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domingo, 29 de novembro de 2009

"LUTAR COM PALAVRAS - COESÃO E COERÊNCIA", DE IRANDÉ ANTUNES

     Na leitura do livro Lutar com palavras: coesão e coerência, 2005, de Irandé Antunes, podemos perceber as inúmeras maneiras de como escrever um texto coeso.


      Para Irandé, a coesão tem por objetivo manter as partes do texto ligadas, isto é, as idéias devem estar intercaladas para manter a continuidade temática.

      Isso significa que a sequência temática é de fundamental importância para a coesão, pois, do contrário, pode-se perder o fio de unidade que garanta o seu sentido.

      Essa sequência que foi mencionada acontece por meio da reiteração, associação e conexão. Neste resumo, focaremos apenas a reiteração.

      A reiteração acontece por meio da Repetição (paráfrase, paralelismo e repetição propriamente dita) , Substituição (substituição gramatical, substituição lexical) e elipse

      A reiteração é um procedimento muito importante para a construção da escrita, porque, dessa maneira, obtemos a oportunidade de retomar algo que já foi dito no texto.

      Daí que a função da reiteração é manter a sequência constante de volta ao que já foi escrito. A esse respeito Irandé afirma: “Esse movimento, visto de outro lado, indica ainda que tudo o que vai sendo posto no texto é virtualmente objeto de futuras retomadas”. (2005, p. 52)

      Assim, cada vez que repetimos uma palavra, seja por paráfrase, paralelismo, repetição propriamente dita, seja substituindo algum vocábulo por pronomes, advérbio, sinônimos, hiperônimos, caracterizadores situacionais, elipse; estamos reiterando.

     Segundo Irandé,

A paráfrase é o mecanismo de “voltar a dizer o que já foi dito antes, mas de uma outra maneira, com outras palavras, como se nossa intenção fosse explicar o que foi dito antes, deixar o conteúdo mais claro, sem perder, é claro, sua originalidade conceitual. É dizer o mesmo de outro jeito. (ANTUNES, 2005, p. 62)
      O paralelismo está ligado à coordenação das idéias que apresentam valores sintáticos comuns.

       Já, a Repetição propriamente dita consiste em repetir uma palavra, sequência de palavras ou até uma frase inteira, que já foi citada no texto, é uma ação de voltar atrás, fazer reaparecer algo a que referimos anteriormente.

      Passemos para outro modo de reiteração . A reiteração por substituição, que consiste em voltar a se referir a algo, sem ser necessário usar as mesmas palavras. Essa substituição pode ser de dois tipos: gramatical e lexical.

      Na substituição gramatical, é possível substituir uma palavra, por pronome, advérbio, palavra que possua o mesmo sentido. E na substituição lexical acontece por meio de sinônimos, hiperônimos, caracterizadores situacionais.

      E, agora, o último recurso da reiteração por substituição, a Elipse. A retomada por elipse, conforme Irandé “Em geral, a elipse é definida como resultado da omissão ou do ocultamento de um termo que pode ser facilmente identificado pelo contexto.

[...] Como recurso coesivo, a elipse corresponde à estratégia de se omitir um termo, uma expressão ou até mesmo uma sequência maior (uma frase inteira, por exemplo) já introduzidos anteriormente em outro segmento do texto, mas recuperável por marcas do próprio contexto verbal [...]. (ANTUNES, 2005, pp. 118-119)
      Vamos trabalhar todos esses recursos no texto "Fim da repetência".


FIM DA REPETÊNCIA


       Um dos dados do Censo Escolar do MEC que mais chamam a atenção é que já são 8,2 milhões de alunos do ensino fundamental (23% dos matriculados) os que estão sob o sistema de ciclos. Esse modelo, também chamado de progressão continuada, é aquele em que o estudante não repete o ano. As reprovações só ocorrem ao final de cada ciclo, que pode durar dois, três ou até mesmo quatro anos.

      Carregando o estigma de repetente e convivendo com colegas mais jovens, que não são os seus amigos originais, o aluno, não raro, passa a representar o papel de mau estudante, incorporando-o. Visa, com isso, a firmar uma identidade. Evitar essa profecia auto-realizável é um imperativo da boa pedagogia.

      É evidente, porém, que a mudança de regime exige que a escola esteja preparada. É no mínimo temerário eliminar a reprovação e não oferecer os meios para que o aluno que não assimilou bem alguns conteúdos se recupere. Surge aqui o risco de que ele caia num outro círculo vicioso, o de não possuir os pré-requisitos para seguir na progressão continuada. Obviamente, nem todas as instituições que adotaram o sistema de ciclos estavam aptas a fazê-lo, o que teria requerido um trabalho prévio com alunos, professores e pais.

      Fica aqui a sensação de que a alteração foi feita de cima para baixo, sem a devida preparação. Essa sensação se torna suspeita, quando se considera que o novo modelo melhora rapidamente as estatísticas oficiais. O perigo é o da educação do faz-de-conta. O aluno finge que aprende, o professor finge que ensina e a autoridade finge que obtém resultado.


                         (Folha de São Paulo, 2002)


      Questão única:


      Analise os recursos de reiteração utilizados no texto acima e faça seus comentários em forma de texto.


      Nesse contexto, a reiteração acontece da seguinte maneira:

                
                REPETIÇÃO (PARÁFRASE, PARALELISMO e REPETIÇÃO PROPRIAMENTE DITA)

REITERAÇÃO

                → SUBSTITUIÇÃO (GRAMATICAL, LÉXICO, ELIPSE)

O ESTUDO DA REITERAÇÃO NO TEXTO "FIM DA REPETÊNCIA"
      Vejamos como tais aspectos acontecem no texto de estudo de estudo.

      Primeiramente, vejamos como o paralelismo acontece nesse texto:


[...] que pode durar dois, três ou até mesmo quatro anos.

      O paralelismo está ligado à coordenação das ideias que apresentam valores sintáticos comuns; aqui nesse fragmento podemos observar uma sequência de numerais.

O aluno finge que aprende, o professor finge que ensina e a autoridade finge que obtém resultado.

      Novamente um paralelismo, e temos ainda a conjunção aditiva e que assume um papel finalizador, ou seja, finaliza a sequência dos enunciados.

      Agora, vejamos outro recurso da repetição, que é a repetição propriamente dita, que consiste em repetir uma palavra, sequência de palavras ou até uma frase inteira, que já foi citada no texto; é uma ação de voltar atrás, fazer reaparecer algo a que se referiu anteriormente.

      Observemos as palavras repetidas:

Ciclo, aluno, progressão continuada, sensação, reprovações, modelo, professor.

      → Passemos para outro modo de reiteração. A reiteração por substituição, que consiste em voltar a se referir a algo, sem que necessário usar as mesmas palavras.

      A substituição pode ser de dois tipos: gramatical e lexical.

      Dessa maneira, é possível substituir uma palavra, por pronome, advérbio, palavra que possua o mesmo sentido.

      A substituição gramatical acontece de duas maneiras: pronomes e advérbios.

      Exemplos:

Esse modelo [...]”, usa este pronome demonstrativo porque retoma algo que foi mencionado, a palavra ciclo.

“[...] é aquele em que o estudante [...]”, o pronome demonstrativo aquele substitui progressão continuada.

“[...] incorporando-o”.

O pronome oblíquo o substitui mau estudante.

“Evitar essa profecia [...]”

O pronome demonstrativo esse retoma o que foi dito , como: estigma de repetente, mau estudante.

“Surge aqui o risco de que ele caia [...]”.

Este pronome do caso reto substitui o aluno.

“[...] o sistema de ciclos estavam aptas a fazê-lo [...]”

O vocábulo lo substitui ciclos.

Essa sensação [...]”

      Novamente, a retomada de algo referido no período anterior.

→ Outro recurso da substituição é o lexical este acontece por meio dos sinônimo, hiperônimo e caracterizadores situacionais.

      Observemos alguns exemplos de substituição por sinônimo:

Estudante, aluno;

Amigo, colegas;

Ciclos, progressão continuada, regime e modelo.

→ Por hiperônimo:

Instituição, escola.

      Podemos notar o aspecto da elipse nos verbos: carregando e convivendo, os quais omitem a palvra, aluno, mas, pelo contexto, notamos que tais verbos dão a ideia de aluno.

    
      A COESÃO PELA ASSOCIAÇÃO SEMÂNTICA ENTRE AS PALAVRAS     


      É importante salientar que quando vamos produzir um texto, o que determina na escolha das palavras a serem empregadas é o sentido e a intenção pretendida na interação.

     Fica evidente, pois, que a função das palavras que aparecem em um texto não se resume apenas à dimensão daquilo que se pretende ‘dizer’; não é, portanto, somente uma questão de ‘significado’. As palavras de um texto cumprem também, e de forma muito significativa, a função de indicar, de sinalizar as ligações que se quer estabelecer, para que o texto tenha a devida continuidade e unidade e, assim, possa funcionar como atividade verbal. Daí por que a escolha das palavras é de extrema importância para a qualidade do texto.

Urubus e sabiás
Rubem Alves


      Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

      — Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...

      — Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

      E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...


       MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.

      O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Arte Poética — São Paulo, 1995, pág. 81.


ESTUDO DA ASSOCIAÇÃO NO TEXTO "URUBUS E SABIÁS"

      O texto inicia com o pronome indefinido tudo, “Tudo aconteceu [...]”. Temos aqui um pronome catafórico, isso acontece quando o pronome adianta algo que ainda vai ser dito.

→ Urubu, sabiá: aves, bicho, canto, natureza, floresta, bando, pintassigos, canários, passarinhos, bico, respeitável urubu titular, hierarquia dos urubus, os velhos urubus, os urubus. (são nomes que se assemelham peã relação de associação- relação do léxico);

→ Escola: professores, diplomados, competições, instrutor, carreira, titulação, documentação, Vossa excelência, inquérito, alvarás.

→ São empregados hiperônimos, ou seja, ‘são palavras gerais’, ‘palavras superordenadas’ ou ‘nomes genéricos’, com os quais se nomeiam uma classe de seres ou se abarcam todos os membros de um grupo. Assim, encontramos no texto os seguintes hiperônimos: aves, passarinhos, urubus;

→ Também notamos a presença de caracterizadores situacionais, como: aves por natureza becadas, a doce tranquilidade da hierarquia dos urubus.

Pode-se estudar também os aspectos da reiteração ou dos conectores, mas nesse momento nos atentamos apenas ao aspecto da associação. Segundo Irandé Antunes, “[...] quem ‘manda’ na hora de escolher as palavras é o sentido e a intenção pretendidos na interação. (Antunes, 2005, p. 126).


DIRETORES INDICADOS



      O Brasil cumpre à risca a receita do fracasso escolar. Professores mal preparados, estruturas esclerosadas, alunos desmotivados. Para piorar, permite-se que políticos indiquem diretores de escolas.

      Estudo feito com base em dados do Saeb 2003 (exame do governo federal), realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, mostra que 45% dos diretores de escola chegam a seus cargos por meio de indicação de deputados, vereadores, prefeito, secretários, etc.

      Não faz sentido levar para o comando de uma escola alguém cujo vínculo com o sistema educacional é incerto. Mais grave ainda é trocar essa pessoa em razão de contingências da política partidário. Tudo conspira contra as idéias de competência e continuidade, fundamentais para o bom desempenho de um colégio.

      Não é, pois surpresa que alunos de instituições dirigidas por apadrinhados políticos se saiam significativamente pior em exames que avaliam a qualidade do ensino. As más notícias , contudo, não param por aí. Outros 43% dos diretores são escolhidos por eleições, que podem incluir alunos, pais, funcionários. Sabe-se lá o que prometem na “campanha” para conquistar o posto. O rol dos males do democratismo ainda está por ser escrito.

      Apenas 6,3% são definidos por instrumentos mais razoáveis de seleção como concursos públicos. O destaque positivo é a rede estadual paulista, na qual toso os diretores são escolhidos com base em sistema de mérito.

      Decerto a forma de escolha do diretor não é garantia absoluta de qualidade. Mas é mais provável conseguir bons profissionais recorrendo a avaliações de competência técnica e gerencial. É preciso que o Congresso aprove uma lei que determine a realização de concurso na escolha de diretores de escola públicas.

(Folha de são Paulo, 11/10/2007)

      Já comentamos as duas primeiras, reiteração e associação, agora, nesta análise do texto “Diretores Indicados” vamos compreender outro recurso, conexão, tão importante quanto os outros para a coesão.

      Primeiramente, vamos retornar a algo que já foi mencionado, que para que um texto seja coeso é importante que a continuidade temática seja prevalecida até no final, e essa continuidade também realiza-se por meio da conexão.

      Segundo Irandé Antunes, a conexão é um recurso coesivo que se opera pelo uso dos conectores, e possui o objetivo de manter a sequencialização de diferentes porções do texto. “A conexão é um recurso coesivo diferente dos demais, por operar em pontos específicos do texto, como entre orações, períodos. E efetua, por meio de conjunções, preposições e locuções conjuntivas e preposicionais, bem como por alguns advérbios e locuções adverbiais.” (Irandé, 2005)

     A autora nos chama a atenção para a pouca atenção que as escolas, gramáticas, livros didáticos têm dado aos conectores, pois restringe-se apenas à mera classificação das conjunções; sabemos que esse tipo de estudo não tem sentido para os alunos, porque só podemos compreender o significado, sentido, de uma conjunção somente no texto.

      E a respeito desse assunto, o livro traz um comentário muito importante, que a análise de textos tem mostrado que as preposições, alguns advérbios e as respectivas locuções também atuam como elementos da conexão textual.

      O recurso da conexão não limita-se apenas a ‘ligar’, ou para ‘articular’ segmentos. O mais relevante é reconhecer que esses elementos também cumprem a função de indicar a orientação discursivo-argumentativa que o autor pretende emprestar a seu texto.

      Assim, sua função vai além de ligar orações, períodos, porque esses conectores também desempenham o papel de estabelecer relações de sentido, orientações argumentativas no corpo do texto.

      Isso significa que o estudo apenas de classificação não tem sentido para os discentes, pois tudo depende do contexto, e o que vale como competência comunicativa é avaliar o valor semântico de cada uma das conjunções e os efeitos de sentido que provocam as relações entre as orações.


ESTUDO DA CONEXÃO NO TEXTO "DIRETORES INDICADOS"

      Agora, vamos observar como tais procedimentos acontecem no nosso texto de estudo.

Para piorar [...]

→ O para pode ser substituído pro ‘a fim de’, dando a ideia de finalidade, e vem acompanhado de um verbo no infinitivo.

→ [...] permite-se que político [...]

Exerce a relação de complementação; esse procedimento ocorre sempre que um segmento funciona como complementar de outro.

→ [...] mostra que 45% [...]

Relação de complementação, estabelece uma ideia de complementação, é o complemento do verbo mostra.

→ [...] escola alguém cujo vínculo [...]

O pronome relativo cujo estabelece a relação de restrição, vemos a restrição com alguém que é despreparado para o cargo de diretor.

→ Mais grave ainda [...]

Este conector ainda, desempenha a função de adição.

→ [...] da política partidária ou calendário eleitoral.

Podemos observar a relação de alternância exclusiva.

→ [...] contra as ideias de competência e continuidade [...].

Estabelece uma relação de adição, mais um item é introduzido no conjunto.

→ Não é, pois, [...]

Dá a idéia de conclusão, pois explica o segmento anterior, e, além do mais, o pois está entre vírgulas, quando esse fato acontece, temos sempre o recurso da conclusão.

→ [...] surpresa que alunos.

Relação de complementação, estabelece uma ideia de complementação.

→ [...] exames que avaliam [...]

Pronome relativo, executa a função de restrição.

→ [...] notícias, contudo, não [...]

Mostra uma oposição ao que foi dito no segmento anterior; nesse contexto, mostra que os problemas não pararam e que existem mais.

→ [...] por eleições, que podem incluir [...].

Pronome relativo.

Retoma o termo que foi colocado antes, restringindo o conteúdo do que foi dito no segmento anterior.

Sabe-se lá o que prometem [...].

Novamente um pronome relativo, que tem por objetivo a restrição.

→ [...] para conquistar o posto.

O para está acompanhando um verbo, no infinitivo, que substituímos por ‘a fim de’, exerce a função de finalidade.

→ [...] democratismo ainda está [...].

Relação de adição, pois podemos ver no segmento posterior mais argumentos sendo somados a respeito desse assunto.

→ [...] seleção como concursos públicos.

Vemos, aqui, a relação de comparação.

→ O destaque positivo é a rede estadual paulista, na qual [...]

Pronome relativo, o qual exerce a função de restrição.

Mas é mais provável [...]

O conectivo mas está apenas introduzindo, dando sequencia ao assunto.

→ [...] competência técnica e gerencial.

A conjunção coordenada aditiva e, tem a função nesse contexto de somar mais um argumento no período.

→ [...] preciso que o congresso.

De novo, o recurso da complementação, porque a oração é complemento da outra.

→ [...] lei que determine [...].

      Observemos mais um caso de pronome relativo, estabelecendo relação de restrição.

     Após a análise do texto, vemos que, para estudar os conectores, só é possível no texto, porque tudo depende do contexto de uso, observando sua relação semântica no texto, e não com a mera classificação como vem sendo feito ao longo do tempo nas aulas de língua portuguesa, nos próprios livros didáticos, gramáticas. É de fundamental importância compreendermos isso, para não cometermos o mesmo equívoco dos nossos professores do passado, pois somos frutos desse tipo de ensino.

      Além disso, um conectivo colocado no lugar errado pode prejudicar a compreensão do texto.

      Assim, o estudo dos conectivos deve acontecer somente no texto, no contexto, do contrário, não tem o porquê de ensiná-los.

     Diante disso, podemos perceber que são inúmeros os recursos para bem manter o texto bem estruturado e com coesão. Assim, cabe a nós aprendermos esses procedimentos, para produzir um texto, em que todas as ideias fiquem ligadas, como se um fio perpassasse todo o texto e , no final, desse um nó, arrumando todas as palavras aos parágrafos.

      Aprender essas técnicas é de extrema importância, seja para ser educador, seja para qualquer atividade que desempenharemos em nossas vidas, porque tudo em nossa volta é movido por textos, orais ou escritos, eles fazem parte do nosso cotidiano.


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As pessoas que leram esse resumo também leram:


"Aula de Português: encontro e interação", de Irandé Antunes


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.












quarta-feira, 11 de novembro de 2009

"A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA", DE GUIMARÃES ROSA


João Guimarães Rosa (1908-1967)


O senhor... Mire veja : o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - ma que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior: É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.






        João Guimarães Rosa é natural de Condisburgo, Minas Gerais. Estudou as primeiras letras com o mestre Candinho, e francês, com o religioso Frei Esteves. Era um aluno tão brilhante que aos seis anos já lera seu primeiro livro nessa língua. Mudou-se para Belo Horizonte, passando a estudar no colégio Arnaldo. Lá, era frequentemente assíduo da biblioteca , colecionava insetos e borboletas, e estudava por conta própria línguas e História Natural.
        Formou-se em Medicina em 1930, clinicando durante dois anos e Itaguara, Minas Gerais, onde logo ganhou fama de médico excelente e consciencioso. De volta a Belo Horizonte trabalha como médico voluntário da Força Pública durante a Revolução de 32, sendo efetivado por concurso dois anos depois.
        Como era poliglota foi incentivado por um amigo a prestar concurso no Itamaraty para seguir carreira diplomática. Passou em segundo lugar e, em 1938, foi nomeado cônsul em Hamburgo, na Alemanha. Quatro anos depois, o Brasil rompeu relações diplomáticas com esse país, e Guimarães Rosa e outros funcionários do corpo diplomático ficaram reféns em Baden-Baden, tendo sido libertados em troca de diplomatas alemães detidos em solo brasileiro. Como diplomata exerceu atividades ainda na Colômbia, França e no Rio de Janeiro. Em 1952, fez uma viagem de nove dias a cavalo pelo sertão de Minas Gerais, participando de um grupo que conduzia uma boiada. Essa experiência marcaria demais sua obra. A partir do ano seguinte fixou-se definitivamente no Brasil.
        Em 1963, foi eleito para ocupar a cadeira n° 2 da Academia Brasileira de Letras, mas, intuindo sua morte ao tomar posse, adiou-a por quatro anos. Morreu em 16 de novembro de 1967, exatamente três dias de sua posse.

Sagarana, foi publicado em 1946. A obra chamou atenção pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e pela riqueza de simbologia dos contos, que o escritor havia começado a escrever dez anos antes. As histórias se passam em fazendas mineiras, tendo como personagens vaqueiros e criadores de gado.



EPOPÉIA EM MINAS GERAIS



O escritor fez, em maio de 1952, um percurso de 240 quilômetros no sertão mineiro, durante dez dias, conduzindo uma boiada. Na viagem, anotou expressões, casos, histórias, procurando apreender de forma mais profunda aquele universo com o qual tinha contato desde a infância. Seu intuito era recriar literariamente o sertão, dando voz a seus personagens.
Em janeiro de 1956 lançou Corpo de Baile, reunião de novelas que posteriormente passaram a ser publicadas em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.
Seu único romance, Grande Sertão: Veredas, foi publicado em maio do mesmo ano. O livro é uma rica epopéia ambientada no interior de Minas Gerais, transpondo para o Brasil o mito da luta entre o homem e o diabo. Com linguagem inventiva, explora um vocabulário complexo e inusitado. Há desde a recuperação de termos arcaicos e expressões regionais até a criação de novas palavras, para o que o autor se apoiou em seus amplos conhecimentos lingüísticos (veja abaixo).
O impacto de Grande Sertão: Veredas na cena literária foi muito grande. Desde o início, percebeu-se que se tratava de um dos mais importantes textos da literatura brasileira, o que garantiu ao autor enorme reconhecimento em todo o país. Apesar da complexidade, o livro viria a ser traduzido para diversas línguas.
Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte, lançou Primeiras Estórias, com 21 contos pequenos.
Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, pela segunda vez, em 1963 e foi eleito por unanimidade. Mas não foi empossado imediatamente, porque adiou a cerimônia enquanto pôde. Dizia ter medo de morrer no dia do evento. Só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, morreu subitamente em seu apartamento no Rio de Janeiro, de infarto.

Na língua do povo

Os sentidos de algumas expressões do escritor mineiro:

Balalhar – explodir ou partir-se pela ação de balas.

Carregume – peso, dificuldade, gravidade.

Descriado – criado ao desamparo, desnutrido.

Fraternura – ternura de irmãos.

Grãoir – formar grãos.

Nonada – nada, coisa sem importância.

Trestriste – infeliz, forma enfática de triste


OBRAS DE GUIMARÃES ROSA


ROMANCE


Grande Sertão: Veredas (1956).



CONTOS


Sagarana (1946); Primeiras Histórias (1962); Tutaméia (Terceiras Estórias) (1967); Estas Estórias (póstuma, 1969).



NOVELAS

Corpo de Baile (dois volumes) (1956); a partir da terceira edição (1964), essa obra foi desdobrada em três volumes: Manuelzão e Miguilim; Campo Geral; No Urubuquaquá, no Pinhém; Noites no Ser tão.



DIVERSOS

Ave, Palavra (póstuma, 1970).




A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

        A hora e a vez Augusto Matraga é o nono e último conto de Sagarana, publicado em 1946, marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura e expressa a força e o espírito do sertão de Minas Gerais. Ao contar a história da queda de um homem poderoso em busca de sua redenção: “P’ra o céu, eu vou, nem que seja a porrete!...”.
        Esse conto é considerado por muitos críticos, a mais importante produção do escritor em Sagarana, tanto por sua estrutura narrativa, quanto pelo tratamento da luta maniqueísta, e todo o questionamento decorrente de uma tomada de consciência do homem optando por uma dessa forças. É uma mistura de redenção e espiritualidade.
        O conto tem início em uma festa de leilão no arraial da virgem Nossa Senhora das Dores do córrego do Murici. É final de festa, e as pessoas de bem que se encontravam nesse leilão foram todos embora, ficando somente os farreadores, e Nhô Augusto estava entre eles.
Ficara apenas duas mulheres, as prostitutas Angélica (negra) e Siriena (branca), os homens aproveitaram a presença do leiloeiro para começarem a algarrazarra leiloando-as.
        Nhô Augusto ofereceu por Siriema cinqüenta mil-réis, consegue a prostituta, leva-a para casa, porém no meio do caminho, em um lugar bem iluminado enxerga melhor a mulher, achou-a muito magra “[...] Você tem perna de Manuel – Fonseca, uma fina e outra seca!” ,e manda a mulher embora.
        Agora, segue seu caminho e encontra com Quim que trazia um recado de Dona Dionorá, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Mas Nhô Augusto ignora o pedido da esposa. Ela fica muito magoada com a falta de consideração, ausência, desprezo, falta de atenção do esposo e resolve partir com a filha, Minita, de 10 anos, em companhia de seu Ovídio Moura.
        Nhô Augusto era um homem duro, doido, sem detença, como um bicho grande do mato. E, em casa, sempre fechado em si. Nem com a filha se importava. Da esposa gostava, às vezes: da sua boca, das suas carnes. Adorava farras, mulheres, bebidas, enfim, com os prazeres do mundo.
        Quando nosso personagem ficou sabendo da notícia (sua esposa partiu) resolve partir atrás da esposa, entretanto, não obteve apoio de seus capangas, pois ele devia di8nheiro para todos, mesmo assim ele decidiu matar Ovídio, mas antes iria vingar-se de seus capangas e do major Consilva. Então foi à chácara do major e foi recebido à pancada, depois da surra o arrastaram até o rancho do Barranco. Antes de matá-lo, esquentaram o ferro do gado e marcaram sua pele com as iniciais do major Consilva, com a dor, Nhô Augusto levanta gritando e se joga do barranco. Diante disso, os capangas pensaram que ele havia morrido, coloca uma cruz no lugar e vão embora.
        Um homem negro (Serapião) que por ali passava, encontra-o e leva-o para seu casebre. A tristeza tomou conta de nosso herói nesse período de recuperação. Certo dia, então disse: “Se eu pudesse ao menos ter absolvição dos meus pecados!...”.
        Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou sua vida já acabada e esperava apenas a salvação da sua alma.
        A partir desse dia ele começou a trabalhar muito e ajudar ao próximo, pois esperava a salvação da sua alma e a misericórdia divina. Dessa forma, fazia o bem sem escolher a quem, para ganhar o reino do céu.
Nessa vida de abstinência, passaram-se quase seis anos, que não fumava, bebia, não olhava para mulheres, nem discutia.
        Nhô Augusto mudou totalmente seu comportamento após a surra que quase o levou à morte , a partir daí resolveu ser uma pessoa do bem. Aqui, nesse momento da narrativa, a personagem passou por uma transformação, obteve uma revelação, é a epifania.
        Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô Augusto, dando notícia de sua família: Dona Dionóra continuava amigada com seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadeiro havia morrido de morte – matada, com mais de vinte balas no corpo, por causa dele, Nhô Augusto, quanto tentou vingar-se dos capangas que pensava terem o matado.
        Diante desse fato, sentiu-se culpado e fez muitas orações, caridades, para não perder seu lugar no céu.
O tempo foi passando, e Nhô Augusto começou a sentir fome, sono, vontade de fumar e falta de mulher. Na verdade, ele pensou que Deus o havia perdoado e com todas essas vontades não se sentiu pecando por isso.
        E, é justo nesse momento, que Nhô Augusto considera-se perdoado por Deus, que certo dia aconteceu um fato até hoje lembrado pelo povinho do Tombador, pois chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nosso personagem foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado.
        Todos conversaram muito bem, durante à noite, e o líder do bando, na hora de ir embora, convidou nosso herói para ir com eles, mas o convite foi recusado. Apesar disso, os invejou “[...] Aqueles, sim, que estavam no bom, porque não tinham de pensar em coisa nenhuma de salvação de alma.” Pensou bem e considerou que essa história de andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos.
        Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jumento emprestado, animal sagrado, misturado às passagens da vida de Jesus.
        Então, ele foi ao encontro do bando de Joãozinho Bem-Bem, mas sem a menor idéia de onde encontrá-lo, diante disso, deixou que o jegue o levasse, e entraram em um arraial, denominado Rala – coco, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô Augusto foi recebido pelo grupo com muita satisfação.
        Mas, infelizmente, quando nosso protagonista chega ao arraial está acontecendo uma confusão, na qual Joãozinho Bem-Bem ia matar um homem para vingar a morte do Juruminho, seu colega de bando. Porém, como o culpado havia fugido, “A família vai pagar, direito!”.
        Diante disso, chegou o velhote, pai do traidor, ou melhor, pai do matador de Juruminho, este chegou implorando por misericórdia, entretanto, Joãozinho Bem-Bem não queria desculpas “[...] Um dos dois rapazinhos seu filhos têm de morrer, de tiro ou à faca, e o senhor pode é escolher qual deles é que deve de pagar pelo crime do irmão. E as moças... Para mim não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens...”.
        Dessa forma, nosso personagem principal interveio, alegando um pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem, esse pedido tinha que ser respeitado. Então, Joãozinho sentiu-se preso a Nhô Augusto por respeito e não soube o que fazer. Seu bando, no entanto, liderado por Teófilo Sussuara, que era um homem bronco, excessivamente bronco, caminhou para cima de Nhô Augusto, e Joãozinho Bem-Bem também entrou na briga.
        O povo encheu a rua, a distância, para ver a briga de Joãozinho Bem-Bem mais o homem do jumento. Por fim, nosso herói cortou a barriga do chefe do bando, condenando-o à morte. Preocupado com a salvação de Joãozinho Bem-Bem, Nhô Augusto pediu que ele se arrependesse de seus pecados, entretanto, não ouviu resposta, pois este morreu e4m seguida.
        Nhô Augusto estava muito machucado e pediu para chamar um padre “[...] Pede para ele vir me abençoando pelo caminho, que senão é capaz de não me achar mais ...”.
O povo de Rala-coco dizia: “Foi Deus quem mandou esse home no jumento, por mor de saber as famílias da gente...” E o velho dizia: “Não deixem este santo morrer assim...”.
        No final, Nhô Augusto pergunta se no meio daquela multidão alguém ouviu falar de Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas!
        Neste momento, apareceu João Lomba, conhecido velho e meio parente, o qual obteve um pedido de Augussto Matraga, que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Diónora que está tudo em ordem. Depois disso, morreu.
        Nota-se que nesse final, o personagem é chamado de Augusto Matraga, e, assim, faz uma relação com o início do conto: “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves”, pois no início do conto a personagem principal é designada como Augusto Esteves, que mora em Murici, onde é um espaço físico e, também, existencial da personagem, aqui, ele é um homem mandão, autoritário, que vive uma vida de farras, mulheres, capangas, bebidas, não se importa nem com a família. Esse nome possui uma relação social, impõe respeito, poder, e, além disso, ele é filho do coronel Afonsão Esteves, o qual possui dinheiro, porém com a morte deste, Augusto Esteve começa a esbanjar o dinheiro do pai e acaba perdendo tudo, até seus capangas por falta de pagamento.
        Após alguns conflitos com seus capangas, Major Consilva, abandono da esposa, surra que levou é nomeado por Nhô Augusto, um período de penitência, sacrifícios, tudo que faz é trabalhar, trabalhar o tempo todo e ajudar o próximo, assim, conseguiria o perdão divino referente aos pecados do passado. Fazia o bem sem escolher a quem, porque seu objetivo era ir ao céu.
        Nesse período que a personagem renasceu para uma nova vida, fazer o bem, ele faz reflexões de sua vida, uma busca existencial, é uma travessia existencial, isto é, era um homem mal e, agora, é do bem, e a todo o momento do enredo há esse questionamento maniqueísta.
        Nesse tempo de sacrifícios dos prazeres do mundo, aparece um bando de jagunços e traz o encontro de Nhô Augusto com Joãozinho Bem-Bem, os quais são responsáveis pelo final do conto, pois no final da história acontece uma discussão, briga, isso é motivo da morte gloriosa e salvadora do protagonista Augusto Matraga.
        Voltando ao momento em que os Jagunços de Bem-Bem chegaram em Tombador, aqui a personagem sente vontade de mudar de vida, ir para o caminho do mundo, achava que Deus já o havia perdoado, portanto, não precisava continuar com todos aqueles sacrifícios.
        O espaço Tombador não é apenas um espaço físico, mas também, está relacionado com a existência da personagem, seu momento de travessia existencial. No final do conto “Augusto Matraga, Matraga não é Matraga, não é nada”, logo ,volta ao início da narrativa. Nesse instante, a personagem é nomeada como Augusto Matraga e encontra-se no arraial de Rala-coco.
        Quando ele está nos últimos momentos de sua vida, revela-se como Augusto Esteves, da Pindaíba, e preocupa-se com a família, dando a bênção para sua filha e perdoa Diónora, ambas com moradia desconhecida para Augusto Matraga, e após esse pedido morre.
        Vale mencionar que existe uma relação entre essa história e a bíblia. Augusto Matraga morreu para ajudar uma pessoa, ou melhor, salvar uma vida, assim como Jesus, que morreu para nos dar a vida eterna.
O intuito da personagem era alcançar o reino do céu, mesmo utilizando da violência. A sua história é uma travessia em busca da absolvição de seus pecados do passado, ou seja, gira em torno desse conflito entre o bem e o mal.









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