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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O FANTÁSTICO-MARAVILHOSO NA OBRA "O BERRO DO CORDEIRO EM NOVA YORK", DE TEREZA ALBUÉS

RESUMO

Neste trabalho, pesquisamos sobre a narrativa contemporânea, e focamos nossos estudos em uma variante dessa narrativa, o Fantástico. Essa pesquisa foi de extrema importância para a análise da obra “O Berro do Cordeiro em Nova York”, publicado em 1995, da autora mato-grossense, Tereza Albués. Nesse romance abordamos somente o aspecto do Fantástico, observamos como essa escritora realiza a desconstrução do real para atingir a supra-realidade (Maravilhoso). Uma obra autobiográfica, repleta de acontecimentos dramáticos, de evocações entre realista e fantásticas. “O Berro do Cordeiro em Nova York” é um grito de liberdade de tanto sofrimento experimentado por suas personagens, no sertão de Mato Grosso, onde quem manda é quem detém o poder, os latifundiários. Nessa obra nos deparamos com fatos humanos e não humanos, que a escritora trabalha com maestria.


Palavras-chave. Narrativa Contemporânea, Narrativa Fantástica, Literatura mato-grossense, Maravilhoso.

INTRODUÇÃO

Nesta pesquisa buscamos compreender como se realiza o estudo da narrativa contemporânea, uma vez que ainda estamos inseridos neste período.

Posteriormente, iremos estudar uma variante da prosa contemporânea, o Fantástico, ou seja, procuraremos entender como o Fantástico acontece na ficção contemporânea.

Para a análise que iremos fazer, escolhemos a obra: O Berro do Cordeiro em Nova York, da escritora mato-grossense Tereza Albués. Nesse livro escolhemos alguns fragmentos, que de acordo com nossas leituras encontra-se no gênero Fantástico-Maravilhoso. Dessa maneira, levamos em conta os vizinhos do Fantástico, o Estranho, e o Maravilhoso, pois, ao analisar uma obra Fantástica não podemos deixar de lado esses dois gêneros vizinhos.

Então, para maior compreensão do nosso trabalho, delimitamos da seguinte maneira:

No primeiro capítulo, trata-se da questão do que vem a ser narrativa contemporânea, e uma variante dessa narrativa; o Fantástico. Também, comentamos sobre o método empregado nessa monografia, que é a pesquisa bibliográfica, isto é, pesquisamos sobre o assunto em fontes de dados de materiais já elaborados; livros, revistas, ensaios, artigos na internet, sobre o tema em questão. Além disso, nesse mesmo capítulo abordamos sobre a importância de estudar a literatura de Mato Grosso.

Em um segundo momento, fala-se sobre o resumo da obra, e a biografia da autora, isso é para deixar o trabalho mais compreensível pelo leitor. Já o terceiro e último capítulo aponta para nossa análise; o Fantástico na obra “O Berro do Cordeiro em Nova York”, escrita por uma autora de Mato Grosso, publicada em 1995.

Para finalizar, retomam-se assuntos discutidos ao longo do trabalho, e colocamos a conclusão que chegamos em nossa análise.


I - A NARRATIVA CONTEMPÔRANEA

O presente capítulo busca desenvolver uma pesquisa cujo enfoque é a narrativa contemporânea, a qual segundo Carpeaux não pode ser objeto de estudo da historiografia literária, pois, encontra-se em processo de transformação. Os modernismos ainda continuam agindo em nossa literatura, com seus líderes vivos ou mortos, os quais possuem uma grande influência em nossas letras.

Em mesma conformidade, Massaud Moisés, quando afirma a dificuldade de linhagens ou cronologias rígidas, devido ao fato que muitos ficcionistas desse período continuam vivos e escrevendo.

Dessa maneira, um estudo desse período, deve ser entendido como uma forma provisória de análise, pois a modernidade não é um paradigma e sim, um conceito, um estilo de arte, um refletir sobre o próprio estilo literário, além disso, faz parte do nosso presente, e muitas mudanças estão sujeitas a ocorrer. Assim, são adotadas algumas medidas como propõe Carpeaux, levando-se em consideração critérios estilísticos e ideológicos, porém não é o suficiente, pois, não podemos compreendê-la no todo, é um processo que está em construção, muitos de seus ficcionistas continuam em atividade.

O que chamamos, nesse capítulo, de narrativas contemporâneas ou terceira fase do modernismo, para Massaud Moisés (2001, p.287), inicia-se em 1945 e prolonga-se até nossos dias. Mas podemos dividi-lo da seguinte forma, apenas com intuito didático.

Primeiro período - até 1960 quando irrompem as vanguardas; e surgem grupos de novos poetas, os concretistas.

Segundo período – até 1973 com Alvorada, de Osman Lins, escritor brasileiro e romancista crítico. Foi um novo movimento revolucionário, possui uma linguagem estruturada, totalmente diferente, é um marco nas letras.

Terceiro período – daí por diante.

Isso significa que é um momento relativamente próximo de nós, por isso, a dificuldade de uma classificação desse momento, e seus estudos não podem ser tomados como algo acabado, porque está sujeita a correções que somente o futuro determinará, como afirma Massaud Moisés:

[...] a prosa orienta-se por vetores nem sempre discerníveis com clareza. Várias tendências podem ser apontadas, alguns“ismos” assinalados, denotando a permanência da tradição ou a interrupção do novo, mas nem suas fronteiras se apresentam bem marcadas, nem seus cultores se caracterizam pela ortodoxia. Em mais de um caso, deparamos correntes cruzadas, superpostas, manchas de cor que se misturam, gerando uma ficção avessa a soluções estanques. (MOISÉS, 2001, p. 335).

Falar de prosa contemporânea é um assunto complexo. Primeiro porque está muito próximo de nós, ainda estamos vivendo as transformações alcançadas pelo Modernismo, a Semana de Arte Moderna, é certo, que os modernistas de 22 não conseguiram colocar muitas transformações em prática, mas eles deram um grande passo para as várias conquistas que estamos vivenciando, essa Semana de Arte Moderna faz detonar muitas questões que são debatidas até hoje. Ainda que se possa criticar as contribuições dos artistas ligados à semana, essas contribuições foram fundamentais e até hoje alimenta a cultura brasileira.

Por todos os ideais pregados pelos intelectuais de 22, que lutavam por uma arte livre das convenções passadistas, os artistas de 30 puderam fazer as coisas livremente, pois os heróis de 22 romperam com todas as barreiras. Então, os artistas de 30 podiam escrever como quisessem, pois, os modernistas acabaram com o passadismo. Há ainda uma contribuição dessa geração de 30, que não conseguiu colocar em prática os ideais da semana de 22, mas contribuiu com o romance social regionalista, uma literatura mais política, adulta.

Mas, foi a terceira geração que conseguiu colocar em prática os ideais de ruptura pregados pela semana de arte moderna, ou seja, os ideais de mudança, rompimento, pregados pelos modernistas de 22 deu-se de fato na terceira geração do modernismo (geração de 45), considerada a fase madura, a qual conseguiu colocar em atividade tudo aquilo que os modernistas tentaram colocar em prática e não obtiveram êxito.

A geração de 45 conseguiu desenvolver uma literatura de traços próprios do autor, de cunho individual, uma crítica social, experiência e observação das realidades vividas, isto é, cada um possui seu próprio estilo de escrita, por exemplo, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, e essa é uma das características dentre muitas outras que observamos na narrativa contemporânea. Por outro lado, os escritores ainda estão escrevendo, essa literatura está sendo construída, formada, seja pelos escritores que estão vivos e escrevendo, seja pelos próprios escritores mortos que continuam a influenciar nossa literatura. Depois, porque nos deparamos com várias correntes se cruzando, vários “ismos” sendo assinalados, o novo mesclando com a tradição, o que demonstra que não existe fronteira nessa escrita, o que ocasiona a dificuldade de nomear essa arte.

É o que trata Salvatore (1990) a respeito dos “ismos”, quando diz:

A produção artística do século XX, nas suas várias formas de manifestações (literatura, teatro, cinema, pintura, escultura, arquitetura, música, dança), acusa profundamente as influências de um conjunto de idéias inovadoras surgidas a partir da segunda metade do século. Intuicionismo, Existencialismo, Fenomenologia, Psicanálise, Marxismo, Voluntarismo, Relativismo constituem correntes de pensamento que, de um certo modo, determinaram o surgimento de novas formas artísticas mais aptas a expressar o universo da mecanização e a nova problemática da sociedade moderna contemporânea. (SALVATORE, p. 412).

Essa fase para Oliveira em Literatura sem segredos (2007, p. 442) consiste em uma fase que “segue as tendências da geração 45, sendo acrescida de biografias, memórias e reconstituições históricas”. Assim, em face do novo temos o contraste com o velho, como se pode perceber continuidade e rupturas se alternam e se misturam.

Dada à pluralidade de estilos, bem como as inúmeras obras, destacamos apenas: prosa intimista, prosa regionalista, a ficção de Fenomenologia Existencialista, o realismo mágico, ficção do cotidiano dramático e da condição humana, prosa urbana, crônicas, contos, biografias, memórias, reconstituições históricas, romance – reportagem.

É nesse campo de tantas diversidades que se encontra nosso estudo, mais precisamente no realismo mágico, e como o nosso objeto de estudo, a obra O Berro do Cordeiro em Nova York, foi escrita no ano 1995, achamos oportuno focarmos nossos estudos somente nas duas últimas décadas do século XX, isso facilitará a compreensão do livro, uma vez que esse século está repleto de acontecimentos importantes.

Nos anos 80 e 90 ocorreram transformações muito importantes não só no mundo, mas também no Brasil. No mundo podemos citar, o fim da guerra fria, a queda do muro de Berlim – 1989, a fragmentação da União Soviética, e do ideal do socialismo utópico, a guerra do Golfo, na disputa do oligopólio do petróleo, etc.

No Brasil, tivemos inúmeros acontecimentos no campo social, político e econômico. Mas, sem dúvida, o acontecimento mais importante encontrava-se no campo político, uma vez que houve uma grande mudança nesse setor. O colégio Eleitoral elegeu para presidência, em 1985, o civil Tancredo de Almeida Neves, dessa maneira encerrava 20 anos de governos militares. Porém Tancredo Neves não veio a assumir, devido a problemas de saúde e posterior complicação que o levaram à morte. Logo, quem assumiu a presidência foi seu vice, José Sarney permanecendo no poder até o ano de 1989.

Oliveira, em Literatura sem segredos, afirma a esse respeito:

[...] o ciclo de abertura estava finalmente completo em 1989, quando se disputou uma eleição direta para a presidência. O Brasil deixava para trás os anos de repressão para vivenciar o governo de Fernando Collor de Mello [...]. (OLIVEIRA, 2007, p. 441).

Isso significa que, nos anos 80 é quando o processo democrático começa, enfim, a ser estabelecido. Entretanto Fernando Collor foi cassado dois anos após sua posse (1990-1992), assumindo em seu lugar o vice Itamar Franco, que em sua administração foi lançado o plano real pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que por essa atitude e pela falta de candidato torna-se popular. Fernando Henrique chega à presidência da República, em 1995, foi reeleito permanecendo no poder até 2003. E, finalmente chega à presidência Luís Inácio Lula da Silva que também foi reeleito, atual Presidente da República.

Também houve grandes conquistas no campo da ciência, “o homem já brinca de Deus” tamanha as transformações que conquistaram nesses últimos tempos.Temos em curso os mais sofisticados produtos da área da informática, o projeto Genoma, a clonagem, entre outros acontecimentos.

Evidentemente, após todos esses episódios, a literatura que já possuía o intuito de retratar a realidade, agora tem o compromisso de ser a mais transparente possível, mostrando a verdade, para que possa se fazer justiça, pois, tem por objetivo preencher as lacunas de informação deixado na sociedade enquanto estava reprimida sob o regime militar, pois a literatura também trabalha com a realidade ficcionando – a, e esse homem contemporâneo necessita ter uma visão alargada para dar conta de todas essas mudanças que a sociedade sofreu e sofre. Além de todos esses fatos mencionados, temos a passagem de século que ocasionou todas aquelas questões esotéricas de fim de século.

A propósito disso, diz Hilda Magalhães:

[...] os anos 1980 e 1990 caracterizam-se basicamente pela espiritualização, uma busca interior que inclui o resgate de valores não muito privilegiados naquele século, como as religiões e todas as demais manifestações místico-esotéricas. Tais manifestações convivem, entretanto, com a era da multimídia, conformando um momento sui generis no final de século, dividido entre a festa e o apocalipse, concretizados, respectivamente, na exacerbação do misticismo e na radicalização da violência. (MAGALHÃES, 2001, p. 235).

A passagem do século XX para o século XXI trouxe em discussão na literatura assuntos até então considerados irrelevantes, como, religião, questões místicos - esotéricas, esse assunto mistura se com toda a tecnologia que possuímos, e também com a violência, são assuntos totalmente opostos, o irracional numa época marcada pelo racional, num momento que a ciência encontra-se extremamente avançada.

Mesmo numa geração marcada pela racionalidade, muita pessoas, baseada nas opiniões religiosas e do senso comum, acreditavam que com essa passagem de século teríamos um apocalipse, que o mundo iria acabar. Essa é uma das explicações do aumento desse tipo de assunto na escrita. Há nesses anos uma crescente procura nesse assunto, e também nos livros de auto – ajuda, uma forma do homem moderno obter respostas para questionamentos existenciais, busca de si mesmo, seu interior, tudo isso gerado por todas estas transformações do mundo moderno, é certo, esse homem é influenciado por todas essas mudanças, social, tecnológica, política, cultural.

A esse respeito afirma Cadermartori, em seu livro Períodos literários: “A arte, nas primeiras décadas deste século, afastando-se da tradição, rompeu com uma certa unidade existente nos padrões da expressão”. (1987, p. 71).

É claro, que a cada passagem de século surgem mudanças na expressão artística, mas o século XX acusa profundas e amplas transformações culturais e estéticas, isso acontece por inúmeros fatores de ordem econômica, social, política, como já mencionamos, mas há ainda a questão do gosto. E o que ocorreu neste século é uma mudança bem mais ampla que dos demais séculos.

Herbert Read, em Arte de agora agora ( São Paulo, Perspectiva, 1972), citado por

Cademartori, nesse mesmo livro, destaca dois traços marcantes da arte contemporânea: a complexidade e a diversidade.

Assim, aborda o autor sobre esses dois aspectos:

[...] a complexidade – gerada pela ausência de unidade e pela ruptura com a tradição acadêmica – e a diversidade – diz respeito à pluralidade de nosso tempo de condensar, de algum modo, nosso desenvolvimento passado de maneira que o espírito humano, que no passado expressou a si próprio, ou a algum aspecto predominante de si próprio, diversamente em épocas diferentes, agora expressa a mesma diversidade, sem qualquer pressão em qualquer aspecto particular, ao mesmo tempo. (CADEMATORI, 1987, p. 71

Novamente, vemos a dificuldade em classificar essa literatura, isso não é possível como afirma o autor, por dois motivos, a complexidade e a diversidade. Segundo ele, a complexidade foi gerada pela ausência de uma uniformidade, um único modelo de escrita como tínhamos no passado, essa quebra de paradigmas deu-se com o rompimento da tradição acadêmica, herança dos modernistas de 22, mas que tivemos realmente resultado na geração de 45.

E também há a diversidade, gerado pela falta de um modelo a seguir, é claro, que surgem várias vertentes, muitas tendências, além disso, cultivamos inúmeras características das gerações anteriores, o que gera uma mistura da tradição com o novo. E esse respeito que temos de cultivar o passado com seus aspectos próprios, de seus autores que estavam presos a regras de escrita, de tema de sua época, fazem com que convivam hoje passado e presente, mas com uma liberdade a qualquer tipo de padrão de escrita.

De fato, essa diversidade não permite que enquadremos a arte contemporânea em uma única tendência, ou seja, não podemos designar esta literatura como foi feita nos séculos anteriores, no entanto, nada impede que possamos caracterizar essa expressão artística hordiana, com particularidades próprias, como enunciou Carpeaux ao mencionar os aspectos estilísticos e ideológicos, dos quais já comentamos. E uma dessas peculiaridades próprias diz respeito à industrialização cultural e à sociedade de massa.

A indústria cultural é realizada pelos meios de comunicação de massa e engloba todas as informações culturais industrializados desenvolvidas no nosso século. Já a sociedade de massa engloba as informações desenvolvidas pelo povo.

A cultura de massa influência tanto a população urbana quanto a rural, esta é alcançada através de seus instrumentos de comunicação como: televisão, rádio, jornal, livros, etc., impondo padrões e comportamento de consumo, colocando para as pessoas uma maneira de pensar, agir, uma ideologia dominante, que é a da classe dominante. Assim, a arte que esses meios mostram torna-se um produto, que deve ser comercializado, colocando a arte a fins de meios capitalistas.

É certo que avançamos muito, se pensarmos que no passado, que quem tinha acesso ao livro era apenas quem possuía dinheiro, tanto é que os romances eram uma forma de entretenimento da burguesia, a população menos favorecida era descartada desse tipo de leitura por ser o livro muito caro. Além disso, não havia acesso a informação como há hoje. No entanto, esse comércio cultural visando apenas o lucro às vezes não se preocupa com o conteúdo que está difundindo, pó exemplo, vulgariza, pela simplificação, conceitos complexos provenientes de outro tipo de comunicação, no caso, a elite, e muitas vezes visando apenas o entretenimento. O intuito dessa arte de massa é apenas a diversão, e não concentrar, enfim, é um sistema que visa apenas o lucro.

E essa cultura de massa opõe a cultura chamada superior, de elite ou universitária. É como diz Cadermartori “[...] assistimos em nossa época, à tensão entre dois tipos de arte – a culta e a de massa – regidos por diferentes normas e agradando a diferentes públicos” (1987, pp. 72-73).

Mas isso não quer dizer que elas convivam isoladamente. Às vezes convivem juntas, como podemos citar a adaptação dos clássicos, e a redução de obras consideradas obras primas, obras consideradas leituras das elites. Tudo isso facilita o acesso do povo, porém uma obra adaptada ou reduzida perde toda sua originalidade, a forma como o escritor escreve, sua maneira de escrever é única, própria do autor, até a ideologia da obra pode sofrer alterações, isso deve ser levado em consideração na hora de ler um livro.

Há também o fato do escritor culto contemporâneo está inserido nesse mundo onde a cultura de massa predomina, pois ele leva esses aspectos da cultura de massa para sua escrita, como os aspectos das novelas de televisão, as fotonovelas, o cinema, etc.

Dessa maneira, existem dois pólos de manifestações artísticas, uma cultura de massa que é efetuada pelos meios de comunicação e o da vanguarda, que são as obras em que dá importância à investigação e a invenção da escrita.

Encontramos ainda traços peculiares dessas narrativas como afirma Massaud Moisés: questionamentos, busca de conhecimentos, indagações, reflexões sobre a própria existência e o mundo, todos esses valores são bem diferentes, do século XIX, que possuía o objetivo apenas de divertimento do leitor, dito de outra forma, os escritores contemporâneos buscavam e buscam uma nova forma de colocar esses novos valores na escrita e torná-los produto de sua época.

Em geral, a sociedade contemporânea é extremamente conturbada por problemas do mundo moderno, seja político-social, seja econômico. O homem de hoje está a todo o instante inventando, transformando o mundo, e agindo sobre ele, mudanças profundas estão ocorrendo, todos os dias temos novas descobertas, no campo da ciência, os povos já estão unidos pela tecnologia avançada tamanho o avanço dos últimos tempos.

Em mesma conformidade, Salvatore:

No começo do século, e mais propriamente com o início do Modernismo, a prosa de ficção adquire aspectos multiformes. No seu intuito de representar a vida, a literatura ficcional tenta colocar em forma de arte mudanças profundas, quer no tocante às formas estéticas, quer no que diz respeito aos conteúdos ideológicos. (SALVATORE, 1990, p. 430).

Com esse interesse de representar uma época, a realidade em movimento, seus problemas, anseios, conflitos existenciais, o próprio homem moderno em face de múltiplos conflitos, etc., é necessário, portanto, uma reforma no pensamento. Assim, a prosa mudou muito para conseguir refletir todos esses acontecimentos na escrita, porque a literatura está ligada ao contexto sócio-cultural, por detrás de uma literatura há sempre uma ideologia, a literatura é viva, caminha para o futuro. E essa mudança como colocou Salvatore, atinge tanto a forma estética; que é a estrutura, quanto o conteúdo ideológico; a maneira de enxergar o mundo, sua prática reflexiva e crítica.

Novamente é colocada a dificuldade de classificar a narrativa contemporânea, assim diz Salvatore, “Devido à grande variedade de tendências e correntes, é muito difícil definir e classificar o romance do século XX”. (1990, p. 430).

Além dessa preocupação em retratar a realidade de sua época; mostrando os problemas concretos do país, conscientizando o público – leitor de uma forma mais verossímil possível, pois, seu intuito é denunciar a alienação do povo. Os escritores contemporâneos também possuem a inquietação em ser o mais criativo possível, até porque os leitores estão mais exigentes, a literatura da contemporaneidade na maioria das vezes, é vista como uma maneira de adquirir informação, e não apenas como entretenimento.

Então, surge a necessidade de reinventar uma nova forma de interpretar essas transformações; o que ocasiona um dilema ao artista, que deve possuir uma atitude nova em face do mundo, isso coloca o escritor diante da busca constante de uma nova forma de mostrar todas essas transformações, apresentar o novo para seu público, pois o homem contemporâneo necessita acompanhar todas estas mudanças: econômicas, tecnológicas, científicas, entre outras.

Por isso mesmo, a produção literária contemporânea é marcada por uma enorme pluralidade, várias tendências se misturam, mesclam entre si. Nessa perspectiva, observamos os seguintes traços: um enredo bem planejado, as histórias transcorrem em vários ambientes, ficção psicológica de tom intimista retratando os problemas de sobrevivência num cotidiano torturado pela tensão entre o homem e o mundo, presença de traços místicos, seja referente a traços religiosos, ou até mesmo político, temas voltado ao regionalismo, introspectivo, fantasmagórico, fluxos da consciência, aos flashbacks, e a toda sorte de fragmentação estrutural, o irracional.

Devido a essa pluralidade, diversidade, complexidade, todos esses impedimentos, para uma possível nomeação dessa arte literária, Salvatore diz, “Tentaremos delinear apenas algumas vertentes que nos parecem principais, enquadrando nelas os vultos mais expressivos da moderna prosa de ficção”. (1990, p. 430).

Nessas vertentes principais três filões de narrativa ficcional podem ser detectados:

Primeiro: a narrativa traz como tema os problemas sociais do homem e do mundo moderno, e é marcada pela corrente realista. Essa narrativa é classificada por Bosi, como romance “de tensão crítica”. Para Bosi (1994), “romances de tensão crítica - o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da natureza e do meio social, formule ou não em ideologias explícitas, o seu mal-estar permanente”.

Segundo: a narrativa preocupada com o mundo subjetivo do protagonista, aqui, nota, a influência do interior, psicológico da personagem principal, como nomeia Bosi de romance de “tensão interiorizada”, em que “o herói não dispõe a enfrentar a antinomia eu/mundo pela ação: evade-se, subjetivando o conflito”.

Terceiro: as narrativas com inclinação a reformar o gênero literário, experimentando novas fórmulas de estrutura e novos padrões lingüísticos. Para Salvatore, esses romances antes de transpor a realidade social ou psíquica, “tentam construir uma nova realidade, recorrendo a padrões místicos”. (1990, p. 392). Sobre esse tipo de romance, Bosi nomeia-o de romance de “tensão transfigurada, que o herói procura ultrapassar o conflito que o constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade”. (1994, p. 392).

Esses três filões da narrativa ficcional não têm um valor científico, mas apenas para melhor entendimento, uma finalidade didática, com o intuito de encontrar princípios análogos no meio de inúmeros elementos distintos, de vários autores e obras.

De acordo com esse assunto Bosi, quando afirma em História Concisa da Literatura Brasileira:

[...] que a classificação por tema tratado na obra pode ajudar até um certo momento, pois, essa separação do romance social-regional, romance psicológico finda-se por não dar conta das distinções internas que separam os principais prosadores de uma mesma época, além disso, um autor pode ter um e outro aspecto, essa separação é apenas para melhor compreensão. (BOSI, 1990, p. 392).

Como vimos Salvatore destaca três filões na narrativa ficcional. Mas o escritor Bosi, além desses três, ainda destaca outro, o romance de “tensão mínima”. Nesse romance encontramos conflitos, mas apenas em oposição verbal, sentimental quando muito: “as personagens não se destacam visceralmente da estrutura e da paisagem que as condicionam”. (1994, p. 392).

No entanto, toda essa variedade, complexidade que falamos não impede que encontramos traços comuns, que apontam para uma tendência que predomine.

Observemos o aspecto do irracional, pois, é o que prevalecerá na narrativa contemporânea, como afirma Carpeaux:

A tendência dominante da época é o irracionalismo. É irracionalista o fundo de todos os modernismos, de todos os primitivismos e do surrealismo, do realismo“mágico”, do existencialismo, irracionalista até é o neo-realismo que se entrega de todo à realidade, isto é, a um fenômeno que não pode ser completamente analisado com os recursos da “Ratio”. Mas a força do irracionalismo revela-se, sobretudo nas modificações que conseguiu imprimir a movimentos bastante racionalistas. (CARPEAUX, 1980, p. 19).

Nesse sentido, destacam-se os escritores do “realismo fantástico”, que exploraram a fronteira do real para atingir uma supra - realidade, assim esses autores apropriam-se de muita fantasia e reprodução concretas do imaginário, isso contrapõe a narrativa das correntes realista que “[...] partilha o princípio do classicismo de que a vida é racional e cabe ao escritor descobrir, via arte literária, a lógica do comportamento humano e viver social”. (Salvatore, 1990, p. 435).

Na narrativa fantástica encontramos seres como nós, vivenciando o espaço como o nosso, em frente à realidade como a que estamos vivenciando, porém, esse homem é colocado de repente com acontecimentos estranhos, misteriosos que a racionalidade não consegue explicar.

A esse respeito Massaud Moisés, afirma:

Vinculando-se às experiências já conhecidas, repercutindo uma das linhas de forças mais ativas da literatura hispano-americanas das últimas décadas do século XX, a ficção de recorte fantástico, ou mágico, igualmente abre espaço na produção nacional do pós-guerra. Para tanto, o místico, o maravilhoso, o sobrenatural, o fantasioso, tornam-se categorias discerníveis na realidade histórica. (MOISÉS, 2000, p. 368).

Como assinalou Massaud Moisés, a ficção de recorte fantástico ganhou espaço principalmente nessas últimas década s do século XX, isso é resultado de uma busca de valores que muitas vezes não é alcançado por meio da racionalidade.

O Fantástico não leva em conta o racional, ou seja, é um rompimento com a prosa que desde o classicismo aborda questões que a racionalidade pode explicar, ao contrário, o Fantástico nasce do absurdo, inexplicável, não existindo fronteiras entre o real e o imaginário.

E como afirmou Massaud Moisés, essa literatura abre espaço principalmente no pós-guerra, no meio de tantas desilusões, sofrimentos que o ser humano se deparou, por isso a associamos a uma busca que o ser humano faz, que só pela racionalidade não seria possível, então traz o racional junto com irracional, ambos convivem juntas sem nenhum problema.

Dentre essas informações, que propusemos expandir a presente análise, do nosso objeto de estudo, O Berro do Cordeiro em Nova York, (1995), uma narrativa de sabor autobiográfico, da escritora mato-grossense, que o enquadramos na literatura fantástica.

Para melhor compreensão, do que será analisado delimitamos os seguintes capítulos:

A narrativa fantástica;

O método de análise e, a importância de estudar a literatura de Mato Grosso;

A narrativa fantástica na obra O Berro do Cordeiro em Nova York de Tereza Albues.

Acreditamos que esse trabalho poderá contribuir de alguma forma a outros estudos dessa autora, pois, como sabemos a literatura mato-grossense ainda é pouco investigada, além disso, esbarramos com os problemas de obter materiais para análise, são escassos e os poucos que há, são de difícil acesso. Uma pena, porque a prosa de Mato Grosso é muito rica, os temas retratados em suas obras são interessantes, envolventes, por outro lado, temos o prazer de conhecer nossa região por meio dessas leituras, e não há nada mais encantador do que conhecer uma região, sua formação, cultura, por meio da literatura, aprender com prazer.

Sem dúvida, o estudo dessa obra não termina nessa análise. É um livro magnífico, certamente abrirá diversificados caminhos de estudo sobre essa autora, que possui um grande talento com as letras. Vale a pena ler suas obras.

Então, vamos à compreensão da literatura fantástica.

1.1 - A NARRATIVA FANTÁSTICA

Antes de desenvolver com mais profundidade o conceito de Fantástico neste capítulo, achamos oportuno começar a explicar essa palavra pelo dicionário. O vocábulo Fantástico está registrado no dicionário da seguinte forma:

A palavra “Fantástica” segundo o dicionário Aurélio significa, 1. Só existe na fantasia ou imaginação; imaginário, ilusório, irreal. 2. Fantasmagórico (relativo a, ou próprio de fantasmas) 3. Caprichoso, extravagante. 4. Incrível, extraordinário, procedimento que só existe na imaginação. É um termo originário do latim phantasticus (-a, -um), que, por sua vez, provém do grego (phantastikós) – são palavras que têm origem na fantasia.

Daí surge à literatura fantástica, uma literatura que origina-se da imaginação, o que não existe no mundo real. É o tipo de literatura que não tem a menor preocupação em relatar fatos que existam na realidade, fatos que consideramos como próprio deste mundo que estamos inseridos.

Recapitulando, o que vimos no capítulo precedente, que a narrativa contemporânea não possui uma singularidade, a qual é constituída por uma diversidade e pluralidade, mas, conforme os autores consultados, podemos encontrar alguns traços que predominem, por exemplo, a irracionalidade. A irracionalidade é uma tendência dominante da literatura contemporânea, e aqui, na narrativa fantástica é o que vamos encontrar em abundância, pois, sua característica é justamente a criação de relatos irreais, imaginários, como vimos na definição do vocábulo “Fantástico”.

Para Salvatore:

A corrente do chamado“Realismo Fantástico”, pelo contrário das correntes realistas, contesta esta falsa crença, pondo em relevo o que há de absurdo e desumano na realidade individual e social. O Fantástico passa a ser utilizado como recurso expressivo para evidenciar a inexistência de fronteiras entre o real e o imaginário, o natural e o abnorme. (SALVATORE, 1990, p. 435).

A literatura de maneira geral é uma criação do imaginário, porém a estética realista camufla essa característica, que é própria da literatura, fazendo com que esta ficcione a realidade, no entanto, no gênero fantástico essa ‘realidade’ é irrelevante, aqui a literatura é tratada como algo da imaginação, irreal, isto é, a literatura não tem o intuito de imitar a realidade, mas mostrar o seu verdadeiro papel, ser fruto da imaginação. Nesse gênero somos levados a acontecimentos estranhos, mas o leitor está ciente que não deve levá-los em consideração. O fantástico dessa forma coloca que a função da literatura não é reproduzir o real, mas transpor esse real, misturando-o com o irreal.

A literatura Fantástica opõe-se a essa falsa crença da realidade, e põe em destaque o que há de mais bizarro, quer na realidade social, quer na individual, mostrando que não existem fronteiras entre o real e o imaginário.

De fato, a narrativa Fantástica é toda criação literária que não dá importância a realidade vivida no mundo, não existe fronteira entre real e irreal, ambas misturam-se. Isso quer dizer que, esse tipo de prosa literária não se preocupa em retratar a realidade, tal como a vivenciamos.

Há ainda outra teórica, cujos estudos são relevantes para nossa pesquisa, Coelho (1984, p. 31) fala que “conforme a época, o realismo ou imaginário acabam por predominar no ato criador ou no gosto do público”.

E, principalmente nas últimas décadas do século XX, têm desenvolvido com muita freqüência esse tipo de narrativa. E quando o escritor opta pela narrativa de registro fantasista, ele “ora descobrir ‘o outro lado’da realidade, __ o não imediatamente visível ou conhecido, transfigurando-a pelo processo metafórico (representação figurada)” (COELHO, 1984, p.31). Nesse sentido, a prosa fantástica não se identifica com a realidade em que vivemos, mas sim com uma realidade imaginada, fantasia, imaginário, desconhecido.

Porém, não há uma criação de um novo mundo, o que acontece nesse tipo de narrativa é uma mistura entre o real e o imaginário, não há limites entre ambos.

Mas nenhuma das formas quer a literatura real, quer na irreal, nenhuma dessas formas é melhor ou pior, em matéria de literatura. O que existe é a relação de conhecimento entre os homens e o mundo em que se encontram.

A autora chama atenção para a forma como as narrativas eram escritas em seus primórdios:

[...] a literatura foi essencialmente fantástica: Na infância da humanidade, quando os fenômenos da vida natural e as causas e princípios das coisas eram inexplicáveis pela lógica, o pensamento mágico ou mítico dominava. Ele está presente na imaginação que criou a primeira literatura: a dos mitos, lendas, sagas, cantos, rituais, contos maravilhosos, novelas de cavalaria, etc. (COELHO, 1984, p. 32).

Podemos dar como exemplo, o conto de fadas, aqui encontramos em grande quantidade o sobrenatural; A Odisséia, Dom Quixote, ambos são encontrados elementos maravilhosos, é claro, que em diferentes graus, e são as maiores narrativas do passado.

À proporção que o homem avança nos conhecimentos científicos, tecnológicos, começa a explicar os acontecimentos pela razão, conseqüentemente a literatura que representa a vida, também traz em suas obras como característica dominante à “razão”.

No entanto, como nenhuma conquista da ciência é definitiva, a todo o tempo surgem novas descobertas, o que é verdade hoje, amanhã pode não ser, é verdade até que prove o contrário, assim as épocas de convicção na ciência se mesclam com descrenças. Com isso, vemos surgir novamente à descoberta da fantasia, imaginação.

O iniciador do realismo fantástico na América Latina foi o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), de família conservadora e tradicional. Em seus livros apareciam acontecimentos irreais. “Em seus livros de contos e outros, acontecimentos pseudo-históricos encontram-se mesclados com o irreal [...] Seus temas preferidos são a magia, a eternidade, o inferno, a ciência cabalística”.(1990:435).

Outro escritor bem conhecido em nossa literatura é o colombiano Gabriel García Márquez, 1928, com sua obra Cem anos de solidão. Nesse romance há uma mistura de história e lenda, a realidade do dia-a-dia entrelaçando com sonhos. Esse autor vive atualmente no México.

Salvatore, ainda cita outros escritores da literatura fantástica Hispano-americanas, como: Julio Cortazar (1914-1884); Miguel Angel Asturias (1899-1974); Alejo Carpentier (1904-1980) e Carlos Fuentes, 1929, esse escritor vive atualmente no Reino Unido. Certamente, o principal romancista dessa vertente é Franz Kafka.

A narrativa fantástica foi tida durante muito tempo como gênero menor, entretanto na segunda metade do século, ganhou destaque a vertente fantástica latino - americana.

Massaud Moisés (2001) comenta sobre a repercussão da literatura Hispano - americanas das últimas décadas do século XX, conforme esse autor essa literatura Hispano – americana pode ser nomeada de fantástico, ou mágico.

Na Europa também produziu obras fantásticas, mas é diferente da Hispano – América e do Brasil. Na literatura fantástica européia, o autor preocupa-se em preservar a realidade, são abordados temas fantásticos, sobrenaturais, mas no final da obra, o escritor soluciona todos os problemas apresentados, com uma explicação racional. Entretanto, a produzida na América Latina não respeita o racional, e não tem a preocupação com a verossimilhança, pelo contrário transgride-a.

Vale ressaltar, que o século XX foi de grandes descobertas, mudanças de paradigmas, e a literatura como acompanha a evolução do homem tornou-se produto desse meio, sofreu influências marcantes jamais vistas em outras épocas. Em face desse acelerado desenvolvimento científico, tecnológico, cultura, social, etc., é natural que a racionalidade fosse novamente superada por suas conquistas, pois todos esses progressos do mundo moderno trouxeram alguns problemas ao homem, que de repente viu-se frente a frente com tantas dificuldades, que é gerado dessas transformações, então a racionalidade, já não consegue solucionar algumas dificuldades, e dessa forma há uma busca da fantasia para solucionar os conflitos do ser humano que o racional não consegue resolver, por exemplo, conflitos de ordem existencial, angústia da alma, da mente, etc., isso é devido a esse mundo contemporâneo. Logo, a literatura Fantástica tornou-se um importante tópico da literatura contemporânea.

Na leitura da narrativa fantástica percebemos que, no início os fatos narrados, aparentemente fazem parte do mundo real, todavia, no decorrer da leitura nos deparamos com fatos irreais, misteriosos, inexplicáveis, e esses acontecimentos estranhos em si mesmos são próprios desse gênero, sem eles o fantástico não aconteceria, sua existência é necessária. Mas o interessante é que os tais fatos estranhos não causam nenhuma surpresa a personagem, pelo contrário, é como se isso fizesse parte de sua história, pertencesse a sua realidade, ou seja, o ocorrido é totalmente natural a vida da personagem. Assim o verossímil funda-se com o inverossímil.

No início da leitura desse gênero não acontece nada de anormal, estamos num mundo como o nosso, sem seres estranhos, como, fantasmas, alma - do - outro - mundo, ser invisível, ou qualquer tipo de ato que a razão não possa explicar, todavia, de repente surgem fatos inexplicáveis, que não podem ser explicados pelas leis deste mundo familiar.

Isso quer dizer que, na literatura fantástica somos levados a um mundo exatamente como o nosso, que estamos acostumados sem seres estranhos, ou qualquer tipo de acontecimento que a razão não possa explicar, porém, de repente surgem fatos inexplicáveis, que não podem ser explicados pelo bom senso.

E, quando isso acontece, quem o percebeu (personagem) deve escolher se esse acontecimento realmente aconteceu ou se é fruto de sua imaginação.

Todorov (2007) afirma a esse respeito:

Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto da imaginação e nesse caso a leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. (TODOROV, p. 30).

Neste sentido, a personagem deve fazer uma escolha, se o que viu é fruto de sua imaginação, ou realmente aconteceu, e nesse caso não existe uma explicação racional. Essa conclusão ser ou não real é solucionada no final da obra, a qual deve ter uma explicação racional, ou não, porém existem obras que o mistério continua após o final do enredo.

Vale referir aqui a diferença entre a personagem da corrente realista e da literatura fantástica. A personagem fantástica encontra-se em extremidades diferentes da realista, e possui vantagens uma vez que pôde modificar os fatos para construir um mundo segundo seu desejo. Isso não ocorre na literatura de corrente realista, que tudo deve ser explicado pelas leis do racional.

Então, o Fantástico ocorre exatamente nessa dúvida de escolher entre o sucedido realmente ter acontecido, ou ser fruto da fantasia. Essa incerteza é essencial na obra fantástica, pois, é exatamente nesse momento que acontece o fantástico, isto é, o fantástico é essa dúvida experimentada por um ser que só conhece as leis da razão, esse mundo que estamos situados, sem nenhum fato estranho, frente a acontecimentos nunca vivenciados até então, aparentemente sobrenaturais, e esse ser deve decidir se o ocorrido existe ou não, o fantástico surge dessa hesitação, entre ser real ou imaginário. E, a partir disso a personagem deve optar por um ou outro, deixando o fantástico para atingir um outro gênero vizinho; o estranho ou o maravilhoso.

Vejamos algumas definições da narrativa fantástica encontrada na França em escritos recentes, citados por Todorov (2007:32):

Para Cartex, “O Fantástico [...] se caracteriza [...] por uma introdução brutal do mistério no quadro da vida real” (Lê conte fantastique en france: p.8).

Louis Vax, em (L’ Art et la Littérature fantastiques: p.5) “A narrativa fantástica... gosta de nos apresentar, habitando o mundo real em que nos achamos, homens como nós, colocados subitamente em presença do inexplicável”.

Roger Caillois, em Au Coeur du fantastique (p.161): “Todo o fantástico é ruptura da ordem estabelecida, irrupção do inadmissível no seio da inalterável legalidade cotidiana”.

Notamos que todas essas definições possuem algo em comum como: mistério, inexplicável, mundo real, vida real. Todos esse escritores chegaram à mesma resposta quanto à definição da literatura fantástica; as definições chegam a ser paráfrase uma da outra. O Fantástico caracteriza dessa forma, como uma ruptura da realidade coesa e contínua, é gerada pela desconstrução da realidade que conhecemos como verdadeira.

Esse tipo de literatura tem algumas características próprias que não a encontramos em outros gêneros. Mas isso não que dizer que o tema tratado no gênero fantástico seja diferente dos assuntos tratados na literatura em geral, o que acontece que no fantástico existe o discurso figurado elevado ao extremo, chega-se dessa maneira ao exagero.

Em primeiro lugar, ela causa alguma sensação no leitor, seja medo, horror, seja simplesmente a curiosidade, e isso não acontece nos demais gêneros. Essa sensação sofrida pelo leitor é próprio do fantástico que apresenta tais temas, a alma penada que exige para seu repouso que uma certa ação seja realizada, a morte personificada aparecendo no meio dos vivos, os vampiros, isto é, os mortos que conservam sua juventude sugando o sangue dos vivos, a maldição de um feiticeiro que provoca uma doença espantosa e sobrenatural, a mulher-fantasma vinda do além, enfim, possuem uma infinidade de exemplos.

Em segundo lugar, a literatura fantástica causa o suspense; devido ao seu tema repleto de assuntos intrigantes, ela possue uma organização particular e tem esse poder de executar o suspense em extremidade.

Finalmente, descreve um universo fantástico, o herói consegue realizar todas as suas vontades, ao contrário do herói da corrente realista, que todos seus atos devem estar de acordo com a racionalidade, coeso com a nossa realidade, devem ser explicados por meio da razão. Mas essas realizações do herói mesmo que fuja do bom senso, esse mundo está dentro da linguagem, à descrição e o descrito não são de natureza diferente, ou seja, não é questionada a natureza do real, já que o fantástico é nos apresentado como única realidade dentro da narrativa. Dessa forma, o fantástico se define como uma percepção particular de acontecimentos estranhos.

Em suma, a narrativa fantástica é preenchida de acontecimentos inexplicáveis, fora do nosso cotidiano, que a razão não consegue explicar, e quem percebeu esses fatos estranhos tem que escolher, se eles realmente aconteceram ou se é algo de sua imaginação, a escolha entre um e outro, transporta a narrativa para um gênero vizinho, o estranho ou o maravilho.

Passemos, agora para o aspecto do leitor, assim diz Todorov:

O Fantástico implica, pois, uma integração do leitor no mundo das personagens; define-se pela percepção ambígua que tem o próprio leitor dos acontecimentos narrados. É necessário desde já esclarecer que, assim falando, temos em vista não este ou aquele leitor particular, real, mas uma ‘função’ de leitor, implícita no texto (do mesmo modo que acha-se implícita a noção do narrador). A percepção desse leitor implícito está inscrita no texto com a mesma precisão com que o estão os movimentos das personagens. (TODOROV, 2007, p.37).

Além da hesitação do leitor há ainda outro fator muito importante da condição de leitor, quando ele saí do mundo das personagens e volta para a prática de leitor, pois, a preocupação diz respeito à interpretação da obra.

Existem narrativas fantásticas que contêm elementos sobrenaturais, inexplicáveis por nossa razão, e o leitor jamais se questiona sobre sua origem, entendendo perfeitamente que não pode levar tudo aquilo em consideração, ou seja, entendendo que não deve tomá-los ao pé da letra.

Todorov (2007, p. 38), porém, vai além das definições que colocamos da literatura fantástica, quando ele aborda outro aspecto da literatura fantástica, como:

“O fantástico implica, portanto, não apenas a existência de um acontecimento estranho, que provoca hesitação no leitor e no herói; mas também numa maneira de ler, que se pode por ora definir negativamente: não deve ser nem ‘poética’, nem ‘alegórica’ ”.

Dentre essas informações, podemos dizer que existem três características fundamentais na obra fantástica:

Primeiro é necessário, que o leitor considere o mundo das personagens, como um mundo de criaturas vivas, e hesitar entre se os fatos ocorridos são reais ou fruto da imaginação, sobre-naturais;

Segundo, a hesitação que o leitor enfrenta pode ser experimentada igualmente por um personagem da obra; assim o papel do leitor é, entregue a uma personagem e ao mesmo tempo, essa dúvida é mostrada na narrativa, torna-se um dos temas da obra;

Terceiro, é importante que o leitor desse tipo de narrativa assuma autonomia, atitude com o texto, recusando tanto a interpretação alegórica quanto à interpretação poética.

Segundo Todorov, essas três exigências não têm valor igual. “A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita”. Mas, a maioria preenche as três definições.

Vale referir que existem alguns críticos, por exemplo, Lovecraft, que aborda a questão do medo, como característica da prosa fantástica. Para ele, “[...] o critério do fantástico não se situa na obra, mas na experiência particular do leitor; e está experiência deve ser o medo”. Porém, aqui, não está se referindo ao leitor implícito, mas sim, ao leitor real.

É certo, que alguns escritores fantásticos utiliza-se desse sentimento de medo ou perplexidade, mas daí dizer que esta seja uma condição importante. Todorov critica essa definição, porque, para ele não tem sentido dizer que seja uma característica necessária do fantástico, ou seja, para uma obra ser considerada do gênero fantástico depender do sangue frio do leitor. O medo acontece nesse tipo de narrativa, mas não como condição necessária.

Portanto, o fantástico, como foi dito dura somente o momento da hesitação, tanto do leitor, quanto da personagem, que devem decidir que o que percebem é fato verídico, explicado pelas leis da natureza, ou algo inexplicável, onde a racionalidade não consegue explicar. No fim da história, o leitor, quando não a personagem toma, contudo, uma decisão, opta por um, ou outra solução, saindo desse modo do fantástico.

Isso quer dizer que, se os acontecimentos podem ser explicados pelas leis da natureza dizemos que a obra liga-se a um outro gênero: estranho. Por outro lado, caso decida que os fatos estranhos fazem parte de novas leis da natureza, estamos no gênero do maravilhoso.

O fantástico leva, pois uma vida cheia de perigos, e pode se desvanecer a qualquer instante. Nesse caso, o fantástico encontra-se no limite entre dois gêneros, o maravilhoso e o estranho.

Todorov (2007), que nos esclarece quanto a esse aspecto:

Não existe aí o fantástico propriamente dito: somente gêneros que lhe são vizinhos. Mas exatamente, o efeito fantástico de fato se produz, mas somente durante uma parte da leitura [...] nada nos impede de considerar o fantástico precisamente como um gênero sempre evanescente. (TODOROV, p. 48).

Porém, existem narrativas que a ambigüidade não se encontra apenas em uma parte da obra, mas em toda a obra, e às vezes esta chega ao final, fecha-se o livro e a dúvida continua.

Observamos agora esses dois vizinhos, o fantástico-estranho e o fantástico-maravilhoso.

Iniciaremos pelo fantástico-estranho. A narrativa enquadrada aqui narra acontecimentos que ao nosso ver são sobrenaturais, a história não pode, aparentemente, ser explicada pela racionalidade, e ao longo da história personagem e leitor acreditam no sobrenatural, todavia ao final da prosa recebem esclarecimentos descritos pelas leis da natureza.

Estranho puro - Nas obras que pertencem a esse gênero, são narrados fatos que podem ser explicados pela razão, mas esses fatos são extraordinários, surpreendentes. Assim, provocam no leitor ou na personagem algum tipo de reação, essa reação é semelhante àquela causada na literatura fantástica. Como: os romances de Dostoievski, a pura literatura de horror pertence a esse gênero, e muitas novelas de Ambrose Bierce.

Sobressai, aqui apenas uma da característica do fantástico: a de exposição de certas reações, a reação ao medo; está ligada apenas a reação de sentimento das personagens. E como sabemos o medo está freqüentemente ligado ao fantástico.

Fantástico – maravilho – Este tipo de narrativa narra ao longo da obra acontecimentos sobrenaturais, fatos que excede as forças da natureza, e ao final da história sugere-nos realmente a existência do sobrenatural. “[...] o maravilhoso se caracterizará pela existência exclusiva de fatos sobrenaturais, sem implicar a reação que provoquem nas personagens”.

Maravilhoso – puro

Neste tipo de narrativa, os fatos sobrenaturais relatados não causam nenhum tipo de reação nem nas personagens, nem no leitor implícito. “Não é uma atividade para com os acontecimentos narrados que caracteriza o maravilhoso, mas a própria natureza desses acontecimentos”. (TODOROV, 2007, pp. 58-59).

O Maravilhoso Puro geralmente é associado aos contos de fadas, é certo, que os contos de fadas é uma variante do maravilhoso, por relatar acontecimentos sobrenaturais que não provocam nenhuma surpresa. Podemos citar alguns exemplos desses acontecimentos sobrenaturais como: o sono de cem anos, o lobo que fala, os dons mágicos das fadas, entre outros, são situações que ocorrem fora do nosso tempo ou espaço, e não pode ser explicado de forma alguma, isto é, faz parte naturalmente daquele espaço e tempo narrado.

E, esse gênero se subdivide ainda em: maravilhoso hiperbólico, maravilhoso exótico, maravilhoso instrumental e maravilhoso científico.

Vejamos, o conceito de cada um deles:

1) Maravilhoso hiperbólico: os fatos descritos não são sobrenaturais “a não ser por suas dimensões, superiores às que nos são familiares”. Mas o extraordinário não excede extremamente a racionalidade. (TODOROV, 2007, p. 60).

2) Maravilhoso exótico: nesse tipo de prosa são narrados acontecimentos sobrenaturais, entretanto, não são apresentados como fatos inexplicáveis, fica então subtendido que o receptor implícito não conheça a região do ocorrido, dessa forma não tem como duvidar dos fatos relatados nessa região.

3) Maravilhoso instrumental: aparecem aqui pequenos artigos engenhosos que para a época descrita não é possível, contudo, pode ser que seja possível.

4) Maravilhoso científico: nesta narrativa o sobrenatural é explicado, por meio, da racionalidade, mas por leis que a ciência contemporânea ainda desconhece. São narrativas que apresentam casos irracionais, mas encadeados de uma forma perfeitamente lógica. Como se pode perceber, essas variantes do maravilhoso distingue-se do maravilhoso puro, pois como foi dito, o maravilho puro não é explicado em hipótese nenhuma, ao contrário de suas variantes, como mencionamos acima estas são justificadas, “desculpadas”. Dessa maneira essas variantes opõe ao maravilhoso puro, embora, seja sua variante.

Mas qual a diferença entre o gênero Fantástico e o Maravilhoso?

Chiampi nos diz que, “Maravilhoso é o ‘extraordinário’, o ‘insólito’, o que escapa ao curso ordinário das coisas e do humano. Maravilhoso é o que contém maravilhas, do latim mirabilia, ou seja, ‘coisas admiráveis’, (belas ou execráveis, boas ou horríveis)”. (O Realismo Maravilhoso, 1980, p. 48).

O Maravilhoso se distingue totalmente do que vem a ser humano, sendo assim tudo aquilo que vem dos seres sobrenaturais, fazendo parte daquilo que origina de outra esfera e não tem explicação racional. Na literatura o Maravilhoso é a intervenção de seres sobrenaturais, divinos ou legendários (deuses, deusas, anjos, demônios, gênios, fadas).

Essas características também são encontradas na literatura Fantástica, ambas compartilham muitos traços, como a problematização da racionalidade, aparições, demônios, metamorfose, etc. Mas o Fantástico possui a capacidade de produzir medo e variantes, dúvida. O Fantástico contenta-se em fabricar hipóteses, falsear o seu possível e impossível é improvável, e o gênero Maravilhoso ao contrário, não possui essas inquietações, na verdade, os personagens do realismo maravilhoso não se desconcertam jamais diante do sobrenatural, não se assombram, nem vacila, isso porque aceita o irreal como parte da realidade, torna verossímeis os acontecimentos sobrenaturais.

O assunto tratado no Fantástico não é diferente dos assuntos tratados na literatura de forma geral, o que difere um de outro, é a questão da intensidade que é trabalhado um assunto na literatura Fantástica, ou seja, na literatura fantástica existe o exagero, leva-se o sentido figurado ao pé da letra, o que significa que o excesso, o superlativo, serão a norma do fantástico. Dessa forma, o sobrenatural surge do exagero. Vale referir ainda, que o fantástico está ligado a ficção, isto é, sua existência está estritamente ligada à ficção.

Após está abordagem do que vem a ser o gênero Fantástico e como ele acontece na ficção, vamos agora compreender esse procedimento na prosa da escritora mato-grossense Tereza Albués, em sua obra O Berro do Cordeiro em Nova York, publicada em 1995.

Assim, para melhor observamos esse estudo, abordaremos os seguintes aspectos, subdivididos em um mesmo capítulo.

1.2. O método de análise e, a importância de estudar a literatura de Mato Grosso;

2.0. Biografia da autora;

2.1. Resumo da obra;

3.0. A Narrativa Fantástica na obra “O Berro do Cordeiro em Nova York” de Tereza Albués.

1.2 - MÉTODO DE ESTUDO E A IMPORTÂNCIA DE ESTUDAR A LITERATURA DE MATO GROSSO

Como já foi mencionado o nosso objeto de estudo é a obra O Berro do Cordeiro em Nova York, uma obra de sabor autobiográfico, publicada em 1995, da escritora mato-grossense Tereza Albués. Obtive o conhecimento dessa autora e suas respectivas obras em uma conversa informal com a Profª. Dra. Gilvone Furtado Miguel. Então resolvi estudá-la, primeiro por ser uma escritora da nossa região, segundo por trabalhar a temática social.

Meu interesse por estudar a literatura regional foi justamente o desconhecimento dessa literatura, associei esse desconhecimento com a minha monografia, por que não conhecer melhor um tema do qual tinha pouco conhecimento. Nada melhor do que a minha monografia, um projeto de pesquisa amplo, com muitas leituras e exigências, o que me faria aprofundar nesse assunto. Primeiramente, queria trabalhar a temática social, mas no decorrer das leituras, minha orientadora, Profª. Ms. Raimunda achou melhor focarmos o Fantástico na obra citada. Belíssima, escolha fomos privilegiadas com esse tema, mais um assunto que desconhecia, o que fez com que estudasse muito mais, e mais um aprendizado nessa pesquisa.

A literatura de Mato Grosso é pouco estudada devido à dificuldade de obter material de estudo. Isso acontece por diversos fatores, como: a pouca produção de obras, muitas das publicadas são publicações individuais, o próprio escritor com seus recursos a publicam, o que ocasiona um número reduzido de obras, e quando são esgotadas nas áreas de vendas não são reeditadas, também existe a má conservação, e ainda a falta de interesse das instituições competentes em divulgar a obras locais, o que podemos observar é a falta de vontade em difundir a literatura mato-grossense.

Tudo isso ocasiona o desconhecimento da nossa produção literária. Mas, felizmente temos pessoas envolvidas na divulgação dessas obras como é o caso da professora Hilda Gomes Dutra Magalhães, com seu projeto GEMAT (Grupo de Estudos Literários Mato-Grosso), cujo objetivo é popularizar as obras da região.

Esse projeto originou-se da falta de materiais para administrar uma disciplina cuja ementa tinha a literatura mato-grossense, a falta de acesso aos materiais levou a extinção do curso na UFMT campus de Cuiabá, esse fato ocasionou a busca de materiais de estudo, nessa busca foram entrevistados escritores em diversas regiões do Estado, o que acarretou um acervo de novecentos títulos incluindo: periódicos, manuscritos, e obras raras. Com esses exemplares a docente publicou duas obras com o intuito de divulgar a literatura de Mato Grosso, seja para as Universidades, seja nas escolas.

É muito importante esse trabalho desenvolvido pela professora Hilda, pois dessa maneira tomamos conhecimento dos escritores de nossa região, e assim esperamos que diminua o desconhecimento por parte da população, e também os discentes das Universidades de Mato Grosso poderão desenvolver projetos de pesquisa sobre esse tema, pois a falta de acesso a esses materiais faz com que haja pouco interesse por parte dos alunos.

Além do projeto de pesquisa GEMAT, podemos citar, outros projetos de pesquisa como: RG-DICKE, (Grupo de Pesquisa sobre literatura e cultura de Mato Grosso, vinculado ao CNPq, coordenado pelo Prof. Dr. Mario Cezar Silva Leite, da UFMT), o programa de Mestrado em Estudos da Linguagem da UFMT, e a lei de número 5.573, de 06 de fevereiro de 1990, de autoria do deputado Hermes de Abreu. Essa lei torna obrigatório o ensino de História, Geografia e Literatura de Mato Grosso, tanto em escolas públicas, como escolas privadas do estado. Mas, nas grades curriculares da escola ainda não possuem esse conteúdo, isso não é impedimento para alguns professores que ensinam esse conteúdo nas aulas de língua portuguesa. Fato que foi observado na Escola Deputado Norberto Schwantes de Barra do Garças.

Assim, vemos que agora existe um certo incentivo por parte das instituições competentes a partir dessa lei. De acordo com Cocco, “[...] a literatura produzida no estado [...] está vivendo um período efervescente em termos de produção e de incentivo à publicação, através de leis públicas, embora ainda seja precária a circulação dos textos”. (COCCO, 1996, p. 20).

A escritora menciona a deficiência na divulgação das obras, os motivos dos quais já mencionamos. Por isso, o estudo dessa literatura local, a oportunidade de conhecer as obras dos escritores de nossa região, e a necessidade de colaborar para a divulgação dessa arte.

A escolha da obra de investigação O Berro do Cordeiro em Nova York, foi devido ao tema social, mas posteriormente partimos para o Fantástico. Então, feita à escolha do objeto de estudo, e após a leitura desta, partimos para o tema que seria abordado em minha monografia, o Fantástico.

Delimitado o tema, ou seja, o Fantástico na respectiva obra, foi feita à elaboração do plano de trabalho, depois partimos para o levantamento de materiais, documentação indireta, isto é, fontes de dados de materiais já elaborados, o que chamamos de pesquisa bibliográfica, mais precisamente fontes secundárias, assim fizemos um levantamento de bibliografias possíveis de estudarmos, livros, revistas, alguns artigos na internet, ensaios publicados, tudo relacionado ao assunto que iríamos tratar. Todo esse material foi de fundamental importância para o desenvolvimento dessa pesquisa. Após o levantamento do material de leitura, partimos para as leituras e fichamentos, e respectivamente para a análise e interpretação do objeto de estudo.

Estabelecido o direcionamento, delimitei o período da pesquisa, optando como já mencionei pela obra literária mato-grossense de Tereza Albués. O Fantástico pareceu-nos melhor devido a pouca abordagem a esse tema, uma vez que há trabalhos na área do social desenvolvido pela professora Hilda Magalhães, no livro História da Literatura de Mato Grosso do século XX, é certo, que não é um estudo aprofundado sobre a temática.

Dessa maneira, estudamos a literatura contemporânea, uma variante dessa literatura, o Fantástico, e a obra da escritora de Mato Grosso, juntamente com estudos sobre as obras de Mato Grosso, o resultado desse estudo, encontra-se aqui. Esperamos que possa contribuir para outros estudos dessa autora.

É importante estudarmos a literatura mato-grossense porque podemos conhecer a cultura de uma região, o modo de vida de um povo, conhecemos a atividade desse local, não só no aspecto político, econômico, social, como também o funcionamento do pensamento desse povo, sem precisar recorrer aos livros de história.

No livro de estudo temos a oportunidade de ver bem isso, pois a autora faz um belíssimo retrato da nossa região, mostrando muito bem nossa cultura, fauna, flora, o sistema de exploração dos trabalhadores pelos proprietários dos latifúndios, o preconceito racial, a questão indígena, a ditadura, etc., fala da cidade de Cuiabá, Pantanal, o processo de colonização do Mato Grosso pelos bandeirantes, a questão do ouro, entre outros assuntos.

Na leitura dessa obra temos acesso a muitas informações referentes a nossa cultura, como, geográfico, social, econômico, e isso é muito importante, conhecer sua região por meio da literatura é o conhecimento que se dá pelo prazer da leitura, tais informações nos são apresentadas de forma clara, encantadora, que nos faz viajar, e uma viagem que nos faz refletir sobre nossa própria história, não há coisa melhor. Assim, por meio dessa leitura o leitor não conhece os dramas apenas da região, mas os problemas humanos que a habitam.

2.0 - BIOGRAFIA DA AUTORA

A escrita de Tereza Albués surgiu na segunda metade do século XX, um período em que a escrita feminina ganhava um espaço individualizado, em que a autora procura desenvolver seu próprio estilo de escrita e tema, antes não era dessa forma, as escritoras reuniam-se em grupos, como, o Grêmio Literário Júlia Lopes, e publicavam seus trabalhos literários na revista A Violeta, todos os trabalhos literários das escritoras envolvidas eram de apenas uma temática, ou seja, era uma literatura homogênea. Mas, como dissemos na segunda metade do século XX, essa questão da homogeneidade, por exemplo, o amor, toma outros rumos, e a questão social e a prosa de maior volume ganha seu espaço individualizado.

Vemos aparecer então nesse período uma escrita própria, de cunho individual, uma prosa de maior volume tratando das questões sociais, engajada com os problemas da região. E é aqui que encontramos a escrita do nosso trabalho. Uma escrita envolvida com as questões sociais de nossa região, mas também mostrando o outro lado, uma região bem distante da nossa, Nova York, rica, porém com seus problemas, e além das questões sociais a autora nos apresenta o Fantástico, uma mistura de realidade com o irreal.

Mas quem é essa autora?

Terezinha Belta de Albués Eisenstat nasceu em Várzea Grande, no ano de 1936, graduou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, no curso de Direito, Letras e Jornalismo. Na década de 80 mudou-se para os Estados Unidos, onde morou de 1980 até 1983 em São Francisco, depois se mudou para Nova York, ao todo foram 25 anos de vida nos Estados Unidos.

Tereza era casada com o arquiteto Robert Eisenstat, tinha dois filhos. A romancista faleceu na manhã do dia 5 de outubro de 2005, aos 69 anos, devido a um câncer no intestino, o qual a autora lutava havia seis meses, infelizmente não conseguiu êxito. Seu corpo foi cremado em Nova York, onde ela residia.

Tereza Albués começou escrever no exterior, mas isso não fez com que esquecesse sua terra de origem, pelo contrário é fora de sua terra de origem que a escritora faz um pelo traçado de Mato Grosso. Em um certo momento na obra a narradora diz:

Comecei a escrever em San Francisco. Meu primeiro romance traz o frescor de chuvas molhando o cerrado, as pessoas me perguntando, como é que pode, você tão longe e tão presente? Embora pareça paradoxal, é isso o que acontece. A pessoa se distancia e vê com mais clareza. Lê com mais nitidez o seu interior, avalia a bagagem de experiências armazenadas durante anos, sente necessidade premente de se comunicar com o mundo. Talvez inconscientemente queira defender ou preservar aquilo que traz dentro de si, tem medo que se perca ou tome outras feições em contato com a nova cultura. Não sei ao certo. Mas a força que me impulsionava a passar para o papel as minhas lembranças era tão poderosa que eu não podia resistir [...]. (ALBUÉS, 1995).

A sua narrativa trabalha muito essa experiência que a escritora viveu, aqui em Mato Grosso, uma vivência com lendas e um realismo dramático, experiências que foram fundamentais para a construção de seus romances. Tudo influenciou na sua obra, o ambiente, a vida, enfim sua escrita mostra o que viveu aqui no Brasil, em Mato Grosso, juntamente com a entrada de outra cultura, no caso a dos Estado Unidos, que Tereza faz com maestria.

Tereza Albués escreveu cinco romances:

Pedra Canga – 1987;
Chapada da Palma Roxa – 1990;
A travessia do Sempre Vivos – 1993;
O Berro do Cordeiro em Nova York – 1995;
A Dança do Jaguar – 2001.

Todas suas obras, com exceção do livro A Dança do Jaguar, que foi lançado pela Editora 00 h 00, na Embaixada do Brasil de Paris, os demais foram escritos em português e editado no Brasil. Os três primeiros têm como cenário a região de Mato Grosso. Já o último tem como cenário a região de São Francisco, e assim como O Berro do Cordeiro em Nova York, o romance se desenvolve numa dimensão real e fantástica.

Em 1999, a romancista recebeu a menção honrosa no concurso de contos Guimarães Rosa em Paris, com o conto Buquê de Línguas.

2.1 - RESUMO DA OBRA

O livro O Berro do Cordeiro em Nova York é dividido em nove capítulos. A narrativa é contada por uma narradora-personagem, que utilizando-se do tempo da memória vai contando suas lembranças do passado, juntamente com os acontecimentos do presente.

A narrativa apresenta dois espaços: o espaço das lembranças do passado, em Mato Grosso, principalmente no sítio do Cordeiro que localiza-se em Livramento, e o espaço da enunciação, Nova York. São dois paises diferentes: aquele; terceiro mundo, país subdesenvolvido, repleto de desigualdades; este desenvolvido, uma grande metrópole, mas a narradora mostra que existem algumas semelhanças entre ambos, por exemplo, as desigualdades sociais, o sofrimento do povo existe tanto aqui, quanto lá.

A obra apresenta um sertão mato-grossense repleto de desigualdades, um lugar que quem manda é quem detém o poder, a “lei do 38”, dos que possuem dinheiro, ou seja, os latifundiários. E para mostrar isso a narradora descreve o sofrimento de sua família sendo escravizada pelos que possuem o capital. Esse sofrimento da família é nos apresentado principalmente pela figura do pai, seu Venâncio que sofre vários tipos de repressão para sustentar a família.

Os empregos do pai, sempre eram trabalhos pesados, sem direito a descanso, o salário mal dava para o sustento da família, sendo humilhado pelo patrão, também nos é apresentado o sofrimento da família na Nhecolândia, no Pantanal, onde a família tornou-se escravo, de onde saíram fugidos.

Dessa forma, é nos contando fatos, a narradora-personagem descreve para o leitor sua vida repleta de padecimentos, seja no presente o sofrimento de reviver todas essas lembranças no momento de colocá-las no papel, ou no passado, uma vida de sofrimento, humilhações, angústias, tanto dela, quanto de sua família, que é composta por: pai (Venâncio), mãe (Augusta), e os quatro irmãos (Gabriel, Inácio, Dario e Flora).

Não há uma preocupação em apresentar os fatos de forma linear, esses acontecimentos são apresentados conforme o tempo da memória. Dessa maneira, a narradora fala de sua lembrança do sítio do Cordeiro, ao mesmo tempo somos transportados para acontecimentos em outras regiões, do Brasil, como: São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, ou da Europa, ou mesmo de Nova York, pois como ela mesma afirma viajou o mundo todo, e não há preocupação em relatar isso cronologicamente, porque tudo está relacionado ao tempo da memória.

Quanto ao título da obra, O Berro do Cordeiro em Nova York, podemos assimilar isso a todo o momento na leitura do livro, é o berro do sofrimento que por meio dessa narrativa, ela nos apresenta, o grito de toda a dor vivenciada com sua família, humilhação, preconceito, desigualdade, enfim, tudo que aquela menina de 8, 10 anos viveu no do sítio do Cordeiro, aqui, no Mato Grosso, e agora no momento presente em Nova York, faz uma retrospectiva de sua vida, o berro da liberdade, o berro da menina do sítio do Cordeiro em Nova York, o grito do sofrimento e da liberdade, o que não deixa de ser uma questão existencial.

O interessante nessa narração, de todas essas lembranças triste é que há uma superação, a narradora apresenta todo o sofrimento, mas percebemos que ela superou.

A respeito do título também podemos encontrar outras leituras, como a apresentada por Hilda Magalhães:

[...] ressaltamos a importância da metáfora do grito, utilizada para aproximar, no espaço geográfico e social, as duas Américas numa mesma dor, imagem recorrente ao longo do livro e que dá título à obra. A metáfora do grito pode ser entendida também como uma forma de questionamento da essência humana. Nesse caso, o grito ressoa como doloroso enfrentamento dos limites do homem, impostos pela fragilidade humana. (MAGALHÃES, 2001, p. 249).

No início da obra a autora fala somente do sofrimento, da angústia, desigualdade, preconceito, enfrentado por ela e também por sua família, posteriormente, essa narradora-personagem nos apresenta um sofrimento que não é mais individual, e sim, coletivo, pois ela apresenta sofrimento de outros povos, do mundo, nessa obra ela relata fatos vividos em vários espaços. Assim, tomamos conhecimento de um sofrimento coletivo, e percebemos, por exemplo, que entre Nova York e Brasil, Mato Grosso, existe muitas semelhanças.

Como já dissemos o romance é dividido em nove capítulos. Algo intrigante é que a obra começa com o nascimento da personagem, um nascimento real, sem nenhum acontecimento estranho, e no nono capítulo, justamente o número nove, que significa nove meses, nove meses de espera para um bebê chegar ao mundo, é o nascimento da narradora-personagem, e nesse capítulo a narradora-personagem retoma o primeiro, justamente como iniciou o primeiro capítulo, no entanto, o que descreve é o nascimento de uma borboleta. Vemos acontecer uma metamorfose. No primeiro capítulo, era o nascimento de um bebê, no nono capítulo, é o nascimento de uma borboleta.

Vejamos o que acontece no primeiro capítulo,

UM

Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de vir ao mundo que não lhe dei tempo de voltar à rede de onde se levantara minutos antes para ir ao banheiro. Não fosse a parteira entrar correndo e me aparar com as mãos experientes a minha cabeça teria se estatelado no chão de tijolos vermelhos. (ALBUÉS, 1995, p. 11)

E, no Nono capítulo,

Nove

[...]. Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de ver o mundo que rompi antes da hora as paredes ainda molhadas e quentes do meu casulo e saí borboleteando pelas encostas do Morro Santo Antônio, paredões da chapada dos Guimarães, Pão de Açúcar, Corcovado, Cordilheira dos Andes, Pirineus, Agulhas Negras, deslumbrada com o ouro do sol varando a transparência de minhas asas, o corpo ainda respingando o melado sedoso que me alimentara por nove meses. (ALBUÉS, 1995, p. 215).

Como afirma Hilda Magalhães, “Teresa Albués apresenta nessa obra situações absurdas, como as apresentadas pelo escritor Kafka, autor citado pela autora na obra mencionada”. (MAGALHÃES, 2001, p.251).

Observa-se nesses fragmentos acima, que a autora faz uma mistura do real e irreal.

Para Hilda Magalhães,

[...] o livro é uma busca interior, imergir no tempo-espaço, enfrentá-lo, diluir as tenções culturais e psicológicas, compreender as estruturas da dominação, esse é o ritual a que a personagem se propõe, como pré-requisito para a liberdade. E é dessa forma que a obra de Tereza Albués caracteriza-se pela especulação dos enigmas humanos e supra-humanos, operacionalizando a realidade social e os elementos culturais da região mato-grossense. (MAGALHÃES, 2001, p. 256).

Então, essa obra questiona o existencial, pelo processo da escrita a autora aborda a sua existência, além disso, é abordada a questão social, o Fantástico, que foi nosso estudo, entre outros assuntos apresentados na obra. A escritora também menciona o processo de escrever, tudo isso faz da obra O Berro do Cordeiro em Nova York, um romance rico, que trabalha vários assuntos importantíssimo para a literatura.

A narrativa é composta por palavras coloquiais, diálogos simples, vários pontos de interrogação, referências a outros autores; por exemplo: Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, entre outros, nomes de marcas de produtos, nomes de várias regiões do mundo, algumas palavras vulgares; como: merda, porra, puta que pariu, cretino, etc., diálogo entre mortos e vivos, terras que se aproximam, personagem que sai voando pelas ruas de Nova York, entre outros.

O livro é um testemunho de uma escritora diante de tantos sofrimentos. Migrante do sítio do Cordeiro para Nova York, Tereza Albués se projeta na protagonista, relatando suas memórias. Uma menina do Mato Grosso, hoje uma mulher, em Nova York, onde consegue dar seu berro de liberdade. Um cântico de Liberdade como a própria personagem afirma ao final da obra.

A esse propósito declara Nadaf:

[...] O Berro do Cordeiro em Nova York, que relata a saga de sua vivencia no sítio chamado Cordeiro, em Livramento/Mato Grosso, até sua mudança para os Estados Unidos. É uma autobiografia onde a autora efetua e conquista, com maestria, uma catarse existencial para a sua liberdade (daí o berro). (Nadaf, 1961, p. 109).

3.0 - A NARRATIVA FANTÁSTICA NA OBRA “O BERRO DO CORDEIRO EM NOVA YORK” DE TEREZA ALBUÉS.

A narradora-personagem dá início a sua narrativa contando o episódio de seu nascimento, depois dá seqüência com as reminiscências de sua vida com sua família no sítio do Cordeiro:

Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de vir ao mundo que não lhe dei tempo de voltar à rede de onde se levantara minutos antes para ir ao banheiro. [...]. Não sei se este é o ponto certo para começar minha história, mas como tudo principia com o nascimento, não vejo por que não registrá-lo especialmente pela maneira extravagante como sucedeu.[...]. Pretendo aqui contar as lembranças sem preocupação cronológica [...] uma cadeia de fatos saltando do esconderijo da memória [...] discurso que não busco seja linear. (ALBUÉS, 1995, pp. 11-12).

Até esse momento nenhum acontecimento estranho, a narradora-personagem continua narrando sua história, começa a contar sobre sua vivência de sofrimento no sítio do Cordeiro, sem recursos, humilhações, o pai que trabalhava em trabalho pesado sem garantia se algo lhe acontecesse. Até que nos deparamos com algo estranho, como:

Benjamim Barbudo, um andarilho que aparecia de tempos em tempos no Cordeiro.[...]. Contavam muitas estórias sobre ele, diziam que era coisa-ruim, mago, feiticeiro, alguns tinha pavor dele, outros o veneravam como a um santo.[...] realizava curas e milagres [...] às vezes apenas tocando o doente ou fixando-o com os seus olhos ardentes, chispando faíscas. (pp. 15-16).

O início da desconstrução do real dá-se nesse momento, a narradora onisciente, começa a relatar algo absurdo que presenciou com essa personagem Benjamim Barbudo.

Iniciando sua narrativa pelas suas lembranças do passado, a narradora utiliza-se do recurso da primeira pessoa, onisciente, para narrar de início uma seqüência de fatos reais. Usar a personagem em primeira pessoa para dar mais veracidade aos fatos é uma característica da obra Fantástica, sobre esse assunto declara Chiampi: “Um despositivo narracional clássico do texto fantástico – o narrador que se erige em testemunha e conta uma história já sucedida – ocupa-se de registrar realisticamente o fenômeno insólito, para obter a credibilidade do leitor” (1980, p. 57). Mas essa realidade é desconstruída a partir do momento que a narradora presencia algo inexplicável pela racionalidade com a personagem citada. Veja no trecho a seguir:

Me lembro da noite em que o vi dormindo na rede de barriga pro ar, ressonando [...]. É que ele está todo brilhoso por dentro, transparente como vidro, meus olhos podem varar o corpo dele e enxergar a parede de adobo, eu falando no atropelo, gaguejando, as palavras fugindo pra não se tornarem cúmplices do meu relato. [...] na ânsia de ser entendida eu gesticulava, imitava a posição, o jeito do corpo dele na rede, quero dizer, esticado em cima da rede, um vão vazio entre ele e a rede, entende, papai? (pp. 16-17).

Nos dois casos podemos notar o elemento da visão aparecer, isso diz respeito a uma das características do Fantástico, pois significativamente, toda aparição de um elemento sobrenatural é acompanhada pela introdução de um elemento pertencente ao domínio do olhar.

Dessa forma, nos é apresentado o primeiro caso insólito, tudo aparentemente está normal, seres como nós habitando o mundo como o nosso, mas de repente acontece algo bizarro. Os pais da personagem argumentam que ela sonhou, ela protesta, diz que não teve pesadelos. O interessante é que a personagem não teve dúvida, em nenhum momento hesitou se aquilo era verdade ou não. Ela não tem dúvidas, se realmente aquilo aconteceu. Na falta da dúvida não há o Fantástico, e como a personagem aceita os fatos irracionais como verdadeiros, estamos no Maravilhoso.

Uma outra característica do Fantástico que apontamos no primeiro capítulo é que os acontecimentos sobrenaturais não causam nenhuma surpresa na personagem, surpresa no sentido de achar que os acontecimentos insólitos não são possíveis de realizar, como se acontecesse algo extremamente natural, mas nesse caso verificamos que a personagem-narradora ficou surpresa, tanto é que gaguejava, gesticulava. Porém ela não tem medo e vai atrás de Benjamim Barbudo:

Saí procurando por ele, noite clara, cheia de estrelas, não é difícil andar pelo mato, ainda mais que eu conhecia cada recanto do sítio. Andei bastante, já estava quase desanimando, o último lugar era o córrego, fui. Espantada vi que Benjamim atravessava pro outro lado pisando na água sem afundar, parecia que seu corpo tinha a leveza de paina. Chamei por ele, volta Benjamim, cuidado [...]. Ouvidos trancados ele continua como se os pés dele tivessem irmandade com a brisa que soprava mansinho [...]. Desisti, votei pro rancho desapontada [...]. Volto correndo pro córrego [...]. Olho, nem sombra dele, meu Deus, cheguei tarde. Saio desabalada pro rancho, tenho que acordar mamãe e papai, dar ciência do perigo que o nosso amigo está correndo [...]. Quem que vejo sentado tranqüilamente na varanda, separando uma porção de ervas? [...]. Benjamim Barbudo. [...]. Falei com ele, detalhei toda a minha odisséia, demandei explicações, não me diga que eu estava sonhando, terminei num misto de desafio e impaciência. Quem está falando de sonhos? Muitas vezes vagamos em diferentes níveis ao mesmo tempo, a menina certamente me acompanhou numa dessas viagens. E mais não disse. Mas seu olhar disse. Teve um lampejo diferente, um fulgor inusitado. (pp. 17-18).

Nota-se que a personagem acredita que realmente tal fato aconteceu, tanto que afirma que não foi um sonho, mas nesse caso esse acontecimento não pode ser explicado por meio da racionalidade, dessa forma, é regido por leis desconhecidas para nós. Não cabe nesse trabalho questionar a origem de tais fatos estranhos, e sim apresentá-los.

A narrativa desenrola-se entre o passado, e o momento presente, assim a narradora personagem vai descrevendo para o leitor as lembranças, levando-se em consideração o tempo psicológico, com isso obtemos muitas informações ao mesmo tempo.

Agora a personagem-narradora apresenta-nos mais um acontecimento insólito, como, ouvir a voz do espírito de seu avô:

Papai saiu sozinho no meio da noite [...]. Durante três dias papai vagou pelo mato perdido, nem sinal da estrada para Três Marias, as lagoas coalhadas de jacarés impedindo passagem [...] ouviu a voz do espírito do seu avô João Padre que o mandou deitar debaixo duma árvore de flores roxas. Ele obedeceu, caiu no sono, sonhou, a figura iluminada do avô falou: As flores desta árvore cairão sobre você perfumando o seu corpo. Pode entrar nas águas, jacarés e cobras serão afastados pelo perfume, não te farão mal. Daqui pra frente eu o guiarei. Papai despertou, tinha um lençol de flores cobrindo-o, levantou-se confiante, atravessou sete baías nadando, os jacarés quietos, imóveis, indiferentes à sua passagem. (p. 30)

[...] tiveram que trancafiá-lo na Cadeia Pública junto com criminosos de toda espécie. Lá sobreviveu com a proteção do espírito do seu avô, nos contou uma passagem incrível: Armei a minha rede no escurecer e, na minha frente, sentado de cócoras, fumando um cigarro de palha estava um sujeito mal-encarado que me olhava com hostilidade. Vovô me avisou, cuidado com ele, ele está esperando você dormir pra te matar, fica de vigília. [...]. Depois de muitas horas vovô voltou e disse, a cobra morre com o próprio veneno, olha só. Vi o homem fechar os punhos, estender o braço direito e desfechar um murro no próprio peito com o cigarro acesso entre os dedos, à brasa do lado de dentro queimando. Caiu durinho no chão. Desarmei a minha rede e fui dormir noutro canto conforme orientação de vovô. Nunca mais vi o homem, não sei o que foi feito dele [...]. (pp. 31-32).

O pai, seu Venâncio, acha-se convencido de ter ouvido a voz de seu avô, para ele existem forças sobrenaturais, não há qualquer hesitação. E como já mencionamos, o Fantástico ocorre na incerteza, e no fragmento acima não há dúvidas por parte de seu Venâncio, o que faz de tal fragmento aproximar do gênero vizinho do Fantástico, o Maravilhoso. A personagem afirma para a filha (personagem-narradora), que quando esteve preso, sobreviveu com a ajuda do espírito de seu avô, não podemos explicar tal palavras através da razão, eis mais um caso insólito:

Na Espanha, em Granada, visitei o Allambra, um palácio de indescritível beleza e magia, a sombra morena dum príncipe mouro me acompanhando as janelas rendadas, debruçando-se pra molhar as mãos nas águas mumurejantes das inúmeras canaletas construídas entre os aposentos do palácio. Seus olhos negros eram ardentes, refletiam paixão, exigência, nostalgia, o profundo duma alma que não pude alcançar, mas que transmitia vibrações com tamanha intensidade me fazendo estremecer de dor, gozo, saudades de tempos antanhos, onde foi que nos encontramos antes? (p.51).

Em uma visita no palácio de Allambra, a personagem-narradora diz ter visto um príncipe mouro, isso, é evidente, não se origina propriamente das leis da natureza tais como as conhecemos, são acontecimentos estranhos, não conseguimos explicar:

Chácara do Saranzal, uma enorme propriedade [...]. O lugar parecia uma fortaleza, ninguém entrava, mas quando o homem morreu foi uma invasão botou o muro abaixo, dizimaram as plantações [...]. Só ficaram as grossas paredes de pedra ruínas assombradas, todo mundo passando ao largo, o espírito do dono era visto com a espingarda guardando seu território, botando pra correr os que se aventuravam a passar pelo local tarde da noite. Até gente corajosa, com fama de não ter medo de assombração, vovô Cassiano, um dele, chegou ventando no botequim de Manoel Lucrécio, olha, homem, no Mangueiral tem coisa, [...]. (p. 72).

Mais um acontecimento insólito, vovô Cassiano afirma ter alguma coisa estranha na chácara Mangueiral, além disso, os habitantes do lugar comentam que a propriedade é assombrada, é um acontecimento estranho que nos transporta direto para o Maravilhoso. Segundo Todorov, “O fantástico ocorre na incerteza; ao escolher uma ou outra resposta, deixa-se o fantástico para se entrar num gênero vizinho [...]” (2007, p. 31).

Bernarda, a madrasta de papai, antes de morrer deu pra ele um cordão de ouro com uma pombinha de ouro maciço, símbolo do Divino Espírito Santo. Papai me presenteou com a medalha, [...]. Nessa mesma noite tive um pesadelo horrível, Bernarda me apareceu e queria tomar o pingente à força. Arcordei aos gritos, [...] voltei pra rede, lá vem ela de novo me perseguindo. Noites e noites sem descanso. [...] devolvi a pombinha pra meu pai, muito obrigado, ela lhe pertence. Nunca mais sonhei com Bernarda. (pp. 72-73).

Nesse caso, a narradora – personagem coloca tal fato como um sonho, mas este sonho evoca uma visão que é preciso tomar como tal; trata-se de um acontecimento sobrenatural.

[...] dono do matagal que de terreno baldio só tem o nome, quando qualquer coisa de valor nele se descobre, proprietários zangados brotam do chão clamando posse e direito do que nunca herdaram ou compraram. Até os que já viraram assombrações reaparecem em forma de ventania, mula-sem-cabeça, gemidos, gargalhadas e o que mais lhes convier para assustar meninos e meninas arteiras que, alegres e saltitantes, tentam abocanhar os frutos tentadores, imprevidentes. Invasoooores!!! (p. 78).

Novamente um caso de assombração, uma alma penada que volta do além para reclamar posse daquilo que acha que lhe pertence.

Uma certa noite em que no mesmo apartamento fui despertada por uma voz rouca sussurrando ao meu ouvido: Por que tiraram meu telefone daqui se eu não dei permissão? Pulo da cama acendo a luz, vasculho rapidamente o sala-e-quarto, as portas trancadas, ninguém. Tempos depois o zelador do prédio me conta (sem eu perguntar) que o primeiro dono do apartamento onde eu morava tinha sido um solteirão que morrera anos atrás, aí eu pergunto, ele tinha telefone? Tinha, mas parece que alguém da família se apossara indevidamente do aparelho enquanto ele estava doente [...]. Teria sido o espírito do homem que viera reclamar a devolução do que lhe pertencia? Mas por que eu? Que fosse perseguir quem o roubara, disse bem alto nessa mesma noite, no quarto, luz acesa até de madrugada. Penso que fui ouvida, a voz nunca mais me faz cobranças. (p.111).

Agora ela afirma ter ouvido uma voz em seu apartamento. Porém, antes existe uma hesitação, a personagem até verifica se existe alguém em seu apartamento, e depois se indaga se seria o espírito do antigo morador que vieste reclamar pelo seu telefone. Mas uma coisa é certa, ela ouviu uma voz, e detecta que não é coisa deste mundo, tanto é que não encontrou ninguém em seu apartamento. Então houve o Fantástico, a hesitação, seria o espírito do proprietário do telefone que vieste atormentá-la? , eis a dúvida do Fantástico, para em seguida colocar tal fato como real.

No que diz respeito, ao aspecto verbal da literatura Fantástica, há o estudo do enunciado e da enunciação. O primeiro, diz respeito ao emprego do discurso figurado, em levar o discurso figurado em consideração, o exagero. E o segundo, é o estudo do narrador, e é esse que nos interessa nesse momento.

No fragmento acima, a narração está em primeira pessoa, isso é para nos trazer mais verossimilhança aos acontecimentos relatados, quem vai duvidar do que a personagem-narradora viveu, ouviu, é ela que nos relata. Esse é um procedimento do Fantástico, esse narrador representado convém perfeitamente ao Fantástico, quem vai duvidar do que ela conta, ela viveu, ao contrário de uma simples personagem que pode facilmente mentir. Interessante é que o leitor não suspeita do narrador, esquecendo que este também é uma personagem da obra.

Notamos no fragmento abaixo o confronto entre real e irreal enfrentado pela heroína, primeiro; ela diz que fenômenos extra-sensoriais sempre experimentou em sua vida e agora ela pretende revelá-los, segundo; o irracional apodera-se do seu pensamento dando consciência que tudo não passa de ilusão. Nesse caso vemos claramente que a personagem-narradora confronta o real com o irreal. Observe:

Fenômenos extra-sensoriais dessa e outros níveis eu experimentaria pela vida afora e neste livro pretendo revelá-los quando despontarem da transferência do impalpável para a escrita. É fascinante puxar o fio delicado da percepção abrindo espaço para outra realidade mais real do que a nossa que conosco convive diariamente [...]. A resistência do racional também é ferrenha, aboleta-se no pensamento, assegurando que tudo não passa de ilusão dos sentidos, alucinações, fantasias. Ah, este racional repressivo, pedagógico, querendo sistematizar a vida da gente. (p. 112)

A heroína sente a contradição entre os dois mundos, o irracional e o racional, e ela própria mostra que o racional é resistente, e quer mostrar que todos os fenômenos estranhos, não passam de alucinações. Veja mais um caso:

Penso que os acontecimentos estão interligados e são impulsionados por energias que fazem parte do equilíbrio e harmonia universal [...]. Senão como explicar a estranha experiência que vivenciei no Rio de Janeiro? Morava sozinha num apartamento de cobertura na Avenida Pasteur. Uma noite acordei, levei um susto danado, uma moça desconhecida estava ao meu lado, dormindo tranqüilamente. [...]. Estava tão junto de mim que eu podia sentir o contato e o peso do seu corpo, a respiração compassada, ressonando. [...]. Levanto-me, vou verificar a porta, será que esqueci de trancá-la? Claro que não. [...]. Meio entorpecida volto para o quarto, à moça continua dormindo, não sei o que fazer, de repente algo me diz que aquela pessoa não é real, é um espírito. Aí entra o pavor, fiquei gelada, fechei os olhos, rezei, pedi a meus guias e todos os santos que a levassem dali, pensei que fosse morrer, meu coração saltava pela boca, meu corpo começou a ficar rígido e dolorido, sentia câimbras e dificuldade de respiração. Depois de algum tempo, abro os olhos, ela continua ali, recomeço as preces, angustiada, recebo uma mensagem ou intuição, ela dizendo, não quero sair daqui. Me desespero, respondo mentalmente, mas você tem que sair senão eu vou morrer. Aí ela vai embora, eu acendo as luzes da casa, fico pensativa, abalada, somente horas depois consigo dormir de novo. [...]. Tempos depois encontrei uma vizinha tagarela no elevador, começamos a conversar, chegamos até a esquina e ficamos esperando o sinal para atravessar a larga avenida. De repente ela fala, tenha muito cuidado ao atravessar neste ponto [...]. Uma mocinha linda [...]. morreu na hora [...]. Despedimo-nos no cruzamento, eu assombrada com sua revelação, por que ela me contara tudo aquilo? E por que a menina aparecera na minha casa? Coincidências? De novo? Não creio. Seria um complicado quebra-cabeça com peça demais pra se juntar ao acaso em determinada hora e local, perfeito. (pp.119-120).

Admitamos que isso não pode ser explicado, pela razão, mais um acontecimento estranho, a personagem acorda e tem uma moça ao seu lado, existe a dúvida, no primeiro momento ela acha que a moça é real e entrou pela porta, então vai verificar se as portas estão devidamente fechadas, após verificar e ver que tudo está como ela mesma deixou antes de dormir, de repente ela sente que aquela moça não é real, e afirma que é um espírito. Quando existe a dúvida, estamos no gênero Fantástico, mas quando sai da hesitação, entra em outro gênero, muito próximo, o estranho, ou o maravilhoso. Nesse caso, sai-se do Fantástico para entrar no Maravilho, o Fantástico dura apenas o momento da dúvida da personagem perante a um acontecimento extraordinário. O Fantástico pode desaparecer a qualquer momento. Assim afirma Todorov: “Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras, por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. A possibilidade de se hesitar entre os dois casos criou o efeito fantástico”. (2007,p. 31).

(Papai) eu ouço vozes que me dominam, mandam eu fazer coisas, tenho que obedecer, não há outro remédio. [...] discutia com seres invisíveis [...] não adiantava chamá-lo a razão, não nos escutava. Seu corpo era tomado por uma força descomunal, [...]. Quando voltava do transe dizia ter visto uma porção de espíritos rondando a casa, não havia dúvida, papai estava sendo tomado por uma falange de espíritos possessores. (pp. 134-135).

A personagem afirma categoricamente, de que seu pai é possuído por forças estranhas, uma falange de espíritos, e sabemos que o Fantástico ocorre na dúvida, a fé absoluta nos leva para fora do Fantástico, e a hesitação que lhe dá vida.

A casa era mal-assombrada, à noite não conseguíamos dormir com barulho de móveis arrastados ou vozes que vinham sussurrar nos nossos ouvidos as estórias mais disparadas. Eu então era a mais perseguida, se bem que andaram perturbando bastante papai e Inácio, os outros nunca. Os espíritos, duendes ou o que fossem tinham lá suas preferências, pareciam se divertir à medida que nos apavorava. Gabriel afundava mais na leitura do Livro dos Espíritos, quem sabe procurando explicação para os estranhos fenômenos. (p. 137).

Uma série de acontecimentos nos é relatados e todos esses acontecimentos, contradizem as leis da natureza tais como a experiência nos ensinou a conhecê-las. De acordo com a personagem-narradora, tal fato é verídico, os espíritos realmente vinham incomodá-la durante a noite, não é um sonho, realmente aconteceu, a hesitação não está representada no fragmento, E tais acontecimentos são aceitos, estamos diante do Maravilhoso.

A Cotovia foi nos tempos um fazendão de dar inveja [...]. Os donos, Vicentão e dona Arminda, herdaram esse mundão de terra dos pais, essa propriedade vinha de geração em geração [...]. Eles tinham uma capela dentro do casarão, ali enterravam os mortos da família, um cemitério particular, exclusivo para os Macieira. [...] os velhos morreram, os filhos não queriam cuidar da fazenda [...] os credores hipotecaram seus bens, começaram a perder tudo. Por fim tiveram que entregar a fazenda por conta da dívida que tinham com um tal de Alberto Lajedo, um fazendeirão [...]. O homem se instalou na fazenda pra em menos de um mês sair correndo [...] espantado por assombrações que vagavam pela casa noite e dia. Ouviam-se gemidos, arrastar de correntes, socar de pilão, gargalhadas, mudavam os móveis dos lugares, derrubavam as pessoas da rede, abriam e fechavam portas e janelas com tamanho estardalhaço que assustavam até os que passavam pela estrada, a uma légua de distância. No começo Alberto Lajedo pensou que fossem andarilhos, bandos de desordeiros ou desocupados que queriam se divertir à sua custa [...]. Armou-se [...]. Mas tão logo botou a cara pra fora do quarto, levou uma rasteira [...]. Assim ele passou a noite lutando com um inimigo que não comparecia. [...]. Vendeu a fazenda por quase nada, a fama de mal-assombrada já estava imbicando pra lá de Corumbá. [...] o comprador da fazenda, também passou pelas mesmas peripécias. [...]. Daí pra frente ninguém mais quis comprar a Cotovia. Ficou lá abandonada [...]. De vez em quando uma família acampava lá, não durava, era escorraçada pelas almas penadas. (pp. 138-139).

Vicentão, entretanto, não se acha ainda convencido da existência de forças sobrenaturais: o que teria suprimido qualquer hesitação (e colocado um fim ao fantástico). Mas novos acontecimentos vão reavivar as dúvidas de Vicentão, e ele acredita que os tais fatos são sobrenaturais.

Podemos classificar tal relato como sobrenatural, aqui é narrado um fato que como os outros não são suscetíveis de acontecer na vida. Mas não convém mesmo sabendo que o sobrenatural faz parte de uma categoria literária não é aqui pertinente, apenas os acontecimentos são mencionados. Primeiramente a personagem achou que os acontecimentos faziam parte do mundo humano, mas só depois percebeu que estava lhe dando com assunto fora da nossa natureza. Temos o Fantástico e logo depois o Maravilhoso.

[...] era no Rio que eu queria viver, me sentia em casa, como se eu tivesse nascido lá. O mesmo acontece em relação a Nova York, vibro com a energia desta cidade. Ando pelos bairros, reconheço casa em que nunca estive, antecipo bares, lojas, mercados, antes de dobrar esquinas de ruas que jamais passei. Será que vivi neste cenário ou é a multiplicidade de situações se encaixando em experiências anteriores? [...]. É tudo tão intenso e louco nesta cidade que talvez eu tenha passado por muitas alucinações sem o perceber, misturo realidades, recrio imagens interiores, projeto-as sobre as que esbarro saindo subway, depois não me responsabilizo pelos resultados, elas andam soltas por aí [...]. (p. 141).

Como já foi dito, o espaço da enunciação é Nova York, onde a personagem-narradora busca em suas lembranças, o tempo vivido no sertão mato-grossense, principalmente, os momentos vividos no sítio do Cordeiro, e neste fragmento, acima, percebemos que a personagem está com dúvidas, talvez por estar em uma cidade grande, outra cultura, etc., ela possa ter passado por alucinações, e assim misturou realidade com fantasia ao reviver essas lembranças na elaboração dessa escrita, pois tudo isso que a personagem-narradora nos descreve são suas experiências de vida que vem da memória, com o intuito de escrever um livro. Com esse fragmento nos deparamos com mais um momento Fantástico, eis a hesitação, “talvez eu tenha passado por muitas alucinações sem o perceber, misturo realidades, recrio imagens”. Nota-se a dúvida e dessa forma surge o Fantástico. Aqui quem hesita é a personagem. É ela quem terá que escolher entre duas interpretações.

Em Veneza, Giuseppe, me convida para um passeio de gôndola. [...]. Lá vou eu embarcada ou sendo embarcada num porto que desconheço para uma travessia desavisada [...]. Giuseppe que não pára de me apontar castelos, mansões, palácios, vilas. Eu nada enxergava, no começo pensei não estar entendendo o italiano falado em velocidade máxima, espera aí; nas margens o que avisto é um grande espetáculo circense, bocarra arreganhada de arlequins e pierrôs, bailarinas, condes, duques e duquesas, mercadores, tapetes coloridos, fantasmas azuis esvoaçando, gargalhando pelos cenários de papelões repletos de torres e campanários. [...]. Desembarcamos, ele querendo que eu apalpasse a paisagem que com tanto entusiasmo me descrevia, vamos andar pelos corredores e vielas centenárias pra você sentir o perfume da vida que aqui borbulhava antigamente. Mal botei o pé fora da gôndola, fui envolvida por um grupo de arlequins que me passaram a mão pela cintura e me carregaram numa dança frenética, eu olhando pra trás, Giuseppe, venha, estendendo as mãos [...] me vejo em pleno carnaval veneziano, me entrego ao sabor do momento [...]. Está amanhecendo, volto ao cais, encontro o mesmo gondoleiro, pergunto se ele tinha visto Giuseppe. Quem? O rapaz que me trouxe aqui na sua gôndola. A ragazza está equivocada, eu a trouxe sozinha da Piazza San Marcos, nenhum ragazzo a acompanhava. Verdade? Juro por San Genaro. Voltei para o hotel, dormi o dia inteiro, reencontrei Giuseppe no meu sonho [...] descrevendo as maravilhas de Veneza. (pp. 181-182).

A personagem-narradora afirma que estava acompanhada de Giuseppe, entretanto o gondoleiro, diz que ela estava sozinha em sua gôndola, e esse Giuseppe é visto novamente em seus sonhos, ela não questiona a origem desse homem, deixa isso de lado para abordar outro assunto. O que podemos dizer que tal Giuseppe existe apenas para essa personagem, somente ela o viu.

A metamorfose é por demais veloz, alimenta-se da seda e transparência do orvalho pendurado na ponta do capim-cidreira, quando ergo a mão para tocá-la sua luz já se fez em mim, à pele transmudada. Entre o meu gesto e a ação se prende um fio tênue, a aranha tecedeira oportunista improvisa a teia, meu braço se vê suspenso entre o céu e a terra, sustentando um tempo antigo, heras, musgo, orelhas de pau, resinas, ninhos de passarinhos, colméias, casas de maribondo. Reminiscências dum estágio de vida que ainda insistem em permanecer grudadas à minha pele, doces agrestes amargas, sensuais, sedutoras, mas não as quero mais, afasto-as, já não sou árvore que conheceram. Me desenrosco. Rebroto em pássaro viçoso nas planícies da Califórnia, plumagem brilhosa e abundante, soltando trinados que jamais aprendera. Livre. (p. 187).

Observa-se neste fragmento uma metamorfose, a personagem-narradora diz que rebrotou em pássaro, esse fato faz aproximar-se do Maravilhoso, pois a personagem não se desconcerta diante do sobrenatural, no caso, sua transformação em pássaro, ou seja, a personagem não se assombra, perante sua metamorfose, ao contrário, encara o acontecimento completamente destituído de mistério.

Acampei na chapada com meu namorado Leonardo, um rapaz [...] descrente de qualquer forma de vida que seus olhos não constatassem, suas mãos não apalpassem. [...]. De repente, uma sensação estranha, sombra ou energia roçara o meu braço esquerdo, levanto-me da rede, digo, Leonardo, sinto-me tão em harmonia com este lugar que posso apontar para o topo daquela árvore e pedir que um pássaro venha pousar ali. [...] eu estico o dedo, um passarinho de cor ferrugem, peito avermelhado, vem chegando, assenta no galho, olha em nossa direção tranqüilamente, solta trinados festivos, seu canto é ventania que embala a mata, saudação. Leonardo continua sorrindo, você conhece o significado da palavra acaso? Recuso-me a aceitar o fato como simples acaso, eu sinto que a chegada do pássaro tem uma razão, pode ser o primeiro toque de percepção do outro nível que nos cerca, insisto. Se eu estender o braço neste instante, uma folha vai se desprender da árvore e cair na palma da minha mão, quer ver? [...] faço o gesto, uma folha vem rodopiando do alto, cai exatamente na minha mão aberta, iluminada pela estrelas brincalhonas que agora gargalham ruidosamente ante o espanto de Leonardo. Acaso, repete ele impaciente. [...] ainda trago a marca vermelho-ferrugem na palma da minha mão, é tão pequena e irrequieta que dificilmente pode ser vista por olhos gentios, mas ficou morada na carne dura, a posseira teimosa. (pp.189-190).

A personagem tem certeza que os acontecimentos são realizados devido a sua ordem, e o seu namorado coloca-os como acaso. O acaso não existe para o Fantástico, o que ocasiona uma explicação racional, o que nos levaria para o seu gênero vizinho, o estranho. Mas a fé total também nos levaria para fora do Fantástico, mas precisamente, o gênero do maravilhoso. A nossa personagem-narradora crê que isso é verdade, então há aqui o Maravilhoso.

Nas revelações a dor, saudade ou amor antecipado, Germano me lembro, o rapaz que conheci antes de encontrá-lo em Rio Claro, cidade que nunca tinha estado antes. Conversamos, trocamos olhares ardentes, cruzamos taças de vinho, ele disse, meu nome é Germano, nos apresentamos num bar ao som de guarânias paraguaias, acordo. Meses depois vou para Rio Claro, o reencontro com aquele que eu nunca havia encontrado, acontece. É no mesmo bar, a cena se repete, reconheço todos os detalhes sonhados. Ou vividos? Meus olhos têm a mania de enxergar além dos limites traçados pelos humanos [...]. Foi assim com vovó Antonina. Na noite de sua morte sonhei com uma mulher morena me pedindo pra transmitir a notícia pra mamãe. Dias depois recebemos uma carta no Rio trazendo detalhes do falecimento, havia sido no mesmo dia e hora do sonho. Por que eu? A família é enorme. Não sei por que me elegeram como intermediária. Ou depositária? (p. 199).

Neste fragmento a personagem hesita, se é um sonho, ou foi realmente vivido, o encontro com Germano, nessa dúvida estamos no gênero Fantástico. Como já afirmamos o Fantástico ocorre no momento da incerteza, da escolha entre um acontecimento real, ou não, após a escolha de um desses saímos do Fantástico. É o que diz Todorov: “O fantástico dura apenas o tempo de uma hesitação: hesitação comum ao leitor e à personagem, que devem decidir se o que percebem depende ou não da realidade tal qual existe na opinião comum” (2007, pp. 47-48). Nesse caso, a personagem argumenta que seus olhos conseguem enxergar além do limite traçados, para nós humanos. Então estamos diante do maravilhoso, ou seja, o derivado do irracional:

O que se faz quando o ser se vê numa planície onde as orquídeas são flores de acrílico, os cactos têm espinhos de veludo, o capim melado é amargo, as rosas são enormes à força de vitaminas e cevadas, o que pensa ser jabuticabas suculentas não passa de bolas de gude, duras, artificiais, enganadoras? E a planície? Ah, pelo menos esta se assemelha à que eu pisava no Brasil, sua textura ainda não perdeu o pulso da vida, protesta e se sacoleja quando é por demais atormentada. Meus pés a pressentem ainda que estejam sufocados por grossas meias de lã, enterrados em anatômicos tênis “made in Korea”, a tecnologia nada pôde contra a sensibilidade deles, ainda bem. Arranco-os quando se tornam pesados demais, saio voando no lombo das borboletas amarelas do pantanal, companheiras que me salvam da selva de arranha-céus nova-iorquinas, da inundação do Rio de Janeiro, do terremoto de San Francisco. O meu espírito nômade sempre me acotovelando, não agüenta a vida sedentária [...]. (p.205).

A narradora descreve duas culturas totalmente diferentes, embora exista uma exceção quanto à planície, por meio de metáforas ela descreve duas regiões diferentes. Posteriormente, vemos surgir um acontecimento insólito, ela sai voando no lombo de borboletas amarelas do Pantanal, as quais a salvam da angústia de viver nessa cidade grande. Esse relato nos aproxima do maravilhoso. Um acontecimento que não causa nenhuma reação diante do sobrenatural, pelo contrário é como se isso fosse extremamente possível:

(Papai) Estão falando por aí que o espírito do falecido se apoderou do corpo da mulher e agora continua vagando pela terra assombrando as pessoas, será? [...]. Quando ele terminou ouvimos um tropel de cavalo, os cascos batendo furiosamente nas pedras, dando voltas ao nosso rancho, o estalar de chicotes, o relinchar raivoso do animal espalhado pelo vento morno, prenúncio da tempestade que se aproximava. [...] o que estás lá fora veio das trevas, disse mamãe, encaminhando-se resoluta para a mesinha do oratório. Foi nesse ponto que a terra estremeceu, o rancho balançou, parecia uma casquinha de amedoim, um cisco perdido no redemunho de vento raivoso. É o fim do mundo, gritei apavorada. Agarramo-nos uns aos outros, olhos fechados, esperando o que Deus mandasse, mandou. Brandura. (pp. 212-213).

Em San Francisco a terra também tremeu uma noite, mas não teve nada a ver com patas de cavalos fantasmas. [...] Naquela noite eu dormia um sono agitado, pesadelos, um homem de terno branco, botas negras, expressão cruel, balança a minha rede com tamanha velocidade que eu me agarro aos punhos pra não cair, abro os olhos já estou no chão. Fui jogada fora da cama, corro e fico debaixo do portal conforme as instruções que todo morador de San Francisco deve observar quando um terremoto se aproxima. [...]. Mas quem haveria de me explicar como Dom Celestino Pedroso viera parar na Califórnia e rondava meu apartamento na mesma noite? Ah, os mistérios deste mundo! [...]. (pp. 213-214).

O pai após contar uma história assustadora se interroga se tal fato pode ser encarado como verdadeiro, após a interrogação do pai, à dúvida, isto é, o Fantástico, surge à resposta, e a família acredita estar diante de um acontecimento sobrenatural, a mãe acredita que o que está lá fora veio das trevas, e por final a terra estremeceu. O modo como isso aconteceu indica claramente para as personagens que se trata de um representante de outro mundo. O reconhecimento dessas forças estranhas como reais aproxima-se do maravilhoso:

Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de ver o mundo que rompi antes da hora as paredes ainda molhadas e quentes do meu casulo e saí borboleteando pelas encostas do Morro Santo Antônio, paredões da Chapada dos Guimarães, Pão de açúcar, Corcovado, Cordilheira dos Andes, Pirineus, Agulhas Negras, deslumbrada com o ouro do sol varando a transparência de minhas asas, o corpo ainda respingando o melado sedoso que me alimentara por nove meses. Meus olhos desacostumados de luz tremiam e lacrimejavam, aproveita pra enxugá-los com lenços de nuvens, voava sem parar querendo abraçar o mundo de uma só vez, meu peito de recém-nascida arfava, mas era de felicidade, cansaço nem fazia parte desta trajetória. Havia me preparado para o ato de voar, mas no escuro onde até então tinha vivido, impossível vislumbrar sensações do bater de asas, claridade cegando, pujança de cores, volúpia do cheiro da mata, da lascívia da terra que eu encontraria pela testa tão de repente.[...] Ao me ver desconectada de qualquer controle, vôo mais alto, quero experimentar a plenitude da liberdade que acabo de conhecer [...] não tenho planos de aterrissagem. (pp. 215-217).

A personagem-narradora faz uma mistura entre acontecimentos não-humanos com acontecimentos humanos, primeiramente, ela narra um nascimento, que é o nascimento de uma borboleta, depois ela diz que foram noves meses de espera para se realizar aquele momento do vôo, a espera de noves meses acontece apenas entre os humanos. Ao longo do livro notamos uma procura de liberdade, esta encontrada somente por meio do berro, o berro que só foi possível em Nova York, por meio da escrita. E a narradora-personagem representa essa liberdade por meio da metamorfose. A heroína transforma-se em borboleta e sai voando em plena liberdade.

Já comentamos da relação do primeiro capítulo com o nono capítulo. No primeiro, a narradora-personagem narra um nascimento normal, sem nenhuma espécie de fatos extraordinários. Entretanto, no nono capítulo, ela relata um nascimento repleto de detalhes insólitos, a qual encara como natural, não há nenhuma hesitação, e o sucedido não traz reação de estranheza por parte da personagem. E, a metamorfose sem estranhamento por parte da personagem, além disso, a falta de hesitação nos transporta direto para o gênero do Maravilhoso. Sabemos que no Maravilhoso as personagens não se desconcertam nunca diante de acontecimentos estranhos e incompreensíveis, do sobrenatural. Conforme afirma Todorov: “No fim da história, o leitor, quando não a personagem toma, contudo, uma decisão, opta por uma ou outra solução, saindo desse modo do fantástico”. (2007, p. 48).

Então, no final da obra vemos que a personagem que ao longo do livro concentrou-se alguns momentos no Fantástico, fez sua escolha, no caso, o Maravilhoso, pois ela nos relatou vários acontecimentos insólitos, e no final do livro não explicou nada de maneira racional, ao contrário, nos apresentou mais um fato extraordinário, sua metamorfose. Veja o que acontece.

Abro as asas ligeiras nesta voragem desvairada, também entro em estado de sofreguidão. Vou pra rua [...]. O sol vermelho do Cordeiro vem despontando sobre as águas do rio Hudson, reavivando a tocha da Estátua da Liberdade e a chama da vida no meu coração. [...]. Meu cântico de liberdade ainda não está completo, mas a cerimônia da visitação do sol me confirma que neste instante meu destino entrou em comunhão com as energias da torre onde nasci. Ao solo norte se junta o solo do sul em louvores à mãe Terra, uníssonos. A nova música me cobre de glória íntima, solto-a no espaço, espalha-se ruidosa no céu como bandos de aves do cerrado em migração. Que de repente surgem no horizonte, alvissareiras. Bato asas velozes, gorjeio, vôo ao encontro das antigas companheiras, palpitantes. Nas águas espelhadas do rio Hudson, a imagem arisca. Da sabiá vermelha cruzando os céu de Manhattam, plena de graça e luz. (pp. 242-245).

Portanto, no final da narrativa ela admite a existência de tais fatos estranhos, quando narra a sua metamorfose, e todos os demais acontecimentos como possíveis, chega-se dessa maneira, no maravilhoso, uma vez que não traz explicações racionais, e sim a realização de outro fato sobrenatural. O Fantástico, na verdade, localiza-se no limite de dois gêneros, o estranho, e o maravilhoso. Dessa forma, não se pode ignorar de uma análise o estranho e o maravilhoso.

Concluímos que essa narrativa encontra-se no Fantástico-Maravilhoso, ou seja, são narrativas que se apresentam como Fantásticas e que terminam por uma aceitação do sobrenatural. Essa aceitação do sobrenatural, ou seja, a falta de explicação racional para os fatos insólitos, sugere-nos a existência do sobrenatural, eis no Maravilhoso.

4.0 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O texto literário contemporâneo é visto por qualquer olhar que se queira crítico, com um certo espanto, diante da multiplicidade, complexidade, diversidade. E, devido a essas diferentes possibilidades de inovar, existe uma dificuldade de nomear essa literatura. De acordo com os autores pesquisados, inexiste linhagens e cronologias rígidas.

É evidente, que muita coisa mudou no nosso tempo, e que estamos perante a uma literatura que até rompeu com os cânones modernos.

A esse respeito reforça Resende, em se livro A Literatura Latino-Americana do século XXI:

[...] a geração dos novos e novíssimos autores parece disposta a marcar seu próprio espaço. Inevitavelmente, apontam para uma relação diferente com a realidade e com as formas de que dispõe o autor para falar do espaço e tempo que lhes são contemporâneos. (REZENDE, 2005, p. 08).

Dito de outra maneira, a geração contemporânea procura desenvolver seu próprio estilo, sendo único, original; como aconteceu com vários escritores célebres da geração de 45, que renovaram com particularidades próprias.

Assim, alguns desses escritores procurando marcar seu estilo peculiar acabaram reagindo de forma diferenciada, e com isso surgem diversas maneiras de lhe dá com a arte da escrita. É o que acontece com os autores da literatura Fantástica.

A expressão “literatura fantástica” é um gênero literário, que aborda questões não encontradas no mundo em que estamos inseridos. No entanto, isso não quer dizer que é criado um novo mundo, um outro espaço onde ações inexplicáveis podem surgir. Na verdade, o que acontece é uma associação do mundo familiar, tal qual conhecemos, com uma realidade regida por fenômenos incapazes de ser explicado pelas leis racionais.

Nesse sentido, somos transportados ao Fantástico, num mundo que é igual ao que vivemos, sem seres estranhos, mas que de repente produz-se um acontecimento inexplicável, e quem presenciou tal fato deve decidir: ou se trata de uma ilusão, imaginação, nesse contexto, o mundo continua a ser o que é, regido pelas forças do racional, ou realmente o fenômeno insólito é real, e nesse caso, o mundo é governado por forças desconhecidas para nós.

Interessante é que o Fantástico ocorre justamente nessa incerteza, isto é, o sobrenatural existe, ou o sobrenatural não existe, daí surge uma resposta racional. E, quando é realizada a escolha, deixa de ser Fantástico para atingir um outro gênero, que lhe é bem próximo, o Estranho, ou o Maravilhoso.

Nesse caso, a hesitação do leitor implícito é a primeira condição do Fantástico, este deve optar por uma ou outra explicação. Se tal fato não foi realizado, e existe uma explicação racional, estamos diante do gênero estranho, ou seja, o estranho é o sobrenatural explicado, há uma explicação racional para os fenômenos descritos na obra. Ou, o contrário, admite-se novas leis da natureza, que podem explicar os fenômenos estranhos, nesse caso, estamos diante do maravilhoso, isto é, sobrenatural aceito.

Então, o Fantástico tem vida apenas no momento da hesitação: hesitação comum ao leitor e a personagem, que devem optar por uma resposta, seja humana, ou não humana. No fim da história eles devem decidir por uma resposta, saindo desse modo do Fantástico, para atingir seus vizinhos bastante próximos, dos quais já nos referimos.

Na obra analisada nota-se a presença do Fantástico, o qual apontamos alguns fragmentos com fatos insólitos, é certo, que alguns não continham a hesitação, que é uma característica muito importante da literatura Fantástica, e essa falta de dúvida leva-nos diretamente ao maravilhoso, uma vez que os fenômenos insólitos são apresentados como única realidade existente.

Isso significa que, o Fantástico implica uma integração do leitor no mundo das personagens, pois o leitor desconhece a verdade, ele não sabe em que terreno está pisando, ou seja, o próprio leitor implícito tem uma percepção ambígua dos fatos relatados. Imagina se o leitor soubesse da “verdade”, certamente a situação seria completamente diferente.

No final da obra estudada percebemos que houve uma escolha por parte da personagem, ou seja, diante do relato por parte da personagem-narradora de todos aquele acontecimentos estranhos, inexplicáveis, no fim do livro, a personagem sofre uma metamorfose, e não há explicação dos fenômenos sobrenaturais, nada é dito, o que entendemos que tudo que foi escrito é dado como única verdade.

O Fantástico atingiu o maravilhoso, isto é, a aceitação do sobrenatural, o fato permanece sem explicação, o que sugere a existência do sobrenatural. Isso aconteceu, porque no final do romance não houve questionamento do real, o fantástico nos é dado como única realidade dentro da obra. É nesse tipo de narrativa que mais se aproxima do fantástico puro.

O gênero Fantástico é muito rico, e não é nossa intenção abordar todos os casos do fantástico do livro, até porque o fantástico é um gênero complexo, cheio de perigos, e pode acabar a qualquer momento, se pretendêssemos comentar todos os momentos do fantástico na obra seria muito difícil para esse trabalho, devido ao tempo. Portanto, não tentamos interpretar temas, mas unicamente constatar sua presença.

Por isso, nosso objetivo como já comentamos é abrir caminhos de estudo sobre essa autora, isso facilitaria a compreensão de suas obras, sobretudo, é uma maneira de colaborar com a divulgação das obras de nossos escritores mato-grossense, que infelizmente existe uma precária circulação de seus textos, e são pouco estudados por parte dos discentes tanto das Universidades, quanto das escolas. Sabemos o quanto é importante, e acima de tudo, interessante, conhecemos a nossa região, e esse conhecimento pode acontecer por meio da literatura, não há nada mais envolvente.

Acreditamos que essa pesquisa possa contribuir para isso, e também para o entendimento da narrativa contemporânea, que como vimos possui uma grande variedade, mas nada impede que seja realizado um estudo através de alguns critérios, como estilísticos e ideológicos.


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RESENDE, Beatriz (org.). A literatura latino-americana do século XXI. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. trad. Maria Clara Correa Castello. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.










 

Um comentário:

Mary disse...

Olá, como vai? Esse texto é seu? De onde foi tirado?

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