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terça-feira, 15 de setembro de 2009

ANÁLISE DO CONTO "VENHA VER O PÔR DO SOL", DE LYGIA FAGUNDES TELLES

RESUMO

O presente artigo objetiva apresentar uma análise do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles, integrante da obra Antes do baile verde, 1982. Nesse trabalho, iremos fazer um estudo dos elementos qualitativos do mito complexo, como: espaço, reconhecimento e peripécia. Além, desses elementos, também discutiremos sobre o narrador, enredo, características das personagens, tempo e uma breve biografia da autora e da obra em que se encontra nosso objeto de estudo.

Palavras-chave: amor, vingança, tragédia.




INTRODUÇÃO

Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923 e é membro da Academia Brasileira de Letras desde 1982, onde ocupa a cadeira de número 28.
Seu primeiro romance, Ciranda de Pedra foi publicado em 1952, o qual já fez parte da dramartugia brasileira. Mas é em As meninas que a autora consagra-se popularmente. Em 2003, esta obra completou 30 anos e recebeu homenagens.
A escritora, em 2003, recebeu o prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Segundo Ernani Terra e José de Nicola, em Gramática & Literatura, Lygia é considerada uma das mais significativas contistas da contemporaneidade.
O conto a ser analisado, “Venha ver o pôr-do-sol”, é considerado um dos mais famosos contos da autora, o qual faz parte do livro Antes do Baile verde. Nesse conto, Lygia traz a história de um casal de ex- namorados, que encontra-se pela última vez, a pedido dele, aliás, incessantes pedidos. A personagem, Raquel, aceita o encontro, e apenas quando chega no local, toma conhecimento que trata-se de um convite para ver o pôr-do-sol, em um lugar estranhíssimo, um cemitério.
Trata-se de uma narrativa que envolve: amor, vingança e tragédia, a qual o narrador nos dá vários sinais para o desfecho trágico, no entanto, não temos a menor noção do desfecho, ou seja, leitor não espera aquele final. Assim, somente ao término da leitura do conto, notamos a importância daqueles sinais e conseguimos fazer uma relação com a história narrada.
Então, vamos a análise do conto, seguindo a linha de estudo de Aristóteles, em sua obra Poética. Nesse livro Aristóteles faz um estudo sobre os elementos qualitativos do mito complexo, tais como, reconhecimento, peripécia, espaço, etc. Assim, a partir desse pensamento aristotélico que iremos ao estudo do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.



ANÁLISE DO CONTO VENHA VER O PÔR-DO-SOL, DE LYGIA FAGUNDES TELLES




A história é narrada por um narrador heterodiegético, isto é, o narrador está fora da história, não é um dos atores, tampouco conhece bem as personagens. Dessa forma, nos é apresentado algumas características deles, por exemplo: A caracterização externa das personagens é feita pelo narrador. Assim, sabe-se que Ricardo, é “esguio e magro”, tem “cabelos crescidos e desalinhados” e “um jeito jovial de estudante” (p. 66). De Raquel, recebem-se as informações, através do olhar e das falas de Ricardo, que “está uma coisa de linda” (p. 67) e tem olhos verdes, “assim meio oblíquos” (p. 73). Logo, é a partir do diálogo de ambos que tomamos conhecimento de outras características relacionadas a eles.
Nota-se uma intertextualidade no conto de Lygia, quando Ricardo refere aos olhos de Raquel como meio oblíquos pensamos logo na personagem Capitu, de Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Outra intertextualidade é a referência ao livro, A Dama das Camélias, é um ponto importante para entender o porquê do namoro dos dois, provavelmente com a leitura dessa obra, Raquel tornou-se romântica, não reparou na pobreza de Ricardo, assim como a personagem da obra citada. “É que você tinha lido A Dama das Camélias ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance está lendo agora?”. O narrador deixa a entender que Raquel não é nem um pouco romântica “A minha querida esposa, eternas saudades”. “Fez um muxoxo. “Pois sim. Durou pouco essa eternidade”.
A narrativa estrutura-se no último encontro de um casal de ex- namorados, Raquel e Ricardo, após vários pedidos da parte dele. Raquel chega ao encontro, já está de tarde, e a todo o momento faz críticas ao lugar e ao próprio Ricardo. Pela leitura do conto tomamos conhecimento que ela o menospreza, e que nunca o amou, além disso, trocou-o por outro, rico, ou melhor, riquíssimo, como a personagem o apresenta. “Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro” (p. 67) [...] “Eu gostei de você, Ricardo”, e ele responde, “E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?” (p. 73)
Raquel está feliz, tem um namorado riquíssimo que vai levá-la ao Oriente, ao contrário de Ricardo, que está mais pobre e mora em uma pensão horrível e a dona do lugar parece uma Medusa. Nessa parte, nota-se que sua vida está muito ruim, pois morar próximo de uma Medusa, o que é Medusa na Mitologia Grega? Uma mulher que era linda e que sofreu um castigo, em conseqüência desse castigo tornou-se um ser horrendo. Logo, Ricardo usou de uma metáfora para falar de como é sua vida nesse momento, sem a presença de Raquel, horrível como a Medusa.
Na narrativa, a personagem feminina também não poupa Ricardo, deixa claro sua felicidade, o dinheiro do namorado, a elegância que vive agora, a viagem ao Oriente, e, além disso, é irônica ao perguntar se ele conhece o Oriente, notamos em seu tom, desprezo, como se Ricardo não fosse ninguém. “Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...”. (p. 71). Ricardo pergunta sobre sua vida, namorado, deixa-a falar, como se quisesse conseguir mais força, coragem para fazer o que havia premeditado. “Ele é tão rico assim?” (p. 71).
A pontuação utilizada também é um recurso muito importante da autora, temos pontos de exclamações, interrogações, reticências. Observa-se, surpresa, os questionamentos por parte de ambos, mais da parte dele, parece que ele quer criar mais raiva dela, talvez para sentir mais coragem, força para a tragédia que irá fazer. Mas ao mesmo tempo temos várias reticências, nem tudo foi dito, fica muito a ser dito, a interpretação do leitor.
Vê-se Raquel, desde o momento que chegou, séria, inreceptiva, irônica. Já Ricardo aparentemente calmo, delicado, pois seu objetivo era que ela aceitasse o convite de entrar no cemitério. Essa tranquilidade é apresentada a personagem Raquel, porque os leitores atentos, veem o temperamento forte dele a partir do momento que ela chega. “Ele riu entre malicioso e ingênuo”. (p.66) “- Jamais, não é?” (p.66). “- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel [...]. “Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.” (p. 76). Ricardo também apresenta sinais ao leitor, que indicam o desfecho da narrativa, mas somente tomamos conhecimento deles após o desfecho.“Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem nome sequer. Nem isso.” (p. 72) “Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.” (p. 74).
Além do mais, quando Ricardo consegue fazer com que a companheira entrasse no cemitério ele torna-se mais rude, ele a empurra, chama-a de preguiçosa. “A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio lamentou ele, empurrando-a para frente.” (p.72)
O próprio título remete ao desfecho da obra. Por que “Venha ver pôr-do-sol”? Como sabemos é a luz que ilumina, o calor que aquece a vida, luz, vida. Então, levando esse significado para o conto, poderíamos compreender que é o fim da vida, para a nossa personagem sua morte. Além disso, temos outros sinais do desfecho trágico, como, “Ficou sério. Aos poucos, inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta: não era nesse instante tão jovem como aparentava”. (p. 68) “Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente ficou envelhecida”. (p.71) “Ele já não sorria .Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reaparecera as rugazinhas abertas em leque”. (p.77)
Quanto ao espaço, também nos diz muito, como, o narrador elenca novos elementos, por meio da focalização externa, para compor o cenário: cemitério “abandonado” (p. 67), muro “arruinado” (p. 67), portão “carcomido pela ferrugem” (p.67). Os componentes enumerados fazem com que o leitor enxergue o local, como se estivesse no cinema. O cenário armado pelo narrador é propício para o desenrolar de um filme de horror. Alguns detalhes do ambiente são fornecidos pelas próprias personagens, e não por trechos descritivos. Assim, toma-se conhecimento da extensão do cemitério pelo discurso direto, empregado nas falas da personagem Raquel: “– É imenso, hein?” (p. 72); “– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros!” (p. 72).
O narrador mostra-nos um ambiente sombrio, causa medo , angústia, e esperamos algum fato desagradável.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos enegrecidos como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. (p. 70)
E o narrador descreve a catacumba que Raquel ficou presa.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de antigas goteiras. (p. 73)
Já a peripécia, segundo Aristóteles, “é a mutação de sucessos no contrário, e esta inversão deve produzir-se, também verossímel e necessariamente”. Para ele, essa peripécia não deve ser casual, e sim fruto de alguma desmedida do herói. É a mudança do destino da personagem. (Poética, p. 210). No conto estudado, a peripécia é o momento em que a personagem, Raquel, aceita o convite de ver o pôr-do-sol, no cemitério. Esse convite muda seu destino, isto é, Raquel estava feliz, ia viajar para o Oriente com seu namorado riquíssimo, estava elegante. Entretanto, quando entrou no cemitério, deixou todos esses sonhos para trás, e o que encontrou lá foi o fim de sua vida. Portanto, foi a passagem da felicidade para a infelicidade, típico da tragédia.
Por fim, o reconhecimento. De acordo com Aristóteles, “[...] como indica o próprio significado da palavra, é a passagem do ignorar ao reconhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou para a desdita”. (Poética, pp. 210-211). Na narrativa de Lygia Fagundes Telles, o reconhecimento acontece no momento que a personagem Raquel vê a fechadura, e toma conhecimento que ela é nova, ou seja, foi colocada por ele, com o objetivo de deixá-la naquele lugar.
Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! – exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo.
Nesse momento a personagem toma conhecimento do propósito de Ricardo, e também o leitor percebe o desfecho da narrativa. O narrador apresenta-nos a reação de Raquel diante do reconhecimento. Nota-se o comportamento de uma pessoa que está perdendo a vida, e é esse o objetivo do narrador, mostrar que o fim da personagem chegou.
[...] apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo”. “Foi escorregando.” “[...] os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola.” “Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida”. “E, de repente, o grito medonho, inumano: Não! (p. 78)
O lugar escolhido por Ricardo, vem contradizer o perfil de Raquel, justo ela que queria fugir da pobreza, largou Ricardo, talvez uns dos motivos seja ele ser pobre, naquele momento estava namorando um homem que possuía recursos financeiros elevados, ia fazer uma viagem ao exterior, tinha luxo, como os sapatos descritos por Ricardo, andava elegante, e também criticou o cemitério, odiava cemitério e ainda pior cemitério pobre. Apesar de todo esse horror a pobre, ela terminou lá em um cemitério pobre, abandonado. E ela não teria nem o luxo de possuir seu nome gravado em algum lugar. É a morte que ele achava digna. “Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso”. (p. 72)
Raquel é comparada a um bicho, fica enjaulada e perde a sua liberdade. “Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhante aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando, abafados como se viessem das profundezas da terra”. (p. 78)
Ricardo acende um cigarro, como se fosse um momento de descanso, prazer, após ter cumprido seu intuito, porque esse era seu objetivo desde o momento que havia implorado esse último encontro, tanto é que havia trocado a fechadura da porta catacumba, e o próprio espaço, o cemitério, tudo isso era um sinal de seu plano macabro.
Lygia é uma grande escritora, seus textos são muito bem escritos e fácies de entender. Seus contos começam tranquilos e vão aguçando curiosidade do leitor até chegar ao clímax, é o que acontece em "Venha ver o pôr-do-sol".

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REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA
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Um comentário:

Will disse...

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