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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FRONTEIRAS DISCURSIVAS: ESPAÇOS DE SIGNIFICAÇÃO ENTRE LINGUAGEM, A HISTÓRIA E A CULTURA

A bicicleta no espaço público da cidade: um fato de linguagem

Esta resenha tem o intuito de apresentar o resultado de uma pesquisa, realizada por Edna André Soares Melo, da Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT), esse artigo intitulado: A bicicleta no espaço público da cidade: um fato de linguagem faz parte do livro, Fronteiras Discursivas: espaços de significação entre linguagem, a história e a cultura. São Paulo: Pontes editores, 2007, pp. 39-49.

Edna André Soares Melo (...)

Nessa pesquisa Melo apresenta-nos os efeitos de uma pratica do dia- a- dia da população da região de Mato Grosso, Cáceres. Esse município é mais conhecido pelos seus habitantes por, “cidade das bicicletas”. Tal designação acabou por influenciar na vida daquelas pessoas, ou seja, a partir disso, “Cáceres: a cidade das bicicletas” houve uma desordem, as pessoas (ciclistas) começaram a desobedecer às leis de trânsito.

Segundo a autora, essa nomeação produziu uma nova ordem discursiva, um novo código, que é praticado pelos condutores de bicicletas. Então, ela cita o código de trânsito, o qual deixa muito claro a infração desses ciclistas.

A lei de trânsito possui regras, placas, sinalizações, tudo isso para informar o condutor de como agir junto ao fluxo de veículos, isto é, proibições, obrigações ou restrições no uso das vias; e a sua transgressão constitui infração. No entanto, o que foi observado é que as placas de regulamentação destinadas aos condutores de bicicletas são apenas duas e indicam:

1 – “Circulação exclusiva de bicicletas”

2 – “Proibido trânsito de bicicletas”

Apesar de a lei fazer restrições ao uso de bicicletas, como foi apresentado o artigo 58, da lei 9.503/97, os ciclistas da cidade de Cáceres, circulam concomitantemente com outros veículos, embora tal fato faça parte da tradição da região, produz conflitos entre os condutores, pois não existe respeito à lei, conforme a autora em estudo, “a tradição sobrepõe à lei.

Como já foi mencionado, o objetivo desse estudo é verificar se os ciclistas de Cáceres estão cumprindo as regras da legislação em vigor, e o que foi observado é que a maioria desses “bicicleteiros” como autodenomina, não observam as regras para os condutores de vias urbanas, eles circulam livremente sem atentar para placas de restrições, informações. Esses “bicicleteiros” dizem que as regras são para os condutores de motos, carros ônibus, etc. e não valem para eles, porém, esse acontecimento gera conflitos entre os condutores de veículos.

Além de não respeitar o código de trânsito, o ciclista diz que os motoristas devem parar para eles passarem, que eles não respeitam os ciclistas, em contrapartida, os motoristas respondem que os ciclistas não respeitam as leis de trânsito e vivem andando na contramão.

Então, Melo faz alguns questionamentos sobre a materialidade linguística: Que memória aciona o dizer “Cáceres: a cidade das bicicletas”? Que efeitos de sentido e de sujeito produzem este enunciado? Quais as paráfrases que sustentam esse dizer?

Ela produz este estudo com base na análise do discurso da linha francesa como teoria e método, segundo a autora, quando se fala: “Cáceres: cidade das bicicletas”, esse enunciado possui força, poder, pois é a cidade das bicicletas, não pertence aos carros, motos ou qualquer outro veículo de transporte. Dessa maneira, os condutores de bicicletas sentem-se no poder, soberano aos demais; as bicicletas têm preferência no trânsito.

O interessante é que o condutor de bicicleta é apagado do enunciado, como declara Melo; logo não responde juridicamente pela desobediência, portanto, o sujeito - de -direito é personificado pela bicicleta. Desse modo, que bate em uma bicicleta sempre está errado, independente do fato, é o que a autora anuncia a partir dessa paráfrase: “Cáceres: cidade das bicicletas”.

Assim, esse enunciado traz uma subversão à ordem discursiva, uma transgressão ao artigo 58 da lei de trânsito, quer dizer, a circulação de bicicletas juntamente com os condutores de veículos, carros, motos, etc. não está previsto no código de trânsito, entretanto, existe um desrespeito à lei, uma vez que, as bicicletas circulam livremente, e nenhum ciclista é atuado por esta infração.

Portanto, essa designação gera uma tensão entre direitos e deveres dos condutores de veículos, numa cidade qualificada pela grande quantidade de bicicletas, isso traz uma relação de poder, deve-se dar preferência às bicicletas, essa imposição acontece, visto que, na cidade existem muitas bicicletas, elas estão em todos os lugares, logo, estão no poder.

Em conformidade com a figura 3, fonte: Ferreira (2004) citado pela autora de estudo, observa-se os ciclistas andando na contramão, então foi perguntado sobre esse fato, os quais responderam que para as bicicletas isso não existe, que sempre foi assim, que todos andam assim. Nesse sentido, os ciclistas sequer têm conhecimento do código de trânsito ou se têm não o respeitam, ignorando sua existência.

Consoante com Orlandi, (2004, p.63) citada por Melo, as falas desorganizadas significam lugares onde sentidos faltam, pois o discurso da cidade, seriam constituídos de falhas, esse espaço da falha da “incompreensão”, é dado pela transgressão do ciclista por estar fora da norma.

Do ponto de vista linguístico, podemos notar que na nomeação “Cáceres: cidade das bicicletas”, para Melo, que realizou seus estudos baseados nos trabalhos de Bernard Bosresdon (1999), a preposição “de” indica uma motivação referencial, há uma qualificação da cidade que se estende ao sujeito ciclista da cidade, logo, cidade dos ciclistas.

Nota-se que essa designação traz poderes aos ciclistas, que os autoriza a desobedecer às leis de trânsito, dado que, por meio essa expressão produz sentidos e sujeitos com direitos e deveres específicos.

Portanto, essa nomeação da cidade por aquilo que ela possui, isto é, uma quantidade enorme de bicicletas, estabelece uma relação de poder, os ciclistas pensam que possuem o direito de violar as leis de trânsito, que os outros condutores devem dar preferência para eles, afinal, a cidade é dos ciclistas. A propósito, é importante notar o poder do discurso, o poder de trazer alguns conflitos entre condutores no seu cotidiano.

Melo finaliza seu trabalho, afirmando que “a memória discursiva de um dizer que o ‘autoriza’ a transgredir as leis de trânsito, por meio de práticas cotidianas aqui denominadas de juridismo.”



A metodologia utilizada pela autora:

Edna André Soares Melo baseou-se em pesquisa bibliográfica, etnográfica e iconográfica.

Dentre os autores consultados por Melo, encontra-se:

BOSREDON, Bernard. Uma balada em toponímia: da rua Descartes à rua de Rennes. Línguas e instrumentos lingüísticos, n°3. Campinas: Pontes, pp. 7-20, jan./jul. 1999.

De PAULO, Antonio. Código de trânsito: Lei 9.503/97. 6º ed., Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

FERREIRA, Evaldo. Planejamento de transporte cicloviário: o caso de Cáceres-MT. 2005. Dissertação (Mestrado em Engenharia de transportes) – Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fournier, Jean-Marié. Os nomes de ruas: uma forma de discurso estritamente urbana. In: Orlandi, E.P. (org.) Cidade atravessada: os sentidos públicos no espaço urbano. Campinas: Pontes, 2001. Pp. 111-121,

GUIMARÃES, Eduardo. Semântica do acontecimento. Campinas: Pontes, 2002.

LAGAZZI, Suzi. O desafio de dizer não. Campinas: Pontes. 1998.

ORLANDI, Eni P. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 3°ed. Campinas: Unicamp. 1995.

____. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes. 1999.

____. Cidade atravessada: os sentidos públicos no espaço urbano. Campinas: Pontes, 2001.

____. Cidade dos sentidos. Campinas, SP: Pontes, 2004.



Referência Iconográfica

FERREIRA, Evaldo, 2004. Figuras 1,2 e 3. (Material iconográfico da Dissertação de Tese defendida na Universidade do Rio de Janeiro. Tema: Planejamento de transporte Cicloviário – O caso de Cáceres-MT em 2005.

Para a realização dessa resenha utilizamos:

O artigo de Edna André Soares de Melo, intitulado: A bicicleta no espaço público da cidade: um fato de linguagem faz parte do livro, Fronteiras Discursivas: espaços de significação entre linguagem, a história e a cultura. São Paulo: Pontes editores, 2007, pp. 39-49.

Áreas de interesse: estudantes e professores da área de educação, comunicação, linguística, letras.

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