Temblante para blog







Pesquisar este blog:

IPRIMIR

Print Friendly and PDF

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"O BERRO DO CORDEIRO EM NOVA YORK", DE TEREZA ALBUÉS


O livro O Berro do Cordeiro em Nova York é dividido em nove capítulos. A narrativa é contada por uma narradora-personagem, que utilizando-se do tempo da memória vai contando suas lembranças do passado, juntamente com os acontecimentos do presente.

A narrativa apresenta dois espaços: o espaço das lembranças do passado, em Mato Grosso, principalmente no sítio do Cordeiro que localiza-se em Livramento, e o espaço da enunciação, Nova York. São dois paises diferentes: aquele; terceiro mundo, país subdesenvolvido, repleto de desigualdades; este desenvolvido, uma grande metrópole, mas a narradora mostra que existem algumas semelhanças entre ambos, por exemplo, as desigualdades sociais, o sofrimento do povo existe tanto aqui, quanto lá.

A obra apresenta um sertão mato-grossense repleto de desigualdades, um lugar que quem manda é quem detém o poder, a “lei do 38”, dos que possuem dinheiro, ou seja, os latifundiários. E para mostrar isso a narradora descreve o sofrimento de sua família sendo escravizada pelos que possuem o capital. Esse sofrimento da família é nos apresentado principalmente pela figura do pai, seu Venâncio que sofre vários tipos de repressão para sustentar a família.

Os empregos do pai, sempre eram trabalhos pesados, sem direito a descanso, o salário mal dava para o sustento da família, sendo humilhado pelo patrão, também nos é apresentado o sofrimento da família na Nhecolândia, no Pantanal, onde a família tornou-se escravo, de onde saíram fugidos.

Dessa forma, é nos contando fatos, a narradora-personagem descreve para o leitor sua vida repleta de padecimentos, seja no presente o sofrimento de reviver todas essas lembranças no momento de colocá-las no papel, ou no passado, uma vida de sofrimento, humilhações, angústias, tanto dela, quanto de sua família, que é composta por: pai (Venâncio), mãe (Augusta), e os quatro irmãos (Gabriel, Inácio, Dario e Flora).

Não há uma preocupação em apresentar os fatos de forma linear, esses acontecimentos são apresentados conforme o tempo da memória. Dessa maneira, a narradora fala de sua lembrança do sítio do Cordeiro, ao mesmo tempo somos transportados para acontecimentos em outras regiões, do Brasil, como: São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, ou da Europa, ou mesmo de Nova York, pois como ela mesma afirma viajou o mundo todo, e não há preocupação em relatar isso cronologicamente, porque tudo está relacionado ao tempo da memória.

Quanto ao título da obra, O Berro do Cordeiro em Nova York, podemos assimilar isso a todo o momento na leitura do livro, é o berro do sofrimento que por meio dessa narrativa, ela nos apresenta, o grito de toda a dor vivenciada com sua família, humilhação, preconceito, desigualdade, enfim, tudo que aquela menina de 8, 10 anos viveu no do sítio do Cordeiro, aqui, no Mato Grosso, e agora no momento presente em Nova York, faz uma retrospectiva de sua vida, o berro da liberdade, o berro da menina do sítio do Cordeiro em Nova York, o grito do sofrimento e da liberdade, o que não deixa de ser uma questão existencial.

O interessante nessa narração, de todas essas lembranças triste é que há uma superação, a narradora apresenta todo o sofrimento, mas percebemos que ela superou.

A respeito do título também podemos encontrar outras leituras, como a apresentada por Hilda Magalhães:

[...] ressaltamos a importância da metáfora do grito, utilizada para aproximar, no espaço geográfico e social, as duas Américas numa mesma dor, imagem recorrente ao longo do livro e que dá título à obra. A metáfora do grito pode ser entendida também como uma forma de questionamento da essência humana. Nesse caso, o grito ressoa como doloroso enfrentamento dos limites do homem, impostos pela fragilidade humana. (MAGALHÃES, 2001, p. 249).
No início da obra a autora fala somente do sofrimento, da angústia, desigualdade, preconceito, enfrentado por ela e também por sua família, posteriormente, essa narradora-personagem nos apresenta um sofrimento que não é mais individual, e sim, coletivo, pois ela apresenta sofrimento de outros povos, do mundo, nessa obra ela relata fatos vividos em vários espaços. Assim, tomamos conhecimento de um sofrimento coletivo, e percebemos, por exemplo, que entre Nova York e Brasil, Mato Grosso, existe muitas semelhanças.

Como já dissemos o romance é dividido em nove capítulos. Algo intrigante é que a obra começa com o nascimento da personagem, um nascimento real, sem nenhum acontecimento estranho, e no nono capítulo, justamente o número nove, que significa nove meses, nove meses de espera para um bebê chegar ao mundo, é o nascimento da narradora-personagem, e nesse capítulo a narradora-personagem retoma o primeiro, justamente como iniciou o primeiro capítulo, no entanto, o que descreve é o nascimento de uma borboleta. Vemos acontecer uma metamorfose. No primeiro capítulo, era o nascimento de um bebê, no nono capítulo, é o nascimento de uma borboleta.

Vejamos o que acontece no primeiro capítulo,

UM

Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de vir ao mundo que não lhe dei tempo de voltar à rede de onde se levantara minutos antes para ir ao banheiro. Não fosse a parteira entrar correndo e me aparar com as mãos experientes a minha cabeça teria se estatelado no chão de tijolos vermelhos. (ALBUÉS, 1995, p. 11)

E, no Nono capítulo,

Nove


[...]. Minha mãe me pariu de pé, tanta pressa tinha eu de ver o mundo que rompi antes da hora as paredes ainda molhadas e quentes do meu casulo e saí borboleteando pelas encostas do Morro Santo Antônio, paredões da chapada dos Guimarães, Pão de Açúcar, Corcovado, Cordilheira dos Andes, Pirineus, Agulhas Negras, deslumbrada com o ouro do sol varando a transparência de minhas asas, o corpo ainda respingando o melado sedoso que me alimentara por nove meses. (ALBUÉS, 1995, p. 215).


Como afirma Hilda Magalhães, “Teresa Albués apresenta nessa obra situações absurdas, como as apresentadas pelo escritor Kafka, autor citado pela autora na obra mencionada”. (MAGALHÃES, 2001, p.251).

Observa-se nesses fragmentos acima, que a autora faz uma mistura do real e irreal.

Para Hilda Magalhães,

[...] o livro é uma busca interior, imergir no tempo-espaço, enfrentá-lo, diluir as tenções culturais e psicológicas, compreender as estruturas da dominação, esse é o ritual a que a personagem se propõe, como pré-requisito para a liberdade. E é dessa forma que a obra de Tereza Albués caracteriza-se pela especulação dos enigmas humanos e supra-humanos, operacionalizando a realidade social e os elementos culturais da região mato-grossense. (MAGALHÃES, 2001, p. 256).
Então, essa obra questiona o existencial, pelo processo da escrita a autora aborda a sua existência, além disso, é abordada a questão social, o Fantástico, que foi nosso estudo, entre outros assuntos apresentados na obra. A escritora também menciona o processo de escrever, tudo isso faz da obra O Berro do Cordeiro em Nova York, um romance rico, que trabalha vários assuntos importantíssimo para a literatura.

A narrativa é composta por palavras coloquiais, diálogos simples, vários pontos de interrogação, referências a outros autores; por exemplo: Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, entre outros, nomes de marcas de produtos, nomes de várias regiões do mundo, algumas palavras vulgares; como: merda, porra, puta que pariu, cretino, etc., diálogo entre mortos e vivos, terras que se aproximam, personagem que sai voando pelas ruas de Nova York, entre outros.

O livro é um testemunho de uma escritora diante de tantos sofrimentos. Migrante do sítio do Cordeiro para Nova York, Tereza Albués se projeta na protagonista, relatando suas memórias. Uma menina do Mato Grosso, hoje uma mulher, em Nova York, onde consegue dar seu berro de liberdade. Um cântico de Liberdade como a própria personagem afirma ao final da obra.

A esse propósito declara Nadaf:

[...] O Berro do Cordeiro em Nova York, que relata a saga de sua vivencia no sítio chamado Cordeiro, em Livramento/Mato Grosso, até sua mudança para os Estados Unidos. É uma autobiografia onde a autora efetua e conquista, com maestria, uma catarse existencial para a sua liberdade (daí o berro). (Nadaf, 1961, p. 109).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUÉS, Tereza. O berro do cordeiro em Nova York. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.



   




 

Um comentário:

Anônimo disse...

Este romance é maravilhoso, estou estudando-o no mestrado.

Indique este blog a um amigo.