui uma fala arrastada, desafinada e contundente, a mão magra, peito enrugado. E que é dona de uma fala totalmente informal, por exemplo: “Se num drumi logo, esse grilo como ocê”. (p. 21), “Ocê ta é mangando comigo, guri teimoso! Larga já essa porcaria de grilo e venha deitá aqui”. (p.22). O pai tem uma voz estrondosa, mãos ásperas e peludas, as quais usavam para bater em Chiquinho tão pesadamente. Já no que se refere aos cinco irmãos, o narrador diz apenas que nosso herói levava sopapos deles. A mãe faleceu há algum tempo, e não sabemos o motivo.
        A narração dos fatos dá-se em uma noite de lua, quando o personagem Chiquinho tem em sua mão direita um pequeno inseto. Era um grilo e Chiquinho contemplava-o como se fosse uma grande descoberta, sentia prazer por estar a observar aquela criatura. Esse encontro para ele, era uma fuga da sua realidade, do mundo que vivia, cheio de desprazeres, infelicidades, dor, fome. Seu mundo real, agora, era aquele em que o grilo estava na palma de sua mão.
Aquela estranha ligação, quase hipnótica, entre ele e o inseto mantinha-o fora de uma realidade que o machucava sempre. Assim, não mais sente aquele mal-estar no estômago que o enfraquecia cada vez mais. Não existia a voz estrondosa do pai com suas mãos ásperas, peludas, a lhe bater tão pesadamente. Nem existia também o cheiro forte do lixo por todos os lados. Ele estava ali no chão daquele mágico momento, esquecido das confusões de cada dia. Ele até sorriu, de repente. (2002, p. 22)
        Porém, esse pequeno momento de felicidade, raro na vida dessa criança é quebrado, pois a avó Xinha interrompeu seu prazer encantado. Ela bateu na mão de Chiquinho fazendo com que o grilo voasse. Esse ato da avó traz instantes de desespero no menino, que volta para sua realidade e começa a sentir todas as suas angústias.
Assustado, Chiquinho recuou. Seus olhinhos aflitos buscaram onde poderia estar o bichinho. Quis gritar com raiva, mas a dor do estômago lhe queimando por dentro foi mais aguda do que o seu desespero. Sentiu uma forte tontura e caiu sobre os trapos sujos onde deveria dormir. (2002, p. 22)
        Depois de tomar água e comer um pedaço de pão velho, ele foi voltando a si, no entanto, passou toda a noite sofrendo pelo pequeno inseto, lágrimas rolaram em seu rosto magro, sofria pela perda do grilo, a perda era mais uma agonia em meio de tantas que tinha em sua vida. A partir desse momento começou a refletir sobre sua vida.
        Essa mudança na vida da nossa personagem, como, o momento de prazer, contemplação, até sorriu, e, aliás, foram dois sorrisos, ele só havia sorrido dessa maneira quando sua mãe estava viva, enfim, essa mudança para a felicidade, Aristóteles em Poética, chama-a de peripécia. Segundo o autor, “Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário, efetuada do modo como dissemos; e esta inversão deve produzir-se, também o dissemos, verossível e necessariamente”. (Poética, p. 210)
        E, além disso, essa peripécia como disse Aristóteles, tem que ser verossível, casual, fruto de alguma ação do herói. No conto estudado, essa peripécia acontece quando Chiquinho tem o contado com o grilo na palma de sua mão, em consequência, Chiquinho começa a sentir os prazeres que não sentia antes.
        Aristóteles, também fala do reconhecimento. O que seria o reconhecimento para ele? Conforme Aristóteles, “O reconhecimento como indica o próprio significado da palavra, é a passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou para a desdita. (Poética, p. 210) . No nosso objeto de estudo, o conto, O grilo na palma da mão, notamos o reconhecimento, depois do encontro com o pequeno inseto, consequentemente, Chiquinho começa a pensar sobre sua vida, suas angustias, sofrimentos, tristezas, sonhos, perdas, e percebe que viver sem o grilo não tem sentido.
Será que o grilo também não tinha mãe como ele? Será que gostava dele? Suas faces encharcavam de uma tristeza sombria, profunda. Ele se sentia despojado de mais uma coisa entre tantas que despejava ter: mãe, comida, casa bonita, uma rua alegre só para ele brincar com seus amiguinhos, e um estômago que não doesse tanto! Claro, também outros grilos para conversar com ele. (2002, pp. 22-23)

        Eis mais um momento de alegria no conto, Chiquinho volta a ver o grilo.

[...] o grilo, bem vivinho! Seus olhos sonolentos e lacrimosos se abriram na obscuridade rarefeita do barraco. O grilo estava ali! Seu coração bateu mais forte. Enxugou os olhos com as mãos trêmulas para se certificar do fato. Lentamente, foi estendendo a mão direita até ele, numa tímida proximidade. E o que desejava ardentemente aconteceu. Milagrosamente, o grilo pulara sobre sua mãozinha trêmula de expectativa e ternura. Parece que o grilo lhe soprou uma nova chama de vida, retirando de dentro de seu estômago até seus lábios como a explosão de uma satisfação rara e reprimida, que guardava consigo desde que sua mãe morrera. Ele que só engulia amargura e pão seco, mais os gritos da avó, os tapas do pai, os sopapos dos irmãos. Aquele sorriso brilhou como uma pequena estrela ali na escuridão de sua vida. (2002, p. 23)
        Então, Chiquinho começou a ter certeza de que sua alegria estava junto ao inseto. Se o grilo partisse, ele morreria, já que não há sentido viver em meio a tantos sofrimentos, e o grilo era a fuga de seu mundo. Com o grilo não existia: fome, tristeza, angústia, solidão, enfim, ele sentia-se em paz com seu amigo.

O grilo estava ali quietinho em sua mão. Se ele se fosse – pensava – seria capaz de morrer. Por que viver mais sem o grilo? Ia ficar muito mais só com sua fome e aquela dor terrível em suas entranhas. Aquela dor que o acompanhava como um monstro malvado dentro dele. Quantas vezes fazia força para não gritar com medo de que seu pai lhe batesse. (2002, p. 23)
        Nota-se o reconhecimento, pois, em decorrência da peripécia, ou seja, do encontro com o grilo, o protagonista tem os seus instantes de reflexão e chega à conclusão que sua vida depende daquele inseto pequenino. Agora iremos penetrar no final da narrativa, quando a peripécia e o reconhecimento levam à catástrofe.
        Conforme Aristóteles, “A Catástrofe é uma ação perniciosa e dolorosa, como são as mortes em cena, as dores veementas, os ferimentos e mais casos semelhantes”. (Poética, p. 211) . Logo, no conto, O grilo na palma da mão, obtemos este desfecho, isto é, um final trágico, o qual Chiquinho ao perder o grilo pela segunda vez ,e, novamente, por causa da avó, não aguenta a dor e morre.

Nesse minuto, um espirro desastroso cortou o silêncio.
O susto do menino foi menor que o seu desespero em ver o grilo escapar em pulos até sumir pela janela entreaberta.
Sentiu uma dor a lhe rasgar por dentro. Um líquido quente subiu-lhe do estômago até a boca. O sangue sufocando-o e molhando os farrapos. Lembrou-se da mãe que o havia abandonado um dia, como aquele grilo. Agora também o grilo o traíra, sem confiar no quanto ele lhe queria bem. Esse sentimento agudo virou pelo avesso todo o prazer que o envolvera há pouco tempo. Uma dor enorme lhe atravessou o corpo inteiro. Depois, um frio intenso foi ocupando sua carne e seus ossos.
Aos poucos, Chiquinho adormeceu para nunca mais acordar... (2002, p. 24)
        Portanto, Chiquinho ao perder seu amigo, grilo, não suporta e morre. Esse contato com o inseto representava muito para ele. Como já foi mencionado, representava a fuga com essa realidade, uma vida de injustiças, repleta de problemas, sem amor de pai ou mãe, e o levava para um mundo que não existia nada disso, lá ele sentia-se feliz, com prazer, até sorriu.
        O conto termina com reticências, é mais uma característica da autora, observamos isso em sua poesia e também na prosa, isso quer dizer que tem mais a ser dito, ou seja, o sofrimento de Chiquinho acabou, mas o sofrimento de inúmeras crianças, não. Como já mencionamos no início desse estudo, a sua escrita é um protesto, um grito em favor dos menos favorecidos, é um compromisso com o social, com as relações humanas. É o que declara Hilda Magalhães em seu livro, Literatura e poder em Mato Grosso, 2002:

Surgem nos textos de Marilza Ribeiro outros personagens produzidos pelas tensões sociais, como o menor abandonado e o posseiro, personagens que não eram conhecidas no cenário social da primeira metade do século XX, ou, se eram, não incomodavam, como ocorre, de forma cada vez mais evidente, a partir da entrada do capital na Amazônia Legal, sobretudo a partir dos anos 50. [...]. De qualquer modo, os seus textos testemunham de modo expressivo e inequívoco aspecto da realidade social de Mato Grosso de hoje. (2002, p. 102)
        Outro aspecto interessante de Marilza Ribeiro nesse conto, é o efeito da figura de palavra, a comparação. Encontramos no conto, O grilo na palma da mão, nove passagens dessa conjunção. Vejamos:
Ele e o grilo como criaturas imóveis, distantes de tudo, no centro da própria imobilidade. Como um respirar suspenso, imerso na atenção [...] Uma descoberta alegre num espaço onde os seres humanos viviam como lagartos cinzentos movendo-se por entre objetos sujos, quebrados, amontoados. (2001, p. 21) “Seu mundo real era agora aquele grilo pousado em sua pequena mão, situado num minúsculo território planetário de enlevo – como o centro do mundo. [...] (2001, p. 22) Será que o grilo também não tinha mãe como ele? [...] Parece que o grilo lhe soprou uma nova chama de vida, retirando de dentro dele um outro sorriso mais farto ainda, que sentiu sair rolando de dentro de seu estômago até seus lábios como a explosão de uma satisfação rara e reprimida, que guardava consigo desde que sua mãe morrera. [...] Aquela dor que o acompanhava como um monstro malvado dentro dele. (2001, p. 23) [...] O sangue, aos borbotões, espirrou pelo espaço como um grito vermelho, quase sufocando-o e molhando os farrapos. Lembrou-se da mãe que o havia abandonado um dia, como aquele grilo. (2002, p. 24)
        De maneira geral, a literatura de Marilza Ribeiro é comprometida com o aqui e o agora, ela dá voz ás pessoas que não a possuem. No conto analisado, a autora faz, de forma belíssima, uma crítica social, pois ao conhecermos o mundo dessa personagem refletimos sobre a situação social não só de Mato Grosso como também do Brasil e do mundo. O que o conto aborda acontece com milhões de crianças. Assim, por meio da escrita, Marilza nos fala dos problemas da realidade que estamos inseridos.

IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS

        A princípio, queremos comentar sobre a importância de conhecermos a literatura mato-grossense, pois por meio dessa escrita podemos conhecer a cultura de uma região, o modo de vida de um povo, a atividade desse local, não só no aspecto político, econômico, social, como também o funcionamento do pensamento desse povo.
        Na leitura das obras de Marilza Ribeiro temos a oportunidade de ver bem isso, porque ela faz um belíssimo retrato da nossa região, mostrando muito bem nossa cultura, os dramas coletivos, por exemplo: trabalhadores braçais, garimpeiros, exploração da mulher, meninos de rua, opressão, medo, injustiças, enfim, uma autora engajada nas questões sociais de sua terra.
        No conto estudado, “O grilo na palma da mão”, Marilza faz mais uma crítica-social. Chiquinho é um menino pobre, órfão de mãe, sem amor do pai, sem atenção, que passa fome, e encontra alguns momentos de alegria ao lado de um grilo. Uma história muito triste, pois a personagem principal é uma criança e isso traz mais encanto ao conto, e pior ainda é o final, pois Chiquinho morre, não suporta a partida de seu amigo, o grilo.
        A história de Chiquinho que passa em um pequeno universo, cheio de drama, angústia, sofrimento, fome, tristeza, faz com que o leitor reflita sobre os dramas sociais, a história de Chiquinho acabou. Sua fome, sofrimento, sonhos, acabaram, mas a jornada de milhares de crianças continua. Esse conto é mais uma forma de protesto social, Marilza quer chamar a atenção para mais um problema da nossa realidade, a fome.
        De modo geral, suas obras sempre estão direcionadas para compreender o ser inserido nesse universo de exploração social. Portanto, sua escrita é o grito dos menos favorecidos, é a voz dos que não tem voz ou vez nesse contexto de injustiças.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

ARISTÓTELES, Poética: tradução, prefácio, introdução, comentário e apêndices de Eudoro de Sousa. Trad. Eudoro de Sousa. 5ed. Imprensa Nacional, casa da Moeda, 1998.

MAGALHÃES, Hilda Dutra. História da literatura de Mato Grosso: século XX. Cuiabá: Unicen Publicações, 2001.

MAGALHÃES, Hilda Gomes Dutra. Literatura e poder em Mato Grosso. Brasília: Ministério da Integração nacional: Universidade Federal de Mato Grosso, 2002.

MORENO, Juliano e Leite, Mário Cezar Silva (org.). Na margem Esquerda do rio: contos de fim de século. São Paulo: Via Lettera, 2002.

NADAF, Yasmin Jamil. Presença de mulher: ensaios. Rio de Janeiro: Libertador, 2004.

PIAIA, Ivane Inêz. Geografia de Mato Grosso, 3. Ed. Cuiabá: EDUNIC, 2003.

REIS, Célia Maria Domingues da Rocha. Sociedade, erotismo e mito: a poética temporal de Marilza Ribeiro. Cuiabá: Entrelinhas: EDUFMT, 2006.

SOARES, Angélica. Gêneros Literários. Traços e formas narrativas. São Paulo: ÁTICA, 2003, pp. 42-57.









 


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