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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ANÁLISE DO ROMANCE "A HORA DA ESTRELA", DE CLARICE LISPECTOR



Enfim, enfim quebrara-se realmente meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu , eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for, pois "eu" é apenas um dos espamos instântaneos do mundo.
(Clarice Lispector - 1920-1977)



A hora da estrela, publicado em 1977, é uma obra em que Clarice Lispector flagra uma personagem tanto numerosa quanto desprezada na sociedade brasileira: a imigrante nordestina em estado de miséria.
       
A Macabéa é a menina do sertão que nasceu raquítica, herança do sertão e de maus antecedentes, num ambiente de extrema pobreza, em Alagoas. Ficou órfã dos pais aos dois anos. Ela, então, foi criada à base de cascudos por uma tia beata que a obrigou a estudar datilografia. Com a morte da tia, Macabéa resolveu ir para o Rio de Janeiro, decisão tomada sem que soubesse exatamente por que.
      No Rio dividia um quarto perto do cais com mais quatro moças (Marias) e trabalhava como datilógrafa num pequeno escritório, mantendo-se quase milagrosamente, já que executava seu trabalo de modo sofrível, cometendo erros. O salário era miserável. Mantinha uma dieta de cachorro-quente com coca-cola, nada mais. Á noite, mastigava pedacinhos de papel para enganar o terrível vazio do estômago.
      A miséria, a ausência total de afeto fez de Macabéa uma criatura quase nula: "Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham; [...] ela vive num limbo impessoal, inspirando e expirando [...] O seu viver é ralo".
     Ela é totalmente destituída de qualquer conforto, totalmente alienada do consumismo, de ser mulher. "Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação.
     Macabéa até pensava que se por acaso viesse alguma vez a sentir um gosto bem bom de viver desencantaria de súbito. Dessa forma, defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar.
      Teria ela a sensação de que não vivia pra nada?
     Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar.
      A protagonista era uma moça calada (por não ter o que dizer). Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser.
     Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco, é um encontro.
     Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia. "Que dava hora certa e cultura". No intervalo entre as "gota de minutos", havia anúncios comerciais. Ela adora anúncios. Essa personagem tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas. Era cheia do vazio que enche a alma dos santos. Ela era uma espécie de santa. "Não sabia que meditava, pois ignorava o que quer dizer a palava. Mas sua vida era uma longa meditação sobre o nada; (Meditava enquanto batia a máquina, por isso errava ainda mais).
     Uma vez viu um livro que o patrão deixara sobre a mesa. "Humilhados e Ofendidos". Ficou pensativa. Talvez tivesse se definido pela primeira vez numa classe social. Pensou, pensou e pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecera era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?
     O que a salva da indigência da transparência total, é algo que ela traz em si tremeluzindo como uma pequena chama de uma pequena vela: anseios vagos e fragmentos de vida e de alegria.
     No dia 7 de maio, sob uma forte chuva de final de tarde, conheceu Olímpico, por quem se apaixona, sua goiabada com queijo. Olímpico tinha cometido crime de morte no Nordeste, e havia se mudado para o Rio de Janeiro. É do tipo de homem inseguro que se esconde sob uma camada de ignorância, estupidez, etc. Apresentou-se para Macabéa, como: Olímpico de Jesus Moreira Chaves, metalúrgico. Mas Olímpico era apenas Olímpico de Jesus, porque no sertão era assim que as pessoas chamavam quando tinham pai ignorado.
     Olímpico aparece na vida de Macabéa para trazer mais decepção. Ele nunca foi carinhoso, sempre muito ignorante, impaciente. Até que um dia conhece Glória, colega de Macabéa e resolve deixá-la. Então, Macabéa o perde para sua companheira de trabalho.
     Glória é branca, cabelos oxigenados e de trazeiro alegre. Era a mistura do português com africano, cujo pai era dono de um açougue. Os açougues fascinavam Olímpico, porque ele inconscientemente sublimava sua ânsia de violência ambicionando um emprego de açougueiro. Tudo isso significava um degrau a mais para Olímpico. E, além disso, Glória era carioca, pertencente ao ambicioso clã do sul, tinha família, enquanto Macabéa não possuía nada disso, nem sequer uma família, que é o mínimo que um ser humano deve ter.
      Quanto ao significado dos nomes: Olímpico e Glória , reparamos que Olímpico representa a eterna loucura humana de alcançar os deuses, e Glória, significa: fama: honra: consagração; exaltação. Com isso, Glória era a maneira de Olímpico chegar em seus objetivos. Ele queria ser deputado, tinha ambição e certeza que iria alcançar o seu desejo, pois quando falava para Macabéa de seus sonhos, colocava como certeza, fato acontecido, com total convicção de ato realizado.
     Com o fim do "namoro" Macabéa "procurou continuar como de nada tivesse perdido", já que não se sentia particularmente digna de nada; continuou até mesmo suas relações com a Glória.
      Nem na hora de terminar o "namoro" Olímpico foi gentil com nossa heroína, "Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero". Macabéa não se ofende com essas palavras, apenas pede para ser breve com a despedida, pois quer ir embora.
       Agora, como o fim do "namoro" com Olímpico sua única conexão com o mundo, restringiu-se à Glória, apesar desta tomar seu namorado. Sendo assim, Glória procurou recompensar Macabéa pela perda do namorado, convidando-a para uma refeição num domingo em sua casa, onde Macabéa se fartou de chocolate, biscoito e bolo. No dia seguinte, passou mal.
       Com o corpo frágil, cada vez mais delibitado pela desnutrição, consulta um médico gordo e indiferente que lhe diagnostica tuberculose. Desconhecendo o que se tratava, responde-lhe: "Muito obrigada, sim?". Como adverte o narrador: "Não se tratava de uma idiota, mas tinha a felicidade pura dos idiotas". Esse médico tratou-a muito mal, quando Macabéa demonstrou não saber o que era espaguete e álcool: "Sabe de uma coisa? Vá para os raios que te partam".
       A colega Glória aconselha Macabéa a procurar uma catormante, Madame Carlota, ex-prostituta, ex-cafetina e muito fã de Jesus. "Sou doidinha por Ele". O interessante é que pela primeira vez Macabéa é bem tratada, nem que seja carinhos postiços de diminutivos e de frases feitas, e, depois de "adivinhar-lhe" a iminência do desemprego, a pobreza, o abandono do namorado, prediz que sua vida hora de estrela estava para chegar. Teria muito dinheiro, luxo e um namorado gringo de ollhos "azuis", ou "verdes", ou "castanhos". Bem, a chance de ser um desses é muito grande, Macabéa acredita, pois estava em busca de um destino e constata por meio das palavras de Madame Carlota que sua vida tinha sido horrível até aquele momento. As perspectivas otimistas anunciadas pela cartomante transformaram Macabéa, pela primeira vez ela sente a sua existência, está "grávida  de futuro".
      Então, Macabéa sai de lá em êxtase, "Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho". despedindo-se de Carlota com um beijo estalado. Distraída com os olhos voltados pela primeira vez para o céu, é atropelada por um Mercedes amarelo que foge sem prestar-lhe socorro. Bate a cabeça no meio fio e fica com "a cara mansamente voltada para a calçada". Vomita uma estrela de sangue e repete sem cessar: "Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou"., morre.
      Ao ser atropelada, Macabéa descobre a sua essência: "Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci. Há uma situação paradoxal: ela só nasce, isto é, só chega a ter consciência de si mesma, na hora de sua morte. Por ter definido a sua existência é que Macabéa pronuncia uma frase que nenhum dos transeuntes entende: 
Quanto ao futuro". [...] "Nesta hora exata Macabéa sente um profundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitou algo luminoso. Estrela de mil pontas".
       Assim, ocorre o momento epifânico de sua vida, pois há uma revelação, Macabéa toma consciência de sua existência. Em seu torpor de miserável, a protagonista sofre pequenas epifanias em seu cotidiano triste, marcado pelo narrador com a palavra "Explosão".      Na obra tomamos conhecimento da vida dessa personagem, a qual é marcada por sofrimentos, uma pessoa calada, sem conteúdo, afeto, compreensão de alguém, todos a tratavam mal, outros nem tomavam consciência de sua presença, desde criança vem sofrendo pelo mundo: a morte dos pais, depois a sua vida ao lado da tia, com as amigas no quartinho sem conforto, falta de comida, higiene, não havia diálogo com as colegas que dividia o quarto "as Marias", no serviço o patrão a tratava também com indiferença (Raimundo), pois Macabéa errava muito, a colega Glória, às vezes, "brincava" com a cara de Macabéa [...] ser feia dói?", e também seu "namorado" Olímpico, enfim, todos a tratavam com indiferença, porém a única pessoa que a tratou com carinho postiços é a cartomante e , justo nesse encontro, que Macabéa sentiu-se bem consigo mesma, encontrou a morte.
     Um fato importante é que há uma relação da colega Glória com o encontro com a cartomante. Nota-se também uma relação com o nome da personagem "Glória" com a Glória de alcançar a vida de luz . A hora da morte a pessoa torna-se brilhante, estrela de cinema, é um instante de glória de cada um, a de Macabéa era ser estrela de cinema como Marylin.
      No início da narrativa, o narrador Rodrigo S.M. tem muitas dificuldades de colocar no papel a história de Macabéa, são páginas e mais páginas argumentando que não consegue escrever. Finalmente, quando inicia, ele começa a fazer refleções da vida dessa mulher tão sofredora, sua vivência tão insignificante, sem objetivos existências.
      Nesse processo, Macabéa só passa a existir quando Rodrigo S. M. conta sua história, e a morte conclui sua trajetória de vida interrompida. Há uma mistura entre o narrador e a protagonista, principalmente, no desfecho da obra "Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!". Então, a conclusão implícita do narrador é a de que ele, Macabéa e a própria Clarice, apesar das diferenças sociais, intelectuais e de visão de mundo que os separavam, tinham uma identidade comum.
      O narrador quer mostrar ao leitor ,a todo o momento, a personagem como um ser frágil, irracional, sem ação, autonomia, porém ela é uma mulher forte, pois, trabalha, vive com o que ganha, é datilografa, passa por diversas dificuldades, mas mesmo assim não entrega-se a prostituição como as meninas que a tia falava para ela, e Macabéa quando foi morar no tal quartinho ficou muito próxima dessa realidade da prostituição, no entanto, conservou-se na sua integridade.
       Além, da preocupação existencial, existe também  a questão do social. Clarice Lispector trabalha a desigualdade social, o imigrante, do contraste da cidade grande.
      Outro fato muito importante que Clarice faz nessa obra é construir um personagem (Rodrigo S. M.) para contar a história de outra personagem (Macabéa), mas na verdade os três são a face de uma mesma moeda.
      Quanto ao nome Macabéa, é um substantivo coletivo, "a resistente raça anã teimosa", o Nordeste rural na sua difícil contracena com a engrenagem urbana, a cidade inconquistável. E, Macabéa faz parte de uma multidão de pessoas que resistem a indigência, mas sob a pena de Clarice Lispector ganha uma identidade.
      O livro é uma busca de resposta, do grito do sofrimento humano. E termina com o "sim", ou seja, é a confirmação de sua crença no poder da criação.
     

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. [...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.
      Sim.



  Clarice Lispector  
     
  
REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA



LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela, 87p. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.





terça-feira, 15 de setembro de 2009

ANÁLISE DO CONTO "VENHA VER O PÔR DO SOL", DE LYGIA FAGUNDES TELLES

RESUMO

O presente artigo objetiva apresentar uma análise do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles, integrante da obra Antes do baile verde, 1982. Nesse trabalho, iremos fazer um estudo dos elementos qualitativos do mito complexo, como: espaço, reconhecimento e peripécia. Além, desses elementos, também discutiremos sobre o narrador, enredo, características das personagens, tempo e uma breve biografia da autora e da obra em que se encontra nosso objeto de estudo.

Palavras-chave: amor, vingança, tragédia.




INTRODUÇÃO

Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923 e é membro da Academia Brasileira de Letras desde 1982, onde ocupa a cadeira de número 28.
Seu primeiro romance, Ciranda de Pedra foi publicado em 1952, o qual já fez parte da dramartugia brasileira. Mas é em As meninas que a autora consagra-se popularmente. Em 2003, esta obra completou 30 anos e recebeu homenagens.
A escritora, em 2003, recebeu o prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Segundo Ernani Terra e José de Nicola, em Gramática & Literatura, Lygia é considerada uma das mais significativas contistas da contemporaneidade.
O conto a ser analisado, “Venha ver o pôr-do-sol”, é considerado um dos mais famosos contos da autora, o qual faz parte do livro Antes do Baile verde. Nesse conto, Lygia traz a história de um casal de ex- namorados, que encontra-se pela última vez, a pedido dele, aliás, incessantes pedidos. A personagem, Raquel, aceita o encontro, e apenas quando chega no local, toma conhecimento que trata-se de um convite para ver o pôr-do-sol, em um lugar estranhíssimo, um cemitério.
Trata-se de uma narrativa que envolve: amor, vingança e tragédia, a qual o narrador nos dá vários sinais para o desfecho trágico, no entanto, não temos a menor noção do desfecho, ou seja, leitor não espera aquele final. Assim, somente ao término da leitura do conto, notamos a importância daqueles sinais e conseguimos fazer uma relação com a história narrada.
Então, vamos a análise do conto, seguindo a linha de estudo de Aristóteles, em sua obra Poética. Nesse livro Aristóteles faz um estudo sobre os elementos qualitativos do mito complexo, tais como, reconhecimento, peripécia, espaço, etc. Assim, a partir desse pensamento aristotélico que iremos ao estudo do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.



ANÁLISE DO CONTO VENHA VER O PÔR-DO-SOL, DE LYGIA FAGUNDES TELLES




A história é narrada por um narrador heterodiegético, isto é, o narrador está fora da história, não é um dos atores, tampouco conhece bem as personagens. Dessa forma, nos é apresentado algumas características deles, por exemplo: A caracterização externa das personagens é feita pelo narrador. Assim, sabe-se que Ricardo, é “esguio e magro”, tem “cabelos crescidos e desalinhados” e “um jeito jovial de estudante” (p. 66). De Raquel, recebem-se as informações, através do olhar e das falas de Ricardo, que “está uma coisa de linda” (p. 67) e tem olhos verdes, “assim meio oblíquos” (p. 73). Logo, é a partir do diálogo de ambos que tomamos conhecimento de outras características relacionadas a eles.
Nota-se uma intertextualidade no conto de Lygia, quando Ricardo refere aos olhos de Raquel como meio oblíquos pensamos logo na personagem Capitu, de Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Outra intertextualidade é a referência ao livro, A Dama das Camélias, é um ponto importante para entender o porquê do namoro dos dois, provavelmente com a leitura dessa obra, Raquel tornou-se romântica, não reparou na pobreza de Ricardo, assim como a personagem da obra citada. “É que você tinha lido A Dama das Camélias ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance está lendo agora?”. O narrador deixa a entender que Raquel não é nem um pouco romântica “A minha querida esposa, eternas saudades”. “Fez um muxoxo. “Pois sim. Durou pouco essa eternidade”.
A narrativa estrutura-se no último encontro de um casal de ex- namorados, Raquel e Ricardo, após vários pedidos da parte dele. Raquel chega ao encontro, já está de tarde, e a todo o momento faz críticas ao lugar e ao próprio Ricardo. Pela leitura do conto tomamos conhecimento que ela o menospreza, e que nunca o amou, além disso, trocou-o por outro, rico, ou melhor, riquíssimo, como a personagem o apresenta. “Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro” (p. 67) [...] “Eu gostei de você, Ricardo”, e ele responde, “E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?” (p. 73)
Raquel está feliz, tem um namorado riquíssimo que vai levá-la ao Oriente, ao contrário de Ricardo, que está mais pobre e mora em uma pensão horrível e a dona do lugar parece uma Medusa. Nessa parte, nota-se que sua vida está muito ruim, pois morar próximo de uma Medusa, o que é Medusa na Mitologia Grega? Uma mulher que era linda e que sofreu um castigo, em conseqüência desse castigo tornou-se um ser horrendo. Logo, Ricardo usou de uma metáfora para falar de como é sua vida nesse momento, sem a presença de Raquel, horrível como a Medusa.
Na narrativa, a personagem feminina também não poupa Ricardo, deixa claro sua felicidade, o dinheiro do namorado, a elegância que vive agora, a viagem ao Oriente, e, além disso, é irônica ao perguntar se ele conhece o Oriente, notamos em seu tom, desprezo, como se Ricardo não fosse ninguém. “Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...”. (p. 71). Ricardo pergunta sobre sua vida, namorado, deixa-a falar, como se quisesse conseguir mais força, coragem para fazer o que havia premeditado. “Ele é tão rico assim?” (p. 71).
A pontuação utilizada também é um recurso muito importante da autora, temos pontos de exclamações, interrogações, reticências. Observa-se, surpresa, os questionamentos por parte de ambos, mais da parte dele, parece que ele quer criar mais raiva dela, talvez para sentir mais coragem, força para a tragédia que irá fazer. Mas ao mesmo tempo temos várias reticências, nem tudo foi dito, fica muito a ser dito, a interpretação do leitor.
Vê-se Raquel, desde o momento que chegou, séria, inreceptiva, irônica. Já Ricardo aparentemente calmo, delicado, pois seu objetivo era que ela aceitasse o convite de entrar no cemitério. Essa tranquilidade é apresentada a personagem Raquel, porque os leitores atentos, veem o temperamento forte dele a partir do momento que ela chega. “Ele riu entre malicioso e ingênuo”. (p.66) “- Jamais, não é?” (p.66). “- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel [...]. “Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.” (p. 76). Ricardo também apresenta sinais ao leitor, que indicam o desfecho da narrativa, mas somente tomamos conhecimento deles após o desfecho.“Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem nome sequer. Nem isso.” (p. 72) “Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.” (p. 74).
Além do mais, quando Ricardo consegue fazer com que a companheira entrasse no cemitério ele torna-se mais rude, ele a empurra, chama-a de preguiçosa. “A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio lamentou ele, empurrando-a para frente.” (p.72)
O próprio título remete ao desfecho da obra. Por que “Venha ver pôr-do-sol”? Como sabemos é a luz que ilumina, o calor que aquece a vida, luz, vida. Então, levando esse significado para o conto, poderíamos compreender que é o fim da vida, para a nossa personagem sua morte. Além disso, temos outros sinais do desfecho trágico, como, “Ficou sério. Aos poucos, inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta: não era nesse instante tão jovem como aparentava”. (p. 68) “Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente ficou envelhecida”. (p.71) “Ele já não sorria .Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reaparecera as rugazinhas abertas em leque”. (p.77)
Quanto ao espaço, também nos diz muito, como, o narrador elenca novos elementos, por meio da focalização externa, para compor o cenário: cemitério “abandonado” (p. 67), muro “arruinado” (p. 67), portão “carcomido pela ferrugem” (p.67). Os componentes enumerados fazem com que o leitor enxergue o local, como se estivesse no cinema. O cenário armado pelo narrador é propício para o desenrolar de um filme de horror. Alguns detalhes do ambiente são fornecidos pelas próprias personagens, e não por trechos descritivos. Assim, toma-se conhecimento da extensão do cemitério pelo discurso direto, empregado nas falas da personagem Raquel: “– É imenso, hein?” (p. 72); “– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros!” (p. 72).
O narrador mostra-nos um ambiente sombrio, causa medo , angústia, e esperamos algum fato desagradável.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos enegrecidos como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. (p. 70)
E o narrador descreve a catacumba que Raquel ficou presa.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de antigas goteiras. (p. 73)
Já a peripécia, segundo Aristóteles, “é a mutação de sucessos no contrário, e esta inversão deve produzir-se, também verossímel e necessariamente”. Para ele, essa peripécia não deve ser casual, e sim fruto de alguma desmedida do herói. É a mudança do destino da personagem. (Poética, p. 210). No conto estudado, a peripécia é o momento em que a personagem, Raquel, aceita o convite de ver o pôr-do-sol, no cemitério. Esse convite muda seu destino, isto é, Raquel estava feliz, ia viajar para o Oriente com seu namorado riquíssimo, estava elegante. Entretanto, quando entrou no cemitério, deixou todos esses sonhos para trás, e o que encontrou lá foi o fim de sua vida. Portanto, foi a passagem da felicidade para a infelicidade, típico da tragédia.
Por fim, o reconhecimento. De acordo com Aristóteles, “[...] como indica o próprio significado da palavra, é a passagem do ignorar ao reconhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou para a desdita”. (Poética, pp. 210-211). Na narrativa de Lygia Fagundes Telles, o reconhecimento acontece no momento que a personagem Raquel vê a fechadura, e toma conhecimento que ela é nova, ou seja, foi colocada por ele, com o objetivo de deixá-la naquele lugar.
Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! – exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo.
Nesse momento a personagem toma conhecimento do propósito de Ricardo, e também o leitor percebe o desfecho da narrativa. O narrador apresenta-nos a reação de Raquel diante do reconhecimento. Nota-se o comportamento de uma pessoa que está perdendo a vida, e é esse o objetivo do narrador, mostrar que o fim da personagem chegou.
[...] apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo”. “Foi escorregando.” “[...] os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola.” “Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida”. “E, de repente, o grito medonho, inumano: Não! (p. 78)
O lugar escolhido por Ricardo, vem contradizer o perfil de Raquel, justo ela que queria fugir da pobreza, largou Ricardo, talvez uns dos motivos seja ele ser pobre, naquele momento estava namorando um homem que possuía recursos financeiros elevados, ia fazer uma viagem ao exterior, tinha luxo, como os sapatos descritos por Ricardo, andava elegante, e também criticou o cemitério, odiava cemitério e ainda pior cemitério pobre. Apesar de todo esse horror a pobre, ela terminou lá em um cemitério pobre, abandonado. E ela não teria nem o luxo de possuir seu nome gravado em algum lugar. É a morte que ele achava digna. “Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso”. (p. 72)
Raquel é comparada a um bicho, fica enjaulada e perde a sua liberdade. “Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhante aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando, abafados como se viessem das profundezas da terra”. (p. 78)
Ricardo acende um cigarro, como se fosse um momento de descanso, prazer, após ter cumprido seu intuito, porque esse era seu objetivo desde o momento que havia implorado esse último encontro, tanto é que havia trocado a fechadura da porta catacumba, e o próprio espaço, o cemitério, tudo isso era um sinal de seu plano macabro.
Lygia é uma grande escritora, seus textos são muito bem escritos e fácies de entender. Seus contos começam tranquilos e vão aguçando curiosidade do leitor até chegar ao clímax, é o que acontece em "Venha ver o pôr-do-sol".

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REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA
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sábado, 12 de setembro de 2009

POEMAS DE MARILZA RIBEIRO

1- Corpos Calados


Marcas do massacre
na terra esquecida
chacina impune
corpos calados/ rasgados/chutados/trucidados
linguagem vermelha
do terror...




    Terra matogrossense
    palco de guerras malditas
    cerrados silenciosos
    guardando segredos
    assassinos
    fantasmas soltos
    aves de rapina
    voando
    sobre os corpos calados
    como dança
    macabra
    da cobiça...




Os rastros
invisíveis, implacáveis
das féras fugidias
deixando largados os corpos
que ontem foram
valentes
honestos
garimpeiros ou bóias-frias...
   
    Onde se encontram
    as vozes
    rebeldes, inconformadas?
    Estarão elas
    enjauladas pelo medo
    ou tão omissas?


Este silêncio cúmplice
de tanta gente
cabeças pendidas
ombros caídos
palavra vendida?
   
    Neste espaço mudo
    onde as vozes
    tão mortas...tão caladas...
    jaz um gemido que
    explode em chamas
    nesta hora aflita
   
    MEU POEMA... MEU GRITO...








2- Por que não?


Mulher
rasgue a nudez dessa dor
e jogue seu grito
nesse espaço da ordem!
   
    Todas as portas fechadas
    das mansões
    isoladas
    (guardadoras dos silêncios pervesos)
    serão abaladas
    acordadas
    pra lhe valer...


Mulher
saia
dessa solidão aflita
BERRE
seu desgosto
seu anonimato
seu despejo
da vida.


    Assuma
    desvairada
    o espaço da rua
    com outras mulheres
    irmãs suas
    lance no ar
    seu hino de guerra
    seu hino de morte
    seu hino de fera!






3- O sonho não tocado


As vitrines
das lojas milionárias
de brinquedos
são como mundo acesos
por dentro da noite...
   
    Por sob as mãos
    incrivelmente sujas
    do menino de rua
    que tem os olhos espantados,
    está o vidro
    transparente
    por onde elas deslizam
    e sentem
    que ele terrivelmente divide
    duas dimensões...


No olhar
do menino de rua
penetra o colorido
dos brinquedos da vitrine
onde centenas deles,
maravilhosos,
parecem estrelas brilhantes
que jamais serão alcançadas
por ele...
   
    Nas mãos
    incrivelmente sujas
    do menino de rua,
    esconde-se
    todo um desejo profundo
    de penetrar nesses mundos
    tão distantes...


O vidro pesado da vitrine
reflete
o rosto desolado do menino
com suas lágrimas
que não conseguiram
ficar guardadas
por causa de uma porção de sonhos
que nunca serão tocados...

   








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