Temblante para blog







Pesquisar este blog:

Carregando...

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A SOCIALIZAÇÃO E INTERAÇÃO DO ÍNDIO XAVANTE NA ESCOLA

RESUMO

O presente artigo objetiva apresentar algumas reflexões a respeito da socialização e interação do índio xavante em escolas públicas do Médio Araguaia, ou melhor, nas cidades de Barra do Garças, Pontal do Araguaia, em Mato Grosso, e Aragarças, em Goiás. Trata-se de uma pesquisa sociolingüística interacional, que procura retratar os problemas do cotidiano de alunos índios inseridos em contexto escolar de estudantes não índios, em uma cultura distinta da sua. Assim, o intuito desse estudo é observar como alunos indígenas, Xavante, socializam e interagem com professores e alunos não índios em sala de aula, fora de sua realidade. Para esta investigação temos como embasamento teórico o artigo intitulado Fricções lingüísticas nas interações escolares: o caso dos alunos xavante no médio Araguaia, da Professora Doutora Marly Augusta Lopes de Magalhães e Márcia Elizabeth Bortone.

INTRODUÇÃO

A história do Brasil deixa claro as contradições de nossa sociedade, dita civilizada, em relação ao índio brasileiro. Nesse estudo iremos focar a questão da língua, que certamente é mais uma imposição da cultura dominante sobre a cultura do dominado, pois sabemos que atualmente a identidade sociocultural é, na maioria das vezes, estabelecida pela linguagem.

Para compreender essa situação de dominação da língua indígena é necessário fazer um recorte do período colonial. Nessa época, é evidente, que a atribuição de um caráter de inferioridade às línguas nativas tenha estado presente em quase todas as referências a respeito das mesmas. Essas línguas nativas faladas, no dizer do colonizador, por um povo de padrão cultural inferior, possuíam, além do mais, um vocabulário inadequado e insuficiente. O indígena deveria dirigir-se às autoridades da Colônia em língua portuguesa, assim como esta deveria ser a língua utilizada para formular qualquer pedido formal, exemplo, uma petição.

Nossa realidade mudou, Hoje, os índios saem de sua aldeia, cultura, para conviver com a nossa realidade, nossa cultura, e, nós professores ou futuros professores, necessitamos saber como agir, lidar, conhecer a cultura desses alunos, para não cometer os erros do passado, novamente colocar nossa maneira de enxergar o mundo como se fosse a única, correta, sendo etnocêntrico, ou seja, onde o nosso grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, modelos, definições do que é a existência.

Infelizmente, essa realidade não mudou muito, do período colonial para a atualidade, pois ainda nos deparamos com divergências, preconceitos, conflito interacional, em escolas públicas de nossa região, Médio Araguaia. É o que consta a pesquisa sociolnguística interacional realizada pela Professora Doutora Marly Augusta Lopes de Magalhães, em seu artigo intitulado: “Fricções linguísticas nas interações escolares: o caso dos alunos xavante no Médio Araguaia”. E levando em consideração essa pesquisa, aproveitamos a oportunidade para fazermos nosso próprio estudo de campo, pois o intuito é sentir essa realidade de perto, porque temos muita curiosidade para entender o que esses alunos indígenas pensam do nosso ensino de língua portuguesa. Na verdade, eles têm pouco a dizer, os que escreveram mais são os alunos universitários, os de ensino médio são objetivos em suas respostas.

Um fato interessante da pesquisa da professora Marly, é que foi realizada em sala de aula, e dessa forma, reflete muito mais a realidade desses alunos do que a pesquisa realizada pelo nosso grupo, já que esta foi realizada por meio de questionário.

Segundo, Magalhães:

Os membros do grupo de alunos xavante caracterizam-se por uma forma de comportamento lingüístico bem diferente daquela típica do contexto escolar. Essa forma lingüística, muitas vezes, pode estar representada pelo silêncio, por temor e preconceito de que sua fala possa causar em seu receptor determinadas reações comunicativas. (MAGALHÃES, 2008, p. 139)

Assim, a escola onde deveria se um lugar de discussão, interação, conhecer a cultura do outro e respeitá-la, acaba por ser um ambiente de silêncio, uma vez que a fala do índio pode provocar risos, piadas, preconceito. E os alunos índios têm medo de falar, expressar mal, por não dominar a língua portuguesa.

Para Orlandi, citada por Magalhães, o silêncio do aluno índio pode significar uma coisa e outra: “o silêncio imposto pelo opressor é exclusão, é forma de dominação, enquanto que o silêncio proposto pelo oprimido pode ser uma forma de resistência” (1995, p. 263).

Infelizmente, mesmo em pleno século XXI, encontramos formas de preconceito, como: anedotas ou brincadeiras parodiano o modo de falar do indígena, assim como expressão popular, “ser índio ou “comportar-se como índio” indicam violência, falta de polidez, não respeito à cultura do outro. Da mesma forma, uma multidão que age irracionalmente é um “bando de índios. Uma habitação muito pobre e sem condições adequadas de conforto pode ser “uma tapera”. Além disso, temos o livro didático, que geralmente faz algum comentário inoportuno aos costumes e valores dos povos indígenas.


UM BINÔMIO DIGLÓSSICO

Nosso estudo foca a língua xavante, conforme Aryons Dall’igua considera a língua xavante como língua. Para ele, isso é possível devido ao seu vigor e prestígio histórico – cultural, que percebemos não só pelo número de falantes mas também pelo interesses de estudiosos em estudá-la.

Segundo Magalhães, há conflito linguítico entre os alunos xavantes, o qual a autora denomina de tensão diglóssica, isso quer dizer que existe uma divergência na relação de aprendizagem da língua portuguesa. Por que isso acontece?

É o que vamos discutir agora. Os aprendizes índios, mais precisamente xavantes, aprendem primeiramente a língua xavante, em sua aldeia, inserido em sua cultura, e essa língua materna é um legado que qualifica todos os membros de seu grupo e as experiências vividas por eles, trata-se de uma língua ainda em construção. Então, após seus primeiros estudos da língua materna, a qual estende-se unicamente pelos oito anos do ensino fundamental, esses alunos vêm aprender a língua portuguesa, em escolas de alunos não-índios, consequentemente, surgem conflitos interacionais, isto é, essa relação de alunos índios com professores e alunos não- índios nas escolas públicas do Médio Araguaia.

Portanto, a língua xavante é usada na aldeia, no cotidiano, em conversas informais, com seu grupo. É obtida com seu povo, em sua cultural, na família, e usada, preferencialmente na modalidade oral. Trata-se de uma língua não totalmente desenvolvida, ainda não totalmente escrita, está ainda na etapa de gramatização. Ao passo, que o português é nossa língua oficial, aliás, a única, com sua gramática totalmente desenvolvida, língua empregada em todos os contextos sociais, seja informal, seja forma, com uma literatura reconhecida no mundo. Essa língua é adquirida na família e na escola.

A constituição brasileira é taxativa em relação à língua portuguesa, assim ela decreta em seus artigos:

Art. 13. A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil.

DA EDUCAÇÃO

Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.

2º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processo próprios de aprendizagem. (CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA, 2004, pp. 19- 135)

Nesse sentido, o artigo 13 da constituição é taxativo ao reconhecer a língua portuguesa como a língua oficial do Brasil, implicando, portanto, o único instrumento de comunicação administrativo aceitável. Já no segundo parágrafo, preceitua o ensino fundamental em língua portuguesa e ressalva que as comunidades indígenas terão também assegurado o ensino em línguas nativas e segundo métodos próprios de aprendizagem. Na verdade, o ensino fundamental ministrado em língua materna não exclui para os indígenas a obrigatoriedade do ensino em língua portuguesa.

Magalhães afirma, que “esse conflito lingüístico se fixa sempre em uma tensão diglóssica”, ou melhor, discordância entre a língua materna, xavante, e a língua portuguesa, oficial, além disso, a autora menciona: “que se realiza também sobre outras oposições: conhecer/ não conhecer, entender/ não entender, segurança/ insegurança lingüística, etc”. (Magalhães, 2008, p. 140).

Sem dúvida, essa relação conflituosa, da falta de dominação da língua oficial, irá repercutir na escola, e, é uma das causas do fracasso escolar entre alunos indígenas xavante em escolas públicas do Médio Araguaia, pelo menos nas escolas pesquisadas. É o que diz Magalhães:

A falta de domínio da língua portuguesa pode ser considerada como uma das causas determinantes do fracasso escolar dos alunos indígenas matriculados em escolas públicas do Médio Araguaia, fonte de ruptura da relação professor- aluno, a questão da diglossia condiciona uma boa parte do processo comunicativo da escola, e é exatamente nesse espaço que se estabelece o conflito. (MAGALHÃES, 2008, p. 140)

Além disso, ainda temos o fato desse ensino ser realizado totalmente distanciado da realidade linguística desses aprendizes. Na pesquisa realizada tanto por Magalhães, a qual é nosso referencial teórico, como na própria pesquisa de campo realizada pelo grupo, foi afirmado pelos entrevistados que existe um distanciamento entre sua realidade linguística e a realidade linguística da comunidade envolvente. “Sua língua materna é um legado que identifica todos os membros do grupo, representando as experiências seculares de sua etnia”. (Magalhães, 2008, p. 140)

Diante de tantos percalços, como é a relação de ensino do professor?

Conforme a pesquisa de Magalhães, 2008, o conjunto que organiza os conteúdos que serão ministrados pela escola e mesmos os professores desconhecem a cultura indígena, pois estes estão inseridos em uma cultura urbana, e nossa sociedade acaba por menosprezar a cultura do índio e coloca a nossa como a certa, valorizada, glorificada, ou seja, cultuamos o etnocentrismo, e para os índios só resta acatar a nossa imposição, a dominância da sociedade, dita letrada e civilizada.

A esse respeito declara Magalhães:

O que se percebe é que o professor apresenta um ideal de língua e uma pedagogia estranhos ao aluno indígena, fazendo com que esse aprendiz se veja obrigado a calar-se ou a sair da escola, para não ser estigmatizado por seus colegas não-índios. Essa estigmatização revela, na verdade, um ato de opressão e dominação, que agrava, ainda mais, a condição de subordinação da língua xavante. (MAGALHÃES, 2008, p. 141)

Logo, percebemos nesse estudo, que existe o desconhecimento por parte dos professores da cultura indígena, algo que deve ser sancionado, pois, por falta de conhecimento dos costumes do outro, acabamos por cometer atitudes preconceituosas, como podemos notar nas entrevistas, alunos que de alguma maneira passou por situações desagradáveis de preconceito na escola. Magalhães fala a respeito dessas atitudes etnocêntricas:

[...] pensamos que os professore precisam perceber as diferenças culturais como maneiras distintas e diversas de atribuir significado às práticas cotidianas Infelizmente, tem-se registrado uma tendência histórica na escola pública de ignorar a diversidade cultural dos alunos e incorporar uma atitude homogeneizante na configuração das representações que se consideram naturais, muitas vezes, próprias de um determinado povo [...] (MAGALHÃES, 2008, pp. 146-147)



É certo, que muitos professores não tiveram o privilegio que temos, de estudar em um programa de pó-graduação conceitos relativos à cultura dos índios, porém, é importante que diante de um aluno indígena, em sua sala de aula, esse professor procure pesquisar, ler sobre a cultura do outro, é uma forma de relativização. Então, fica a sugestão para os professores reverem suas próprias práticas de ensino, autoavaliar seus discursos em sala de aula, e, acima de tudo, ter uma relação construtiva com seus alunos, enfim, desenvolver uma pedagogia que leve em consideração as diferenças de seus educando, isso é ser educador.


A PRODUÇÃO TEXTUAL

Partindo do pressuposto de conhecer e entender a realidade sócio-histórica do grupo indígena, a produção textual foi uma maneira de descobrir o aprendizado e a relação do aluno indígena com a língua portuguesa. Assim, foram recolhidos dados, de alunos xavante, procurando observar e compreender os fenômenos linguísticos no que se referem aos significados do processo de construção social, os quais foram encontrado várias situações de conflito em relação à coesão, coerência, fonemas e grafemas.

Por exemplo, as vogais têm significados diferentes na língua xavante. Por funcionarem como fonema e morfema na língua Portuguesa e formadoras de sintagmas. Mas o que dificulta o aluno índio não ter domínio no idioma Português está relacionado à diferença entre os sistemas fonológicos e as representações por meio da escrita.

Assim, o sistema fonológico português possui 33 fonemas, representados por um alfabeto de 23 letras, que foi acrescentado mais três letras k, y e w. Enquanto, que o sistema fonológico xavante possui 20 fonemas, 17 grafemas, acrescidos da apóstrofe. Pois em ambas as línguas os contrastes presentes na expressão oral e escrita podem provocar distorções na pronúncia e na escrita em português.

Observando texto produzido por um aluno indígena:

[...] essa terra antes pouco ocupados e cobertas de vegetação, começam e sem povoadas, a receber asfalto canalização de água casas e edifícios que substituem a antiga paisagem. (MAGALHÃES, BORTONE, 2008, p. 149)

Podemos perceber, nesse fragmento, a troca que o aluno faz da letra pela que ele utiliza. No entanto, não se trata de um erro ortográfico e sim de falta de domínio incompleto do sistema flexional do verbo em português. Mas, para que seja superado está dificuldade o aprendiz indígena necessita de turmas especiais e metodologia adequada para apreender a segunda língua.

Analisando as entrevistas feitas com alunos indígenas, temos as seguintes questões:

Na produção de texto, você tem dificuldade de representar a língua portuguesa graficamente? Comente a respeito disso.

I-1 Eu entendo. Mas ainda tenho dificuldade sim. As vezes fico nervoso para apresentar o trabalho. Falar em frente do professor e explicar o trabalho. Pra mim não é fácil.

I-2 Sim mas não muito, eu acredito que eu vou aprender.

Nota-se que a dificuldade maior está na concordância. Pois esses dois alunos indígenas entrevistados são universitários e tem interesse em aprender a nossa língua oficial.

No ato da escrita, geralmente tem o hábito de trocar as palavras, qual o equívoco mais frequente?

I-1 Alguns o índio que entende bem a palavra eles troca e ensinam frequentemente que sabe entende e explicar, mas geralmente. Esse eu, não entendo e tenho dificuldade para explicar. Alguns são palavras difícil posso trocar, mas as vezes entra a palavras, para procurar no dicionário.

I-2 Sim, quando eu encontro uma frase que eu não significado procuro uma rase que faz sentido.

Percebemos que os alunos indígenas vêm, sentem, enxergam que não dominam o português, não só na escrita, mas também na oralidade. No caso do aluno dois ele oculta uma letra “rase” em vez de “frase”, mas no início da fala dele ele escreve certo, então, vemos que pode ser muitas vezes uma falta de atenção dele por ter dificuldade de escrever em português.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo da história do período colonial, sempre existiu formas de discriminação em relação aos povos indígenas. Em primeiro lugar, não eram considerados como civilização, em segundo lugar, sua língua era inferior, pois eram considerados inferiores, etc.

Entretanto, essa realidade mudou, mas não muito, atualmente, os índios estão vindo para as cidades, vêm conhecer os nossos costumes, crenças, hábitos, língua, enfim, nossa cultura. E será que estamos preparados para essa realidade, enquanto professores?

Esse é um dos questionamentos que fizemos ao longo desse estudo, e chegamos à conclusão, segundo o nosso referencial teórico: Fricções linguísticas nas interações escolares: o caso dos alunos xavante no médio Araguaia, realizado pelas professoras, Marly Augusta Lopes de Magalhães e Márcia Elizabeth Bortone, que não. Infelizmente, os professores não possuem conhecimento suficiente para lidar com os alunos índios.

Na pesquisa sociolingüística interacional, foram entrevistadas algumas professoras, e elas mesmas declararam o despreparado para trabalhar com alunos índios. Uma delas, na entrevista nº 12, informante P, na página 145, vê o índio como algo exótico, totalmente distanciado de sua realidade urbana.

Assim, o distanciamento da realidade linguística do indígena xavante com a realidade linguística da comunidade envolvente, influência no domínio do meio comunicativo e na interação para a aprendizagem do índio no novo ambiente escolar, que torna-se um obstáculo para o conhecimento.

Dessa maneira, os fatores determinantes das diferenças de aprendizagem entre o grupo índio e o não índio estão na falta de conhecimento de suas especificidades culturais pelos professores e pela falta de um currículo bilíngüe nas comunidades indígenas, e não na capacidade cognitiva do aluno xavante.

Portanto, os professores necessitam fazer uma autoavaliação, reflexão de sua metodologia, ensinoaprendizagem, de sua condição de comunicador, seu discurso empregado em sala de aula, para não cometerem equívocos com esses alunos, e, sobretudo, respeitar a cultura e a língua deles. Em uma situação de silêncio em sala de aula, procurar ouvi-los, pois esses alunos têm muito a nos ensinar, enfim, temos que respeitar as diferenças sócio-culturais, para não cometer atitudes etnocêntricas, ao contrário, devemos empregar a relativização, ou seja, respeitar a cultura do outro, isso é ser educador.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COX, Pagliarini Inês Maria. Que português é esse? Vozes em conflito. São Carlos & João Editores/ Cuiabá EdUFMT, 2008, pp. 137-151.






Nenhum comentário:

Indique este blog a um amigo.